Imortalidade Natural Uma Doutrina Cristã?

Imortalidade! Ela foi “trazida à luz” por Jesus Cristo e seu evangelho (2 Tim 1:10). A vida eterna – uma existência imortal – é oferecida livremente ao mais vil dos pecadores que se aproxima e se apega ao Salvador pela fé. O próprio Cristo disse: “Pois esta é a vontade de meu Pai, que todo o que vê o Filho do homem e nele crê, tenha a vida eterna; E EU O RESSUSCITAREI NO ÚLTIMO DIA.” (João 6:40) Isto deve ser enfatizado na Igreja hoje; é um ponto em que multidões tropeçam. A vida eterna dada pelo nosso Senhor está ligada inseparavelmente à ressurreição no final da era. Ela não tem nada que ver com alguma vida etérea, fantasmagórica, após a morte. A Bendita Esperança do cristão (Tito 2:13) será sempre o Segundo Advento – a época em que a mortalidade será tragada pela imortalidade, a corrupção será levada à incorrupção e a morte perderá sua terrível eficácia (1 Cor. 15:52-54).

Esta é uma verdade que precisa ser constantemente enfatizada. Ela foi suplantada ao longo dos séculos por um conceito completamente alheio às Escrituras; a imortalidade inata do homem. Dizem-nos que todos os seres humanos possuem uma “alma” (o verdadeiro eu), que habita por algum tempo no corpo. A morte é o libertador da alma crente, que segue seu caminho para o “além” para estar com Jesus. Esse “último inimigo” (1 Cor 15:26) não é nem um inimigo, não é nem mesmo uma verdadeira morte – é só uma mudança de uma vida para outra, uma partida do corpo.

Imortalidade da Alma?

A Bíblia não dá qualquer aval para essas noções. Aqui descobrimos que Deus apenas possui imortalidade inata (1 Tim 6:16). O homem perdeu qualquer direito a isso no Éden (Gênesis 2:17). Na verdade, não só Deus impôs a sentença da morte a Adão e Eva, como também os afastou daquela Árvore da Vida que era a fonte da imortalidade humana (Gên. 3:22-24). Poderíamos insistir que nossos primeiros pais, que voltaram ao pó em cumprimento da maldição divina (Gên. 3:19), eram, ainda assim, seres imortais? Se for assim, devemos atribuir honestidade à mentira da serpente: “Certamente vocês não morrerão” (Gên. 3:4).

As Escrituras retratam a morte com um tom muito diferente. Quando um homem dá seu último suspiro, ele perece – totalmente. É por isso que Davi temia o túmulo. Ele sabia que morrer era estar perdido, cessar a consciência. Ouçamos o testemunho dele:

“Pois na morte não há recordação de ti, No Cheol quem te dará louvor?” (Salmo 6:5).

“Os mortos não louvam a Jeová, nem alguns dos que descem ao silêncio.” (Salmo 115: 17).

O piedoso Rei Ezequias também se retraiu diante da sombra da morte, reconhecendo seu verdadeiro caráter:

“Pois o Cheol não te pode louvar, A morte não te pode celebrar: Os que descem à cova, não podem esperar a tua verdade. O que vive, o que vive, esse te louvará...” (Isa 38: 18,19).

O Pregador inspirado do Eclesiastes resume todo o assunto da morte na linguagem mais clara possível:

“Pois os vivos sabem que hão de morrer; mas os mortos não sabem coisa alguma, nem tão pouco têm daí em diante recompensa, porque a sua memória fica entregue ao esquecimento. Tanto o seu amor como o seu ódio, e a sua inveja, pereceram...” (Ecle. 9: 5, 6).

A teologia do Novo Testamento apresenta a morte da mesma maneira. Paulo escreveu sobre a recuperação de Epafrodito, que esteve doente ao ponto de morrer. O comentário do apóstolo sobre este evento foi que “Deus compadeceu-se dele” (Fil. 2:27). “Compadeceu-se”? Então ser privado do céu é algo digno de compaixão? E a ressurreição de Lázaro, de Dorcas, ou do filho da viúva? Teria sido uma expressão de compaixão tirar esses santos da felicidade celestial, para fazê-los sofrerem dor e tentações novamente nesta terra perversa? Não, a restauração da vida é sempre retratada como um ato bom e gracioso. A longura dos dias na terra é uma benção de Deus (Efé. 6:3), não um adiamento da glória. Os anciãos devem ungir os doentes, para que eles sejam curados (Tia. 5:14, 15). Por quê? Porque a morte é morte e não vida. O túmulo aberto é uma maldição, um inimigo a ser vencido.

