Deus Trabalha Por Meio de Uma Organização?

 

Jesus é Enviado às “Ovelhas Perdidas de Israel”

Por ocasião do aparecimento de Jesus no cenário, Israel era tudo, menos uma nação altamente organizada. Os judeus eram governados por estrangeiros. Não praticavam a adoração pura. A maioria deles (os remanescentes do reino setentrional de dez tribos, mais os descendentes do grande número de judeus que nunca voltaram à Palestina depois do cativeiro em Babilônia) estava espalhada pela terra. Eram governados por diversas nações e reis. Estavam divididos em suas crenças. Haviam feito tantos acréscimos à Lei, que o simples mandamento de guardar o sábado se tornara quase impossível de obedecer. A adoração que era praticada em Jerusalém havia sido corrompida pelo comercialismo, por rituais e formalidades vazias.

Todavia, apesar dessa situação, o ministério de Jesus foi dirigido aos judeus e samaritanos e não aos gentios. Por quê? Segundo ele mesmo disse, ele havia sido enviado “às ovelhas perdidas... de Israel.” (Mateus 15:24) Apesar da infidelidade e da apostasia, eles ainda eram o povo escolhido de Deus. Só depois que rejeitaram o Messias é que sua “casa foi abandonada”. (Mateus 23:38, compare com Mateus 21:33-43) 

Como Deus Se Comunicava Com Israel?

A Bíblia está repleta de exemplos de como Deus influenciava seu povo a fazer sua vontade. A alguns Ele falou diretamente (Gênesis 46:1-4; Josué 8:1) ou por meio de anjos. (Juízes 6:11-24; capítulo 13) Outros recebiam visões ou sonhos. (1 Reis 3:5-15; 9:1-9; Isaías 1:1; Amós 7:1-9; Ezequiel 1:1) Mas, a maior parte das mensagens dirigidas ao povo de Deus foi transmitida pelos profetas. Conforme declara Hebreus 1:1: “Deus ... há muito falou em diversas ocasiões e de muitos modos aos nossos antepassados por intermédio dos profetas.” 

Geralmente os profetas apareciam em Israel quando o povo se tornava infiel. A tarefa deles era simplesmente transmitir mensagens de Deus (profecias), advertir o povo para deixar a adoração falsa e encorajá-lo a obedecer à Lei e praticar a verdadeira adoração. Quem designava esses profetas? Eles não eram escolhidos pelos líderes da nação, pelos sacerdotes e nem mesmo por outros profetas. Eram designados pelo próprio Deus, por meio do espírito santo. (Números 11:24-29) 

O trabalho de um profeta, conforme descrito na Bíblia, oferecia pouco ou nenhum prestígio ou poder. Os profetas eram malvistos. A maior parte deles foi tratada de maneira indigna pelo povo escolhido de Deus. Muitos foram brutalmente perseguidos ou mortos pelos líderes da nação. 

Já que não havia qualquer arranjo na Lei para designar profetas, nem qualquer procedimento oficial para autorizá-los, cada israelita individual tinha a responsabilidade de determinar se alguém que se apresentava como profeta estava realmente falando em nome de Deus. Por isso, a Lei especificava três sinais indicativos de um profeta ou duma profecia verdadeira: 1) o profeta deveria falar em nome de Jeová, 2) a profecia deveria se cumprir e 3) a profecia deveria promover a adoração verdadeira. (Deuteronômio 18:20-22; 13:1-4) 

Será que os profetas de Deus estavam organizados em um corpo central que dava diretrizes à nação de Israel? A Bíblia menciona grupos de profetas em alguns lugares, tais como 1 Samuel 10:5, 10; 2 Reis 2:3, 5 e 4:38, mas eles nunca agiram como um tipo de “canal de comunicação” regular de Deus. Na verdade, às vezes alguns profetas nem sabiam do paradeiro ou até da existência de outros profetas ou mesmo de outros adoradores verdadeiros.

Por exemplo, durante um dos períodos de infidelidade do reino setentrional, o profeta Elias acreditava ser a única pessoa em Israel que não havia se curvado diante de Baal. No entanto, Deus revelou a ele: “E deixei sete mil remanescer em Israel, todos os joelhos que não se dobraram diante de Baal e toda boca que não o beijou.” (1 Reis 19:18) Sem dúvida, aquelas pessoas fiéis teriam sido consideradas desleais ao rei ungido que estava no poder. Contudo, ainda assim, elas não estavam obviamente organizadas em algum tipo de grupo. Levavam uma vida discreta em fidelidade pessoal a Deus, mesmo estando cercadas pelo povo infiel (mas ainda escolhido) de Deus. 

Durante todo o período pré-cristão, a Bíblia menciona pessoas fiéis que mantiveram lealdade a Deus, quer os líderes da nação estivessem guiando o povo na adoração verdadeira, quer não. Foi assim até a chegada de Jesus. Um justo profeta chamado Simeão viu o bebê Jesus, em cumprimento de uma profecia transmitida a ele por meio do espírito santo. Menciona-se também uma profetisa fiel chamada Ana. (Lucas 2:25-38)

Começa a Era Cristã

A vinda de Jesus envolveu o aparecimento de um novo porta-voz e não de um novo modo de comunicação entre Deus e o homem. Hebreus 1:1, 2 (NVI) diz: “Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo.” Estabeleceria Jesus uma organização visível para representar seus interesses na terra ou será que cada cristão seria um “embaixador substituindo a Cristo”? – 2 Coríntios 5:20 

Na ocasião em que Jesus falou sobre manter a vigilância, “Pedro perguntou: ‘Senhor, estás contando esta parábola para nós ou para todos?’ O Senhor respondeu: ‘Quem é, pois, o administrador fiel e sensato, a quem seu senhor encarrega dos seus servos, para lhes dar sua porção de alimento no tempo devido? Feliz o servo a quem o seu senhor encontrar fazendo assim quando voltar. Garanto-lhes que ele o encarregará de todos os seus bens. Mas suponham que esse servo diga a si mesmo: ‘Meu senhor se demora a voltar’, e então comece a bater nos servos e nas servas, a comer, a beber e a embriagar-se. O senhor daquele servo virá num dia em que ele não o espera e numa hora que não sabe, e o punirá severamente e lhe dará um lugar com os infiéis. Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, nem o realiza, receberá muitos açoites. Mas aquele que não a conhece e pratica coisas merecedoras de castigo, receberá poucos açoites. A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido.’” (Lucas 12:41-48, NVI) 

A organização Torre de Vigia usa essa pergunta de retórica que Jesus fez, de acordo com a passagem paralela em Mateus 24:44-51, como autorização para assumir a responsabilidade “do [um e único] escravo fiel e discreto” a cargo de “todos os bens [do Amo].” Contudo, é difícil aceitar a ideia de que essa parábola se refere a múltiplas organizações religiosas em operação no momento da chegada de Cristo em poder, cada uma com uma responsabilidade maior ou menor, dependendo do que cada uma delas fez com o conhecimento que tinha. Esta passagem só faz sentido como uma exortação aos cristãos para que se mantenham vigilantes e se comportem apropriadamente para com outros, principalmente para com outros cristãos, sempre tendo em mente que um dia todos terão de responder a uma Autoridade maior.