O Mito do "Sinal Composto"

 

ATÉ AQUI consideramos em base individual os aspectos da vida e circunstâncias humanas que os proclamadores do fim dos tempos enfatizam regularmente: guerras, fomes, pestilências e terremotos. Tomados isoladamente, é óbvio que nenhum deles distinguiu genuinamente o século 20 dos séculos passados, quer analisemos estes aspectos a partir de 1914, 1948 ou a partir de qualquer outro ano do século 20.

Os terremotos não são mais freqüentes nem de escala maior do que em séculos anteriores. Mesmo a guerra, apesar de seu potencial de destruição ter sido grandemente aumentado, evidentemente não afeta uma maior porcentagem da população do que no passado. Apesar de todas as afirmações contrárias, o número de guerras – guerras verdadeiras – na verdade diminuiu no século 20. E a fome e a pestilência não só diminuíram, mas diminuíram nitidamente desde a segunda década do século 20. A diminuição é ainda mais espantosa quando se fazem comparações com séculos passados.

Não se pode deixar de notar que a maneira legítima de se avaliar aumento – particularmente nos três últimos aspectos – é a porcentagem da população afetada. Numa aldeia de 1.000 habitantes, se 600 deles estivessem morrendo de fome, descreveríamos a aldeia como estando gravemente afetada pela fome. Isso significaria que seis dentre cada dez pessoas estavam morrendo de fome. Mas numa cidade de 100.000 habitantes, mesmo que 10.000 pessoas estivessem morrendo de fome, esse número, embora muito maior do que os 600 já mencionados, significaria que apenas uma dentre cada dez pessoas estava morrendo de fome. A cidade grande teria, em média, uma incidência de fome muito menor do que a aldeia. A cidade seria, desse ponto de vista, o melhor lugar para se viver.

É isto o que encontramos ao considerar o cenário mundial. A população mundial aumentou grandemente, principalmente durante o século 20 e, portanto, seja qual for a circunstância devastadora que se considere, é bem razoável que um maior número de pessoas seja afetado do que vários séculos, ou até mesmo apenas um século atrás. Numa época em que os vôos de aviões comerciais eram raros, limitados a poucos por dia, cinco quedas num ano poderiam indicar corretamente um baixo nível de segurança, poderiam justificar a conclusão de que voar é um meio razoavelmente perigoso de se viajar. Hoje, quando milhares de vôos são realizados cada dia em apenas um único país, como os EUA, até mesmo o triplo desse número de quedas num ano não mudaria o fato de a viagem de avião ter se tornado um dos meios de transporte mais seguros em nossos tempos modernos. O mesmo princípio aplica-se apropriadamente quando avaliamos o efeito mundial dos aspectos já mencionados referentes à guerra, fome e pestilência, bem como ao número de pessoas afetadas por terremotos. Ignorar esse fator, deliberadamente ou apenas devido a pensamento superficial, é distorcer a realidade e deturpar a verdade.

Os que querem nos fazer crer que temos diante de nós evidência visível identificando nossa geração como sendo notavelmente marcada pela profecia – por estar supostamente sendo assolada por essas calamidades em algum sentido especial – talvez digam que sua pretensão não se baseia nestes aspectos tomados isoladamente. Talvez digam que se baseia na combinação deles, todos ocorrendo simultaneamente durante um único período.

Assim, o escritor de matérias religiosas Hal Lindsey comparou estes aspectos calamitosos a várias peças de um quebra-cabeça complexo que agora estão, segundo se diz, ‘deslocando-se rapidamente para seus lugares’ desde 1948. O evangelista Billy Graham ouve nos acontecimentos atuais o ameaçador tropel combinado dos cascos dos cavalos dos quatro cavaleiros do Apocalipse. A organização Torre de Vigia apresenta estes aspectos como sendo os elementos individuais de um “sinal composto”. O “sinal”, segundo eles, não é algum dos aspectos por si só, e sim a combinação de todos eles ocorrendo mundialmente numa geração, um sinal composto supostamente único na geração que viveu a partir de 1914.

Portanto, embora os fatos obriguem a admitir que nenhum destes aspectos individualmente teve uma incidência sem precedentes no século 20, talvez digam, “É verdade, talvez algum século no passado tenha presenciado mais fome do que a época atual, outro século pode ter visto mais ou maiores terremotos, ainda outro século pestilências mais desastrosas, e ainda outro talvez tenha sido tão ou mais atingido pela guerra do que nossa época. Mas não é qualquer destas coisas individualmente, e sim o conjunto delas, ocorrendo simultaneamente agora, em nossa época, que distingue o momento atual como constituindo, além de qualquer dúvida, os últimos dias antes de o julgamento do mundo ocorrer.”

Será que este raciocínio tem alguma validade?

 

A síndrome das calamidades 

 

Muitos proclamadores do fim dos tempos simplesmente deixam o registro do passado fora de sua discussão e é improvável que a maioria de seus leitores saiba o que esse registro mostra para poderem fazer uma verdadeira comparação entre condições. A Torre de Vigia, entretanto, por vezes procura contradizer a evidência do passado e negar seu significado. Isto indica que reconhecem que há problemas com pelo menos alguns dos aspectos de seu “sinal composto”, e que nenhuma das calamidades é nova para a humanidade. “Nenhuma dessas coisas são exclusividade do nosso século”, disse a Sentinela de 15 de outubro de 1984, páginas 4 e 5. Então como tais coisas podem ser usadas para identificar o tempo do fim como tendo começado em 1914? O mesmo número de A Sentinela afirma que elas “teriam de alguma forma que diferir das condições similares de épocas anteriores”, explicando: 

 

Primeiro, todas as particularidades do sinal teriam de ser observadas por uma mesma geração...

Segundo, os efeitos do sinal teriam de ser sentidos em todo o mundo...

Terceiro, as condições ou os sintomas combinados teriam de piorar progressivamente durante esse período...

Quarto, a ocorrência de todas essas coisas seria acompanhada por uma mudança nas atitudes e nas ações das pessoas. Jesus advertiu: “O amor da maioria se esfriará.”[1]

 

Assim eles impõem padrões para julgar o cumprimento das palavras de Jesus que são, pelo menos em parte, padrões de sua própria autoria. Mas, mesmo assim, esta tentativa em quatro frentes para salvar do colapso o “sinal composto” é na verdade muito débil. Será que as fomes e as pestilências, por exemplo, ‘pioraram progressivamente’ desde 1914? Estão mais difundidas “em todo o mundo” hoje do que em qualquer período anterior? A verdade é que o alcance e a mortalidade destas duas calamidades foram progressivamente reduzidos em nossa época! Nem mesmo os terremotos se tornaram ‘progressivamente piores’ desde 1914, nem têm sido mais sentidos “em todo o mundo” do que antes dessa data. Quanto às guerras, é verdade que têm aumentado progressivamente em potencial destrutivo em nossos dias. No entanto o fato notável é que as guerras ceifaram mais vítimas durante as três primeiras décadas depois de 1914 do que durante as seis décadas que passaram depois de 1945! E apesar de às vezes se mencionar que as guerras ceifaram uns 30 milhões de vidas nas quatro décadas depois de 1945, isto é menor do que o número de mortos em guerras no período correspondente do século 19 (1845-1885).