A Esperança da Ressurreição na Vinda de Cristo

Quando os tessalonicenses estavam tristes devido aos entes queridos falecidos, Paulo lhes escreveu para dar encorajamento. Disse ele que os justos mortos estão “com o Senhor” como almas desencarnadas? Assegurou ele à igreja que o túmulo é realmente um portal para a alegria eterna?

Ele não fez tal coisa. O apóstolo escreveu sobre o retorno de Cristo, quando os mortos serão levantados (1 Tes. 4:13-18). Esses irmãos falecidos não estão cantando, nem se regozijando, ou “olhando para nós” – eles estão dormindo em seus túmulos, esperando a ressurreição (1 Tes. 4:14; 1 Cor. 15:51. Veja também Jó 14:12; 2 Reis 20:21; Atos 7:60; 2 Ped. 3:4). Esse é o conceito paulino da morte.

A trágica consequência dessa crença generalizada na imortalidade inerente é a desvalorização da Segunda Vinda de Cristo. Se os santos mortos estão realmente vivos com o Senhor, que grande necessidade existe de uma ressurreição? Uma vez que é constantemente afirmado que a “alma” é o componente todo-importante do homem – seu “verdadeiro eu” – o levantamento do corpo deve ser uma questão comparativamente trivial. Até a própria ressurreição de Cristo soa como algo vazio quando mantemos que todos os homens desde Adão sobrevivem à morte como almas imortais.

Os autores das Escrituras, porém, são inflexíveis neste ponto: o Segundo Advento é a nossa única esperança para a vida após a morte. Se Jesus não voltar, todos pereceremos no pó da terra, para sempre. Uma simples leitura dos trechos que seguem deve tornar bastante clara a resposta para cada pergunta após eles:

Mat. 13:41-43: Quando é que os justos resplandecerão no reino do Pai?

Mat. 16:27: Quando todos serão recompensados ​​de acordo com suas obras?

1 Cor 13:10-13: Quando veremos Jesus face a face?

2 Tim 4:8: Quando receberemos a Coroa da Justiça?

Apocalipse 20:12: Quando é o julgamento?

1 João 3:2: Quando é que veremos Cristo e seremos como ele?

A mesma resposta praticamente salta das páginas da Escritura: no Segundo Advento. A morte não recebe qualquer recomendação como uma torre de bênção melhor, ou como “atravessar o Jordão” para a presença de Cristo. Ela é uma coisa para ser abolida e lançada no Lago de Fogo no último dia (Apo. 20:14).

A doutrina da imortalidade da alma zomba de tudo isso. A ressurreição torna-se supérflua, pois podemos nos relacionar com Cristo “fora do corpo”. E como os santos já passaram longas eras com Cristo, a Parousia se torna algo menor que a grande "revelação" retratada pelas Escrituras. Finalmente, o Juízo se transforma em uma farsa. Depois de passar milhares de anos no céu, será que Abel terá de passar diante da barra da justiça divina para determinar se o nome dele está ou não escrito no Livro da Vida? Por outro lado, será Judas Iscariotes convocado de um inferno que ele ocupou por dois milênios para saber se ele está realmente entre os condenados? Qualquer doutrina que admita esses cenários deveria ser encarada com suspeita desde o princípio.

A Mortalidade da Alma

A Palavra de Deus não admite nenhuma "essência eterna" dentro da composição humana. “A alma que peca, MORRERÁ” (Eze. 18:20). Este enunciado profético deve, por si só, colocar todo o argumento das almas imortais fora de questão, para sempre. O homem é mortal. Nisto, ele não tem “nenhuma vantagem sobre os animais” (Ecles. 3:19). A ressurreição é a sua única esperança. Sem Cristo, ele “não verá a vida” (João 3:36).

A objeção padrão a esse ensino é a afirmação dogmática de um dualismo “vida do corpo / vida da alma”. É apenas o corpo – o invólucro vazio, uma vez que certa vez abrigou a alma – que pereceu. A pessoa real está ou no paraíso ou em tormento, uma condição na qual ela permanecerá para todo o sempre.

