Deus Trabalha Por Meio de Uma Organização?

 

De Adão ao Dilúvio

Deus falou diretamente com Adão e Eva. Abençoou-os e deu orientações quanto ao que se esperava deles. (Gênesis 1:28-30) Depois que eles pecaram, o próprio Deus os interrogou e em seguida pronunciou a sentença de julgamento diretamente sobre cada um dos três indivíduos na Jardim do Éden: Adão, Eva e a serpente. (Gênesis 3:9-19) Quando Caim e Abel ofereceram sacrifícios a Deus, Ele os julgou individualmente. Quando Caim demonstrou ter uma atitude errada, Deus lhe deu orientação pessoal, e o advertiu contra o pecado. Depois de ter assassinado seu irmão, Deus o julgou de maneira individual. (Gênesis 4:6-15)

Durante o longo período patriarcal que se seguiu, a obediência ao mandamento de Deus de que a humanidade deveria crescer, multiplicar-se e encher toda a terra exigia que seus servos se espalhassem, em vez de se juntarem num grupo. Em harmonia com isso, não há menção alguma de servos de Deus que prestassem adoração num lugar central ou que recebessem regularmente mensagens de Deus como grupo, para depois repassá-las a outros.

Quando Deus decidiu eliminar da terra os injustos por meio dum dilúvio, Ele escolheu Noé para executar as instruções que preservariam tanto famílias humanas, como de animais. Sendo consistente com seu padrão, Deus falou diretamente a Noé. [2] Como “pregador da justiça” (2 Pedro 2:5), Noé atuou como profeta, ou seja, alguém que transmite mensagens divinas. Depois do dilúvio, Noé fez sacrifícios a Deus em favor de sua família, um padrão que continuaria por muitos séculos. [3] Em se tratando de adoração, os chefes de família representavam suas famílias perante Deus, exercendo assim a função de sacerdotes ou mediadores em sentido limitado.

Do Dilúvio ao Monte Sinai

Após o dilúvio, Deus repetiu sua ordem de “sede fecundos e tornai-vos muitos e enchei a terra.” (Gênesis 9:1) Ele continuou a falar diretamente com indivíduos. Ele se comunicava por meio de anjos, sonhos, visões ou profetas que recebiam mensagens divinas, com a ordem de repassá-las aos beneficiários. Quando um grupo de rebeldes conspirou para construir uma torre, em parte por temerem ser “espalhados pela superfície de toda a terra”, Jeová Deus confundiu sua língua, o que os obrigou a obedecer, pelo menos por algum tempo, sua ordem de encher a terra. (Gênesis 11:4, 8) 

Centenas de anos depois, Deus fez uma promessa pessoal a seu amigo Abraão, um notável homem de fé, de que ele se tornaria “uma grande nação”. (Gênesis 12:2) Isso marcou o início de uma coisa nova. Uma família favorecida receberia atenção especial e produziria o prometido Messias. Será que isso deu início a um modo mais “organizado” de comunicação divina com a humanidade? 

À medida que a família de Abraão crescia, Deus continuou a se comunicar diretamente com seus servos, incluindo pessoas que agiam, temporária ou permanentemente, como profetas. Contudo, é visível que naquela época, ninguém tinha entendimento completo de tudo e nem Deus trabalhava unicamente por meio de um só “canal” em algum momento. Por exemplo, José, enquanto ainda era um jovem que vivia com seu pai, um patriarca e profeta, teve sonhos inspirados que prediziam coisas futuras. José foi enviado por Jeová ao Egito, para preparar o caminho da transformação da família de Jacó numa nação. Mas Jeová não revelou a Jacó o que Ele estava fazendo, embora Jacó fosse o patriarca e profeta. (Gênesis 42:36) Sob a liderança de Deus, 75 descendentes de Abraão mudaram-se para o Egito. Quando saíram de lá, uns 215 anos depois, já ascendiam a milhões. 

Quando Deus estava prestes a libertar seu povo da escravidão no Egito, Ele falou pessoalmente a Moisés por meio dum arbusto ardente, e o comissionou a fazer milagres, para mostrar aos israelitas e aos egípcios o significado e o poder por trás do nome de Jeová. A prontidão com que os israelitas aceitaram adorar um bezerro de ouro nas planícies do Sinai, por exemplo, além de outros sinais de fé fraca, sugere que enquanto estavam no Egito eles não tinham mantido, como grupo, a adoração pura de Deus que fora praticada por seu ancestral, Abraão. 

Os israelitas entraram num pacto especial de relacionamento com Deus depois que saíram do Egito. Receberam a Lei que os guiaria em questões morais, civis e religiosas. A organização Torre de Vigia apresenta esses eventos como um paralelo de como as Testemunhas de Jeová foram tiradas do “mundo” da humanidade, especialmente da Cristandade, e têm recebido instruções e direção central por meio de um “canal de comunicação” terrestre, o que levou todas a serem unidas dentro da forma atual da organização delas. A nação de Israel é usada como um “tipo” ou quadro da altamente organizada Torre de Vigia. Será que a Lei Mosaica criou uma estrutura administrativa centralizada como a que existe entre as atuais Testemunhas de Jeová?



[2] A revista A Sentinela compara a organização Torre de Vigia com a arca de Noé, como ‘provisão de Deus para a salvação’ dentro da qual todos os justos na terra se juntaram, para serem salvos da destruição no dilúvio. (A Sentinela de 1º de março de 1997, pág. 12, e muitas outras publicações). É interessante notar que o próprio Noé foi a única pessoa mencionada como justa no relato em Gênesis, bem como nas referências feitas a ele por Jesus e Pedro. (Gênesis 6:9; Mateus 24:38; 2 Pedro 2:5) Embora sua esposa, três filhos e três noras tenham sido salvos do dilúvio junto com ele, a Bíblia não dá qualquer ênfase à ideia de que a família de Noé foi salva porque era justa ou que apenas pessoas justas tiveram a permissão de entrar na arca. Depois do dilúvio, na época do pecado de Canaã, Jeová é mencionado como “Deus de Sem”. (Gênesis 9:26), o que gera a pergunta se Jeová era adorado por todos como Deus. Assim, é possível que pelo menos alguns da família de Noé podem ter sido poupados, não por serem justos, mas por causa de Noé e para dar continuidade à raça humana. Mais tarde, foi oferecida a toda a família do justo Ló, incluindo os genros, a oportunidade de salvação da destruição de Sodoma e Gomorra, muito embora só o próprio Ló parece ter demonstrado um forte compromisso com a adoração verdadeira, com base no relato bíblico sobre suas ações. (Compare com Gênesis 19:12-36; 2 Pedro 2:7)

[3] Um exemplo é Jó, que ‘... se levantava de manhã cedo e oferecia sacrifícios queimados segundo o número de todos eles [seus filhos]; pois, dizia Jó, “meus filhos talvez tenham pecado e amaldiçoado a Deus no seu coração”. Assim Jó fazia sempre.’ (Jó 1:5)