Declarações Sobre 1799, 1874 e 1914

Afirmações Referentes a 1799

Russell e 1914

Mais Revisionismo

Sem Possibilidade de Erro

Verdade Estranha

Contrastes Estranhos

Mudanças Estranhas

O Restabelecimento da Confiança

__________________________

Afirmações Referentes a 1799

O livro O Tempo Está Próximo, edição de 1916, disse na página ii (prefácio):

A cronologia bíblica apresentada aqui mostra que seis grandes dias de 1000 anos, começando com Adão, estão terminando e que o grande 7º dia, os 1000 anos do reinado de Cristo, começou em 1873.

O livro O Dia da Vingança (A Batalha do Armagedom), 1897, disse na página 621:

Nosso Senhor, o Rei designado, está agora presente, desde outubro de 1874.

O livro A Harpa de Deus, de 1921, disse na página 236:

"O tempo do fim" abrange um período desde 1799 A.D., como indicado acima, até o tempo do desmoronamento completo do império de Satanás e o estabelecimento do reino do Messias. O tempo da segunda presença do Senhor data em 1874, conforme indicado acima. Este último período está dentro do primeiro mencionado, naturalmente, e na parte final do período conhecido como "o tempo do fim."

Depois de descrever o desenvolvimento de Sociedades Bíblicas, o aumento do número de faculdades e todos os tipos de invenções, o livro A Harpa de Deus diz sobre tais na página 239:

Isto é sem dúvida o cumprimento da profecia testificando o “tempo do fim”. Estes fatos físicos não podem ser contestados e são suficientes para convencer qualquer mente razoável de que estamos no "tempo do fim" desde 1799.

Note-se que tudo o que é "sem dúvida" é logicamente infalível. A palavra "infalível" não foi usada, mas, para todos os efeitos, a alegação foi feita. E se alguém duvidasse ou não estivesse convencido, bem, essa pessoa simplesmente não tinha uma "mente razoável".

De modo similar a revista A Torre de Vigia de 1º de março de 1922 disse:

Portanto, os fatos incontestáveis mostram que o "tempo do fim" começou em 1799; que a segunda presença do Senhor começou em 1874.

O livro Criação, de 1927, páginas 294, 295 e 298 disse:

Mil duzentos e sessenta anos a partir de 539 A.D. nos levam a 1799, o que é outra prova de que 1799 marca definitivamente o início do "tempo do fim". Desde pouco depois de 1799, a data do início do "tempo do fim", devemos esperar encontrar um aumento do conhecimento, particularmente com referência à Bíblia.

Há aqui duas datas importantes que não devem ser confundidas e sim diferenciadas claramente, a saber, o começo do "tempo do fim" e o começo da "presença do Senhor". "O tempo do fim" abrange um período desde 1799 A.D., conforme indicado acima, até a época da completa derrocada do império de Satanás e do estabelecimento do reino do Messias. O tempo da segunda presença do Senhor data de 1874, conforme já declarado. Evidentemente, o segundo período está dentro do primeiro mencionado, e abrange a última parte do período conhecido como "o tempo do fim". [1]

O livro Profecia, de 1929, páginas 65-66, disse:

... a segunda presença do Senhor Jesus Cristo começou em 1874 A.D. Esta prova é estabelecida especificamente no folheto intitulado O Retorno de Nosso Senhor.

Russell e 1914

Apesar do que muitas Testemunhas de Jeová acreditam hoje, C. T. Russell não acreditava que 1914 marcaria o estabelecimento do Reino de Deus no céu, porque, segundo ele, isso já tinha ocorrido em 1878. Nem acreditava ele que 1914 seria seguido por outra geração de conflito, sem qualquer intervenção de Deus. Ele esperava que em 1914 os santos seriam glorificados e levados para o céu para governar com Jesus. Ao mesmo tempo, Deus causaria a dissolução de todos os reinos da terra e os substituiria pelo regime teocrático durante o resto do Milênio. Russell acreditava que Deus restauraria a humanidade à perfeição – Ele não destruiria a todos na Batalha do Armagedom, porque isso já tinha começado em 1874 (veja abaixo). Estas crenças são evidentes no que Russell escreveu no primeiro volume da série Aurora do Milênio (Estudos das Escrituras), intitulado O Plano Divino das Eras, publicado originalmente em 1886. Nas páginas 91 e 95 da edição de 1903 Russell escreveu:

... mas quando a Palavra de Deus e o plano são vistos como um todo, percebe-se que todos favorecem o conceito... de que Cristo vem antes da conversão do mundo, e reina com a finalidade de converter o mundo .... Eles acreditam que Deus não vai fazer mais do que escolher esta Igreja, ao passo que vemos as Escrituras ensinando mais um passo no plano divino – uma restituição para o mundo, a ser realizada por meio da Igreja eleita.

Na página 307 Russell descreveu os eventos que deveriam levar ao fim dos “Tempos dos Gentios”, em 1914:

O "Dia de Jeová" é o nome desse período de tempo em que o reino de Deus, sob Cristo, deve ser gradualmente "estabelecido" na terra, enquanto os reinos deste mundo estão passando, e o poder e a influência de Satanás sobre os homens está sendo restrita. Ele é descrito em todo lugar como um dia negro de intensa tribulação e angústia e perplexidade sobre a humanidade. E não admira que uma revolução de proporções tais, que necessite de mudanças tão grandes, deva causar problemas. Pequenas revoluções causaram problemas em todas as eras, e esta, que é muito maior do que qualquer revolução anterior, deverá ser um tempo de tribulação como nunca houve desde que existe  nação - não, nem jamais haverá...

É o chamado "Dia de Jeová", porque, embora Cristo, com título e poder régio, estará presente como representante de Jeová, assumindo o controle de todos os assuntos os durante este dia da angústia, é mais como o General de Jeová, subjugando todas as coisas, do que como o Príncipe da Paz, abençoando tudo ...

A frase "Cristo... estará presente" é extremamente importante, pois Russell vinha publicando há muitos anos que a "segunda presença" de Cristo começou em 1874. Assim, o "Dia de Jeová" tinha começado em 1874. Em O Plano Divino das Eras este período de tempo é também chamado de "Dia da Vingança de nosso Deus" (pág. 308) o "Dia da Ira" (pág. 308), o "Dia do Senhor" (págs. 324, 334, 336, 337), e o "Dia de Tribulação" (pág. 336).

O livro O Plano Divino das Eras deixou a consideração sobre datas específicas para o próximo volume da série, publicado em 1889, O Tempo Está Próximo, sobre o que este disse, nas páginas 336-7:

Outro pensamento com referência a este Dia de Tribulação é que ele chegou justamente no tempo devido – o tempo apropriado de Deus. No próximo volume desta obra apresenta-se evidência a partir do testemunho da Lei e dos Profetas do Antigo Testamento, bem como de Jesus e dos profetas apostólicos do Novo Testamento, que mostra de forma clara e inequívoca que este Dia de Tribulação situa-se cronologicamente no início do glorioso reinado milenar do Messias... A tribulação do Dia do Senhor, a qual já vemos assomando, confirma a sabedoria do plano de Deus.

No prefácio à edição de 1916 de O Tempo Está Próximo, Russell admitiu que suas previsões não haviam se concretizado (pág. x):

O autor reconhece que apresenta neste livro o pensamento de que os santos do Senhor poderiam esperar estar com Ele em glória no fim dos tempos dos gentios. Este foi um erro natural no qual se pode cair, mas o Senhor o invalidou para a bênção de Seu povo. O pensamento de que a Igreja seria toda ajuntada em glória antes de outubro de 1914, teve certamente um efeito muito estimulante e santificador sobre milhares, todos os quais podem conseqüentemente louvar ao Senhor – até mesmo pelo erro.

Russell acreditava que ele e seus seguidores eram servos especiais de Deus, referindo-se a eles como “santos”. Ele disse sobre estes, na página 338:

Surge uma importante questão quanto ao dever dos santos durante esta tribulação, e sua atitude apropriada para com as duas classes antagônicas que agora estão atingindo a proeminência. Que alguns dos santos ainda estarão na carne durante pelo menos uma parte deste tempo abrasador parece possível...

Note-se também o que Russell disse em O Tempo Está Próximo, páginas 40, 100:

Se, então, o sétimo período de mil anos da história da Terra for uma época especialmente notável, como o período do reinado de Cristo, ao mostrar que ele começou em 1873 A.D., estaremos provando que já estamos nele. Isso remete ao que já observamos no volume anterior, que as Escrituras indicam que a aurora do Milênio, ou o Dia do Senhor, será escuro e tormentoso, e cheio de tribulação sobre o mundo e sobre a igreja nominal. ...

Assim, neste "Dia de Jeová", o "Dia de Tribulação", nosso Senhor assume seu grande poder (até então adormecido) e reina, e isso é o que causará a tribulação, embora o mundo não reconhecerá isso por algum tempo...

Veja a citação da página 101 adiante para uma declaração de que Reino estabelecido de Deus já tinha começado a exercer o poder em 1878, e que (isto foi escrito em 1889) "estamos bem no meio” dos eventos do “Dia do Senhor”.

Mais Revisionismo

O livro O Tempo Está Próximo, (publicado originalmente em 1889), disse a respeito dos Tempos dos Gentios, nas páginas 76-77 (conforme a edição do início de 1912):

O Reino de Deus, o Reino do Ungido de Jeová ... será estabelecido gradualmente, durante um grande período de tribulação com o qual a era do Evangelho vai se encerrar, no meio do qual os domínios atuais serão totalmente consumidos, acabando em meio a grande confusão.