 

Uma única geração? 

 

Que dizer do argumento segundo o qual “todas as particularidades do sinal teriam de ser observadas por uma mesma geração”? Será que isso destaca a geração de 1914 – ou qualquer outra geração do nosso tempo – como sendo única neste aspecto? De modo algum. Qualquer pessoa que faça uma pesquisa honesta e rigorosa do assunto descobrirá logo que é praticamente impossível encontrar uma geração durante os últimos 2.000 anos que não tenha observado as várias particularidades combinadas do suposto “sinal composto”! E realmente isto não nos deveria surpreender, uma vez que a maior parte dos flagelos mencionados por Jesus está inter-relacionada e, por este motivo, é normal que ocorram simultaneamente. Isto é particularmente verdadeiro no que se refere às guerras, fomes e pestilências. Em A Fome e a História, E. P. Prentice observa:

Fome, Guerra e Pestilência – o mundo conhece as três muito bem, e sabe que elas não vêm sozinhas, em separado. Onde há Carência, a Pestilência se instala e a Guerra não está muito longe.[2]

 Enfatizando ainda mais esta ocorrência comum e simultânea Ralph A. Graves explica:

 

Uma pesquisa do passado mostra que guerra, pestilência e fome sempre estiveram relacionadas, algumas vezes sendo uma a causa, outras vezes sendo outra, e as duas restantes a conseqüência. Onde uma do trio ocorreu, as outras duas se seguiram, algumas vezes isoladamente, mas geralmente juntas.

Uma verdadeira trindade do mal, as três são como uma praga, iguais em seu poder destrutivo e em sua universalidade sinistra.[3] 

Esta “trindade do mal” estava ainda mais fortemente associada no passado do que nos dias de hoje, quando comunicações e cuidados médicos melhores têm reduzido grandemente o papel da fome e das epidemias em épocas de guerra.

Em períodos de guerra, fome e pestilência é também muito comum que aumentem o crime e a violência. A história está repleta de exemplos do efeito desmoralizante destas pragas na mente e no comportamento das pessoas. Em sua abordagem sobre as fomes, o professor Sergius Morgulis diz:

 

A Fome não é só destruidora da saúde e do físico, é num grau ainda maior um elemento dilacerador da moral e do caráter. Na luta desesperada para manter a vida todos os escrúpulos são ultrapassados, vizinho fica contra vizinho, e os fortes não têm compaixão dos fracos.[4]

 Portanto, a história das fomes é também uma história de desmoralização, violência, banditismo, assassinato e canibalismo, uma história dos períodos em que a anarquia aumenta e o amor esfria. E exatamente o mesmo tipo de deterioração ocorre durante as pestilências. “Épocas de peste são sempre aquelas em que o lado animalesco e diabólico da natureza humana assume o controle”, observou B. G. Niebuhr.[5] Esta correlação entre períodos de guerras, fomes, pestes, ou outros desastres e um aumento do crime foi também confirmada por descobertas da criminologia moderna. O criminologista sueco Hanns von Hofer, por exemplo, em seu estudo aprofundado sobre o crime na Suécia de 1750 a 1982, observa que o desenvolvimento histórico da violência e dos roubos “caracteriza-se por uma série de aumentos e decréscimos muito acentuados, que coincidem com acontecimentos históricos particulares, como anos de fome, restrições ao consumo do álcool, e guerras.”[6]

 

O provérbio “uma desgraça nunca vem só” é evidentemente verdadeiro no que se refere a muitas das calamidades a que Jesus se referiu em sua profecia sobre o rumo futuro da história do mundo. Guerras, fomes, pestes e crime estão todos correlacionados e geralmente aparecem juntos. Sua aparência “composta” é, portanto, muito natural e compreensível e não é alguma novidade da nossa época. Pelo contrário, esta síndrome das calamidades tem sido parte da história do homem ao longo de todos os séculos, e tem sido experimentada por todas as gerações desde a época de Cristo.

 

O século catorze – um “espelho distante” 

 

A história da humanidade é, em grau notável, uma história de crises e catástrofes. Embora a Torre de Vigia admita isto, ao contrário de outros proclamadores do fim dos tempos ela tenta minimizar estas calamidades do passado, alegando que nossa época tem presenciado tais numa escala muito maior. Assim, na revista A Sentinela de 15 de janeiro de 1984 (páginas 6 e 7), aparece esta declaração:

 

Certamente, é verdade que gerações anteriores sofreram calamidades. O século 14 foi o período da Peste Negra, quando pessoas em toda a Europa viviam com medo da pestilência, de fomes e de guerras. Mas, compare só a escala das coisas no nosso século.[7]

 De acordo com isso, a Torre de Vigia defende que as crises do século catorze não podem de modo algum ser comparadas com as do século 20.

 

Qual é a verdade? Está a sua vida ou a das pessoas em geral mais afetada pela peste do que no século catorze? Se nos fosse dada a oportunidade, será que escolheríamos as condições daquele tempo – no que se refere a guerras, fomes, pestilências e terremotos – como preferíveis às do momento atual? A historiadora Barbara Tuchman comparou o século catorze a um “espelho distante” do século 20. Um olhar mais atento para os diferentes aspectos daquele período revelará se existe alguma verdade na afirmação da Torre de Vigia.

 

Época de guerra 

 

A história mostra que o mundo medieval era um “mundo de guerra constante.”[8] Durante o século catorze uma série de guerras longas e sangrentas foram travadas em diferentes partes do mundo. Em 1337 a Europa Ocidental presenciou o início da guerra mais longa da história, a chamada Guerra dos Cem Anos entre a Inglaterra e a França, uma guerra que na verdade se estendeu por 116 anos e que, segundo a historiadora Tuchman, destruiu a unidade medieval.[9]

 

Outras guerras e infindáveis conflitos civis assolaram a Europa, como por exemplo, as guerras entre os principados da Alemanha e as guerras entre as cidades comerciais e os principados da Itália.