O testemunho das Escrituras, porém, é inteiramente contra esse conceito. A pessoa verdadeira é sempre colocada no túmulo. “Sepultou Abraão a SARA, SUA MULHER, na cova do campo de Macpela” (Gên. 23:19). Em nenhum lugar se insinua que o patriarca simplesmente enterrou um receptáculo carnal recentemente desocupado por uma mulher imortal. Não há registro de Abraão louvando a Deus por admitir sua amada esposa nas “estradas douradas”. A linguagem funerária moderna está irremediavelmente fora de sintonia com a Bíblia. A morte é sempre associada com tristeza e luto (até mesmo por Cristo – João 11:35, 36), porque a pessoa verdadeira agora está sem vida – não é mais uma alma ativa.

Lemos sobre o enterro de Jacó (Gênesis 50:5) e de Estêvão (Atos 8:2). Em cada caso, o cadáver é a pessoa. Homens devotos choraram sobre Estêvão, não sobre algo no qual o mártir tinha vivido certa vez. Pedro nos diz que Davi estava no sepulcro, “morreu e foi sepultado” (Atos 2:29). Como para refutar quaisquer conceitos futuros de imortalidade inata, ele nos assegura no mesmo pronunciamento que “Davi não subiu aos céus” (Atos 2:34).

Evangélicos Reavaliam o Conceito de “Alma”

Existe um crescente reconhecimento entre os evangélicos de que a antiga e principal posição sobre o dualismo corpo / alma é insustentável. George Eldon Ladd comenta sobre a perspectiva paulina:

“O conceito de Paulo baseia-se na visão do homem do Antigo Testamento, no qual a “alma” (nephesh) do homem é primariamente sua vitalidade, sua vida — jamais uma “parte” separada do homem... O espírito de Deus cria o espírito humano (Zac. 12:1), mas nem a alma nem o espírito do homem são encarados como uma parte imortal do homem que sobrevive à morte.”

O teólogo holandês Herman Ridderbos faz eco dessas convicções:

“A psyche (alma) em Paulo não é, à maneira greco-helenística, a parte imortal do homem, distinta do soma (corpo), nem ela denota o espiritual como distinto do material. Psyche apresenta-se em geral como a vida natural do homem (compare com Romanos 11:3; 16:4; 1Tes. 2:8; — dar a sua “alma”, isto é, a sua vida por alguém et. al.).”

Conclusão

O cristão mediano foi instruído a considerar o conceito de mortalidade total como “doutrina de cultos”. Por esta razão, é difícil para muitos do povo de Deus abordar o assunto com uma mente aberta. Isto é compreensível; nenhum seguidor genuíno de Jesus deseja ser associado com dogmas bizarros e cultistas. Por outro lado, devemos ser rápidos em perceber que a culpa por associação não é um método justo para testar a verdade ou a falsidade de qualquer princípio de fé. Se assim fosse, poderíamos dispensar a imortalidade da alma com base em sua aceitação pelos espíritas, mórmons, cientistas cristãos e promotores da Nova Era, sem falar da Igreja Católica Romana. Obviamente, uma rejeição de qualquer posição com base em argumentos ad hominem é uma prática indigna de um estudante cuidadoso da Bíblia, o argumento mais forte de todos os cultos.

A mortalidade total do homem é uma doutrina da grande antiguidade na Igreja. Seus expoentes podem ser encontrados em quase todas as épocas da história da igreja.

Se ela sempre foi ou não foi uma opinião majoritária é irrelevante. Não expressou Lutero uma opinião muito obscura e minoritária quando publicou as teses? E quanto aos mártires anabatistas – não foram eles considerados como fanáticos extremistas por se oporem à união não questionada entre Igreja e Estado? Ainda assim, esses homens acreditavam que possuíam a verdade e estavam dispostos a defendê-la diante da oposição da maioria esmagadora.

A convicção corajosa deles deve ser imitada na Igreja hoje. É hora de examinar esta questão à luz da sola scriptura, em vez de simplesmente repetir mecanicamente as opiniões das massas. Com uma Bíblia aberta e uma mentalidade bereana (Atos 17:11), procuremos as coisas que Deus nos revelou livremente em Sua Palavra. Ao penetrar nos recessos da verdade divina, que possamos compartilhar nossas descobertas com o resto do povo de Deus no espírito amoroso daquele que é a Ressurreição e a Vida.

Steve Jones

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Copyright, 1992, Pastor's Library Foundation. Este artigo pode ser copiado livremente para distribuição mais ampla, desde que a fonte seja devidamente reconhecida.

(Crédito: Resurrection Magazine, Volume 95, Número 2/3, 1992, publicado por Pastor's Library Foundation, Sterling, VA. – Edição em Português Brasileiro: Mentes Bereanas) Este aviso deve ser mantido anexo no artigo.