Neste capítulo apresentamos a evidência bíblica provando que o fim completo dos Tempos dos Gentios, isto é, o fim completo de sua permissão para dominar, será atingido em 1914 A.D., e que essa data será o limite final do governo dos homens imperfeitos. E deve-se notar que, se isso mostra ser um fato firmemente estabelecido pelas Escrituras, ele provará: -

Em primeiro lugar, Que nessa data o Reino de Deus, pelo qual nosso Senhor nos ensinou a orar, dizendo, “Venha o Teu Reino”, terá obtido  controle completo, universal, e que será então “posto” ou firmemente estabelecido, na terra, sobre as ruínas das instituições atuais.

Em segundo lugar, Provará que aquele a quem pertence o direito de tomar o domínio estará então presente como novo governante da terra; e não só isso, mas provará também que ele estará presente por um período considerável antes dessa data, porque a derrubada destes governos gentios é causada diretamente por ele despedaçá-los como um vaso de oleiro (Sal 2:9; Rev. 02:27), estabelecendo no lugar deles o seu próprio governo justo.

Em terceiro lugar, Provará que algum tempo antes do fim de 1914 A.D. o último membro da divinamente reconhecida Igreja de Cristo, o “sacerdócio real”, “o corpo de Cristo”, será glorificado com o Cabeça; porque todo membro deve reinar com Cristo, sendo co-herdeiro do Reino com ele, e ele [o Reino] não pode ser completamente “estabelecido” sem estarem todos os membros.

Em quarto lugar, Provará que daquela época em diante Jerusalém não será mais pisada pelos Gentios, mas levantar-se-á do pó do desfavor divino, para a honra; porque os “Tempos dos Gentios” estarão cumpridos ou completos.

Em quinto lugar, Provará que naquela data, ou antes disso, a cegueira de Israel começará a ser retirada; porque sua 'cegueira em parte' deveria continuar só 'até que entrasse a plenitude dos Gentios' (Rom. 11:25), ou, em outras palavras, até que o número completo dentre os gentios, que vão ser membros do corpo ou noiva de Cristo, seja totalmente selecionado.

Em sexto lugar, Provará que o grande 'tempo de tribulação tal como nunca ocorreu desde que existe nação', alcançará a sua culminação num reinado mundial de anarquia; e daí os homens aprenderão a ficar quietos, e saberão que Jeová é Deus e que Ele deverá ser exaltado na terra.

Em sétimo lugar, Provará que antes dessa data o Reino de Deus, organizado em poder, estará na terra e então atingirá e esmagará a imagem gentia (Daniel 2:34) – e consumirá completamente o poder destes reis. Seu próprio poder e domínio será estabelecido tão logo por suas diversas influências e agências que esmagam e dispersam as “autoridades existentes” – civis e eclesiásticas – ferro e argila.

Note-se que as declarações acima são de uma edição do início de 1912. Posteriormente em 1912 e em edições de anos subsequentes algumas das afirmações foram editadas da seguinte maneira:

Neste capítulo apresentamos a evidência bíblica provando que o fim completo dos Tempos dos Gentios, isto é, o fim completo de sua permissão para dominar, será atingido em 1914 A.D., e que essa data presenciará a desintegração do governo dos homens imperfeitos.

Em primeiro lugar, Que nessa data o Reino de Deus, pelo qual nosso Senhor nos ensinou a orar, dizendo, “Venha o Teu Reino”, começará a assumir o controle, e que será então pouco depois “posto” ou firmemente estabelecido...

Em terceiro lugar, Provará que algum tempo antes do fim da derrubada o último membro da divinamente reconhecida Igreja de Cristo...

Nas páginas 98, 99 o livro O Tempo Está Próximo havia dito:

É verdade que se esperam grandes coisas para alegar, como fazemos, que dentro dos próximos vinte e seis anos todos os governos atuais serão derrubados e dissolvidos; mas estamos vivendo numa época especial e peculiar, o “Dia de Jeová”, no qual os assuntos culminam rapidamente; e está escrito, “o Senhor executará uma obra abreviada sobre a terra”.

Em vista desta forte evidência bíblica referente aos Tempos dos Gentios, consideramos uma verdade estabelecida que o fim dos reinos deste mundo, e o pleno estabelecimento do Reino de Deus, será realizado por volta do fim de 1914 A.D.

As edições posteriores a 1912 mudaram o segundo parágrafo para:

Em vista desta forte evidência bíblica referente aos Tempos dos Gentios, consideramos uma verdade estabelecida que o fim dos reinos deste mundo, e o pleno estabelecimento do Reino de Deus, será realizado perto do fim de 1915 A.D.

A Torre de Vigia tende a minimizar a certeza com que Russell publicou declarações como estas, mas a declaração expressa de que “consideramos uma verdade estabelecida” mostra claramente a intenção de Russell. Na página 101 da edição de 1908 de O Tempo Está Próximo, foi dito:

Não se surpreenda, então, quando em estudos subseqüentes apresentarmos provas de que o estabelecimento do Reino de Deus já começou, que se aponta na profecia como devendo começar o exercício do poder em 1878 A.D., e que a “batalha do grande dia do Deus Todo-Poderoso” (Rev. 16:14), que terminará em 1914 A.D. [Edições posteriores de O Tempo Está Próximo mudaram isso [2] para 1915], com a completa derrocada do governo atual da terra, já tendo começado. O ajuntamento dos exércitos é claramente visível do ponto de vista da Palavra de Deus.

Se a nossa visão estiver livre de preconceitos, quando temos o telescópio da Palavra de Deus regulado corretamente, podemos ver claramente o caráter de muitos dos eventos destinados a ocorrer no “dia do Senhor” — que estamos justamente no meio desses eventos, e que chegou “o Grande Dia da Sua Ira”.

A Torre de Vigia tende também a minimizar a força com que Russell predisse os eventos para 1914. O livro As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino disse na página 52 (em inglês), debaixo do subtítulo “Sólido Aviso Contra a Especulação”:

TOM: Você disse antes que o Pastor Russell não estava muito certo quanto ao que ocorreria exatamente em 1914. Era essa a atitude geral das Testemunhas naquela época?

JOHN: Não há dúvida de que muitos ao longo daquele período tiveram excesso de zelo em suas declarações a respeito do que se poderia esperar. Alguns leram em A Torre de Vigia declarações que nunca foram intencionadas, e ao passo que foi necessário Russell chamar atenção para a certeza de que uma grande mudança era apropriada no fim dos tempos dos gentios, ele ainda assim incentivou seus leitores a manter a mente aberta, especialmente no que se refere ao elemento tempo. Podemos ler diversos trechos diferentes de A Torre de Vigia ao longo dos anos para demonstrar isso. Por exemplo, já em 1885 Russell escreveu em A Torre de Vigia:

As nuvens de tempestade estão se avolumando sobre o velho mundo. Parece que uma grande guerra européia é uma das possibilidades no futuro próximo.

Aparentemente, o autor quer dizer que o uso da palavra “possibilidades” aqui é uma advertência contra a especulação.

Daí, segue-se um quadro bastante drástico da situação do mundo...

A matéria no livro TJPD (As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino) fala sobre grandes mudanças, mas não contém qualquer advertência contra a especulação. No entanto, o quadro apresentado no livro TJPD é um tanto diferente do que a revista A Torre de Vigia citada realmente dizia:

A superprodução  para o momento obstruiu as rodas do comércio em todo o mundo, e os produtores clamam por uma interrupção por medo da perda. Os primeiros a sentirem o efeito são os assalariados, muitos dos quais vivem “ao deus-dará”. A inquietação se precipita agora mais rapidamente do que antes nesta classe por causa de uma gama mais ampla de conhecimento. Grandes encontros de homens se reuniram em Londres e Paris recentemente exigindo que se busquem algumas melhorias públicas para lhes proporcionar trabalho...

Assim, uma coisa leva a outra e irá de mal a pior durante todo o “tempo de tribulação tal como nunca houve desde que existe nação” até que esses governos atuais com seu príncipe... falsamente chamados de "Reinos de Deus" caiam diante do verdadeiro reino, e o domínio debaixo de todo os céus seja dado ao povo dos santos do Deus Altíssimo.

O quadro retratado é que a guerra era uma possibilidade muito forte, em um futuro muito próximo, e não cerca de trinta anos depois, e que o momento em que o artigo foi escrito, 1885, estava bem no meio do “tempo de tribulação”. Deve-se lembrar que O Plano Divino das Eras havia dito que o “tempo de tribulação” tinha começado com o início do reinado milenar de Cristo (pág. 336), em 1874. Russell começou a mudar seu conceito sobre a proximidade da guerra no começo da década de 1890.

Em seguida, o livro TJPD diz:

Em 1893 A Torre de Vigia declarou:

Uma grande tempestade está próxima. Embora não se pode saber exatamente quando ela irromperá, parece razoável supor que não pode ser mais do que 12 ou 14 anos no futuro.

