A "Cronologia Bíblica" da Torre de Vigia

© Carl Olof Jonsson – 1993

(Atualização baseada na quarta edição em inglês do livro Os Tempos dos Gentios Reconsiderados. Trechos da Introdução e do Capítulo 2 [Edição em português: 2008]) 

O papel da cronologia no ensino da Sociedade Torre de Vigia 

Poucos estão plenamente cientes do papel bem central que a cronologia desempenha nas alegações e ensinos da Sociedade Torre de Vigia. Mesmo muitas das Testemunhas de Jeová não estão completamente apercebidas da conexão indissolúvel entre a cronologia da Sociedade e a mensagem que elas pregam de porta em porta. Ao serem confrontadas com as muitas evidências contra sua cronologia, algumas Testemunhas de Jeová tendem a subestimar isto como algo que elas podem de qualquer maneira dispensar. “Afinal de contas, cronologia não é tão importante assim”, dizem elas. Muitas Testemunhas prefeririam nem mesmo discutir o assunto. Então, quão importante é, exatamente, a cronologia para a organização Torre de Vigia?

Um exame da evidência demonstra que ela constitui o próprio fundamento para as reivindicações e mensagem deste movimento religioso.

A Sociedade Torre de Vigia alega ser o “canal exclusivo” e “porta-voz” de Deus na terra. Resumindo seus ensinos mais distintivos: Ela afirma que o reino de Deus foi estabelecido no céu em 1914, que os “últimos dias” começaram naquele ano, que Cristo retornou invisivelmente naquele momento para “inspecionar” as denominações cristãs, e que ele por fim rejeitou todas, exceto a Sociedade Torre de Vigia e seus associados, a quem designou em 1919 como seu único “instrumento” na terra.

Por aproximadamente setenta anos, a Sociedade usou as palavras de Jesus em Mateus 24:34 sobre “esta geração” para ensinar claramente e de modo inflexível que a geração de 1914 não passaria de modo algum até que viesse o fim completo na “batalha do Armagedom”, quando todos os humanos vivos, exceto os membros ativos da organização Torre de Vigia, seriam destruídos para sempre.

Milhares de Testemunhas de Jeová da “geração de 1914” tinham plena esperança de estarem vivas para ver e sobreviver a esse dia do juízo final e então viverem para sempre no paraíso na terra. Conforme as décadas passavam, deixando 1914 cada vez mais distante no passado, esta afirmação foi se tornando mais difícil de defender. Passados 80 anos, a afirmação tornou-se praticamente absurda. Assim, na edição de 1º de novembro de 1995 de A Sentinela (páginas 10 a 21), adotou-se uma nova definição da frase “esta geração”, definição esta que permitiu à organização “desligá-la” da data de 1914 como ponto de partida. Apesar desta mudança monumental, eles ainda retiveram a data 1914 — na realidade eles não puderam agir de outro modo sem desmontar seus principais ensinos referentes à “segunda presença” de Cristo, o início do “tempo do fim”, e a designação de sua organização como o único instrumento de Cristo e canal exclusivo de Deus na terra.

Embora reconheçam agora que “esta geração” se define por suas características em vez de por um período cronológico (com ponto de partida específico), eles ainda encontraram uma maneira de inserir 1914 em sua nova definição. Fizeram isto por incluir na definição um fator acrescentado arbitrariamente, a saber, que a “geração” é composta por “aquelas pessoas que vêem o sinal da presença de Cristo, mas que não se corrigem”, resultando na sua destruição. Como o ensino oficial continua a ser que o “sinal da presença de Cristo” tornou-se visível a partir de e após 1914, isto permite que essa data continue como parte essencial da definição de “esta geração”.

Assim, todos estes fatores confirmam o papel altamente crucial que 1914 desempenha no ensino da Sociedade Torre de Vigia. Uma vez que, como é óbvio, a própria data não consta na Bíblia, qual é a origem dela?

