Coisas Essenciais, Coisas Não Essenciais e a Unidade Cristã

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Durante a Era do Obscurantismo, a Igreja Católica Romana tentou conseguir a unidade pelo uso da força. A discórdia simplesmente não era tolerada. Muitos cristãos verdadeiros foram perseguidos e mortos por questionar a doutrina oficial da igreja. A Reforma tentou produzir uma nova igreja, que estaria unida na adoração e livre das práticas idólatras de Roma. Todavia, hoje existem milhares de denominações cristãs. A Reforma fracassou em trazer a unidade. Hoje os cristãos estão divididos em questões importantes, tais como a Cristologia, a tradição versus a Bíblia, e a separação entre Igreja e Estado. Infelizmente, estamos divididos também por questões menores, tais como detalhes doutrinais, interpretação profética, e conflitos de personalidade. Mas Paulo disse:

Há um só corpo e um só espírito, assim como também fostes chamados em uma só esperança a que fostes chamados; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por intermédio de todos, e em todos. (Efésios 4:4-6, Tradução do Novo Mundo.)

Como se pode conseguir isso? Como podem nossas associações cristãs ser unificadas na adoração? Sugerimos o seguinte princípio orientador:

“Nas coisas essenciais, unidade; em coisas não essenciais, liberdade; em todas as coisas, o amor.”

Quais São as Coisas Essenciais?

São as crenças e práticas bíblicas absolutamente necessárias para a salvação. Infelizmente, algumas organizações religiosas desenvolveram sistemas de crenças além destes elementos essenciais, que são então impostos aos seus seguidores.

Em seu livro A Razoabilidade do Cristianismo, escrito originalmente em inglês em 1695, o grande pensador e escritor cristão John Locke protestou contra isso. Note-se que ele estava protestando contra a Igreja da Inglaterra, não contra a Igreja Católica Romana:

Eu permito que os fabricantes de sistemas e seus seguidores inventem e usem as distinções que quiserem e chamem as coisas pelos nomes que eles acharem bom. Mas não posso permitir a eles, nem a qualquer homem, a autoridade de fazer uma religião para mim ou alterar o que Deus revelou.

Devemos diferenciar claramente as coisas essenciais bíblicas das coisas que os “fabricantes de sistemas” elaboram. Devemos examinar as Escrituras para ver quais eram as crenças essenciais que Jesus e os apóstolos pregavam e, mais especificamente, quais eram as crenças consideradas essenciais para a salvação.

Uma boa regra geral quando se tenta determinar a verdade bíblica é a seguinte: Se um ensinamento é declarado explicitamente na Bíblia, então devemos acreditar nele. Se for uma interpretação ou opinião do homem, então ela deve ser encarada como uma tentativa ou como algo de importância secundária. Pode ser ou pode não ser verdade. Por exemplo, um ensino explícito da Bíblia é “Jesus é o Cristo”, ou “Deus criou os céus e a terra.” Estes ensinamentos são clara e inequivocamente declarados nas Escrituras e temos de acreditar neles se cremos que a Palavra de Deus é verdadeira. Um exemplo de interpretação é “Babilônia, a Grande é a religião falsa.”, ou “o Reino de Deus se expressa e se desenvolve por meio das igrejas protestantes.” Estas crenças podem ser verdadeiras, mas não há como termos certeza, porque elas são interpretações, não ensinamentos bíblicos explícitos. Jamais deveríamos tentar impor opiniões ou interpretações das Escrituras aos nossos irmãos. Os cristãos não são obrigados a acreditar nelas.

A Bíblia ensina claramente que Jesus era o Messias, mas será que a crença nele era suficiente para a salvação? Examinemos o livro de Atos e os escritos de Paulo para entender o que os discípulos viam como essencial para a salvação.

Porque ninguém pode colocar outro alicerce além do que já está posto, que é Jesus Cristo. (1 Coríntios 3:11)

“Portanto, que todo Israel fique certo disto: Este Jesus, a quem vocês crucificaram, Deus o fez Senhor e Cristo". Quando ouviram isso, os seus corações ficaram aflitos, e eles perguntaram a Pedro e aos outros apóstolos: "Irmãos, que faremos?" Pedro respondeu: "Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo.” (Atos 2:36-38)

“O eunuco perguntou a Filipe: "Diga-me, por favor: de quem o profeta está falando? De si próprio ou de outro?Então Filipe, começando com aquela passagem da Escritura, anunciou-lhe as boas novas de Jesus. Prosseguindo pela estrada, chegaram a um lugar onde havia água. O eunuco disse: "Olhe, aqui há água. Que me impede de ser batizado?" Disse Filipe: "Você pode, se crê de todo o coração". O eunuco respondeu: "Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus". Assim, deu ordem para parar a carruagem. Então Filipe e o eunuco desceram à água, e Filipe o batizou.” (Atos 8:34-38)