A idéia parece ser que a declaração “não se pode saber exatamente quando ela irromperá” é acauteladora. Isso é da página 194 do número de 1-15 de julho de 1893 de A Torre de Vigia de Sião, mas as Reimpressões de A Torre de Vigia não reproduziram esta página. Porém, A Torre de Vigia original continha a citação acima, debaixo do subtítulo “O Trabalho de Colheita Antes da Tempestade”, e este artigo falava sobre o período de 1874 a 1914, no qual Russell afirmou que uma obra de colheita 40 anos deveria ser feita. Alguns anos antes de 1914, ou seja, por volta de 1905-1907, segundo a citação acima, “uma grande tempestade” irromperia, a qual culminaria na derrocada final de todas as instituições humanas em 1914. De modo que, em vez de ser um aviso contra a especulação, essa citação a alimentava. Pode-se ver isso de modo muito mais claro em outra declaração na mesma página:

Alguns podem estar inclinados a pensar que o trabalho de colheita está feito em grande parte, mas, provavelmente a maior parte deste trabalho deverá ser feita nos próximos seis ou oito anos.

Sem Possibilidade de Erro

A edição de 1º e 15 de 1893 de A Torre de Vigia é bastante reveladora quanto à opinião de Russell sobre o que iria acontecer antes de 1914, e que ele não achava que suas opiniões eram especulações de qualquer espécie. Nas páginas 282-284 ele disse (pág. 1581 das Reimpressões):

Vem de muitos lugares a pergunta: “Irmão Russell, não estaria você possivelmente errado em alguns anos em seus cálculos, uma vez que você espera, com base na autoridade das Escrituras, que a grande tribulação estará terminada por volta de 1914 A.D., e que sua  severidade, provavelmente não virá sobre nós antes de 1906-1908 A.D.? Não há a possibilidade de que a atual angústia financeira seja o início da grande tribulação?”

Respondemos: Não, nós pensamos que não há qualquer erro.

A Torre de Vigia de 15 de julho de 1894 enfatizou que os fatos apoiavam sua cronologia. Nas páginas 224-8 (pág. 1675 das Reimpressões), disse:

É interessante olhar para trás e observar a precisão do cumprimento da Palavra de Deus, para que nossos corações fiquem estabilizados com a maior confiança com respeito ao futuro – as coisas que vêm sobre a terra. Por exemplo, quando olhamos para trás e notamos que as Escrituras marcaram 1873 como o fim de seis mil anos desde Adão e o início do sétimo milênio, e o outono de 1874 como o início da colheita de 40 anos da era do Evangelho e o dia da ira para a derrocada de todas as instituições “deste atual mundo iníquo [ou ordem de coisas]”, podemos ver que os fatos corroboraram bem essas previsões das Escrituras. Vemos que a atual aflição mundial teve seu início lá; que foi progredindo com impulso crescente a cada ano desde então; e que, conforme o apóstolo Paulo declarou que seria, assim foi, e é – “como as dores vêm sobre uma mulher grávida.” Cada espasmo de dor é mais intenso, e assim continuará sendo, evidentemente até a morte da atual ordem das coisas e o nascimento da nova.

Em seguida, o livro TJPD cita A Torre de Vigia de 15 de fevereiro de 1894, mas a citação refere-se apenas a grandes mudanças, não a evitar a especulação.

A citação seguinte do TJPD, do número de 11 de junho de 1894 de A Torre de Vigia, página 162 (não reproduzida nas Reimpresssões de A Torre de Vigia) não fala sobre evitar a especulação. É surpreendente que a citação tenha sido reproduzida, porque ela anula completamente o argumento do livro TJPD:

Como as dores que vêm sobre uma mulher grávida” é a descrição inspirada do dia de tribulação de 40 anos, que dá início à era do Milênio. O pânico de 1873, que afetou o mundo inteiro, foi o primeiro espasmo, e desde então a intervalos irregulares, as agonias trabalhistas da terra foram sentidas. Agora mesmo, nós, dos Estados Unidos estamos no meio de uma dessas aflições da criação que geme.

A Torre de Vigia se referia à grande depressão de 1894, a maior ocorrida antes da depressão da década de 1930. Mas, novamente, isso estava se referindo aos eventos que ocorreriam como parte da agonia final da humanidade logo antes da morte, como se pode ver no próximo parágrafo no artigo, que o livro TJPD não citou:

Nesta terra de colheitas abundantes, muitos, por causa das greves, estão quase desprovidos de alimentos. Nesta terra de liberdade milhares de homens armados e desarmados em meia dúzia de estados estão em estado de guerra. É uma guerra do trabalho contra o capital, e é o resultado natural do sistema competitivo dos negócios, o que, evidentemente, vai se manter até espasmo após espasmo de gravidade crescente, resultando em anarquia que acabará por dar origem a uma nova ordem da sociedade baseada no novo-antigo ensino de Cristo.

À luz da história, é evidente que o próprio Russell favoreceu ampla especulação, uma vez que quase todos os ensinos dele sobre cronologia foram abandonados e todos falharam. Ele se envolveu nesta especulação enquanto afirmava ser o porta-voz de Deus. No número de 15 de julho de 1906 de A Torre de Vigia, página 229, ele escreveu:

São muitas as perguntas a respeito das verdades apresentadas em Aurora do Milênio e em A Torre de Vigia de Sião quanto a de onde vieram e como é que se desenvolveram até atingirem as proporções simétricas e belas de hoje – Foram elas o resultado de visões? Será que Deus revelou de alguma maneira sobrenatural a solução destes até agora mistérios do seu plano? São os escritores algo mais do que pessoas normais? Alegam eles ter alguma sabedoria ou poder sobrenaturais? Ou como é que se dá esta revelação da verdade de Deus?

Não, caros amigos. Não alego qualquer superioridade, nem poder, dignidade ou autoridade sobrenaturais; nem pretendo exaltar-me frente aos meus irmãos da família da fé...

Não, as verdades que apresento, como porta-voz de Deus não foram reveladas em visões ou sonhos, tampouco pela voz audível de Deus, nem todas elas de uma só vez, e sim gradativamente; especialmente desde 1870 e, particularmente desde 1880. Tampouco é este claro desvendamento da verdade devido a qualquer habilidade ou aguçada percepção humana, e sim devido ao simples fato de que chegou o tempo devido de Deus; e, se eu não falasse e não se pudesse encontrar outro instrumento, as próprias pedras clamariam.

Diversas vezes Russell deu a entender claramente que não havia possibilidade de ele estar errado. A Torre de Vigia de Sião de 15 de julho de 1894, disse na página 226 (pág. 1.677 das Reimpressões), debaixo do subtítulo “Pode Ser Adiado Até 1914?”:

Dezessete anos atrás as pessoas diziam, com relação aos aspectos cronológicos apresentados em Aurora do Milênio: Eles parecem razoáveis em muitos sentidos, mas certamente não poderia ocorrer quaisquer mudanças radicais entre o momento atual e o final de 1914; se vocês tivessem provado que ocorreriam em um século ou dois, isso pareceria muito mais provável.

Que mudanças têm ocorrido desde então e que velocidade estas ganham diariamente?

“O velho está passando rapidamente e o novo está chegando.”

Agora, em vista dos recentes problemas trabalhistas e da ameaça de anarquia, nossos leitores estão escrevendo para saber se não poderia haver algum erro na data de 1914. Eles dizem que não vêem como as condições atuais podem se manter tanto tempo sob a tensão.

Não vemos motivo algum para mudarmos os números — nem poderíamos mudá-los se quiséssemos. Eles são, conforme cremos, datas de Deus, não nossas. Mas, tenham em mente que o fim de 1914 não é a data para o início, mas para o fim do tempo de aflição. Não vemos motivo algum para alterarmos nossa opinião expressa no conceito apresentado em A Torre de Vigia de 15 de janeiro de 1892. Incentivamos que ela seja lida novamente.

A edição de 15 de janeiro de 1892 de A Torre de Vigia disse na página 19:

As Escrituras dão testemunho inconfundível para os que têm plena confiança em seus registros, de que há um grande tempo de tribulação depois da  da comparativa calma atual no mundo – uma tribulação que irá envolver todas as nações, derrubar todas as instituições existentes, civil, social e religiosa, trazer um reino universal de anarquia e terror, e prostrar a humanidade no próprio pó do desespero, preparando-a desta forma para apreciar o poder que trará ordem a essa confusão e instituirá o novo reino de justiça. As Escrituras nos mostram que tudo isso deve ocorrer antes do ano de 1914 (Veja Aurora do Milênio, Vol. II, Capítulo IV.) – ou seja, dentro dos próximos 23 anos.

Se o testemunho bíblico era “inconfundível”, se Russell estava apresentando “datas de Deus”, e se ele era o “porta-voz de Deus”, de que valor seria qualquer advertência contra a especulação, já que ele mesmo era a fonte dela? Quem duvidaria das datas “de Deus”?

Esta mesma edição de A Torre de Vigia prosseguia dizendo:

Todos os homens de reflexão, tenham eles fé na Palavra da profecia ou não, vêem na atitude atual da humanidade em geral uma tendência crescente que ameaça chegar a um auge, e eles ficam com medo e pavor disso. Como conseqüência, os jornais diários e os semanários e mensários, religiosos e seculares, estão continuamente discutindo as perspectivas de guerra na Europa. Eles observam as queixas e ambições das várias nações e predizem que a guerra é inevitável num dia não distante, que ela pode começar a qualquer momento entre algumas das grandes potências, e que as perspectivas são de que ela acabará por envolver todas elas. E eles retratam a calamidade terrível de um evento assim, tendo em vista os preparativos feitos para ele por parte de todas as nações. Durante vários anos passados, os observadores de reflexão disseram que a guerra não pode ser evitada por muito mais tempo: ela deve vir em breve - “na próxima primavera”, “no próximo verão”, “no próximo outono”, etc.