 

Não foi apenas a Europa Ocidental que esteve envolvida em guerra. A Europa Oriental e praticamente todo o continente asiático estavam dominados  pelos   cruéis  mongóis,   que  tinham  conquistado  aquelas regiões no decorrer do século anterior.[10] Sobre o período de 1200 a 1400 D.C., os historiadores R. Ernest Dupuy e Trevor N. Dupuy disseram:

 

Durante a maior parte desses dois séculos [o 13 e o 14] a história militar e política da humanidade foi dominada por uma potência. Os mongóis – ou seus vassalos, os tártaros – conquistaram ou devastaram todas as principais regiões do mundo conhecido, com exceção da Europa Ocidental.[11]

Durante o século catorze este vasto império desmoronou-se gradualmente. Sangrentas guerras civis persistiram durante décadas tanto nas partes ocidentais como nas orientais do grande Império Mongol. Na China os dominadores estrangeiros foram finalmente derrotados em 1360, depois de uma longa guerra civil que custou evidentemente milhões de vidas.[12] No mesmo século o Império Turco apareceu no cenário, tendo conquistado primeiro a Ásia Menor e depois a maior parte da Península Balcânica.

Daí, por volta de 1370, apareceu no cenário um dos mais desumanos conquistadores mundiais que a história conheceu. Ele foi Tamerlão (ou, Timur Lenk), o terrível “Hitler” do século catorze. Após fazer de Samarcanda, no Turquestão Ocidental, o centro de seu império em 1370, ele partiu dali para conquistar o resto da Ásia. Os países do Corásmio, Afeganistão, Beluquistão, Mongolestão, Rússia, Sibéria Ocidental, Pérsia, Iraque, Índia, Síria e Anatólia foram todos conquistados durante as três décadas seguintes, numa onda de triunfos inacreditavelmente cruéis e sangrentos que custaram milhões de vidas.

Da mesma maneira que Gêngis Khan no século anterior, Tamerlão assassinava sem misericórdia populações inteiras – homens, mulheres e crianças – em qualquer cidade ou região que lhe resistia. Todo o país do Corásmio com sua capital Urgentsj, na Ásia Central, foi assim completamente riscado do mapa. Muitas cidades populosas, entre elas Tíflis, a capital da Geórgia, Ispaã na Pérsia, Bagdá no Iraque, e Damasco na Síria, foram devastadas e saqueadas e suas populações aniquiladas. Estima-se que durante as conquistas na Índia em 1398, um milhão de pessoas morreu em questão de poucas semanas. Tamerlão finalmente morreu em sua campanha contra a China em 1405, tendo já conquistado quase toda a Ásia desde a Europa a oeste até a fronteira chinesa a leste.[13] 

Gêngis Khan

Estátua de Timur Lenk

O aspecto da guerra – em todas as partes do mundo conhecido – com certeza não estava ausente no século catorze.

Época de fome 

 

O século catorze teve início com uma mudança no clima, provocando tempo frio durante alguns anos, com tempestades, chuvas, inundações, e depois secas – e destruição das colheitas. A conseqüência foram várias fomes muito severas. Aparentemente a pior destas foi a fome universal de 1315-1317 (em algumas regiões durou até 1319), uma fome “que atingiu todas as terras dos Pireneus às planícies da Rússia e da Escócia à Itália.”[14] As conseqüências foram muito severas. Os pobres comiam praticamente tudo, “cães, gatos, os excrementos das pombas, e até suas próprias crianças.”[15] Relatos da Livônia e da Estônia enfatizam que “mães famintas comeram seus filhos”, e que “homens famintos muitas vezes morriam nas sepulturas enquanto escavavam corpos para comer.”[16] Cronistas mostram que condições similares prevaleciam em outros países. Na Irlanda “a agonia arrastou-se até 1318 e mostrou-se especialmente severa, pois as pessoas desenterravam corpos nos cemitérios das igrejas e usavam-nos como alimento, e os pais até comiam seus filhos.”[17] Nos países eslavos, como a Polônia e a Silésia, a fome ainda era comum em 1319, e relatos dizem que os pais “matavam seus filhos e os filhos matavam os pais, e os corpos de criminosos executados eram avidamente arrebatados da forca.”[18] Junto com a fome veio a peste que eliminou um grande número de pessoas.[19]  

Iluminura do Apocalipse em uma Biblia Pauperum, feita em Erfurt por volta da época da Grande Fome de 1315-1317. A Morte "(Mors") cavalga um leão, cuja longa cauda termina numa bola de fogo (o Inferno). A Fome ("Fames") aponta para sua própria boca faminta.

Seguiram-se outras grandes fomes nas décadas de 1330 e 1340. A Peste Negra foi precedida por uma fome muito severa que se estima ter afetado um quinto da humanidade. Na Itália, por exemplo, ela “varreu pela fome absoluta um grande número dos habitantes.”[20] Por todo o resto do século fomes sucessivas afetaram os países da Europa e outras partes do mundo e, nesse período, prevaleceu a “carência universal”, conforme foi mostrado no Capítulo 2 deste livro. Existe toda a evidência de que o século catorze foi muito mais afetado pelas fomes e pela má nutrição do que o século vinte.

Época de pestilência 

Não há necessidade de repetir a descrição da Peste Negra do século catorze. Vimos no Capítulo 4 que esta praga ultrapassou em todos os sentidos a Gripe Espanhola do século 20. Além disso, ela visitou novamente a Europa – e muitas outras partes do mundo – várias vezes antes do fim daquele século. Outras pestilências que assolaram a humanidade no mesmo período foram a disenteria e o antraz; várias grandes epidemias do mal conhecido como Doença de Huntington difundiram-se perto do fim do século.[21] (Embora não seja notavelmente contagiosa ou necessariamente mortal, a lepra alcançou suas maiores proporções na Europa durante as décadas que antecederam a Peste Negra.)

As pragas do século catorze tiveram um impacto na raça humana muitas vezes mais desastroso do que as epidemias de nossa época, e muitos historiadores apontam para 1348, o ano inicial da Peste Negra, como um dos pontos de virada mais importantes da história. A. L. Maycock defende até que “o ano de 1348 assinala o ponto mais próximo de uma interrupção definitiva na continuidade da história, como jamais havia ocorrido.”[22]

 

Época de terremotos 

Nos tempos antigos era comum a crença de que os terremotos, da mesma forma que os fenômenos celestes tais como eclipses, meteoros, e especialmente cometas, eram presságios de grandes calamidades, especialmente de guerras, fomes e pestilências.[23] Por isso, esses portentos sinistros normalmente causavam grande medo. Esta é provavelmente a razão porque, ao abordar as coisas que poderiam induzir seus discípulos ao erro e levá-los a crer que o fim era iminente, Jesus acrescentou terremotos e, segundo Lucas capítulo vinte e um, versículo 11, “fenômenos pavorosos e grandes sinais vindos do céu.” (BJE) Tucídides, Diodoro Sículo, Lívio e muitos outros escritores antigos afirmaram que os terremotos eram presságios de pestilência, e o filósofo romano Sêneca, um contemporâneo dos apóstolos, afirmou explicitamente que “depois de grandes terremotos é normal ocorrer uma pestilência”.[24] Não admira, pois, que os grandes terremotos que antecederam e acompanharam a peste negra do século catorze tenham sido interpretados como presságios da praga por cronistas contemporâneos.

