Os Equívocos Sobre as Transfusões de Sangue

Conforme é amplamente conhecido, as Testemunhas de Jeová afirmam que a Bíblia proíbe transfusões de sangue e que estas não são realmente necessárias, porque existem tratamentos alternativos. Entre elas há quem diga, inclusive, que estes tratamentos alternativos são úteis em situações de emergência grave.

Os conceitos precisam ser esclarecidos. Em primeiro lugar, não existem substitutos satisfatórios para o sangue. Existe há muito tempo um trabalho intensivo para, possivelmente, produzir “sangue artificial”, mas até o momento é no sangue natural que a medicina tem de confiar. Até certo ponto, o sangue perdido pode ser compensado com produtos tais como Dextran ou Solução de Ringer e isto é feito rotineiramente nos hospitais. Porém, na perda de sangue extremamente severa, como por exemplo em certos acidentes automobilísticos ou na hemorragia obstétrica grave, essa compensação é inadequada, porque esses produtos não conseguem transportar o oxigênio vital. Em seu estudo sobre as Testemunhas de Jeová e as transfusões de sangue, o médico escocês A. D. Farr mencionou uma mulher que foi salva por meio da transfusão de 19 litros de sangue durante 6 horas, quando ela deu à luz seu quinto filho. Ela perdeu todo o seu próprio sangue transportador de oxigênio e certamente não teria sobrevivido se tivesse recebido Dextran ou Solução de Ringer em vez de sangue! (Deus, o Sangue e a Sociedade, Aberdeen, Escócia, 1972, págs. 32, 33).

Quanto ao que diz a Bíblia, é importante ter em mente não só as palavras dos textos, mas levar em conta também o contexto e o espírito dessas palavras. Segundo o Pentateuco, praticamente não houve uma lei tão rigorosa como a do sábado. Todo o trabalho no sábado era proibido sob pena de morte. Mas poderia haver, obviamente, situações em que seria necessário trabalhar no sábado para salvar vidas. Por exemplo, uma casa poderia desabar no dia de sábado e soterrar pessoas sob os escombros. Embora a letra da lei não abrisse qualquer exceção para situações de emergência, os judeus piedosos concluiriam que estava em harmonia com o espírito da lei “salvar vidas” no sábado, mesmo que, ao contrário da letra da lei, isso significasse que a pessoa teria de fazer trabalho físico naquele dia. (Marcos 3:4, 5) Jesus foi ainda mais longe. Ele curou o doente no sábado, apesar de não haver risco imediato de morte naquele caso. Ele exerceu o trabalho de um médico no sábado e foi veementemente criticado por isso. (Lucas 13:10-15) Ele tinha a visão espiritual sobre o assunto que faltava aos seus oponentes religiosos legalistas. Ele afirmou que “é lícito fazer uma coisa excelente no sábado”. (Mateus 12:12) Dá-se o mesmo no caso do sangue! Quando a liderança das Testemunhas de Jeová aponta para a letra dos textos bíblicos sobre o sangue e condena as transfusões de sangue, está agindo como um equivalente moderno dos judeus que acusaram Jesus de transgredir a lei. Assim como os críticos de Jesus não queriam ver o contexto espiritual mais profundo em torno da lei do sábado, os líderes das Testemunhas se recusam a enxergar o contexto espiritual dos textos bíblicos sobre o sangue. Porém, qualquer pessoa que atentar para o propósito dessas leis referentes ao sangue não terá qualquer dúvida sobre as transfusões de sangue.

TODOS os textos sobre o sangue no Antigo Testamento referem-se ao abate ou sacrifício de animais, isto é, a situações em que os animais foram mortos por seres humanos. No abate – e só nesta ocasião! – o sangue seria derramado na terra. (Lev. 17:13, Deu. 12:15, 16) “Por não comer o sangue, mas ‘derramá-lo’ sobre o altar ou no solo”, escreveu a liderança das Testemunhas, “o israelita, com efeito, devolvia a vida dessa criatura a Deus.” (As Testemunhas de Jeová e a Questão do Sangue, 1977, pág. 9) Um argumento atraente! Mas, naturalmente não haveria vida para devolver a Deus se não tivesse ocorrido alguma morte. Era por isso que animais mortos, que continham sangue, eram dados a forasteiros ou vendidos a estrangeiros. (Deu. 14:21) Se o sangue destes animais já mortos fosse comparável ao sangue dos animais abatidos, seria de esperar que estes animais seriam enterrados quando fossem encontrados. É verdade que era proibido a um israelita comer animais mortos, mas evidentemente só pelas razões rituais gerais. Esta proibição pode ser justificada da mesma maneira como as Escrituras Hebraicas proibiam comer répteis: o israelita era santo perante Jeová. (Lev. 11:41-45; Deu. 14:21) Não se prescrevia qualquer punição específica para o judeu que comesse a carne de animais mortos, contendo sangue, nas Escrituras Hebraicas. A pessoa que fizesse isso teria apenas de “lavar as suas vestes, e ser impuro até a noitinha”, como no caso do israelita, que tocasse ou carregasse um animal que tivesse morrido por si mesmo. (Lev. 11:39, 40). Toda a proibição do sangue no Antigo Testamento refere-se especificamente ao sangue dos animais que foram mortos por seres humanos, sendo uma expressão da santidade da vida. É compreensível, portanto, a razão de as Escrituras Hebraicas não conterem qualquer disposição sobre a maneira como o israelita deveria lidar com o sangramento em seus animais, ou com o sangramento e a perda de sangue dele próprio. Esse sangue jamais representava qualquer vida sacrificada. E esta é a questão das transfusões de sangue que se pode inferir à base da Bíblia.

Se a transfusão de sangue tornasse necessário que o doador perdesse sua vida – mas só assim! – é que os textos bíblicos citados pelas Testemunhas teriam relevância. Esses textos visam a inculcar em nós o caráter sagrado da vida. E a santidade da vida é também o princípio orientador da medicina moderna! Usar o sangue de doadores voluntários para salvar vidas está muito mais em harmonia com os textos bíblicos sobre o sangue! A liderança das Testemunhas realmente deveria entender isso. A oposição deles à transfusão de sangue integral e componentes sanguíneos primários é bem conhecida. É menos conhecido que as Testemunhas têm uma visão mais liberal quanto aos constituintes do sangue tais como albumina, imunoglobulinas, e os preparados à base de sangue para o tratamento da hemofilia. “... o entendimento religioso das Testemunhas não proíbe de modo absoluto o uso de componentes, como a albumina, as imunoglobulinas e os preparados para hemofílicos; cabe a cada Testemunha decidir individualmente se deve aceitar a esses.”, diz a brochura da Torre de Vigia intitulada Como Pode o Sangue Salvar a Sua Vida? (1990, pág. 27). Estes componentes representam a maior proporção do consumo de sangue por parte da sociedade. A vida de todas estas pessoas foi estendida consideravelmente desde que os preparados modernos de sangue se tornaram disponíveis. Uma vez que este consumo pode ser tolerado pelas Testemunhas de Jeová, espera-se que elas também venham a mudar para melhor sua opinião sobre a utilização de, por exemplo, glóbulos vermelhos nos casos de perda maciça de sangue.

A Vida é Sagrada