Mas, não obstante essas previsões e as boas razões que muitos vêem para fazê-las, nós não compartilhamos delas. Isto é, não pensamos que as perspectivas de uma guerra européia geral sejam tão evidentes como geralmente se supõe. É verdade que toda a Europa é como um grande paiol, que uma única centelha poderia desencadear a qualquer momento uma tremenda explosão. Várias nações estão armadas até os dentes com as armas mais destrutivas que a habilidade e o engenho podem inventar, e há queixas  e desavenças nacionais e ódio que devem encontrar um desafogo em algum momento, e tendo em vista essas coisas a nuvem guerra está sempre iminente e o tempo todo escura, mas as coisas podem continuar exatamente assim por muitos anos, e achamos que vão.

Estes rumores de iminentes guerras européias e o desejo de julgar se a observação tenderia a confirmar a revelação divina de que a intensidade da grande tribulação prevista ainda está a cerca de 15 anos no futuro, constituiu boa parte de nossa motivação em visitar a Europa durante o verão passado.

O número de 1º de outubro de 1904 de A Torre de Vigia de Sião, páginas 296-8 (págs. 3436-8 das Reimpressões) publicou uma carta de um homem que apontou que a cronologia de Russell estava em conflito com os dados fornecidos pelo Cânon de Ptolomeu, e que ele entendia que o conceito de Russell sobre os tempos dos gentios tinha mudado. Russell respondeu longamente, salientando que mudar sua cronologia em um ano sequer a deixaria completamente fora de sintonia. Ele enfatizou sua fé em suas datas:

Não sabemos de nenhuma razão para mudar uma data: fazer isso estragaria as harmonias e os paralelos tão evidentes entre as eras judaica e evangélica... Além disso, o irmão parece nos interpretar, como se ensinássemos que nenhuma grande tribulação virá antes de outubro de 1914 A.D. Isto é incorreto: esperamos a grande tribulação de Rev. 13:15-17 antes dessa data...

Uma pergunta sobre a cronologia de Russell surgiu já em 1904 – o que dizer do “ano zero”? Foi o período de tempo entre 1 A.C. e 1 A.D. de um ano, ou dois? Russell discutiu isso, bem como resumiu a aplicação disso em sua cronologia, na edição de 1º de dezembro de 1912 de A Torre de Vigia, páginas 377-8. Ele estava, evidentemente, um tanto confuso sobre isso, e disse que o fim dos tempos dos gentios poderia ser tanto 1914 como 1915. Ele também atenuou consideravelmente suas declarações em comparação com as anteriores. Isto mostra claramente que foi só com a aproximação de 1914 que se pode dizer que ele realmente advertiu contra a especulação:

Uma vez que esta questão está agitando as mentes de um número considerável de amigos, nós a apresentamos aqui com algum detalhe. Lembramos aos leitores, no entanto, que nada nas Escrituras diz definitivamente que a tribulação causada pelos gentios será completada antes do fim dos Tempos dos Gentios, seja este em outubro de 1914 ou outubro de 1915. A tribulação será, sem dúvida, considerável antes do abalo final, muito embora esse abalo venha de repente, como o lançamento de uma grande mó no mar. (Rev. 18:21) O paralelo entre a colheita judaica e a colheita atual seria confirmaria o entendimento de que a tribulação completa se cumprirá em outubro de 1915.

Muitos dos nossos leitores se lembrarão de nossa referência a este assunto num sermão pregado em Allegheny, Pensilvânia, em 11 de janeiro de 1904, e publicado no Pittsburgh Gazette. Fizemos um extrato desse sermão conforme segue:

“Descobrimos, então, que os sete tempos de punição de Israel e os Sete Tempos da dominação gentia são os mesmos; e que eles começaram com o cativeiro de Zedequias, e, como será visto com base na Carta [das Eras], eles terminam no ano de 1915. Segundo as melhores evidências obtidas sobre este assunto, sincronizadas com o testemunho bíblico, o cativeiro de Zedequias ocorreu em  outubro, 605 3/4 anos antes do ano 1. Se acrescentarmos a isso 1914 3/4 anos, teremos outubro de 1915 como a data para o fim da supremacia dos gentios no mundo – o fim da permissão de 2.520 anos, que não será renovada. Em vez disso, aquele que tem o direito ao reino tomará posse dele. Desta forma, isto marca o momento em que o próprio Senhor deve assumir o controle dos assuntos do mundo, para acabar com o reino do pecado e da morte, e para trazer a Verdadeira Luz.”

Há certamente margem para ligeiras diferenças de opinião neste assunto e cabe-nos conceder uns aos outros a maior tolerância. A permissão de poder para os Gentios pode acabar tanto em outubro de 1914 como em outubro de 1915. E o período de intensa luta e anarquia “tal como nunca ocorreu desde que existe nação” pode ser o ponto final dos Tempos dos Gentios ou o início do reino do Messias. [Veja o Vol. 2 de Estudos das Escrituras.].

Mas lembramos mais uma vez a todos os nossos leitores que não profetizamos nada sobre os tempos dos gentios se encerrando com um tempo de tribulação, nem sobre a época gloriosa que logo se seguirá a essa catástrofe. Simplesmente apontamos o que as Escrituras dizem, apresentando nossos conceitos acerca do seu significado e pedindo aos nossos leitores que julguem por si mesmos o que eles significam. Essas profecias ainda dizem a mesma coisa para nós. Devemos sempre ver motivos para mudar nossa crença, fiquem certos de que estaremos dispostos a alertar vocês  com respeito a essa mesma coisa, e dar a vocês o motivo. No entanto, alguns podem fazer declarações positivas do que sabem e do que não sabem; nunca nos permitimos isso, mas simplesmente afirmamos que cremos nisso ou naquilo, por tais e tais razões.

Muitos que estão dispostos a contestar cada declaração de fé com relação ao tempo e ao fim desta era e o alvorecer da nova era são muito positivos em suas afirmações. Alguns deles declaram que seguramente o fim desta era ainda pode demorar 50 mil anos. Outros, com positividade similar, dizem que pode acontecer a qualquer momento. Nenhuma dessas pessoas apresenta qualquer prova bíblica. Então, por que qualquer uma delas deveria nos criticar pelo fato de simplesmente apresentarmos os testemunhos das Escrituras e as nossas opiniões a respeito do significado deles, e incentivarmos outros a investigar e formar sua própria opinião?

Russell realmente queria ter o melhor dos dois mundos: os da “família da fé” podiam julgar por si mesmos se as previsões dele estavam corretas, mas qualquer um que chegasse à conclusão de que elas não estavam corretas eram classificados como pessoas com “falta de fé”, como mostrado abaixo. Ele não “profetizava”, porque isso significa “inspiração”, e ele não tinha “conhecimento”, porque isso significa certeza absoluta, mas ele alegava ter o apoio de Deus para o que dizia, porque ele era o “porta-voz de Deus”.

Isto é perfeitamente ilustrado pelo que A Torre de Vigia de Sião de 1º de outubro de 1907, sete anos antes de 1914, disse no artigo "Conhecimento e Fé Referente à Cronologia", na página 295:

Um querido irmão pergunta: Podemos estar absolutamente certos de que a cronologia estabelecida nos ESTUDOS DA AURORA está correta? — de que a colheita começou em 1874 A.D. e terminará em 1914 A.D. numa tribulação mundial, que eliminará todas as instituições atuais e será seguida pelo reino de justiça do Rei da Glória e de sua noiva, a igreja?

Respondemos, como fizemos freqüentemente antes nas AURORAS e revistas TORRE DE VIGIA e oralmente e por carta, que nunca afirmamos que nossos cálculos fossem infalivelmente corretos; nunca afirmamos que fossem conhecimento, nem baseados em evidência incontestável, fatos, conhecimento; nossa afirmação sempre foi que eles se baseiam em .

As datas já não pareciam ser “datas de Deus”, pois elas poderiam ser falíveis. Esse mesmo artigo, no entanto, continua dando a entender que os que duvidassem desses cálculos tinham falta de fé. Deve-se perguntar: Fé em Deus ou fé nas predições de Russell? O artigo diz:

Lembramos mais uma vez que os pontos fracos da cronologia são suplementados pelas várias profecias que se entrelaçam com ela de maneira tão notável que a fé na cronologia se torna quase conhecimento de que ela está correta. A mudança de um único ano tiraria a harmonia dos belos paralelos; já que algumas profecias são contadas a partir de A.C., algumas a partir de A.D., e algumas dependem de ambos os períodos. Cremos que Deus queria que essas profecias fossem entendidas ‘no tempo devido’; cremos que as compreendemos agora — que elas nos falam por meio desta cronologia. Não selam elas desse modo a cronologia? Selam com respeito à fé, mas não de outro modo. Nosso Senhor declarou, “O sábio entenderá”; e ele nos diz “Vigiai” para que possamos conhecer; e é esta cronologia que nos convence (aos que podem e a recebem pela fé) de que a Parábola das Dez Virgens está agora em processo de cumprimento — que seu primeiro grito foi ouvido em 1844 e que seu segundo grito, “Eis aqui o Noivo” — presente — foi em 1874.

Quão proveitoso é — ou, quanto a isso, quanta humildade demonstra — uma pessoa reconhecer sua falibilidade enquanto ao mesmo tempo dá a entender que só os que aceitam os conceitos dela estão demonstrando fé, estão entre os sábios que entenderão’? Não estariam aqueles que deixaram de atender a estes “gritos” de 1844 e 1874 classificados logicamente como as “virgens tolas” da parábola?