Essa data é o resultado de um cálculo cronológico, segundo o qual os chamados “tempos dos gentios”, mencionados por Jesus em Lucas 21:24, constituem um período de 2.520 anos, que teve início em 607 A.E.C. e terminou em 1914 E.C. [1] Este cálculo é a verdadeira base da mensagem principal da religião. Afirma-se que até mesmo o evangelho cristão, as “boas novas” do reino (Mateus 24:14) está fortemente associado com esta cronologia. Portanto, o evangelho pregado por outros professos cristãos nunca foi o verdadeiro evangelho. A Sentinela de 1º de novembro de 1981 disse na página 17: 

Compare a pessoa sincera a espécie de pregação do evangelho do Reino feita pelos sistemas religiosos da cristandade, durante todos os séculos, com a feita pelas Testemunhas de Jeová desde o fim da Primeira Guerra Mundial em 1918. Não são iguais. A das Testemunhas de Jeová é realmente “evangelho”, ou “boas novas”, sobre o reino celestial de Deus, estabelecido pela entronização de seu Filho, Jesus Cristo, no fim dos Tempos dos Gentios em 1914. [o itálico é meu.]

De acordo com isto, A Sentinela de 1º de novembro de 1982, disse que “dentre todas as religiões do mundo, as Testemunhas de Jeová são os únicos hoje que proclamam às pessoas estas ‘boas novas’.” (Página 10) Qualquer Testemunha de Jeová que tente subestimar o papel da cronologia no ensino da Sociedade, simplesmente não percebe que está minando radicalmente a principal mensagem da religião. Essa “subestimação” não é aprovada pela liderança da Torre de Vigia. Pelo contrário, A Sentinela de 1º de abril de 1983, páginas 11 e 12, enfatizou que “o fim dos Tempos dos Gentios, na última metade de 1914, ergue-se ainda corretamente numa base histórica como uma das verdades fundamentais do Reino à qual nos temos de apegar hoje.” [2]

A dura verdade é que a Sociedade Torre de Vigia encara a rejeição da cronologia que aponta para 1914 como um pecado que tem conseqüências fatais. Afirma-se que o estabelecimento do reino de Deus no fim dos “tempos dos gentios” é “o mais importante evento de nossos tempos”, diante do qual “todos os demais eventos perdem a importância.” [3] Aqueles que rejeitam o cálculo incorrem na ira de Deus. Entre estes, estão “os clérigos da cristandade” e seus membros que, por não endossarem essa data, são acusados de terem rejeitado o reino de Deus e por isso “serão destruídos na iminente “grande tribulação.” [4] Membros das Testemunhas de Jeová que questionem ou rejeitem abertamente o cálculo, correm o risco de serem tratados de maneira muito severa. Se não se arrependerem e não mudarem de idéia serão desassociados e classificados como “apóstatas” iníquos, que “vão, ao morrerem,...  para a Geena”, sem qualquer esperança de uma ressurreição futura. [5] Não faz qualquer diferença se estas pessoas continuam a acreditar em Deus, na Bíblia e em Jesus Cristo. Quando um dos leitores de A Sentinela  escreveu e perguntou, “Por que desassociaram (excomungaram) as Testemunhas de Jeová por apostasia a alguns que ainda professam crer em Deus, na Bíblia e em Jesus Cristo?”, a Sociedade respondeu, entre outras coisas: 

A associação aprovada com as Testemunhas de Jeová requer a aceitação de toda a série dos verdadeiros ensinos da Bíblia, inclusive as crenças bíblicas singulares das Testemunhas de Jeová. O que incluem tais crenças? . . . Que 1914 marcou o fim dos Tempos dos Gentios e o estabelecimento do Reino de Deus nos céus, bem como o tempo da predita presença de Cristo. [o itálico é meu] [6]

Portanto, nenhuma pessoa que rejeita o cálculo segundo o qual os “tempos dos gentios” terminaram em 1914 é aprovada pela Sociedade como uma das Testemunhas de Jeová. Aliás, mesmo aquele que abandona secretamente a cronologia da Sociedade e possa ainda ser oficialmente considerado como uma das Testemunhas de Jeová, na realidade já rejeitou a mensagem essencial da Sociedade Torre de Vigia e, segundo o próprio critério da organização, não faz mais realmente parte da organização. 

A natureza da cronologia bíblica

Hoje as pessoas lêem ou usam os termos A.C. e D.C. (que correspondem a A.E.C. e E.C.) e geralmente não se preocupam com a origem destas especificações. Na realidade, a “Era Cristã”, na qual se datam os acontecimentos em relação ao ano do nascimento de Cristo, é uma elaboração muito recente. Conforme está bem estabelecido, o sistema só foi introduzido no sexto século E.C. pelo monge e erudito romano Dionísio Exíguo. Todavia, outros 500 anos se passariam antes de esta nova era ser aceita no mundo católico em geral como um sistema de datação.