Ele nos mandou pregar ao povo e testemunhar que este é aquele a quem Deus constituiu juiz de vivos e de mortos. Todos os profetas dão testemunho dele, de que todo aquele que nele crê recebe o perdão dos pecados mediante o seu nome. (Atos 10:42, 43)

Então levou-os para fora e perguntou: “Senhores, que devo fazer para ser salvo?” Eles responderam: "Creia no Senhor Jesus, e serão salvos, você e os de sua casa. (Atos 16:30, 31)

“Se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo.” (Romanos 10:9)

Vemos assim, à base das Escrituras, que a crença essencial para a salvação é a crença de que Jesus Cristo é Salvador e Senhor. Nenhum homem ou organização religiosa tem autorização para nos impor crenças adicionais, alegando que elas são essenciais. É claro que a crença em Jesus implica numa crença em Deus, o Pai de nosso Senhor, que o enviou. Não podemos acreditar em Jesus sem crer em Deus, o Pai, Criador de todas as coisas. Esta crença está implícita, se cremos que Jesus, o Filho de Deus, é o Cristo.

E quanto ao Reino de Deus?

O Reino de Deus era central na pregação e no ensinamento de Jesus Cristo. Seus discípulos continuaram a pregar sobre o Reino de Deus após a morte e ressurreição dele, bem como sobre o poder salvador do nome de Jesus (Atos 8:12, 19:8, 28:31). Mas, o que é o Reino? É a prometida governança de Deus por meio de Seu Messias, Jesus Cristo. No futuro, o Messias reinará sobre a Terra, inaugurando uma era de retidão e justiça divina. Os judeus e os primeiros discípulos cristãos sabiam disso, com base em muitas profecias do Antigo Testamento (Salmo 2, Daniel 2:44). Ao aceitar Jesus como o Messias, estamos também o aceitando como nosso Rei, o prometido rei do Reino de Deus.

Jesus Cristo é tanto sacerdote como rei à maneira de Melquisedeque (Heb. 5:6). Ele nos salva de nossos pecados e é a personificação e o representante do Reino de Deus, pois ele é o Rei desse Reino. Por mantermos Jesus Cristo central em nossas associações, e não sistemas doutrinários, evitamos argumentos e divisões acerca de detalhes sobre como será o Reino de Deus no futuro — que são em sua maioria de natureza interpretativa e que, portanto, não devem ser vistos como requisitos para a salvação.

Em A Razoabilidade do Cristianismo, John Locke resume:

Mas, considerando a fragilidade do homem, pronto para cair em corrupção e miséria, ele [Deus] prometeu um libertador, a quem ele enviou em seu tempo devido, declarando então a toda a humanidade, que quem acreditasse que ele é o Salvador prometido (agora ressuscitado dentre os mortos e constituído como Senhor e Juiz de todos os homens) e o aceitasse como seu Rei e Governante, seria salvo. Esta é uma proposição clara e inteligível, e o Deus todo-misericordioso parece aqui ter consultado os pobres deste mundo e a massa da humanidade.

A Palavra de Deus, a Bíblia

Estamos presumindo neste artigo que a Bíblia é a Palavra de Deus. Sem esta premissa seria impossível chegar a algum acordo sobre crença, uma vez que não existe outra base para se medir ou testar uma crença. Observamos também que os apóstolos e o próprio Jesus tinham o maior respeito pelas Escrituras que existiam naquele momento, citando-as liberalmente. O segundo elemento essencial, então, é que a Bíblia é a Palavra de Deus e, portanto, verdadeira.

Toda a Escritura é inspirada por Deus e proveitosa para ensinar, para repreender, para endireitar as coisas, para disciplinar em justiça, a fim de que o homem de Deus seja plenamente competente, completamente equipado para toda boa obra. (2 Timóteo 3:16, 17, Tradução do Novo Mundo)

As coisas essenciais que temos como cristãos, então, podem ser reduzidas aos seguintes três pontos:  

 - Existe um só Deus, nosso Pai Celestial, o Criador de todas as coisas, a quem prestamos adoração exclusiva; 

 - Jesus Cristo, o Filho de Deus, é o nosso Senhor, Salvador e Rei, o único mediador entre Deus e o homem; 

 - A Bíblia é a Palavra de Deus.

Portanto, nossa unidade cristã, pelo menos em termos de doutrina, deve ser baseada nestas coisas essenciais. Não devemos impor crenças adicionais aos nossos irmãos, alegando que estas são importantes para a salvação. Devemos manter Jesus Cristo como central na adoração de nosso Pai Celestial, sempre lembrando o amor que o Pai teve por nós, dando seu Filho único para que pudéssemos ter vida. Se mantivermos isso em mente, será uma força unificadora em nossas associações.

Em Coisas Não Essenciais, Liberdade

Adorar nosso Pai Celestial, aceitar Jesus Cristo como Salvador, e a Bíblia como a Palavra de Deus são certamente essenciais, mas o cristão deve progredir além dos ensinos básicos.