A Torre de Vigia não mudou suas práticas em relação a isso. Na verdade, a política dela é muito mais severa hoje do que no tempo de Russell. Se alguém simplesmente mencionar em público a possibilidade de a Torre de Vigia estar errada em algum ensino atual, essa pessoa está sujeita a ser classificada como “apóstata” e desassociada. Será que a Torre de Vigia não está “falando com ambos os lados de sua boca ao mesmo tempo”?

Em vista de tudo o que foi está escrito acima, que mostra o que Russell realmente pensava desde a década de 1870 até 1916, observe quão vazia parece ser a explicação de como Russell advertiu contra a especulação, no livro TJPD, página 53:

Em 1912 Russell soou um alerta especial para advertir contra fortes especulações particulares quanto a 1914. Ele escreveu:

[A matéria da revista A Torre de Vigia de 1º de dezembro de 1912, mencionada acima foi citada aqui.]

Assim, esses vigilantes primitivos estavam razoavelmente certos sobre algumas coisas que deveriam ocorrer quando 1914 chegasse. Exatamente como as profecias se cumpririam não estava totalmente claro, mas as evidências foram aumentando constantemente de que esta seria uma data marcada na história da Terra.

É realmente incrível quanta distorção pode ser inserida em tão poucas palavras. Russell escreveu alguns avisos fracos sobre a especulação particular antes de 1904, mas ele estava absolutamente confiante acerca de sua cronologia. Foi só depois de 1904 que ele se tornou ainda fracamente cauteloso, como o  material que segue deixa claro. Por não contar ao leitor a história completa do que Russell acreditava, o livro TJPD induz o leitor a acreditar em algo bem diferente do que acreditaria se lesse as matérias originais da época de Russell.

Uma Verdade Estranha

Marvin L. Lubenow é criacionista e professor de Bíblia e apologética no Christian Heritage College, em El Cajon, Califórnia. A faculdade é a matriz do Instituto de Pesquisa Criacionista. Em seu livro Ossos de Contenção (em inglês), Lubenow acusou os evolucionistas de não dizer exatamente a verdade sobre certas descobertas fósseis semelhantes a humanos [3] :

É possível mentir dizendo a verdade. Isto é feito com freqüência. Suponha que um homem lhe deva cem dólares. Como você precisa do dinheiro, poderá telefonar a ele para saber quando ele pode pagar. A mulher dele atende o telefone e diz que ele não está em casa. Para você, isso significa que ele não está disponível. Você não sabe que ele está em pé do lado de fora da porta da frente de sua casa, de modo que a mulher dele pode dizer “honestamente” que ele “não está em casa”. Ela se justifica com base em ter tecnicamente dito a verdade. Mas ela realmente mentiu, porque a intenção dela foi fazê-lo pensar que “não está em casa” significa “indisponível”. Ela mentiu dizendo a verdade.

Para se apoiar, a Torre de Vigia aprecia alegar que C. T. Russell predisse a Primeira Guerra Mundial. Por exemplo, o livro As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino, páginas 54 e 55, citou um artigo de um jornal chamado O Mundo, que disse:

O horrível irrompimento da guerra na Europa tem cumprido uma profecia extraordinária”, declarou este artigo de destaque. “No último quarto de século, por meio de pregadores e pela imprensa, os ‘Estudantes Internacionais da Bíblia, melhor conhecidos como ‘Auroristas do Milênio’, têm proclamado ao mundo que o Dia da Ira, profetizado na Bíblia, amanheceria em 1914. ‘Olhem bem para 1914!’ — tem sido o brado das centenas de evangelistas viajantes que, representando este estranho credo, percorreram o país de alto a baixo, enunciando a doutrina de que ‘está próximo o Reino de Deus’.

Diversas publicações da Torre de Vigia citaram estas publicações ao longo dos anos, tais como A Sentinela de 1 de fevereiro de 1969, nas páginas 71, 72, e a Despertai! de 8 de outubro de 1973.

Deve-se lembrar, porém, que o livro O Plano Divino das Eras havia dito (págs. 307, 308) que o “Dia da Ira” era o mesmo que o “Dia de Jeová”, o “Dia da Vingança”, e o “Dia do Senhor”, que começara em 1874. Além disso, o livro Está Próximo o Tempo, citado acima, havia dito na página 99:

... consideramos uma verdade estabelecida que o final completo dos reinos deste mundo, e o pleno estabelecimento do Reino de Deus, será efetuado por volta do fim de 1914.

Isto quer dizer que Russell esperava, não uma Guerra Mundial começando em 1914, e sim a aniquilação de todos os reinos do mundo não depois de 1914. Foi só alguns anos depois de 1914 que a Torre de Vigia começou a alegar que Russell tinha predito a I Guerra Mundial, porque Russell pensou que o irrompimento da Grande Guerra era o início do Armagedom (veja abaixo).

Isto se reflete claramente na imagem do artigo do jornal O Mundo, de 30 de agosto de 1914, que está reproduzido na página 5 da edição de A Sentinela de 1º de outubro de 1984. A manchete diz: “Fim de Todos os Reinos em 1914”. A edição de 22 de abril de 1974 da Despertai!, página 17, também reproduziu uma foto do artigo, mas cortou a manchete.

Curiosamente, o artigo do jornal O Mundo transmite a impressão de que Russell tinha predito a guerra. Mas a íntima familiaridade com os escritos de Russell nos quarenta anos prévios, e a habilidade de selecionar declarações convenientes indica que o autor do artigo, ou era colaborador próximo de Russell ou obteve seu material de um deles. Seria extremamente improvável um jornalista neutro ser tão versado nos escritos de Russell. Um escritor neutro certamente teria incluído o material citado acima, que mostra claramente qual era o verdadeiro pensamento de Russell.

Este episódio faz lembrar o que ocorreu com um artigo na Despertai! de 22 de fevereiro de 1977. Uma declaração sobre os dados do terremoto (página 11) foi extraída e publicada de forma ligeiramente alterada em um jornal italiano, Il Piccolo, de 8 de outubro de 1978. Em seguida, essa declaração do Il Piccolo foi extraída e publicada na revista A Sentinela de 15 de junho de 1979 (página 11) e usada como uma autoridade de referência “neutra” sobre dados de terremotos. Esta declaração “neutra” foi usada nas publicações da Torre de Vigia pelo menos umas 10 vezes até 1985, sendo a última no livro A Vida – Qual a Sua Origem? A Evolução ou a Criação?, pág. 225.

Contrastes Estranhos

Em 1916 Russell anunciou na revista A Torre de Vigia de 1º de setembro, página 265, que o Armagedom já tinha começado:

Entrementes, nossos olhos do entendimento devem discernir claramente a Batalha do Grande Dia do Deus Todo-Poderoso atualmente em progresso.

Em 1917, a Torre de Vigia publicou os Sermões do Pastor Russell, que disse na página 676 (em inglês):

A atual grande guerra na Europa, é o início do Armagedom das Escrituras.

Contraste-se as afirmações acima sobre quando o Armagedom começou com o que diziam as matérias publicadas bem antes de 1914:

A Torre de Vigia de Sião de 15 de janeiro de 1892, páginas 21-23, afirmou novamente que a batalha final já tinha começado, com o seu fim vindo em 1914:

A data do encerramento dessa “batalha” está definitivamente marcada nas Escrituras para outubro de 1914. Ela já está em andamento, datando seu início de outubro de 1874. Até agora, tem sido principalmente uma batalha de palavras e um tempo para organização de forças – capital, trabalho, exércitos e sociedades secretas.

Nunca houve um tempo em que se formaram tantas coligações como no presente. Não só as nações estão se aliando umas às outras para proteger-se contra outras nações, mas as várias facções dentro de cada nação estão se organizando para proteger seus diversos interesses. Mas, por enquanto, as várias facções estão simplesmente estudando a situação, examinando a força de seus adversários e procurando aperfeiçoar seus planos e poder para a luta futura, que muitos, sem o testemunho da Bíblia, parecem convencer-se de que é inevitável. Outros ainda se iludem dizendo, Paz! Paz! quando não há nenhuma possibilidade de paz até que o reino de Deus assuma o controle, compelindo-os a que se faça sua vontade na terra como é feita agora no céu.

Este aspecto da batalha deve continuar com variável sucesso para todos os envolvidos; a organização deve ser muito abrangente; e o conflito final será comparativamente curto, terrível e decisivo – resultando em anarquia geral.

Outro livro de Russell, Venha o Teu Reino, de 1891, disse na página 153:

...com o fim de 1914, o que Deus chama de Babilônia, e que os homens chamam de Cristandade, terá passado, conforme já mostrado a com base na profecia.

Então, é claro que por um longo tempo anterior a 1914 Russell disse que o Armagedom “já está em andamento”, mas depois de 1914, ele disse que esta batalha começou em 1914.

Consideremos novamente as citações da revista A Torre de Vigia de 15 de janeiro de 1892 e 15 de julho de 1894, página 30. O que essas citações e os parágrafos acima fazem com a alegação atual da Torre de Vigia de que “ninguém predisse a Primeira Guerra Mundial” antes de 1914? Russell disse claramente que as condições estavam maduras para uma grande conflagração. O próprio livro TJPD disse na página 53:

Uma atmosfera explosiva de rivalidade nacional se desenvolveu em todo o mundo, e a campanha febril dos líderes políticos e comerciais em sua louca corrida armamentista estava sendo totalmente apoiada pelo clero de todas as terras. França e Alemanha foram acumulando um enorme potencial bélico, enquanto a Grã-Bretanha e os Estados Unidos foram se fortalecendo também. Verdadeiramente, as massas da humanidade foram sendo arrebanhadas em campos de guerra. Satanás, como governante deste mundo, foi juntando suas forças para o fim que ele sabia que deveria vir em 1914.

