Deus Trabalha Por Meio de Uma Organização?

Eram os Apóstolos Um “Corpo Governante”?

Se Jesus quisesse estabelecer um “canal de comunicação” por meio do qual seria revelado um crescente entendimento das Escrituras, poderíamos esperar com certeza que seus apóstolos fiéis seriam esse “canal” a quem se revelaria essa “nova luz”. Todavia, o registro mostra que este não foi o caso. Alguns apóstolos aparecem freqüentemente no registro inspirado do crescimento do Cristianismo. Alguns escreveram cartas que se tornaram parte das Escrituras inspiradas, a saber, Mateus, Pedro, Tiago e João. Mas outros dentre os doze não tiveram qualquer proeminência durante o crescimento e difusão do Cristianismo, em comparação com, por exemplo, Paulo e Barnabé, Silas e Timóteo. E a maior parte das Escrituras Gregas inspiradas foi escrita por pessoas que não faziam parte dos doze apóstolos, sendo este principalmente o caso de Paulo, além de Marcos, Lucas, Tiago (irmão de Jesus) e Judas. 

A vida, a morte e a ressurreição de Jesus cumpriram muitas profecias das Escrituras Hebraicas de várias maneiras não previstas pelos instrutores religiosos dos dias dos apóstolos. Tais profecias precisavam de explicação para que os primitivos cristãos pudessem entendê-las corretamente. Como foi revelado à primitiva igreja este entendimento profundo acerca do papel de Jesus como o Messias? Segundo Lucas 24:13-35, no mesmo dia em que foi ressuscitado, Jesus apareceu a dois discípulos na estrada para Emaús, um homem chamado Cléopas e outro discípulo. “E começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes [não aos onze apóstolos] o que constava a respeito dele em todas as Escrituras.” Essa inteira explicação de como as profecias hebraicas se aplicavam a Jesus foi sem dúvida um exemplo notável de revelação divina dentro do registro bíblico. Depois que Jesus tinha partilhado uma refeição com eles e partido, eles se levantaram imediatamente e retornaram a Jerusalém, onde encontraram os onze apóstolos e lhes contaram tudo sobre seu encontro com Jesus. Enquanto ainda estavam contando a história, o próprio Jesus apareceu a todo o grupo que estava reunido lá.

Antes de sua ascensão ao céu, Jesus disse aos onze apóstolos que já lhe tinha sido dada autoridade para assumir a responsabilidade pessoal por tudo: “Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos.” – Mateus 28:18-20 

Antes de sua morte, Jesus dissera a seus discípulos que enviaria o ajudador ou conselheiro que tomaria seu lugar na terra depois que ele retornasse ao céu: “E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Conselheiro para estar com vocês para sempre, o Espírito da verdade. O mundo não pode recebê-lo, porque não o vê nem o conhece. Mas vocês o conhecem, pois ele vive com vocês e estará em vocês.” (João 14:16, 17, NVI) Ao falar depois sobre a obra do espírito santo, Jesus continuou: “Mas quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que ouvir, e lhes anunciará o que está por vir. Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e o tornará conhecido a vocês.” – João 16:13, 14. 

Será que o espírito santo só agiria por um pequeno intervalo, durante mais ou menos uma geração depois do início da congregação cristã, até que Jesus pudesse organizar a recém formada igreja para que esta assumisse a responsabilidade do espírito santo, ou seja, alimentar os discípulos, “guiando-os a toda a verdade” e ao mesmo tempo falando em nome de Jesus? Não. Jesus disse que o espírito estaria com eles “para sempre”, sem qualquer necessidade de ser substituído. 

Jesus havia prometido que estaria com eles “todos os dias, até a terminação do sistema de coisas”, por isso não havia qualquer razão para que eles esperassem o desenvolvimento de alguma organização humana centralizada, composta por representantes humanos que seriam a fonte de liderança e direção. Mesmo que eles se juntassem em pequenos grupos para encorajar uns aos outros, eles poderiam estar absolutamente certos da presença e bênçãos de Jesus, pois ele disse: “onde se reunirem dois ou três em meu nome, ali eu estou no meio deles.” – Mateus 18:20. 

O “Concílio” de Jerusalém – Uma “Fonte de Nova Luz”?

A organização Torre de Vigia sugere que os anciãos da congregação de Jerusalém, a cidade de onde o evangelho começou a se difundir por todo o mundo, atuavam duma maneira bem parecida com a do Corpo Governante das Testemunhas de Jeová, decidindo sobre assuntos de importância para os cristãos de outras congregações e agindo como uma fonte de crescente entendimento da verdade. A organização afirma que os anciãos em Jerusalém agiram nessa função quando surgiu uma questão envolvendo a circuncisão. É isso o que ensina a Bíblia? Qual era o papel da congregação de Jerusalém e como o próprio Jesus e o espírito santo agiram no tocante à abordagem e solução daquele problema? Examinemos o registro encontrado em Atos 15:1-35 e Gálatas 2:1-14.