Na China os anos que antecederam o início da praga foram marcados por uma série de desastres de vulto: secas, inundações, enxames de gafanhotos, fomes e terremotos. Até mesmo antes de irromper a praga em 1337 o número de mortos deve ter sido enorme:

 

Em 1334 houve uma seca em Houdouang e Honan, seguida por enxames de gafanhotos, fome e pestilência. Um terremoto nas montanhas de Ki-Ming-Chan formou um lago com mais de seiscentos quilômetros de circunferência. Em Tche acredita-se que os mortos ascenderam a mais de cinco milhões. Terremotos e cheias continuaram de 1337 a 1345, os gafanhotos nunca tinham sido tão destrutivos, houve um ‘trovão subterrâneo’ em Cantão.[25]

A Europa também parece ter sido atingida por uma série de calamidades pouco comum, incluindo terremotos destrutivos, nos anos anteriores e durante a praga, acompanhados por portentos assustadores no céu e na terra:

 

Ano após ano ocorreram sinais no céu, na terra, no ar, todos indicando, segundo pensavam os homens, algum vindouro acontecimento terrível. Em 1337 um grande cometa apareceu nos céus, sua longa cauda semeando o medo nas mentes das massas ignorantes. [...] Em 1348 veio um terremoto de uma violência tão assustadora que muitos homens pensaram tratar-se de um presságio do fim do mundo. As devastações dele espalharam-se amplamente. Chipre, Grécia e Itália foram terrivelmente atingidas e [o tremor sísmico] estendeu-se ao longo dos vales alpinos.[26]

A Europa foi sacudida do sul da Itália à Bósnia e da Hungria à Alsácia”, declarou o geólogo Haroun Tazieff. Os terremotos destruíram muitas cidades e aldeias, incluindo a cidade de Villach em Caríntia, na Áustria. Citando o autor do século dezoito Elie Bertrand, Tazieff diz que:

 

O terremoto fez desmoronar trinta e seis cidades ou castelos na Hungria, Estíria, Caríntia, Bavária e Suábia. O chão se abriu em vários lugares. Pensou-se que as exalações de mau cheiro que este terremoto produziu eram a causa daquela praga que se espalhou por todo o mundo, que durou três anos, e que, segundo os cálculos, matou um terço da raça humana.[27]

 Tazieff, declarando que “o século catorze foi especialmente atingido” por terremotos destrutivos, dá como outro exemplo o terremoto que devastou a cidade suíça de Basiléia em 1356:

 

Em 18 de outubro de 1356 às dez horas da noite a cidade de Basiléia e outras cidades e aldeias num raio de vinte e oito quilômetros foram destruídas por um terremoto terrível, cujos abalos posteriores continuaram por mais de um ano...

Oitenta castelos, juntamente com cidades e aldeias dependentes deles, ficaram arruinados.[28]

Conforme Tazieff observa, o século catorze parece ter sido atingido por um número anormalmente grande de terremotos destrutivos. O catálogo de Milne, embora muito incompleto para este período e “praticamente limitado a ocorrências na Europa Meridional, China e Japão”, alista 143 terremotos destrutivos para o século catorze.[29] É claro que geralmente faltam informações sobre o número de mortos, mas não há razão para pensar que os grandes terremotos eram menos comuns ou menos destrutivos para a vida humana no século catorze do que são hoje. A evidência disponível aponta na direção oposta.

 

Época de crime e época de medo 

 

Conforme já foi demonstrado, grandes calamidades como guerra, fome e pestilência normalmente causam um aumento considerável do crime e da imoralidade. Em A Peste Negra e os Homens do Saber (em inglês), M. Campbell observou que o crime violento foi “um aspecto importante na segunda metade do século catorze.”[30] A historiadora Tuchman em seu famoso estudo (Um Espelho Distante, pág. 119 em inglês) afirma até que o banditismo atingiu tais proporções que contribuiu para o declínio contínuo da população mundial no fim do século 14! O crime e o assassinato também se generalizaram durante a grande fome de 1315-1317:

 

Por causa destas condições houve um grande aumento do crime. Pessoas que normalmente levavam uma vida decente e respeitável viram-se obrigadas a cometer irregularidades de conduta que fizeram deles criminosos. Ladrões e vagabundos parecem ter infestado as regiões rurais da Inglaterra, e eram culpados de todos os tipos de violência. O crime tornou-se bem freqüente na Irlanda. Roubo com tentativa de estupro era comum; de fato todo tipo de artigos que podiam ser usados como alimentos eram roubados,... de fato todas as coisas de valor eram prontamente tomadas.[31]

 A pirataria, ou assalto em alto mar, que infestou séculos anteriores e era muitas vezes organizada e acompanhada por muito morticínio, aumentou também durante o século catorze.[32] Evidentemente aquela época teve seu quinhão de crime crescente – e o medo criado – assim como outros períodos, incluindo o nosso.

Materialismo, pessimismo, angústia e medo do fim do mundo caracterizaram o século catorze tanto como nossa época, ou até mais. Os problemas de hoje são, num grau muito maior do que as pessoas geralmente pensam, basicamente uma repetição do passado. Ziegler cita o historiador James Westfall Thompson, que comparou as conseqüências da Peste Negra e da Primeira Guerra Mundial e descobriu que em ambos os casos as queixas dos contemporâneos foram as mesmas: “caos econômico, inquietação social, preços altos, obtenção de lucros ilícitos, depravação moral, falta de produção, indolência industrial, alegria frenética, consumismo selvagem, luxúria, devassidão, histeria social e religiosa, ganância, avareza, má administração, decadência dos costumes.”[33]

Será que podemos dizer que as calamidades experimentadas pelo homem moderno são piores do que aquelas experimentadas pelo homem medieval? Ziegler, comentando a comparação de Thompson, conclui:

 

As duas experiências podem ser comparadas, mas a comparação só pode mostrar que a Peste Negra foi muito mais devastadora para suas vítimas do que a Grande Guerra [de 1914-1918] para os seus descendentes.[34]