Como a Bíblia foi escrita muito antes da época de Dionísio Exíguo, é claro que ela não fornece qualquer data de acordo com nossa Era Cristã. Assim, embora a Sociedade Torre de Vigia date o batismo de Jesus em 29 E.C., o 20º ano de Artaxerxes I em 455 A.E.C., a queda de Babilônia em 539 A.E.C., e a desolação de Jerusalém em 607 A.E.C., nenhuma destas datas se encontra na Bíblia. A Bíblia só fornece datações relativas. O que isso quer dizer?

Considere este exemplo relevante: Em 2 Reis 25:2 a desolação de Jerusalém é datada no “décimo primeiro ano do Rei Zedequias”, o último rei de Judá. O versículo 8 diz-nos adicionalmente que isto ocorreu no “décimo nono ano do Rei Nabucodonosor, rei de Babilônia”.

Mas quando foi isso? Quão distante foi da nossa própria época? Quantos anos antes da Era Cristã isso ocorreu? O fato é que a Bíblia não dá qualquer informação que, por si mesma, ligue estas datas à nossa Era Cristã.

Similarmente, os livros dos Reis e das Crônicas falam sobre os reis que governaram em Israel e Judá, desde Saul, o primeiro rei, até Zedequias, o último. Diz-nos quem sucedeu quem, e durante quantos anos cada um deles governou. Somando os períodos de reinado desde Saul até Zedequias, podemos medir o período de tempo aproximado (existem muitos pontos incertos) entre estes dois reis. Desta maneira, descobrimos que o período das monarquias hebraicas abrangeu aproximadamente 500 anos. Mas ainda não encontramos resposta para a pergunta: Em que ponto da corrente do tempo este período começou e em que ponto terminou?

Se a Bíblia tivesse continuado a dar uma série contínua e ininterrupta de anos de reinado, desde Zedequias e chegando até o começo da Era Cristã, a pergunta seria respondida. Mas Zedequias foi o último da seqüência de reis judaicos e o reinado dele terminou séculos antes da vinda de Cristo. A Bíblia também não dá qualquer informação adicional que nos revele diretamente a duração do período desde o “décimo primeiro ano” de Zedequias (quando Jerusalém foi desolada) até o início da Era Cristã. Assim, temos um período de aproximadamente 500 anos, o período das monarquias hebraicas, mas não nos é dito quão distante da nossa época foi esse período, nem como pode ser fixado em relação à nossa Era Cristã.

Se a Bíblia tivesse preservado descrições datadas e detalhadas de eventos astronômicos, tais como eclipses solares e lunares, ou as posições dos planetas em relação a diversas estrelas e constelações, isto tornaria nosso problema mais fácil. Os astrônomos modernos, com seu conhecimento dos movimentos regulares da lua e dos planetas, são capazes de calcular as posições que estes corpos celestes tinham no céu estrelado há milhares de anos. Mas o fato é que a Bíblia não fornece informação deste tipo.

Portanto, a Bíblia por si só não mostra como suas datações cronológicas podem ser relacionadas com nossa própria era. Uma cronologia que está, neste sentido, “flutuando no ar” é simplesmente o tipo de cronologia chamada cronologia relativa. Só se a informação bíblica nos fornecesse o intervalo exato desde o tempo de Zedequias até a nossa própria era — ou através de uma lista de duração de reinados completa e coerente ou por meio de observações astronômicas detalhadas e datadas — é que teríamos uma cronologia absoluta, isto é, uma cronologia que nos dá o intervalo exato desde o último ano de Zedequias até a nossa própria época. [7] Parece evidente que os próprios escritores da Bíblia não estavam preocupados em fornecer isto, estando simplesmente concentrados em outros assuntos. Então, a que fonte podemos recorrer para fazer a conexão com a contagem da nossa era? 

Existe “cronologia bíblica” sem fontes seculares?

Apesar da natureza relativa das datas bíblicas, ainda assim não é impossível datar eventos mencionados na Bíblia. Se conseguirmos sincronizar a cronologia da Bíblia com a cronologia de outro país, cuja cronologia possa por sua vez ser fixada em relação à nossa Era Cristã, então é possível converter a cronologia relativa da Bíblia numa cronologia absoluta. Contudo, isto significa que temos de depender de fontes extra bíblicas, isto é, fontes históricas seculares, para datar eventos mencionados na Bíblia.

