Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?

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O ÚLTIMO INIMIGO

 

Sócrates e Jesus

Nada mostra mais claramente do que o contraste entre a morte de Sócrates e a de Jesus (um contraste que foi citado muitas vezes pelos opositores do cristianismo, embora com outros objetivos), que a visão bíblica da morte é focada desde o princípio na História da Salvação e assim se afasta completamente da concepção grega.

Na descrição impressionante que Platão faz da morte de Sócrates, no Fédon, surge talvez a doutrina mais elevada e mais sublime que já se apresentou sobre a imortalidade da alma. O que dá ao argumento dele o seu valor insuperável é sua cautela científica, seu despojamento de qualquer prova que tenha validade matemática. Conhecemos os argumentos que ele apresenta para a imortalidade da alma. Nosso corpo é só uma peça de vestuário exterior que, enquanto estamos vivos, impede nossa alma de se mover livremente e de viver de acordo com sua própria essência eterna. O corpo impõe à alma uma lei que não lhe é adequada. A alma, confinada dentro do corpo, pertence ao mundo eterno. Enquanto vivemos, nossa alma se encontra numa prisão, ou seja, num corpo essencialmente alheio a ela. A morte é, na verdade, a grande libertadora. Ela libera as cadeias, uma vez que conduz a alma que está presa no corpo de volta ao seu lar eterno. Uma vez que o corpo e a alma são radicalmente diferentes um do outro e pertencem a mundos diferentes, a destruição do corpo não pode significar a destruição da alma, assim como uma composição musical não pode ser destruída quando o instrumento musical é destruído. Embora as provas da imortalidade da alma não tenham para o próprio Sócrates o mesmo valor das provas de um teorema matemático, elas não deixam de atingir, dentro do seu campo, o mais alto grau possível de validade, e fazem a imortalidade tão provável que ela chega a ser a uma ‘chance’ para o homem. E quando o grande Sócrates esboçou os argumentos para a imortalidade, em seu discurso aos discípulos no dia de sua morte, ele não se limitou a ensinar esta doutrina: naquele momento ele vivia sua doutrina. Ele mostrou como podemos servir à liberdade da alma, mesmo na vida atual, quando nos ocupamos com as verdades eternas da filosofia. Pois, através da filosofia penetramos naquele mundo eterno das idéias, ao qual a alma pertence, e libertamos a alma da prisão do corpo. A morte não faz mais do que completar esta libertação. Platão nos mostra como Sócrates vai para a morte em completa paz e serenidade. A morte de Sócrates é uma bela morte. Nada se vê aqui do terror da morte. Sócrates não pode ter medo da morte, uma vez que na verdade ela nos liberta do corpo. Qualquer pessoa que tenha medo da morte prova que ama o mundo do corpo, que está completamente enredado no mundo dos sentidos. A morte é a grande amiga da alma. Assim ele ensina, e daí, em maravilhosa harmonia com seu ensinamento, ele morre – este homem que representa o mundo grego em sua forma mais nobre.