Isto é confirmado por muitas outras declarações que Russell fez e que são citadas neste artigo. Por exemplo, a edição de A Torre de Vigia de 1º de maio de 1914 disse na página 134:

Não há absolutamente motivo algum para os estudantes da Bíblia questionarem que a consumação desta era do evangelho está mesmo às portas agora, e que ela vai acabar como as Escrituras predizem em um grande tempo de tribulação tal como nunca houve desde que existe nação. Vemos os participantes desta grande crise se ajuntando... A grande crise, o grande choque, simbolicamente representado como um incêndio que consumirá os céus eclesiásticos e a terra social, está muito próximo.

No entanto, com base em Rev. 6:4 a organização Torre de Vigia afirma agora que a paz e a segurança foram subitamente tiradas da terra em 1914. Que as Escrituras falam sobre um cavaleiro montado num cavalo cor de fogo ao qual “foi dado que tirasse a paz da terra, de modo que os homens se matassem uns aos outros”, cuja cavalgada a Torre de Vigia diz que começou em 1914. Para provar isso a organização cita, não historiadores, e sim dois estadistas idosos e duas Testemunhas de Jeová. Os dois estadistas foram mencionados muitas vezes nas publicações da Torre de Vigia, pois na velhice eles se recordavam de sua juventude como um tempo de paz, segurança e otimismo, algo que “de repente, inesperadamente” desapareceu em 1914, segundo a revista A Sentinela de 1º de novembro de 1982, página 14. Da mesma forma, a Despertai! de 8 de novembro de 1981, página 6, cita Ewart Chitty, que tinha 16 anos quando a guerra começou, e George Hannan, que tinha 15 anos na época. Hannan afirmou que “ninguém esperava a Primeira Guerra Mundial... As pessoas diziam que o mundo se tornara civilizado demais para haver guerra. Mas a guerra mundial veio inesperadamente como um raio.” Então qual das alegações está correta, a do livro TJPD ou as dessas publicações de 1981 e 1982?

O material acima mostra como a Torre de Vigia encarava as condições do mundo em 1892 como uma prova clara de que o mundo estava então prestes a entrar seus espasmos finais, com seu último suspiro vindo em 1914. Embora seja verdade que a palavra “opinião” tenha sido usada, quão significativo é isto quando, ao mesmo tempo Deus é incluído no cenário como apoiador das datas estabelecidas? Quem estaria inclinado a duvidar das “datas de Deus”?

Mudanças Estranhas

O livro de 1904, A Nova Criação, disse na página 579:

De acordo com nossas expectativas a tensão do tempo de tribulação estará logo sobre nós, em algum momento entre 1910 e 1912 – culminando com o fim dos “Tempos dos Gentios”, outubro de 1914.

O início da severidade da tribulação não está claramente marcado nas Escrituras, e é um tanto conjectural. Inferimos que uma tribulação tão grande, uma catástrofe tão mundial, dificilmente poderia ocorrer em menos de três anos, e que, se ela durasse muito mais do que três anos “ninguém seria salvo”.

Russell editou alguns volumes dos Estudos das Escrituras uma vez que as coisas não sucederam como ele esperava. Ele não chamou os volumes alterados de edições “revisadas”. Por exemplo:

A edição de 1906 do Vol. 3, Venha o Teu Reino, disse na página 228:

Que a libertação dos santos deve ocorrer algum tempo antes de 1914 é manifesto... Exatamente quanto tempo antes de 1914 o último membro vivo do Corpo de Cristo será glorificado, não é diretamente informado.

A edição de 1916 do Vol. 3, Venha o Teu Reino, disse na página 228 (as alterações em relação à edição de 1906 estão grifadas):

Que a libertação dos santos deve acontecer imediatamente depois de 1914 é manifesto... Exatamente quanto tempo depois de 1914 o último membro vivo do Corpo de Cristo será glorificado, não é diretamente informado.

Conforme 1914 se aproximava, Russell mudou e atenuou algumas de suas opiniões. A edição de 1º de julho de 1904 de A Torre de Vigia disse, sob o título “Anarquia Universal – Logo Antes ou Logo Depois de Outubro de 1914 A. D.”, nas páginas 197, 198:

O que parece ser à primeira vista a coisa mais trivial e totalmente desvinculada do assunto, mudou nossa convicção com respeito ao tempo em que a anarquia universal pode ser esperada, segundo os números proféticos. Esperamos agora que o auge anárquico do grande tempo de tribulação, que precederá as bênçãos do Milênio ocorrerá depois de outubro de 1914, A.D. — bem rapidamente depois disso, em nossa opinião — “em uma hora”, “repentinamente”, porque não se deve esperar que “nossos quarenta anos” de colheita, terminando em outubro de 1914 A.D. incluam o terrível período de anarquia que as Escrituras indicam ser o destino da Cristandade.

Enquanto em 1894 ele havia afirmado que os números apresentados eram “datas de Deus, não nossas”, em A Torre de Vigia de 1º de outubro de 1907, sete anos antes de 1914, no artigo “O Conhecimento e a Fé Sobre a Cronologia", página 295 (já citado antes, de maneira mais completa) ele agora dizia:

Podemos nos sentir absolutamente seguros de que é correta a cronologia apresentada nos ESTUDOS DA AURORA DO MILÊNIO? —  que a colheita começou em 1874 A.D. e terminará em 1914...? Respondemos... que nunca afirmamos que nossos cálculos fossem infalivelmente corretos; nunca alegamos que fossem conhecimento, nem baseados em evidência incontestável, fatos, conhecimento; a nossa afirmação sempre foi que eles se baseiam na .

Curiosamente, o mesmo artigo de A Torre de Vigia de Sião de 1907 reconheceu a vulnerabilidade da cronologia de Russell:

...Suponha que 1915 A.D. passe, com os assuntos do mundo todos tranquilos e com a evidência de que os “escolhidos” não foram “mudados” e sem a restauração do Israel natural ao favor sob o Novo Pacto (Rom 11:12,15). O que dizer, então? Não provaria isso que nossa cronologia está errada? Com certeza provaria! Não mostraria ser isso um profundo desapontamento? Realmente seria! Seria um naufrágio irreparável para as dispensações paralelas e o dobro de Israel, para os cálculos do jubileu, a profecia dos 2.300 dias de Daniel, o período chamado de “Tempos dos Gentios”, e para os 1260, 1290 e 1335 dias ... nenhum destes estaria mais disponível.

O mundo não estava tranquilo em 1915, mas seria uma predição que não fazia parte das três originais uma base suficiente para a fé?

Em 1912 Russell tinha ficado mais cauteloso. A Torre de Vigia de 1º de dezembro de 1912 mostrou o quanto ele estava menos taxativo quanto aos cálculos (veja acima uma citação completa). O que antes eram “datas de Deus” foi convertido em “nossas opiniões”.

Em 1913 a cautela de Russell tinha aumentado mais. No artigo “Que Vossa Moderação Seja Conhecida”, no número de 1º de junho de 1913 de A Torre de Vigia, página 167, ele alertou seus leitores contra gastar “tempo e energia valiosos em adivinhar o que vai ocorrer neste ano, no próximo, etc.” Evidentemente, ele tinha perdido muito de sua confiança anterior: “Estas são as boas novas da graça de Deus em Cristo – quer a igreja se complete antes de 1914 ou não.”

Russell começou realmente a falar com pouca convicção na edição de 15 de outubro do mesmo ano, páginas 303-307:

Estamos esperando chegar o tempo em que o governo do mundo será entregue ao Messias. Não podemos dizer se isso ocorrerá em outubro de 1914 ou em outubro de 1915. É possível que estejamos desfasados em vários anos em relação à contagem correta do assunto. Não podemos dizer com certeza. Não sabemos. É uma questão de fé, e não de conhecimento.

A fé vacilante de Russell em sua cronologia foi evidenciada ainda à luz do que disse A Torre de Vigia de 1 º de janeiro de 1914, páginas 1-5:

Conforme já se indicou, não estamos de modo algum confiantes de que este ano, 1914, testemunhará mudanças tão radicais e rápidas na dispensação como esperávamos. Está além do poder de nossa imaginação esboçar um cumprimento em um ano de tudo o que as Escrituras parecem indicar que se deve esperar antes da introdução do reinado de paz... Se mais tarde for demonstrado que a igreja não está glorificada por volta de outubro de 1914, tentaremos ficar satisfeitos com a vontade do Senhor, qualquer que seja ela.... Se 1915 passar sem a transferência da igreja, sem o tempo de tribulação, etc., isso pareceria uma grande calamidade para alguns. Não seria assim no nosso caso... Se na providência do Senhor o tempo viesse vinte e cinco anos depois, então isso seria nossa vontade.... Se outubro de 1915 passar e ainda nos encontrarmos por aqui, com as coisas continuando exatamente como estão no presente, e o mundo evidentemente fazendo progresso no sentido de resolver divergências, e não houver qualquer tempo de tribulação à vista, sem a igreja nominal estar federada, etc.,  diríamos que evidentemente nos deslocamos em algum momento na nossa contagem. Nesse caso examinaríamos mais as profecias, para ver se podemos encontrar um erro. E então pensaríamos, Estávamos esperando a coisa errada na época certa? A vontade do Senhor pode permitir isto.