E não temos alternativa. Se quisermos saber quando ocorreu, em relação à nossa própria época, um evento mencionado na Bíblia — seja a data da queda de Babilônia, a data da desolação de Jerusalém por Nabucodonosor, a data da reconstrução do templo no reinado de Dario I, ou qualquer outra data que seja — então somos obrigados a recorrer às fontes históricas seculares. Este é o fato simples que toda pessoa que crê na Bíblia tem de aceitar, goste ou não. A verdade simples é que — no que se refere à ligação com a contagem da nossa Era Cristã — sem fontes seculares não existe cronologia bíblica, não há como fazer datações de acontecimentos bíblicos em termos de anos “A.E.C.” ou “E.C.”

Isto também significa, é claro, que falar em usar a “cronologia da Bíblia” como uma forma unilateral e independente de medir o tempo, através da qual a exatidão de alguma data possa ser estabelecida, é simplesmente fechar os olhos à realidade. Quando, por exemplo, algumas Testemunhas apontam o fato de os historiadores modernos datarem a queda de Babilônia em 539 A.E.C. e depois afirmam que “a cronologia da Bíblia está de acordo com esta data”, elas mostram que não entenderam realmente o que significa a natureza relativa da cronologia bíblica. Onde é que a Bíblia especifica uma data para a queda de Babilônia? Uma Testemunha pode fazer referência à profecia de Jeremias sobre os “setenta anos” que findaram com a queda de Babilônia. Mas em que data esses setenta anos começaram, de maneira que possamos contar para frente até seu término? Nenhuma é fornecida. Como a Bíblia não fornece qualquer data, nem sequer uma data relativa específica, para a queda de Babilônia, a afirmação de que a Bíblia “concorda” com a datação secular deste evento em 539 A.E.C., é completamente sem sentido. [8] E é igualmente sem sentido e enganoso afirmar que a data secular da desolação de Jerusalém, 587 ou 586 A.E.C., discorda da cronologia da Bíblia, pois a data absoluta desse evento também não é fornecida na Bíblia.

E quanto aos 70 anos de Jeremias 25:11, 12 e 29:10, nos quais as Testemunhas baseiam tão fortemente sua cronologia? As Testemunhas, com muita naturalidade, apóiam a afirmação da Sociedade Torre de Vigia de que estes 70 anos se referem ao período da desolação de Jerusalém, contado desde o 18º ano de Nabucodonosor até o regresso dos exilados judaicos no 1º ano de Ciro (isto é, seu primeiro ano completo ou de reinado, após seu ano de ascensão, que começou em 539 A.E.C.). Em resultado deste ponto de vista, o intervalo de tempo entre as datas que os historiadores estabeleceram para estes dois eventos — 587/86 e 538/37 A.E.C. — parece ser muito curto, com uns 20 anos a menos. Por isso, a Sociedade Torre de Vigia opta por rejeitar uma das duas datas. Eles poderiam rejeitar a data do 18º ano de Nabucodonosor (587/86 A.E.C.) ou rejeitar a data do primeiro ano do reinado de Ciro (538/37 A.E.C.). Eles rejeitam a primeira data, 587/86 A.E.C. Com que base rejeitam essa data e não a outra?

Não há qualquer razão bíblica para esta escolha. Conforme já foi indicado, a própria Bíblia não concorda nem discorda de qualquer destas duas datas, que são expressas em termos da contagem do tempo da Era Cristã. Ademais, a Bíblia simplesmente não fornece meios para decidirmos qual das duas datas é a melhor, em termos de ser firmemente estabelecida. Em que base, então, deveria a escolha ser feita — supondo-se que a interpretação da Sociedade sobre os 70 anos esteja correta?