E agora vejamos como Jesus morre. No Getsêmani, ele sabe que a morte está diante dele, tal como Sócrates esperou a morte em seu último dia. Os evangelistas sinóticos nos fornecem, em geral, um relatório unânime. Jesus “começou a ter pavor e a angustiar-se”, escreve Marcos (14:33). “A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal.”, diz ele aos seus discípulos. Jesus é tão profundamente humano que compartilha o medo natural da morte. Jesus está com medo, embora não como um covarde teria dos homens que vão matá-lo, e muito menos da dor e do sofrimento que antecedem a morte. Ele está com medo diante da morte em si. A morte para ele não é algo divino: é algo terrível. Jesus não quer ficar sozinho neste momento. Ele sabe, é claro, que o Pai está perto para ajudá-lo. Jesus olha para Ele neste momento decisivo, como fez durante toda a sua vida. Ele se volta para o Pai com todo o seu temor humano desta grande inimiga, a morte. É inútil tentar explicar de maneira diferente o medo de Jesus, conforme relatado pelos evangelistas. Os adversários do cristianismo, que já nos primeiros séculos fizeram o contraste entre a morte de Sócrates e a morte de Jesus, enxergaram com mais clareza aqui do que os expoentes do cristianismo. Ele estava realmente com medo da morte. Não há nada aqui da compostura de Sócrates, que encontrou a morte pacificamente, como uma amiga. Com certeza, Jesus já sabe a tarefa que lhe foi dada: sofrer a morte, e ele já havia falado as seguintes palavras: “Mas tenho que passar por um batismo, e como estou angustiado até que ele se realize!” (Lucas 12:50). Agora, quando o inimigo de Deus está diante dele, ele clama a Deus, cuja onipotência ele conhece: “Aba, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice.” (Mar. 14:36). E quando ele conclui: “contudo, não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres”, isso não significa que no final ele considera, como Sócrates, a morte como a amiga, a libertadora. Não, o que ele quer dizer é apenas isto: ‘Se este maior de todos os terrores, a morte, deve cair sobre mim, segundo a Tua vontade, então, submeto-me a este horror.’ Jesus sabe disso com certeza, porque a morte é o inimigo de Deus; morrer significa ser totalmente abandonado. Por isso, ele clama a Deus; diante desse inimigo de Deus, ele não quer ficar sozinho. Jesus quer permanecer estreitamente ligado a Deus como esteve ligado a Ele durante toda a sua vida terrestre. Pois qualquer um que esteja nas mãos da morte não está mais nas mãos de Deus, e sim nas mãos do inimigo de Deus. Neste momento, Jesus busca a assistência, não apenas de Deus, mas até mesmo de seus discípulos. Vez após vez ele interrompe sua oração e vai aos seus discípulos mais íntimos, que estão tentando lutar contra o sono, para estarem acordados quando os homens vierem para prender seu Mestre. Eles tentam, mas não conseguem, e Jesus tem de acordá-los vez após vez. Por que Jesus deseja que eles se mantenham acordados? Porque ele não quer ficar sozinho. Quando o terrível inimigo, a morte, se aproxima, ele não quer ser abandonado nem mesmo por seus discípulos, cuja fraqueza humana ele conhece. “‘Simão’, disse ele a Pedro, ‘você está dormindo? Não pôde vigiar nem por uma hora?’” (Marcos 14:37).

Poderia haver um contraste maior do que entre Sócrates e Jesus? Assim como Jesus, Sócrates tem seus discípulos próximos a ele no dia de sua morte, mas ele palestra serenamente com eles sobre a imortalidade. Poucas horas antes de sua morte, Jesus treme e pede aos discípulos que não o deixem sozinho. O autor da Carta aos Hebreus, o qual, mais do que qualquer outro autor do Novo Testamento, enfatiza a divindade (1:10) e também a natureza humana de Jesus, vai ainda mais longe do que os relatos dos evangelistas sinóticos, em sua descrição do medo que Jesus tem da morte. Em Hebreus 5:7 ele diz que “Jesus ofereceu orações e súplicas, em alta voz e com lágrimas, àquele que o podia salvar da morte.” Assim, de acordo com a Carta aos Hebreus, Jesus chorou e clamou fortemente diante da morte. Enquanto Sócrates fala da imortalidade da alma com calma e tranqüilidade, vemos aqui Jesus, chorando e clamando.

Daí vem a cena da morte em si. Com sublime calma Sócrates bebe a cicuta, mas Jesus (assim diz o evangelista em Marcos 15:34 – não ousamos omitir a frase) brada em voz alta: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?” E com outro alto brado ele morre (Marcos 15:37). Esta não é ‘a morte como uma amiga’. Trata-se da morte em todo o seu horror atemorizante. Este é realmente “o último inimigo” de Deus, o nome que Paulo dá a ela em 1 Coríntios 15:26, onde o total contraste entre o pensamento grego e o cristianismo é descortinado. Usando palavras diferentes, o autor do Apocalipse de João também considera a morte como o último inimigo, quando ele descreve como a morte será finalmente lançada no “lago de fogo” (20:14). Pois ela é inimiga de Deus, é a que nos separa de Deus, que é a Vida e o Criador de toda a vida. É precisamente por esta razão que Jesus, que está tão intimamente ligado a Deus como nenhum outro homem jamais esteve, deve ter experimentado a morte mais terrivelmente do que qualquer outro homem. Estar nas mãos do grande inimigo de Deus significa ser abandonado por Deus. De uma forma bem diferente dos outros, Jesus sofreu esse abandono, essa separação de Deus, a única condição realmente a ser temida. Foi por isso que ele clamou a Deus: “Por que me abandonaste?” Ele estaria realmente nas mãos do grande inimigo de Deus.