Barbara Tuchman, que também faz referência à comparação de Thompson, concorda. Ela descreve o século catorze como uma “era violenta, atormentada, desorientada, sofredora e em vias de desintegração, uma época, como muitos pensam, do triunfo de Satanás,” e acrescenta:

 

Se nossa última ou duas últimas décadas de suposições de colapso foram um período de desconforto pouco usual, é reconfortante saber que a espécie humana já passou por situação pior antes.[35]

 Assim, qualquer afirmação sobre o século 20 ter visto as calamidades da guerra, fomes, pestilências, terremotos, e assim sucessivamente, num grau muito maior do que o século catorze não tem apoio na evidência histórica. Esta mostra que o oposto é verdade. Considerado como um todo, o suposto “sinal composto” foi certamente mais palpável no século catorze do que é atualmente. O tropel dos cavaleiros do Apocalipse soou tão alto como em nossa época.[36]

 

O testemunho da “bomba populacional” 

 

Talvez nenhum outro fator isolado testemunhe de maneira tão eloqüente a falsidade das alegações sobre as calamidades em nossa época como o aumento da população mundial. Enquanto os proclamadores do fim dos tempos usem isso com freqüência, numa tentativa de fundamentar tais afirmações, esse aumento na verdade os contradiz de uma maneira notável.

 

Assim, não admira que as publicações da Torre de Vigia tenham relutado em dizer toda a verdade sobre este fator.

A revista Despertai! de 8 de fevereiro de 1984, explicou o atual aumento da população do seguinte modo:

 

A raiz do problema jaz em como a população aumenta. Não aumenta por simples adição consecutiva (1, 2, 3, 4, 5, 6, etc.), mas por crescimento exponencial ou multiplicação (1, 2, 4, 8, 16, 32, etc.). (Página 5)[37]

Será que esta regra explica o aumento populacional desde o passado distante até a época atual? Será que explica por que levou milênios até que a humanidade atingisse um bilhão por volta de 1850, depois duplicasse para dois bilhões na década de 1930, e depois duplicasse novamente para quatro bilhões em 1975? Vejamos.

Atualmente a população duplica em 35 anos, o que corresponde a um aumento anual de 2 por cento.[38] Se a população tivesse mesmo crescido exponencialmente em intervalos constantes de duplicação de 35 anos, teria levado menos de 1.200 anos para aumentar de dois indivíduos para os atuais 6.5 bilhões![39] Mesmo se considerássemos uma taxa de aumento anual de apenas 1 por cento, correspondendo a uma duplicação em 69,7 anos, um crescimento exponencial levaria a números astronômicos em apenas dois mil anos. Conforme o professor Alfred Sauvy, o grande demógrafo europeu, explicou:

 

Se, por exemplo, a população da China, que se estima ter sido de 70.000.000 no tempo de Cristo, tivesse aumentado desde então em 1 por cento ao ano, teria alcançado hoje, não os recentemente estimados 680.000.000 [mais de um bilhão e duzentos milhões por volta do ano 2000], e sim 21 quadrilhões! Espalhada por todo o globo esta população daria cerca de 120 chineses por metro quadrado.[40]

É evidente que o crescimento exponencial não é a explicação correta para o desenvolvimento da população na terra. Por alguma razão os intervalos de duplicação eram muito maiores no passado. Até que ponto eram maiores foi enfatizado na Despertai! de 8 de março de 1968, página 4:

 

Levou desde o primeiro século até ao século dezessete para que a população do mundo dobrasse de 250 milhões para 500 milhões. Daí, em pouco mais de duzentos anos a seguir, no século dezenove, a população dobrou de novo, atingindo cerca de um bilhão (1.000.000.000) de pessoas. Mas, em apenas cem anos mais, no século vinte, dobrou mais uma vez. E agora? No índice atual de crescimento a população dobraria em apenas trinta e cinco anos! (Veja também a Despertai! de 8 de abril de 1980, pág. 5)

Este padrão de intervalos de duplicação, que diminuem tremendamente de 1.600 anos no passado para apenas 35 anos atualmente, mostra que deve ter havido alguma coisa no passado que impediu um crescimento exponencial, alguma coisa que foi gradualmente removida durante os últimos duzentos anos. Como o economista inglês Thomas Malthus, o qual muitas vezes se diz (embora erroneamente) ter sido o criador da teoria do crescimento exponencial (ou geométrico), escreveu em 1798, “a população, se não for controlada, cresce em proporção geométrica.”[41]

De modo que poderíamos muito bem perguntar: Por que a população mundial não cresceu exponencialmente nos séculos passados? Que fator, ou que fatores, restringiram o aumento populacional no passado? A resposta é completamente devastadora para a teoria do “sinal composto” desde 1914 ou 1948 ou para quaisquer alegações de o século 20 ter sido ‘o pior de todos’ no que se refere às condições calamitosas.

A razão do crescimento populacional muito lento em épocas passadas é precisamente devido ao fato de a humanidade ter sofrido muito mais guerras, fomes e pestilências naquele tempo do que hoje. Todos os atuais peritos em população (demógrafos) concordam. Estes fatores causaram uma mortandade tão alta que o aumento populacional foi eficazmente restringido.

Com freqüência a grande mortandade resultou até num decréscimo da população, através da pestilência, por exemplo, conforme já se mostrou. “Até os tempos modernos, epidemias e fomes reduziram regularmente qualquer aumento populacional”, diz o historiador Fernand Braudel.[42] O demógrafo Alfred Sauvy, falando do alto “fator de mortalidade” no passado, expõe as causas da seguinte maneira:

 

Este fator de mortalidade estava ativo no passado através de três irmãs extraordinária e mortalmente fatais: Fome, Doença e Guerra. Devido aos seus efeitos imediatos a Fome com certeza ocupou o primeiro lugar nesta trindade atemorizante, seguida de perto por sua parente próxima, a Doença.[43]

Este fator de mortalidade foi substancialmente reduzido em épocas recentes:

 

Das três irmãs demograficamente fatais, apenas a guerra continuou a trabalhar imbativelmente. Referimo-nos aqui à guerra no sentido estrito da palavra, porque outras formas de violência que resultam dela foram consideravelmente reduzidas. [...] As doenças ainda existem, mas epidemias do tipo daquelas que anteriormente dizimavam nações inteiras já não existem. A fome e a má nutrição ainda existem, mas a morte pela fome foi eliminada principalmente devido aos melhores meios de transporte.[44]

Estes são fatos firmemente estabelecidos hoje, conhecidos não apenas entre os peritos, mas encontrados até em livros escolares. Como um exemplo, a seguinte afirmação conclui uma abordagem sobre a explosão populacional num livro sobre educação cívica muito usado em escolas secundárias suecas:

 

Em conclusão, pode-se dizer que atingimos um desenvolvimento que é único para a humanidade. Por milhares de anos a fome, a doença e a guerra anularam efetivamente todas as tendências para um crescimento acelerado da população, mas depois do desenvolvimento técnico e medicinal o equilíbrio anterior entre as forças construtivas e destrutivas da vida foi alterado, resultando na explosão populacional.[45]

Assim as guerras, e especialmente as fomes e as pestilências devastadoras desempenharam um papel decisivo em restringir a população da terra no passado. Avanços médicos e tecnológicos combinaram-se para deter as devastações das pestilências, para aumentar o suprimento de alimento e melhorar os meios de transportá-lo. O resultado foi um decréscimo acentuado da mortalidade, e isto é particularmente verdadeiro no que se refere à mortalidade infantil. Esta é a verdadeira causa da explosão populacional.[46]

POPULAÇÃO MUNDIAL 3000 A.C. - 1985 A.D.


O gráfico populacional comum

 

Olhemos mais atentamente para o gráfico populacional, como se representa normalmente em várias publicações (veja a ilustração acima).

Conforme veremos, este gráfico idealizado não representa o quadro completo. Para chegarmos a uma representação mais exata, temos de primeiro levar em conta as verdadeiras causas da explosão populacional no século 20. A linha longa, quase horizontal, no gráfico atesta o longo período em que as fomes, pestilências e guerras devastadoras provocaram um aumento muito lento da população. A curva à direita, que sobe abruptamente, aponta para uma redução enorme do efeito das fomes e pestilências em épocas recentes.[47] A curva no gráfico é simplesmente muito esquematizada e não transmite toda a verdade sobre este aumento fenomenal.

Conforme o professor Erland Hofsten indica:

 

[...] a representação comum do desenvolvimento populacional está errada. Segundo ela a população da terra aumentou num ritmo regular, primeiro devagar e depois a uma taxa sempre crescente, até termos o que é agora popularmente chamado de ‘explosão populacional’. Mas as coisas não ocorreram com essa simplicidade. Segundo todas as evidências houve muitos períodos em que a população estacionou ou até decresceu, alternando com períodos de rápido crescimento.[48]

Assim a população da China em 1500 D.C. era praticamente a mesma do tempo de Cristo. A população da Península Indiana decresceu de 46 milhões no tempo de Cristo para 40 milhões em 1000 D.C. E a população do Sudoeste Asiático decresceu de 47 milhões no tempo de Cristo para 38 milhões em 1900 D.C.[49]

Segundo o demógrafo Francês Jean-Noel Biraben a população total da terra era aproximadamente a mesma no tempo de Cristo e em 1000 D.C., tendo aumentado e diminuído durante aqueles séculos por causa das fomes, pestilências e guerras devastadoras.[50] Esta estagnação confirma que morreram literalmente bilhões de pessoas, incluindo crianças e bebês, nestas calamidades durante aqueles séculos. Do século quinze ao dezenove, fomes, guerras civis, epidemias e infanticídio mantiveram a população japonesa praticamente estacionária durante quatro séculos.[51] Muitos outros exemplos poderiam ser dados. O demógrafo britânico T. H. Hollingsworth afirma que “a população deve ter diminuído tão freqüentemente (ou quase tão freqüentemente), quanto aumentou.”[52]

Por esse motivo, os demógrafos modernos apresentam gráficos da população que refletem estas flutuações. O exemplo apresentado na ilustração que segue baseia-se num gráfico desenhado por Biraben, e mostra as alterações na população mundial de por volta de 400 A.C. até 1985.[53] Este mostra que a população foi a mesma no tempo de Cristo e em 1000 D.C., bem como o impacto da Peste Negra sobre a população mundial desde 1348 D.C. até por volta de 1550.

 

POPULAÇÃO MUNDIAL 400 A.C. – 1985 D.C.


O gráfico da população revisado

Quando voltamos nossa atenção para os gráficos desenhados para cada um dos países, a impressão é ainda mais reveladora. O gráfico apresentado na próxima ilustração, por exemplo, refere-se ao Egito, e se baseia nos números e no gráfico desenhado por Hollingsworth.[54] As mudanças dramáticas entre aumentos e decréscimos não são de modo algum únicas. Gráficos para muitos outros países apresentam oscilações similares. O gráfico do Egito mostra decréscimos muito acentuados da população devidos a guerras e pestilências, mas deve-se notar que as guerras e pestilências eram normalmente acompanhadas por fomes severas que contribuíam grandemente para estes decréscimos.

 

POPULAÇÃO DO EGITO, 664 A.C. – 1985 D.C.

 


Gráfico da população para o Egito, de 664 A.C. a 1985 D.C. (Baseado na informação e no gráfico desenhado por T. H. Hollingsworth, em A Demografia Histórica, Londres e Southampton, 1969, página 331 em inglês.)

Portanto, a moderna “explosão populacional” revela por comparação uma pavorosa história sobre o passado do homem, uma história de fomes, pestes e outras calamidades num grau que – mesmo se encarado como um todo – não tem qualquer correspondente nos tempos modernos. O seu testemunho está ali para todos verem, e é impossível refutá-lo. E, mui significativamente, desfere um golpe mortal na idéia de que termos visto um “sinal composto” que poderia servir como uma evidência infalível da parousia de Cristo desde 1914, ou o princípio de algum período especial desde 1948, ou outras alegações desse gênero.

 

Possibilidades versus realidades

 

Resta dizer que o cenário mundial está sempre sujeito a mudanças, algumas vezes muito súbitas. Pode-se elaborar facilmente um cenário imaginário do que poderia acontecer nos anos à frente. Não é difícil encontrar dados sobre os quais construir essa situação hipotética. A crescente população mundial poderia levar a fomes de alcance e mortalidade sem precedentes. Uma vez que por algum tempo os sismólogos predisseram que o Japão e a Califórnia são propensos à ocorrência de alguns grandes terremotos, poderíamos prever essas ocorrências e a morte de dezenas de milhares de pessoas, se áreas densamente povoadas como Tóquio, São Francisco e Los Angeles fossem atingidas. Em tempos de fome e outras grandes catástrofes, as epidemias podem espalhar-se com mais rapidez. Portanto poderíamos juntar isto em proporções incontroláveis à predição.[55] E por último, mas de modo algum menos importante, o espectro da guerra nuclear poderia ser acrescentado ao cenário, visto que, se ocorresse poderia incontestavelmente provocar a morte de milhões, ou mesmo de centenas de milhões de pessoas.