O método mais lógico, seguro e erudito seria aceitar a data que é mais claramente estabelecida pelas fontes históricas extra bíblicas. Pois estas fontes fornecem a informação necessária para fazer a conexão com a contagem do tempo da Era Cristã. E, como se demonstrará nos próximos dois capítulos, estas fontes mostram de forma muito definitiva que, das duas datas que estão sendo consideradas, a cronologia do reinado de Nabucodonosor é muito mais bem estabelecida por documentos astronômicos e outros do que a cronologia do reinado de Ciro. De modo que, se fosse realmente necessário fazer uma escolha, e um cristão que crê na Bíblia se visse diante destas alternativas, a escolha natural deveria ser manter a data 587/86 A.E.C. e rejeitar a data 538/37 A.E.C. [9]

Entretanto a Sociedade Torre de Vigia prefere a escolha oposta. Se a razão para isto não se deve à própria Bíblia favorecer uma destas datas em lugar da outra, e certamente não é porque a evidência histórica o faça, qual é a verdadeira razão para a escolha deles? 

Lealdade à Bíblia — ou a uma especulação profética?

Se, de acordo com o que eles afirmam, o período de 70 anos da profecia de Jeremias deve realmente ser contado desde o 18º ano de Nabucodonosor até o 1º ano de Ciro, a Sociedade Torre de Vigia deveria logicamente ter começado por 587/86 A.E.C. como sendo historicamente a mais confiável das duas datas. Contando para frente 70 anos a partir dessa data chega-se a 518/17 A.E.C. como sendo o primeiro ano de Ciro, em vez de 538/37. Isto seria tão bíblico e realmente mais sábio do que reter 538/37 A.E.C. e rejeitar 587/86 (data esta que tem o apoio documental e astronômico mais forte).

Por que, então, a Sociedade Torre de Vigia rejeita 587/86 A.E.C. em vez de rejeitar 538/37?

A resposta é óbvia. A data 587/86 A.E.C. está em conflito direto com a cronologia da Sociedade Torre de Vigia para os “tempos dos gentios”. Nessa cronologia, sua data 607 A.E.C. para a desolação de Jerusalém é o ponto inicial indispensável. Sem a data 607 A.E.C. a Sociedade não poderia chegar a 1914 E.C. como sendo o ponto terminal. E como esta data é a própria pedra fundamental das pretensões e mensagem profética da organização Torre de Vigia, não se permite que nada a contradiga, nem a Bíblia nem os fatos históricos. No fundo, portanto, não é questão de lealdade à Bíblia nem de lealdade a fatos históricos. A escolha da data tem outro motivo bem diferente: Lealdade a uma especulação cronológica que se tornou uma condição vital para as pretensões divinas da organização Torre de Vigia.



Notas de rodapé:

[1] As designações “A.E.C.” (Antes da Era Comum) e “E.C.” (Era Comum) costumeiramente usadas pelas Testemunhas de Jeová correspondem a “A.C.” e “A.D.” São freqüentemente usadas em literatura acadêmica, especialmente por autores judaicos, e foram adotadas pela Sociedade Torre de Vigia, conforme será visto nas citações das publicações da Torre de Vigia subseqüentes. A bem da consistência, estas designações, A.E.C. e E.C., são geralmente usadas neste livro, exceto nos casos em que se cita matéria que usa as designações A.C. e A.D.

[2] Itálico e ênfase acrescentados. O ex-presidente da Sociedade Torre de Vigia, Frederick W. Franz, na consideração matinal da Bíblia com a família da sede, em 17 de novembro de 1979, afirmou de modo ainda mais enérgico a importância da data 1914, dizendo: “O único propósito da nossa existência como Sociedade é anunciar o Reino estabelecido em 1914 e soar o aviso da queda de Babilônia, a Grande. Temos uma mensagem especial a transmitir.” (Em Busca da Liberdade Cristã, Raymond Franz, Atlanta: Commentary Press, 1991, págs. 32 e 33, em inglês).

[3] A Sentinela  de 1º de janeiro de 1988, págs. 10 e 11.

[4] A Sentinela  de 1º de setembro de 1985, págs. 18 e 19.

[5] A Sentinela de 1º de outubro de 1982, pág. 27. Em A Sentinela de 15 de julho de 1992, página 12, tais dissidentes são descritos como “inimigos de Deus” que “odeiam Jeová intensamente”. Portanto, as Testemunhas são incentivadas a “odiar” essas pessoas “com ódio consumado.” Esta exortação foi repetida em A Sentinela de 1º de outubro de 1993, página 19, onde se afirma que “o mal está tão entranhado” nos “apóstatas” que “se tornou parte inseparável da sua constituição.” Chegou-se a dizer às Testemunhas para pedirem que Deus os mate, em imitação ao salmista Davi, que orou acerca dos seus inimigos: “Oh! que tu, ó Deus, matasses ao iníquo.” Desta maneira as Testemunhas “deixam que Jeová execute a vingança.” Esses ataques rancorosos a ex-membros da organização refletem uma atitude que é diametralmente oposta àquela recomendada por Jesus em seu Sermão do Monte. — Mateus 5:43-48.

