Denegrindo a Imagem da Organização?

 

“Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no seu? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão.” (Mateus 7:3-5, Nova Versão Internacional)

Na revista A Sentinela de 15 de julho de 2011, págs. 15 e 16, aparece o seguinte trecho:

 

Não siga "falsos instrutores" 

3 Imagine-se viajando numa terra árida. Você vê um poço à distância e corre para lá, esperando encontrar água para matar a sede. Mas o poço está vazio. Que desapontamento! Falsos instrutores são como poços vazios. Todos os que os procuram em busca de águas da verdade ficam muito desapontados. Por meio dos apóstolos Paulo e Pedro, Jeová nos alerta contra falsos instrutores. (Leia Atos 20:29, 30; 2 Pedro 2:1-3.) Quem são esses instrutores? As expressões inspiradas desses dois apóstolos ajudam a identificar a origem dos falsos instrutores e como eles agem. 

4 Paulo disse aos anciãos da congregação de Éfeso: “Dentre vós mesmos surgirão homens e falarão coisas deturpadas.” Dirigindo-se aos cristãos, Pedro escreveu: “Haverá falsos instrutores entre vós.” Então, de onde vêm os falsos instrutores? Podem surgir de dentro da congregação. São apóstatas. O que querem? Eles não se contentam em apenas deixar a organização que um dia talvez tenham amado. O seu objetivo, como Paulo explicou, é “atrair a si os discípulos”. Note o artigo definido na expressão “os discípulos”. Em vez de procurar fazer seus próprios discípulos, os apóstatas tentam arrastar consigo os discípulos de Cristo. Como “lobos vorazes”, os falsos instrutores buscam devorar membros desavisados da congregação, destruindo a sua fé e os afastando da verdade. — Mat. 7:15; 2 Tim. 2:18. 

5 Como os falsos instrutores agem? Os seus métodos revelam astúcia. Eles ‘introduzem quietamente’ ideias corrompedoras. Assim como os contrabandistas, eles operam de modo clandestino, introduzindo sutilmente conceitos apóstatas. E, assim como um astuto falsificador tenta passar documentos falsificados, os apóstatas usam “palavras simuladas”, ou argumentos falsos, tentando passar por verdades seus conceitos inventados. Eles espalham “ensinos enganosos”, ‘deturpando as Escrituras’ para acomodar suas próprias ideias. (2 Ped. 2:1, 3, 13; 3:16) Obviamente, os apóstatas não desejam o nosso melhor. Segui-los nos desviaria do caminho para a vida eterna. 

6 Como nos proteger dos falsos instrutores? Os conselhos da Bíblia sobre como lidar com eles são claros. (Leia Romanos 16:17; 2 João 9-11.) “Que os eviteis”, diz a Palavra de Deus. Outras traduções dizem “afastem-se deles” e ‘desviem-se deles’. Não há nada ambíguo nesses conselhos inspirados. Suponha que um médico lhe recomendasse evitar o contato com alguém infectado com uma mortífera doença contagiosa. Você entenderia as palavras do médico e seguiria estritamente o seu conselho. Os apóstatas estão mentalmente ‘doentes’ e tentam contaminar outros com os seus ensinos desleais. (1 Tim. 6:3, 4, Bíblia Pastoral) Jeová, o Grande Médico, diz que devemos evitar o contato com os apóstatas. Sabemos o que ele quer dizer, mas estamos decididos a acatar seu alerta em todos os sentidos? 

7 O que está envolvido em evitar falsos instrutores? Nós não os recebemos em casa nem os cumprimentamos. Não lemos as suas publicações, não assistimos às suas apresentações na televisão, não acessamos os seus sites na internet nem adicionamos comentários aos seus blogs. Por que adotamos uma posição tão firme? Por causa do amor. Nós amamos o “Deus da verdade”, de modo que não nos interessamos em ensinos distorcidos contrários às verdades da Palavra de Deus. (Sal. 31:5; João 17:17) Além disso, nós amamos a organização de Jeová, por meio da qual aprendemos coisas maravilhosas — como o nome de Deus e seu significado, o Seu propósito para a Terra, a condição dos mortos e a esperança da ressurreição. Você se lembra de como se sentiu quando aprendeu essas e outras verdades preciosas? Por que, então, deixar-se contaminar por alguém que tenta denegrir a organização por meio da qual você aprendeu essas verdades? — João 6:66-69. 

8 Não importa o que os falsos instrutores digam, nós não os seguiremos! Por que recorrer a tais poços vazios só para ser enganado e ficar desapontado? Em vez disso, estejamos decididos a permanecer leais a Jeová e à organização que tem um longo histórico de saciar a nossa sede com as puras e refrescantes águas da verdade da inspirada Palavra de Deus. — Isa. 55:1-3; Mat. 24:45-47.

 

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O final do tópico descreve a organização Torre de Vigia como tendo “um longo histórico de saciar a nossa sede com as puras e refrescantes águas da verdade da inspirada Palavra de Deus.” Antes disso, o parágrafo 7 havia perguntado: 

“Por que, então, deixar-se contaminar por alguém que tenta denegrir a organização por meio da qual você aprendeu essas verdades?”