Daí, na edição de 1º de maio de 1914, Russell, novamente esqueceu suas anteriores declarações taxativas, dizendo aos seus leitores que

nestas colunas e nos seis volumes de Estudos das Escrituras estabelecemos tudo relativo aos tempos e as épocas de forma provisória, isto é, não com positividade; ou seja, não afirmando que sabíamos, mas sugerindo que “assim e desta forma” parece ser o ensino da Bíblia.

Dois meses depois, Russell parecia estar prestes a rejeitar sua cronologia completamente. Respondendo a um colportor, que quis saber se os Estudos das Escrituras deveriam ser distribuídos depois de outubro de 1914, Russell disse:

... já que você tem algumas dúvidas em relação  ao pleno cumprimento do que todos esperavam que ocorresse por volta ou antes de outubro de 1914, ... É o nosso pensamento que estes livros estarão à venda e serão lidos durante anos no futuro, contanto que a era do Evangelho e o seu trabalho continue.... Nós não tentamos dizer que estes conceitos são infalíveis, mas expusemos os processos de raciocínio e de cálculo, deixando a cada leitor o dever e o privilégio de ler, pensar e calcular por si mesmo. Esse será um assunto interessante daqui a cem anos; e se alguém conseguir calcular e raciocinar melhor, ainda assim estará interessado naquilo que apresentamos.

Assim, Russell agora parecia disposto a aceitar a idéia de que a data de 1914, provavelmente era um fracasso, e que seus escritos sobre o assunto seriam apenas de interesse histórico para os estudantes da Bíblia cem anos depois!

Daí, porém, irrompeu a Primeira Guerra Mundial, e a confiança de Russell na cronologia se refez rapidamente. Embora a guerra em si não se encaixasse no padrão dos eventos preditos – ou seja, que o tempo de tribulação seria uma luta de classes entre capital e trabalho, levando a um período de anarquia mundial – ele viu na Guerra o prelúdio dessa situação. Na edição de A Torre de Vigia de 15 de agosto de 1914, ele escreveu:

Cremos que o socialismo é o principal fator na guerra agora em furioso curso e que será a guerra maior e mais terrível da terra – e provavelmente a última.

Mais tarde, na edição de A Torre de Vigia de 1º de novembro de 1914 Russell escreveu:

Pensamos que a atual angústia entre as nações é simplesmente o começo deste tempo de tribulação... A anarquia que virá depois desta guerra será a verdadeira época de tribulação... Nosso pensamento é que a guerra enfraquecerá tanto as nações que em seguida haverá uma tentativa de introduzir ideias socialistas, e que isso irá de encontro aos governos – etc.,  levando a uma luta de classes e anarquia mundial.

Além disso, embora a cidade de Jerusalém ainda estivesse sendo pisada pelos gentios, Russell argumentou que os tempos dos gentios tinham terminado:

O pisoteamento dos judeus parou. Por todo o mundo os judeus estão agora livres – até mesmo na Rússia. Em 5 de setembro, o Czar da Rússia emitiu uma proclamação a todos os judeus do Império Russo; e isto foi antes de os tempos dos Gentios terem terminado. A proclamação declarou que os judeus podem ter acesso aos mais altos postos no exército russo, e que a religião judaica deve ter a mesma liberdade que qualquer outra religião na Rússia. Onde é que os judeus estão sendo pisoteados agora? Onde é que estão sendo sujeitos ao escárnio? Atualmente eles não estão sendo perseguidos de modo algum. Acreditamos que o pisoteamento de Jerusalém cessou, porque o tempo para os gentios pisotearem Israel acabou.

A. H. Macmillan, nas páginas 47 e 48 do seu livro de 1957, intitulado A Fé em Marcha, relata o que ocorreu em outubro de 1914:

Foi uma época muito interessante, porque alguns de nós achavam seriamente que iríamos para o céu durante a primeira semana de outubro... Um grande número de congressistas ficou em Betel, a residência dos funcionários da sede. Na sexta-feira de manhã (02 de outubro) estávamos todos sentados à mesa do café, quando Russell desceu... Mas esta manhã, em vez de se dirigir à sua cadeira, como de costume, ele rapidamente bateu palmas e anunciou jubilosamente: “Terminaram os tempos dos gentios; seus reis já tiveram os seus dias.” Todos nós aplaudimos.

A Torre de Vigia citou com frequência este trecho, pois A. H. Macmillan foi um dos homens encarcerados junto com J. F. Rutherford em 1918, e dentro da equipe da sede mundial ele era respeitado o suficiente para poder escrever seu livro, com a bênção de N. H. Knorr e usando as instalações das bibliotecas da sede da Torre de Vigia. Porém, Macmillan dá uma falsa impressão do que estava acontecendo. Mais do que “alguns” dos Estudantes da Bíblia pensavam que iriam para o céu, justamente por que Russell tinha pregado isso por muitos anos – com as posteriores reservas, é verdade. Quando nada aconteceu em 1914 da maneira que Russell esperava, muitos deixaram seu movimento religioso.

O Restabelecimento da Confiança

Desde o irrompimento da Primeira Guerra Mundial e até sua morte em 31 de outubro de 1916, a confiança restaurada de Russell em sua cronologia permaneceu inabalada, como demonstram os seguintes extratos de várias edições de A Torre de Vigia de Sião durante aquele período:

1º de setembro de 1914: Embora seja possível que o Armagedom pode começar na próxima primavera, ainda assim é pura especulação tentar dizer exatamente quando. Vemos, porém, que há paralelos entre o fim da era judaica e esta era do Evangelho. Estes paralelos parecem apontar para o ano que está logo diante de nós – especialmente os primeiros meses.

1º de janeiro de 1915: ... a guerra é a predita nas Escrituras associada com o grande dia do Deus Todo-Poderoso – “o dia da vingança do nosso Deus”.

1º de abril de 1915: A Batalha do Armagedom, à qual esta guerra está levando, será uma grande disputa entre o certo e o errado, e significará a derrubada completa e eterna do errado, e o estabelecimento permanente do reino justo do Messias, para a bênção do mundo... Nossas simpatias são largas o suficiente para abranger todos os envolvidos na contenda terrível, assim como nossa esperança é suficientemente ampla e profundo para incluir a todos nas grandes bênçãos que o nosso Mestre e seu reinado milenar estão prestes a trazer ao mundo.

15 de setembro de 1915: Traçando a cronologia bíblica até os nossos dias, vemos que estamos vivendo agora na aurora do sétimo grande dia da grande semana da humanidade. Isto é abundantemente corroborado pelos eventos que estão ocorrendo agora, próximos de todos nós.

15 de fevereiro de 1916: Em Estudos das Escrituras, Vol. IV, apontamos claramente as coisas agora em curso, e as piores condições ainda por vir.

15 de abril de 1916: Acreditamos que as datas se mostraram bem certas. Cremos que os Tempos dos Gentios terminaram, e que Deus está permitindo que os governos gentios se destruam, a fim de preparar o caminho para o reino do Messias.

1º de setembro de 1916: Ainda parece claro para nós que o período profético conhecido como os Tempos dos Gentios terminou cronologicamente, em outubro de 1914. O fato de que o grande dia da ira sobre as nações começou naquele momento assinala um bom cumprimento de nossas expectativas... Não vemos qualquer razão para duvidar, portanto, que os Tempos dos Gentios terminaram em outubro de 1914, e que em poucos anos anos testemunharemos o seu colapso completo e o pleno estabelecimento do reino de Deus nas mãos do Messias.

Depois da morte de Russell, a Torre de Vigia publicou os Sermões do Pastor Russell em 1917, que disse na página 676:

A atual grande guerra na Europa, é o início do Armagedom das Escrituras. (Rev. 16:16-20). Ele vai redundar na derrocada completa de todos os sistemas de erro que oprimiram o povo de Deus e enganaram o mundo por tanto tempo... Cremos que a atual guerra não pode durar muito mais tempo até que irrompa a revolução.

Curiosamente, em outubro de 1916, Russell minimizou a importância do que ele havia predito para 1914. No prefácio à edição de 1916 de O Tempo Está Próximo, ele escreveu na página iii, exercendo notável visão retrospectiva:

Naturalmente, não poderíamos saber em 1889 se a data de 1914, tão claramente marcada na Bíblia como o fim da licença de poder ou permissão para os gentios governarem o mundo, significaria que eles seriam totalmente apeados do poder nessa época, ou seja, sua licença expiraria e sua expulsão teria início. A última coisa que percebemos ser o programa do Senhor, e prontamente em agosto de 1914, é que os reinos gentios mencionados na profecia começaram o atual grande conflito, que, segundo a Bíblia, culminará com a derrocada completa de todo o governo humano, abrindo o caminho para o pleno estabelecimento do Reino do Filho amado de Deus.

No prefácio à edição de 1916 de Venha o Teu Reino ele escreveu, nas páginas i e ii:

... prevemos que antes de se passar muito tempo – talvez um ano ou dois ou três – o número completo dos eleitos será atingido, e todos terão ido para o outro lado do Véu e a porta será fechada.

Assim, Russell achou que as coisas que não ocorreram em 1914 ainda aconteceriam bem pouco tempo depois – “talvez um ano ou dois ou três.” No prefácio de Está Próximo o Tempo ele se desculpou por algumas dessas falsas predições.