Segundo o livro de Atos, a questão surgiu quando alguns homens vieram de Jerusalém (“da parte de Tiago”, veja Gálatas 2:12) para Antioquia e começaram a ensinar algo novo, algo que Paulo não havia ensinado aos crentes gentios. Qual era essa “nova verdade” de Jerusalém? “Se vocês não forem circuncidados conforme o costume ensinado por Moisés, não poderão ser salvos.” Isso estava em conflito direto com o que o próprio Jesus tinha revelado a Paulo, ou seja, que era só por meio da fé que alguém poderia ser salvo. Paulo argumentou fortemente contra esse “novo ensino”. Mas, os homens de Jerusalém insistiam que eles estavam certos, de modo que Paulo e Barnabé subiram até Jerusalém para “tratar dessa questão com os apóstolos e com os presbíteros.” O registro de Paulo na carta aos Gálatas mostra que ele subiu a Jerusalém porque havia sido ordenado pelo próprio Senhor, “em virtude duma revelação”. Com efeito, alguns cristãos judeus realmente já acreditavam que a circuncisão (e guardar a lei de Moisés) era necessária para a salvação. 

O relato que Paulo fez à congregação na Galácia acerca dessa situação mostra que ele se reuniu em particular com “aqueles que pareciam ser alguma coisa” na congregação, os anciãos proeminentes. Ele “pôs diante deles o Evangelho que [ele pregava] entre os gentios e não cedeu nem por um instante.” Aqueles homens piedosos reconheceram que estavam errados, aceitaram a correção de Cristo, dada por meio de Paulo, e falaram com os outros anciãos, desta feita numa reunião maior, sob a liderança do espírito santo, de modo que todos chegaram a um ponto de vista correto. Daí eles escreveram uma carta se desculpando, dirigida especificamente aos gentios de Antioquia (Atos 15:28), na qual sugeriram algumas coisas que, se fossem evitadas, contribuiriam para a paz entre os judeus e os gentios, bem como para a própria saúde e prosperidade deles. [4]

É evidente que não se chegou a nenhum entendimento novo devido àquela reunião. Os anciãos em Jerusalém foram corrigidos, em vez de darem correção. Este evento não fornece qualquer evidência de que havia um “corpo governante” composto de homens em Jerusalém que elaboravam leis e regras que deveriam ser repassadas a todos os cristãos. Na verdade, o caso era exatamente o oposto. A evidência mostra nitidamente que o espírito de Deus agiu por meio de pessoas fiéis específicas com a finalidade de alimentar e livrar os cristãos do erro. 

O Espírito de Deus Trabalha Junto com os Primitivos Cristãos

Jesus disse a seus discípulos para permanecer em Jerusalém só até que eles fossem "revestidos com o poder de cima". (Lucas 24:49) Isso ocorreu no Pentecostes. Pedro falou nessa ocasião, aplicando a profecia de Joel ao que aconteceu. Essa profecia, que deveria se cumprir durante toda a era cristã, incluía o seguinte: "derramarei do meu espírito sobre toda sorte de carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, e os vossos jovens terão visões e os vossos anciãos terão sonhos; e até mesmo sobre os meus escravos e sobre as minhas escravas derramarei naqueles dias do meu espírito, e eles profetizarão." (Atos 2:17, 18) Essa profecia dava conta de que Deus, por meio do espírito santo, iria se comunicar com os cristãos exatamente das mesmas maneiras como Ele havia feito durante os tempos pré-cristãos, diretamente, por meio de visões, sonhos e por meio de profetas. Mostra o registro bíblico que isso aconteceu? 

O livro de Atos está repleto de relatos que ilustram claramente o cumprimento da profecia de Joel. Ele mostra o envolvimento bem ativo e pessoal de Cristo, do espírito santo, de anjos, visões e sonhos na obra da primitiva igreja cristã, inclusive a conversão de pessoas, a expansão da congregação, seleção e envio de apóstolos e missionários, a manutenção da congregação livre da corrupção ocasionada pela falsidade, encorajamento e assistência aos cristãos durante aflições e provas, e também o registro e a preservação de todas as informações essenciais que os cristãos precisariam nos séculos vindouros, isto é, as Escrituras Cristãs. Não houve qualquer parte essencial do Cristianismo na qual Jesus não tenha se envolvido pessoalmente, ou dirigido por meio do espírito santo. 

Considere o caso de Filipe e o etíope. Felipe estava pregando em Samaria quando um anjo o enviou à estrada de Jerusalém a Gaza. No caminho ele encontrou um eunuco etíope. O espírito enviou Filipe até a carruagem do eunuco. Depois de Filipe ter batizado o etíope, o espírito de Deus levou Filipe embora. – Atos 8:36, 39, 40. [5]

Considere também o caso de Cornélio, um homem devoto e temente a Deus. Ele teve uma visão de um anjo de Deus, que lhe disse para enviar homens a Jope para buscar Pedro. Nesse ínterim, Pedro, que estava orando no terraço, caiu em transe e uma voz lhe disse que coisas anteriormente consideradas impuras agora eram puras. O espírito contou a ele a respeito dos homens enviados por Cornélio. Pedro foi até a casa de Cornélio, onde proclamou o Evangelho a um grande grupo de pessoas, e elas se tornaram cristãs. – Atos 10:1-46. 