Cremos que ninguém tem mesmo o direito de denegrir uma organização, só pelo fato de ela fazer uma afirmação impressionante dessas sobre si mesma. Por outro lado, é óbvio (e até os que compõem a liderança da Torre de Vigia dizem isso repetidas vezes) que questionar afirmações não é o mesmo que denegrir pessoas ou organizações que fazem essas afirmações. Se fosse assim, a organização Torre de Vigia seria uma das maiores culpadas de “denegrir” outras religiões e seus líderes, pois sua literatura está repleta de questionamentos das idéias deles.

O problema que salta aos olhos nesse trecho é o que ele diz sobre os dissidentes da Torre de Vigia: A revista A Sentinela os acusa de “denegrir a organização”, e ao mesmo tempo apresenta essas pessoas como falsos instrutores, apóstatas, aliciadores, enganadores, dissimulados, deturpadores da Bíblia, desleais, mentalmente doentes e ainda os compara com poços vazios, lobos vorazes, contrabandistas e falsificadores. Tudo isso num pequeno trecho de apenas 6 parágrafos! Está o autor desse tópico da revista questionando alguma coisa dita por esses dissidentes? Dificilmente, até porque o parágrafo 7 proíbe terminantemente qualquer exame das informações deles, por qualquer meio que elas sejam apresentadas.1

Não, cada um desses termos representa a imagem que o escritor de A Sentinela tem dos dissidentes como indivíduos. Ele não poupa palavras para induzir seus leitores a terem esse mesmo conceito dessas pessoas. Será que alguém poderia dizer que isso não é “denegrir”?

Se os líderes desta organização religiosa não vêem qualquer problema em falar em termos tão abusivos contra pessoas que questionam ensinos deles, fazendo publicar isso em milhões de peças de literatura para distribuição mundial 2, não deveriam ficar surpresos que as pessoas às quais dirigem esses insultos achem absurda essa conversa sobre “denegrir” a imagem de outros e pensem imediatamente na declaração de Jesus citada acima.

 

Nota:

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1 É verdade que o parágrafo não está dizendo taxativamente algo como 'é proibido ler qualquer escrito dos dissidentes da organização.' Porém, a idéia da proibição está implícita nisso. Em outros casos, a liderança da organização usa termos ainda mais intimidatórios. A revista A Sentinela de 15 de maio de 2012 expressa a mesma proibição da seguinte maneira, na página 26: "Por exemplo, temos de evitar sucumbir à apostasia, um pecado que nos desqualificaria para glorificar a Deus. (Deut. 13:6-9) Portanto, não tenhamos nada a ver com apóstatas ou com qualquer um que afirme ser irmão, mas desonra a Deus. Deve ser assim mesmo que seja um membro de nossa família. (1 Cor. 5:11) De nada nos beneficia tentar refutar os argumentos de apóstatas ou dos que criticam a organização de Jeová. De fato, é espiritualmente perigoso e impróprio ler suas informações, quer em forma impressa, quer na internet. — Leia Isaías 5:20; Mateus 7:6. "

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A afirmação de que fazer isso é algo "espiritualmente perigoso e impróprio" tem o claro objetivo de intimidar os seguidores da organização, para mantê-los longe das informações divulgadas por esses que a liderança da Torre de Vigia classifica como "apóstatas" que 'desonram a Deus'.

2 Curiosamente, a página 19 deste número da revista apresenta este quadro:

Penas espalhadas ao vento

Um antigo conto judaico ilustra bem os efeitos de espalhar tagarelice maldosa. Apresentada em variadas versões, a essência da história é a seguinte:
Certo homem percorreu a cidade caluniando o sábio local. Mais tarde, o tagarela deu-se conta do dano que causara e dirigiu-se ao sábio para pedir perdão, prontificando-se a fazer qualquer coisa para reparar o seu erro. O sábio só tinha um pedido: que o caluniador apanhasse um travesseiro de penas e o abrisse, espalhando as penas ao vento. Embora intrigado com o pedido, o tagarela fez o que lhe foi mandado e, daí, voltou a falar com o sábio.
“Estou perdoado?”, perguntou.
“Primeiro, vá e ajunte todas as penas”, respondeu o sábio.
“Mas como? O vento já as espalhou.”
“Reparar o dano causado pelas suas palavras é tão difícil como recolher todas as penas.”
A lição é clara. Uma vez proferidas, as palavras não podem ser recuperadas, e talvez seja impossível sanar o mal que causaram. Antes de divulgar alguma tagarelice, será sensato nos lembrar de que, ao fazer isso, estaremos como que prestes a espalhar penas ao vento."

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O ato de percorrer uma cidade difamando outros é algo deplorável e realmente impõe uma responsabilidade a quem usa sua língua desse modo. Mais aplicável é esta ilustração sobre "espalhar penas ao vento" àquele que usa a página impressa com este mesmo objetivo, e em nível mundial.