Devemos ser gratos aos evangelistas por não terem omitido nada sobre aquele momento. Mais tarde (logo no início do segundo século, e provavelmente até um pouco antes) algumas pessoas – de ascendência grega – ficaram ofendidas com isso. Na história dos primitivos cristãos, eles são conhecidos como “gnósticos”.

Eu coloquei a morte de Sócrates e a morte de Jesus lado a lado. Pois nada mostra de uma maneira melhor a diferença radical entre a doutrina grega da imortalidade da alma e a doutrina cristã da ressurreição. Visto que Jesus sofreu a morte em todo o seu horror, não só em seu corpo, como também em sua alma (“Meu Deus! Por que me abandonaste?”), e como ele é considerado pelos primeiros cristãos como o mediador da salvação, ele deve ser realmente o único que vence a morte por meio de sua própria morte. Ele não pode obter esta vitória por simplesmente continuar vivendo como alma imortal, ou seja, sem expirar totalmente. Ele só pode vencer a morte por realmente morrer, por ser levado para a esfera da morte, o destruidor da vida; para o domínio do ‘nada’, do abandono por Deus. Quando se deseja vencer alguém, deve-se entrar em seu território. Qualquer um que queira vencer a morte deve morrer, essa pessoa deve realmente deixar de viver – não simplesmente continuar vivendo como alma imortal, e sim morrer de corpo e alma, perder a própria vida, o bem mais precioso que Deus nos deu. Eis a razão por que os evangelistas que, mais do que ninguém, apresentaram Jesus como o Filho de Deus, não tentaram amenizar o aspecto terrível de sua morte completamente humana.

Ademais, se a vida é eliminada por meio duma morte tão genuína como esta, é necessário um novo ato criativo divino. E este ato criativo chama de volta à vida não apenas uma parte do homem, mas o homem inteiro – tudo o que Deus criara e a morte havia aniquilado. Para Sócrates e Platão não há necessidade de qualquer novo ato criativo. Pois o corpo é realmente mau e não deve continuar vivendo. E essa parte que deve continuar vivendo, a alma, não morre realmente.

Se quisermos compreender a fé cristã na ressurreição, devemos rejeitar totalmente o pensamento grego de que o material, o corporal, o corpo é mau e deve ser destruído, com base na ideia de que a morte do corpo não seria em sentido algum uma destruição da verdadeira vida. Para o pensamento cristão (e judaico) a morte do corpo é também a destruição da vida criada por Deus. Não se faz qualquer distinção: até a vida do nosso corpo é verdadeira vida, a morte é a destruição de toda a vida criada por Deus. Por isso é a morte, não o corpo, que deve ser conquistada pela Ressurreição.

Somente aquele que discerne com os primitivos cristãos o horror da morte, que leva a morte a sério como ela é, pode compreender a exultação da celebração na comunidade cristã primitiva e entender que o pensamento de todo o Novo Testamento é governado pela crença na ressurreição. A crença na imortalidade da alma não é a crença num evento revolucionário. Imortalidade é, na verdade, só uma afirmação negativa: a alma não morre, mas simplesmente continua viva. Ressurreição é uma afirmação positiva: todo homem, que morreu de fato, é chamado de volta à vida por um novo ato criativo de Deus. Algo aconteceu – um milagre de criação! Pois algo também tinha ocorrido anteriormente, algo temível: a vida criada por Deus havia sido destruída.

A morte em si não é bela, nem mesmo a morte de Jesus. A morte antes da Páscoa é realmente a cabeça da Morte, rodeada pelo odor da decomposição. E a morte de Jesus é tão repulsiva como foi descrita pelo grande pintor Grünewald na Renascença. Mas, precisamente por este motivo, o mesmo pintor deliberou pintar, junto com ela, de uma maneira incomparável, a grande vitória, a Ressurreição de Cristo: Cristo no novo corpo, o corpo da ressurreição. Quem quer que pinte uma bela morte não pode pintar alguma ressurreição. Quem não entendeu o horror da morte não pode juntar-se a Paulo no hino da vitória: “A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Coríntios 15:54).