O próprio Jesus apareceu a Saulo para efetuar a conversão dele. (Atos 9:3-6, 15) Saulo (Paulo), sob a influência do espírito santo, tornou-se destacado entre os apóstolos por levar a mensagem cristã aos não-judeus. Ele fundou muitas congregações. Quem o autorizou a fazer isso? Teria sido a congregação de Jerusalém ou a congregação de Antioquia da qual ele saía para suas viagens missionárias? Não. Saulo e Barnabé foram comissionados e saíram como missionários sob a orientação específica do espírito santo. – Atos 13:1-4.

O registro mostra que as pessoas a quem Paulo pregava eram orientadas a se dirigir ao próprio Cristo em busca de orientação em vez de recorrer a um grupo de anciãos em Jerusalém ou em qualquer outro lugar. Quando Paulo falou a um carcereiro em Filipos, ele simplesmente começou a falar a palavra de Deus ao homem e a "todos na casa daquele" logo depois de sua milagrosa libertação, em algum momento depois da meia-noite. Antes do amanhecer, o carcereiro e toda a sua família (incluindo os filhos e possivelmente até os servos) foram batizados. Foi a atenção deles dirigida para uma congregação local, para que completassem seu “treinamento”? Não, porque não havia qualquer congregação ali, só outra pessoa recém convertida, uma mulher chamada Lídia. – Atos 16:30-34.

Há muitos outros exemplos que poderiam ser citados, mas a mensagem é clara. O próprio Jesus Cristo e o espírito santo, em vez de qualquer homem ou grupo de homens, foram os que desempenharam o papel mais ativo na liderança dos primitivos cristãos. O espírito orientou Paulo e seus companheiros durante suas viagens missionárias (Atos 16:6-10; 18:9-11; 20:22, 23; 21:4), salvou-os dos perigos, inspirou-os a escrever cartas às congregações que haviam sido fundadas pelo esforço deles, e designou superintendentes. – Atos 20:28; 32, 33.[4]

Assim como aos israelitas foi especificada uma maneira de identificar claramente verdadeiros e falsos profetas e profecias, assim é no caso dos cristãos. Depois de descrever detalhadamente o tipo de conduta que seus seguidores teriam, Jesus disse que “esses homens” (os falsos profetas) poderiam ser reconhecidos pelos seus “frutos”, não como organização, e sim como indivíduos. (Mateus 7:15-20). Mais tarde, o apóstolo João disse que as “expressões inspiradas” (“espíritos”, NVI) deveriam ser provadas: “Toda expressão inspirada que confessa a Jesus Cristo como tendo vindo na carne origina-se de Deus, mas toda expressão inspirada que não confessa a Jesus não se origina de Deus. Além disso, esta é a expressão do anticristo que ouvistes que virá e agora já está no mundo.” (1 João 4:1-3) João não focalizou sua atenção nas doutrinas, no comportamento do profeta ou na fonte da profecia como critérios para julgar as mensagens que supostamente vinham de Deus. Em vez disso, a profecia é julgada por aquilo que ela enfoca. Se o foco da profecia é em Cristo e em suas obras de redenção, ela vem de Deus. Se não, o espírito da profecia é proveniente do anticristo. (Compare com Revelação 19:10.)



 

[4] Na carta, registrada em Atos 15:23-29, os cristãos gentios são encorajados a se abster de “coisas sacrificadas aos ídolos, de sangue, da carne de animais estrangulados e da fornicação.” No entanto, mais tarde Paulo considerou o assunto de comer carne sacrificada aos ídolos e tornou claro que evitar comê-la era uma questão de consciência e não uma regra rígida. Para os cristãos, evitar fazer outros tropeçarem por meio de suas ações era o principal fator motivador. (Compare com Romanos 14:14, 20, 21; 1 Coríntios 10:19-33).

[5] Tem sido sugerido que os superintendentes eram “designados” pelo espírito santo no sentido de que homens que estavam familiarizados com as qualificações bíblicas para os superintendentes designavam outros homens que preenchiam essas qualificações. Esta é uma explicação razoável, e respeitados comentaristas sugerem que os superintendentes em Éfeso foram designados por alguns representantes da igreja. Mas a própria Bíblia não declara que Paulo ou alguma outra pessoa tenha designado esses superintendentes em alguma ocasião. As cartas de Paulo a Timóteo e a Tito que continham essas qualificações ainda não tinham sido escritas. A Bíblia diz que os superintendentes efésios foram designados pelo espírito santo. (Atos 20:28) Assim, é provável que o espírito santo designou diretamente esses homens para a posição de superintendentes. Se foi assim, é também possível que foi por observar estes homens designados diretamente pelo espírito santo que Paulo foi inspirado a registrar as qualificações para esta função, para beneficiar diretamente Timóteo e Tito.