O autor reconhece que neste livro ele apresenta o pensamento de que os santos do Senhor podem esperar estar com Ele na glória no fim dos Tempos dos Gentios. Este foi um erro natural no qual se pode cair, mas o Senhor o anulou para a bênção de Seu povo. O pensamento de que a Igreja seria ajuntada em glória antes de outubro de 1914, teve certamente um efeito muito estimulante e santificador sobre milhares, todos os quais podem concordemente louvar o Senhor – até pelo erro. Muitos, inclusive, podem expressar-se como estando gratos ao Senhor que a culminação das esperanças da Igreja não foi atingida no momento em que esperávamos, e que nós, como povo do Senhor, temos oportunidades adicionais de aperfeiçoar a santidade e de sermos participantes com nosso Mestre na divulgação adicional de Sua Mensagem ao Seu povo.

Envolver Deus e Cristo nos erros cometidos, com Deus “anulando” certas previsões, provê uma escapatória muito conveniente de ter de arcar com a verdadeira responsabilidade por ter apresentado falsamente como “datas de Deus” coisas que não eram de modo algum datas de Deus, mas simplesmente o produto da especulação humana. Encontra-se mérito até mesmo em falsas predições devido ao suposto “efeito estimulante e santificador” produzido, para que se possa “louvar ao Senhor – até pelo erro.” Essa abordagem deu margem para previsões ainda mais falsas com seus efeitos “estimulantes”. J. F. Rutherford e seus sucessores tiraram pleno proveito da cortina de fumaça que essas idéias ocasionaram.

Ao contrário das expectativas de Russell, a guerra terminou em 1918, sem ser seguida pela revolução socialista e anarquia mundial. O último membro da Igreja de Cristo não tinha sido glorificado, a cidade de Jerusalém ainda estava sendo pisada pelos gentios, o Reino de Deus não havia esmagado “a imagem gentia”, e os “novos céus e a nova terra” não podia ser visto em lugar algum pela humanidade afligida pelos problemas. Nenhuma das sete previsões enumeradas no livro Está Próximo o Tempo tinha se tornado realidade.

O livro Luz, Tomo I, publicado em 1930, página 194, descreveu muito bem os efeitos das previsões fracassadas:

Todos os do povo do Senhor olhavam à frente para 1914 com alegre expectativa. Quando esse tempo veio e passou houve muito desapontamento, desgosto, e luto, e o povo do Senhor caiu em grande reprovação. Eles foram ridicularizados pelo clero e seus aliados, em particular, e apontados com desprezo, porque eles tinham falado tanto sobre 1914, e o que ocorreria, e suas ‘profecias’ não tinham se cumprido.

Depois dum intervalo de alguns anos, J. F. Rutherford deu início ao processo de substituir as predições não cumpridas de Russell por uma série de eventos invisíveis e espirituais associados aos anos de 1914 e 1918. No início da década de 1930 o processo estava completo.

Carl Sagan fez um interessante comentário sobre esta transformação no seu livro Broca's Brain (O Cérebro de Broca, Nova Iorque: Ballantine Books, 1979, págs. 332, 333 - Original):

Doutrinas que não fazem qualquer predição são menos motivadoras do que as que fazem predições corretas; estas por sua vez têm mais sucesso do que as que fazem predições falsas.

Mas nem sempre. Uma proeminente religião americana predisse confiantemente que o fim do mundo ocorreria em 1914. Bem, 1914 veio e passou, e – embora os eventos daquele ano tenham sido de certa importância – o mundo não parece ter acabado, pelo menos não até onde posso ver.

Há pelo menos três respostas que uma religião organizada pode dar diante de uma profecia fracassada tão fundamental como esta. Eles poderiam dizer: “Oh, nós dissemos '1914'? Desculpem, nós queríamos dizer '2014'. Um pequeno erro de cálculo. Esperamos que isto não tenha causado algum transtorno para vocês." Mas eles não disseram isto. Poderiam ter dito: "Bem, o mundo acabaria, mas nós oramos bem fervorosamente e intercedemos junto a Deus, por isso Ele poupou a Terra." Mas eles não disseram isso. Em vez disso, fizeram uma coisa muito mais engenhosa. Proclamaram que o mundo acabou realmente em 1914, e que se não percebemos isso foi porque não olhamos direito.

Diante de evasivas tão óbvias desse tipo, é espantoso que esta religião ainda tenha algum seguidor. Mas as religiões são resistentes. Elas não fazem qualquer declaração que possa ser refutada, ou então mudam rapidamente sua doutrina depois de esta ter sido refutada. O fato de as religiões poderem ser tão descaradamente desonestas, mostrando tanto desprezo pela inteligência dos seus adeptos, e ainda assim prosperarem, não diz muita coisa quanto à capacidade intelectual dos que crêem nelas. Mas indica, se fosse necessária uma demonstração disso, que no centro da experiência religiosa existe alguma coisa notavelmente resistente ao questionamento racional." [4]

Alan Feuerbacher

Notas:

[1] Este trecho é a tradução do que diz a edição do livro em inglês. Na edição em português (lançada dois anos depois, em 1929), as referências aos anos 1799 e 1874 são mais tênues. O ano de 1799 só é mencionado uma única vez (na página 301). Em relação a 1874, diz a página 125: “A segunda presença de Cristo começou em 1874 mais ou menos. A contar dessa data em diante muitas verdades obscurecidas durante tanto tempo pelo inimigo, começaram ser restituídas ao Cristão honesto.” A página 295 diz: As Escrituras provam que a preparação é um período a contar de 1874 em diante. Por conseguinte começou em 1874, e esta, assim como 1914 e 1918, são datas marcadas especialmente em relação á sua vinda.” Por fim, a página 297 diz: “Para compreender os sinais que indicam a segunda presença do Senhor, desde 1874 até 1914, é preciso ser espiritualmente inclinado, e os clérigos não são . - 1 Coríntios 2 : 10-14.

[2] Compare a página 101 das edições anteriores ao meio do ano de 1912 com a mesma página nas edições posteriores a isso. A mudança foi feita no meio do trabalho de impressão da edição de 1912 (cuja tiragem foi de 1.209.000 exemplares). A revista A Torre de Vigia de 1º de março de 1915 chamou a atenção para algumas destas mudanças na página 5649 das Reimpressões. A revista disse: "Chamamos a atenção para umas poucas mudanças ligeiras que foram feitas em quatro páginas do volume II e seis páginas do Vol. III de 'ESTUDOS DAS ESCRITURAS'. Estas são todas triviais e não alteram o verdadeiro sentido e lição, mas se conformam aos fatos, conforme os temos hoje." Daí, alistam-se as mudanças apontadas acima, das páginas 77-81 de Está Próximo o Tempo, mas, por alguma razão as mudanças nas páginas 99-101 não são alistadas. Quanto à alegação de que o verdadeiro sentido não foi mudado, o leitor pode julgar por si mesmo. A maneira correta de fazer mudanças tais como estas é chamar os livros mudados de "Edições Revisadas".

[3] Marvin L. Lubenow, Ossos da Contenção, págs. 103-4 em inglês, Baker Book House, Grand Rapids, Michigan, 1992.

[4] Embora dificilmente se poderia considerar Carl Sagan como uma autoridade em história e doutrina das Testemunhas de Jeová, consideramos perspicaz esta observação dele sobre o procedimento dos líderes da Torre de Vigia diante do fracasso das profecias referentes ao ano de 1914. Entretanto, com  relação a esta última declaração, há pelo menos dois adendos: 1) Ao fazer este comentário genérico sobre a “capacidade intelectual” dos seguidores das religiões organizadas, Sagan desconsiderou o poder da repetição constante (quase “hipnótica”) de certas idéias por parte dos líderes religiosos. Por causa disso, é possível que até mesmo pessoas dotadas de aguçado senso crítico sejam influenciadas (pelo menos durante algum tempo de sua vida) a crer em ensinos sem base e falsos. 2) É genérico também o comentário dele sobre o “centro da experiência religiosa”. Na verdade, o “questionamento racional” saudável não está de modo algum em oposição à religião em si. Essa ‘notável resistência’ referida por Sagan surge a partir do momento em que o dogmatismo (que se faz presente tanto no campo da religião como no da ciência, diga-se de passagem) entra no cenário.

Original, em inglês:

Doctrines that make no predictions are less compelling than those which make correct predictions; they are in turn more successful than doctrines that make false predictions.

But not always. One prominent American religion confidently predicted that the world would end in 1914. Well, 1914 has come and gone, and – while the events of that year were certainly of some importance – the world does not, at least so far as I can see, seem to have ended. There are at least three responses that an organized religion can make in the face of such a failed and fundamental prophecy. They could have said, “Oh, did we say ‘1914’? So sorry, we meant ‘2014.’ A slight error in calculation. Hope you weren't inconvenienced in any way.” But they did not. They could have said, “Well, the world would have ended, except we prayed very hard and interceded with God so He spared the Earth.” But they did not. Instead, they did something much more ingenious.

They announced that the world had in fact ended in 1914, and if the rest of us hadn’t noticed, that was our lookout. It is astonishing in the face of such transparent evasions that this religion has any adherents at all. But religions are tough. Either they make no contentions which are subject to disproof or they quickly redesign doctrine after disproof. The fact that religions can be so shamelessly dishonest, so contemptuous of the intelligence of their adherents, and still flourish does not speak very well for the tough-mindedness of the believers. But it does indicate, if a demonstration were needed, that near the core of the religious experience is something remarkably resistant to rational inquiry. (Retornar ao texto)