[6] A Sentinela de 1º de abril de 1986, págs. 30 e 31.

[7] O Dr. Michael C. Astour explica: “Cronologia absoluta significa datar reinados, guerras, tratados, destruições, reconstruções e outros eventos conhecidos por meio de registros escritos e arqueológicos, em termos da moderna contagem do tempo ocidental, i.e., em anos A.C.” (A História Hitita e a Cronologia Absoluta da Idade do Bronze, Partille, Suécia: Paul Åströms förlag, 1989, pág. 1, em inglês.) Essa cronologia é geralmente mais bem estabelecida com a ajuda de registros de antigas observações astronômicas. Conforme o renomado perito em astronomia antiga, Professor Otto Neugebauer, coloca, “uma 'cronologia absoluta' [é] uma cronologia baseada em datas fixadas astronomicamente, em contraste com uma 'cronologia relativa', que só nos diz a duração de certos intervalos, por exemplo, o total de anos de reinado numa dinastia.” — Uma História da Astronomia Matemática Antiga, Livro VI (em inglês - Berlim - Heidelberg - Nova Iorque: Springer-Verlag, 1975), pág. 1071.

[8] Segundo fontes seculares, Babilônia foi capturada pelas tropas do rei persa Ciro no 17.º ano de Nabonido, que se tornaria, desta maneira, o “ano de ascensão” de Ciro. (Para informações sobre o sistema babilônico de ano de ascensão, veja o Apêndice ao Capítulo 2.) Apesar de a queda de Babilônia ser mencionada várias vezes na Bíblia, o evento não é datado em qualquer ano de reinado específico, nem no de Nabonido (que nem sequer é mencionado), nem no de Ciro. Tanto Isaías (capítulos 13, 14, 21, 45, 47, 48) como Jeremias (capítulos 25, 27, 50, 51) predisseram a queda de Babilônia, mas nenhum deles deu qualquer data para o evento. Daniel, no capítulo 5, versículos 26-28, predisse que a queda de Babilônia era iminente. Depois, nos versículos 30 e 31, ele declara que “naquela mesma noite” Belsazar (o filho de Nabonido) foi morto e sucedido por “Dario, o medo”. Mas quem foi “Dario, o medo”? A Sociedade Torre de Vigia admite que a identificação histórica deste personagem “é incerta”. A sugestão (do Professor D. J. Wiseman) de que “Dario o medo” é apenas outro nome para o próprio Ciro é rejeitada. (Estudo Perspicaz das Escrituras, Vol. 1, Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1990, pág. 660) Além disso, apesar de Daniel 6:28 mencionar “o reino de Dario” e o “reino de Ciro, o persa”, e Daniel 9:1 mencionar o “primeiro ano” de “Dario... da descendência dos medos”, a Bíblia não fornece a duração do reinado de “Dario o medo”, nem indica se o reinado dele deve ou não ser inserido entre a queda de Babilônia e o primeiro ano de Ciro. Assim, embora a Bíblia declare (em 2 Crônicas 36:22, 23 e Esdras 1:1-4) que os exilados judaicos foram libertados “no primeiro ano de Ciro”, ela não mostra quanto tempo depois da queda de Babilônia isto ocorreu. Portanto, a Bíblia não fornece nem mesmo uma data relativa para a queda de Babilônia.

[9] As datas 587/86 e 538/37 AC estão ambas corretas. Nenhuma delas está em conflito com a Bíblia. Jeremias não disse que os 70 anos eram “para Jerusalém” e sim “para Babilônia” (Jer. 29:10; o “em Babilônia” da Tradução do Novo Mundo e da Versão Rei Jaime é uma má tradução.). Como a Assíria perdeu definitivamente seu império para Babilônia em 609 AC, os 70 anos “para Babilônia” duraram de 609 AC a 539 AC. Para uma apresentação detalhada das muitas linhas de evidência contra a data 607 AC, veja meu livro, Os Tempos dos Gentios Reconsiderados.