O problema de usar esse cenário de desastres horríveis como base para afirmações sobre a época em que vivemos e sobre períodos específicos desde 1914 e 1948 é que estas coisas não passam de possibilidades. Não são realidades. Poderiam acontecer, mas não aconteceram. Por esse motivo não podem servir para provar coisa alguma com respeito a 1914 ou 1948 ou qualquer outro período remoto no século 20. Mesmo se esse cenário imaginário se desenvolvesse realmente, digamos, agora no século 21, o que isso provaria acerca de 1914 ou 1948? A Torre de Vigia, por exemplo, ainda teria de explicar por que os primeiros noventa anos após 1914 – o período no qual o “sinal composto” teoricamente apareceu como prova da “presença invisível” de Cristo – não presenciaram aumento algum em qualquer dos aspectos desse pretenso “sinal”. As predições de Hal Lindsey a respeito de um período de setenta anos a partir de 1948 com o estabelecimento do estado judaico em Israel seria ainda um quebra-cabeça complexo sem outras peças anteriores a esse possível e hipotético desenvolvimento futuro. As declarações do Dr. Billy Graham sobre ouvir o tropel dos quatro cavaleiros “aproximando-se, soando cada vez mais alto”, teriam então de ser tomadas como evidência de audição profética, uma audição de sons amplificados ainda no futuro, uma vez que atualmente os fatos mostram que nenhum dos simbólicos “quatro cavaleiros” está em maior evidência no nosso tempo do que esteve em séculos passados.

O mero fato de alguma coisa poder ocorrer não quer dizer necessariamente que ocorrerá. Mesmo antes do desenvolvimento da bomba atômica, as nações tinham desenvolvido gases venenosos e armas bacteriológicas com um potencial assustador. Apesar disso, embora o gás venenoso tenha sido usado com conseqüências horríveis na Primeira Guerra Mundial, desde então, mesmo durante a selvagem Segunda Guerra Mundial, as nações refrearam-se de qualquer uso do gás venenoso e nunca recorreram ao emprego das suas temíveis armas de guerra bacteriológica. Vale lembrar também que a última vez que uma arma atômica foi usada contra humanos foi em 1945, já há mais de seis décadas. Predições sobre o futuro baseadas em raciocínios e suposições humanas continuam a ser um jogo de adivinhações, desligado do cumprimento real da profecia divina.

Declarado de forma simples, e deixando de lado conjecturas e circunstâncias imaginárias, a verdade é que nossa geração não é mais atingida por fome, pestilência, terremotos, guerra, crime ou medo do que outras gerações do passado e, em alguns aspectos, é até menos.

 

 


[1] O mesmo raciocínio é repetido no livro A Vida – Qual a Sua Origem? – A Evolução ou a Criação?, publicado pela Torre de Vigia em 1985, na página 226, parágrafo 28.

[2] A Fome e a História, E. Parmalee Prentice (Caldwell, Idaho, 1951), pág. 137 em inglês.

[3] “As Fomes Atemorizantes do Passado”, Ralph A. Graves, Revista National Geographic, julho de 1917 (em inglês), pág. 69. Walford se expressa em termos similares: “Portanto a espada, pestilência e fome são agora, como têm sido em todas as épocas, os três inimigos mortais combinados da raça humana.” – “As Fomes do Mundo: Passadas e Presentes”, C. Walford, Revista da Sociedade de Estatística, Vol. XLII em inglês, (Londres, 1879) págs. 79, 80.

[4] Citado por Prentice, pág. 139. Alguns exemplos horrendos são dados por Graves, págs. 75-79.

[5] Citado por Philip Ziegler em A Peste Negra (em inglês – Londres, 1969), pág. 259. Veja também as páginas 83, 108, 109, 160, 192, 271 e 272 dessa mesma obra.

[6] Brott och straff i Sverrige. Historik Kriminalstatistik 1750-1982, Hanns von Hofer, Statistika centralbyrän (Estocolmo, Suécia, 1984), p. 3:4 e Diagrama 1:3.

[7] A Sentinela de 15 de janeiro de 1984, págs. 6 e 7. A Sentinela de 1º de fevereiro de 1985, afirmou ainda mais enfaticamente: “É verdade que tem havido guerras, escassez de víveres, terremotos e pestilências no decorrer dos séculos de nossa Era Comum, até 1914. (Lucas 21:11) Não obstante, nunca houve nada comparável ao que tem acontecido desde o fim dos Tempos dos Gentios naquele ano momentoso.” (Pág. 15)

[8] Enciclopédia de Collier, Vol. 4 em inglês, 1974, pág. 234.

[9] Veja o “Epílogo” de Um Espelho Distante, de B. W. Tuchman (em inglês).

[10] Sobre as conquistas mongóis sob Gêngis Khan e seus seguidores, veja, por exemplo, Os Mongóis, E. D. Phillips (em inglês – 1969), O Conquistador do Mundo, R. Grousset (em inglês – 1967) e O Império Mundial Mongol 1206-1370, J. A. Boyle (em inglês – 1977). As guerras de Gêngis Khan e seus seguidores custaram milhões de vidas, muito mais do que as Guerras Napoleônicas e a Primeira Guerra Mundial, devido aos enormes massacres de populações civis das cidades e aldeias. Assim, conforme se observou no Capítulo 5 deste livro, nota de rodapé 62, estima-se que a conquista da China Setentrional em 1211-1218 tenha custado 18 milhões de vidas chinesas. E durante a campanha no oeste, 1218-1224, muitas cidades da Pérsia foram completamente destruídas e muitas vezes a população foi completamente exterminada. Regiões inteiras foram devastadas e despovoadas. O Afeganistão, por exemplo, foi transformado num deserto.

[11] Enciclopédia de História Militar, R. Ernest Dupuy e Trevor N. Dupuy, (Nova Iorque e Evanston, 1970), pág. 330 em inglês.

[12] Conforme já se enfatizou, os historiadores geralmente atribuem o decréscimo da população chinesa de 123 milhões por volta de 1200 D.C. para 65 milhões em 1393 às guerras contra os mongóis. Todavia, conforme foi sugerido por McNeill (As Pragas e os Povos, Nova Iorque, 1976, pág. 163 em inglês), a Peste Negra “seguramente desempenhou um papel importante em cortar o número de chineses pela metade.”

[13] Um trabalho excelente sobre Tamerlão e suas conquistas é Timur, Verhänghis eines Erdteils, de Herbert Melzig (Zurique & Nova Iorque, 1940). Com o objetivo de atemorizar as áreas conquistadas e submetê-las, Tamerlão costumava construir grandes pirâmides e minaretes – usando cabeças das populações assassinadas como material de construção, juntamente com argamassa. Muitas dessas pirâmides e minaretes foram construídas por toda a Ásia.