“Portanto, deixemos os ensinos elementares a respeito de Cristo e avancemos para a maturidade.” (Hebreus 6:1).

Assim, o novo cristão é encorajado a estudar a Palavra de Deus, meditar sobre ela, orar, ler publicações sobre o assunto e considerar isso com outros cristãos, conforme ele ou ela avança à madureza cristã. É importante que todos nós façamos isso, mas é igualmente importante compreender que certas coisas não são essenciais para a salvação. De que coisas estamos falando?  

Interpretação profética;

Conceitos sobre o milênio;

A natureza dos nossos novos corpos na ressurreição;

O lugar de Israel no propósito de Deus;

A condição dos mortos;

A interpretação dos tipos e padrões no Antigo Testamento;

A natureza do Espírito Santo;

e assim por diante ...

Todas estas são questões importantes para estudar, e muitos irmãos e irmãs têm desenvolvido alguns conceitos interessantes e dignos de reflexão. Mas, novamente, embora sejam questões importantes, elas não são essenciais para a salvação, segundo as Escrituras. Devemos permitir o máximo de liberdade aos nossos irmãos em coisas não essenciais. Onde temos pontos de vista diferentes, em vez de entrar em argumentações demoradas, não bastaria declarar nossa posição, fazer uma consideração, e depois seguir em frente? Argumentos insistentes sobre questões não essenciais dividem e provocam sentimentos feridos. Os cristãos devem, em vez disso, mostrar humildade, amor e paciência com seus irmãos e irmãs. Devemos ter fé em que Jesus Cristo, o cabeça de sua congregação, sabe como ensinar cada um de nós. Então, mostremos paciência e permitamos que ele mesmo faça isso.

Uma palavra de cautela se faz necessária. Não devemos tentar suprimir a discussão em nossas associações, numa tentativa de evitar argumentos. Esta não seria uma situação saudável. Nossos irmãos e irmãs devem poder expressar suas crenças e idéias numa atmosfera de liberdade, e devemos ouvi-los respeitosamente. Devemos tentar arduamente entender o que eles estão dizendo e por que eles acreditam no que acreditam. Jamais devemos ridicularizar alguém por ter determinada crença, mas devemos simplesmente apresentar a nossa visão bíblica, e confiar no Senhor para conduzi-los em seu tempo devido. Devemos ter também a humildade de admitir quando estamos errados, e estar dispostos a mudar nossas crenças.

Em Todas as Coisas, o Amor

A doutrina correta é importante se estamos adorando em “espírito e verdade” (João 4:23-24). Mas é primariamente o amor que identifica os verdadeiros discípulos de Jesus.

Notemos até que ponto o amor cristão baseado em princípios começa com Jesus e seu Pai:

Respondeu Jesus: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra. Meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada.” (João 14:23)

“Eu os fiz conhecer o teu nome, e continuarei a fazê-lo, a fim de que o amor que tens por mim esteja neles, e eu neles esteja.” (João 17:26)

Observe o encorajamento para amar os nossos irmãos e irmãs:

“Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros.” (João 13:34, 35)

“O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros como eu os amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos.” (João 15:12, 13)

“Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a lei.” (Rom.13:8)

O conhecimento traz orgulho, mas o amor edifica. (1 Coríntios 8:1)

Dediquem-se uns aos outros com amor fraternal. Prefiram dar honra aos outros mais do que a si próprios. (Romanos 12:10)

Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; pelo contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor. (Gal. 5:13)

O que os textos acima nos dizem?  

- O amor principia com o amor de Deus por nós por meio de Cristo. 

- Devemos corresponder a esse amor de nosso Pai Celestial e de seu Filho Jesus Cristo. 

- Devemos mostrar amor cristão baseado em princípios aos nossos irmãos e irmãs, mesmo ao ponto de ser escravizados por eles e sofrer por eles, se necessário. 

- Os verdadeiros cristãos são identificados por este amor, não pela aderência a algum código doutrinário.

O amor baseado em princípios cristãos é realmente a mais poderosa fonte de unidade — muito mais poderoso do que a concordância estrita com um sistema doutrinário. Se a pessoa de Jesus Cristo é central, e temos profundo amor e devoção a ele e a nosso Pai Celestial, bem como a nossos irmãos e irmãs, dificilmente surgirão divisões. Num ambiente assim, a verdade doutrinal emergirá cada vez mais, conforme o Senhor conduz gentilmente cada cristão em sua caminhada com ele. Em vez de impor doutrinas, nós permitimos que a verdade surja naturalmente, por meio da orientação do Espírito Santo, à luz das Escrituras, e sob a liderança do nosso Senhor e Mestre, Jesus Cristo.

Nas coisas essenciais, unidade; em coisas não essenciais, liberdade; em todas as coisas, o amor.”

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Gordon Coulson. As citações bíblicas nesta tradução são da Nova Versão Internacional, a menos que haja outra indicação.