[14] “A Grande Fome Européia de 1315, 1316 e 1317”, Henry S. Lucas, Speculum, outubro de 1930, pág. 343 em inglês. (Publicado pela Academia Medieval da América).

[15] Lucas, pág. 355 em inglês.

[16] Ibid., pág. 364 em inglês.

[17] Ibid., pág. 376 em inglês.

[18] Ibid., pág. 376 em inglês.

[19] Cronistas da época relatam freqüentemente que em certas regiões morreu um terço da população. Mesmo estimativas conservadoras mostram que a fome colheu um pesado tributo. Assim, o Dr. Henry Lucas estima que uma em cada dez pessoas na Europa ao norte dos Alpes e dos Pireneus morreu. (Lucas, págs. 369 e 377 em inglês)

[20] Walford, pág. 439 em inglês. Compare com Ziegler, pág. 44 em inglês. O historiador sueco Michael Nordberg, ao mencionar a grande fome de 1315-18 e outros anos de fome da década de 1320, diz que os “anos 1335-52 significaram um período quase contínuo de colheitas destruídas em praticamente toda a Europa devido à combinação fatal de verões secos com outonos muito chuvosos.” (Den dynamiska meldeltien, Estocolmo, 1984, pág. 35 em sueco)

[21] Digerdöden, Janken Myrdal (em sueco – Estocolmo, 1975), págs. 19 e 22. A doença de Huntington (que já foi conhecida como “dança de St. Vitus”) atacava o sistema nervoso, causando a morte ou incapacidade.

[22] “Uma Observação Sobre a Peste Negra”, A. L. Maycock, em O Século Dezenove, Vol. XCVII em inglês, Londres, janeiro-junho de 1925, págs. 456-464. (Citado por Campbell, pág. 5)

[23] Hungersnöte im Mittelalter, Fritz Curschmann (Leipziger Studien aus dem Gebiet der Geschichte) (Leipzig, Alemanha, 1900), págs. 12-17.

[24] A Peste e a Pestilência na Literatura e na Arte, Raymond Crawford, Oxford, 1914, pág. 65 em inglês.

[25] Ziegler, pág. 13 em inglês. Graves (pág. 89) acrescenta que “segundo os registros chineses, 4.000.000 de pessoas morreram de fome só na vizinhança de Kiang” e o climatologista H. H. Lamb diz que a fome chinesa causada pelas chuvas e inundações de rios extraordinariamente grandes em 1332 custou “alegadamente 7 milhões de vidas.” (O Clima, Presente, Passado e Futuro, Vol. 2 em inglês, Londres e Nova Iorque, 1977, pág. 456).

[26] Contos Históricos: O Romance da Realidade, Charles Morris, Lippincott 1893, pág. 162 e seguintes, em inglês. O famoso escritor do século 14, Petrarca, residindo em Verona, Itália, por ocasião do abalo, escreveu sobre ele como se segue: “Nossos Alpes, pouco habituados a movimentos, como diz Virgílio, começaram a tremer na noite de 25 de janeiro. Neste preciso momento uma grande parte da Itália e da Alemanha foi tão violentamente abalada que as pessoas desprevenidas e para quem a coisa era inteiramente nova e desconhecida pensaram que tinha chegado o fim do mundo.” (Quando a Terra Treme, Londres, 1964, pág. 155 em inglês)

[27] Tazieff, págs. 154 e 155 em inglês

[28] Ibid., págs. 155 e 156 em inglês.

[29] Veja a informação apresentada no Capítulo 3 deste livro.

[30] A Peste Negra e os Homens do Saber, A. M. Campbell (Nova Iorque, 1931), pág. 129 em inglês.

[31] Lucas, págs. 359, 360 em inglês.

[32] O alcance que esta forma de crime teve no passado é pouco conhecido hoje, tendo praticamente desaparecido. Os piratas sarracenos, por exemplo, durante longos períodos dominaram mais ou menos toda a área do Mediterrâneo, travaram uma guerra naval que durou mais de mil anos (séculos 8 a 19), saquearam e devastaram não só cidades costeiras, como também cidades bem dentro da Europa Central. Incontáveis pessoas foram mortas durante estas expedições devastadoras. (Sjörövare, Erik-Dahlberg, Estocolmo, 1980, págs. 49-63 em sueco.)

[33] Ziegler, pág. 277 em inglês.

[34] Ziegler, pág. 278 em inglês.

[35] Tuchman, pág. xiii em inglês.

[36] Poderiam ser feitas comparações similares com outros períodos no passado; o sexto século, por exemplo, quando a “Peste de Justiniano” assolou o mundo. Conforme foi indicado no Capítulo 4 deste livro, os historiadores sustentam que as pestes do terceiro e sexto séculos contribuíram para o declínio do Império Romano, tanto da parte ocidental como da oriental. A fome desempenhou um papel similar.

[37] Crescimento exponencial, descrito também como crescimento geométrico, significa a duplicação do número em intervalos determinados. Mas é essencial que estes intervalos sejam iguais, senão o crescimento não é exponencial. Veja a abordagem do professor Erland Hofsten em Demografia e Desenvolvimento, (Estocolmo, Suécia, 1977), págs. 15-19 em inglês.

[38] Este é o aumento médio anual durante os últimos 35 anos [em relação à época em que se escreveu isso]. Mas a taxa de aumento está diminuindo. Em anos recentes tem sido de 1,8 por cento, e segundo o último relatório caiu agora para 1,7 por cento. A ONU estima que se esta tendência continuar, a população estabilizará por volta dos 10 bilhões no fim do século 21. – O Novo Cientista, 9 de agosto de 1984, pág. 12 em inglês.

[39] Så mycket folk (“Tanta Gente!”), H. Hyrenius, (Estocolmo, 1970), págs. 9-11 em sueco.

[40] Explosão Populacional, Abundância de Fome, Jan Lenica e Alfred Sauvy (em inglês, Nova Iorque, 1962). Citado da edição sueca, Befolkningsproblem (Estocolmo, 1965), pág. 17.

[41] Ensaio Sobre o Princípio da População, Thomas Malthus, publicado pela primeira vez anonimamente em 1798. Citado por Hofsten (1977), pág. 114 em inglês.

[42] Civilização & Capitalismo nos Séculos 15 a 18: As Estruturas da Vida Cotidiana, Fernand Braudel (Londres, 1981), pág. 35 em inglês.

[43] Lenica & Sauvy (1965), pág. 12 em inglês.

[44] Lenica & Sauvy, págs. 20 e 26 em inglês.

[45] Världen, Sverige och vi, Björkblom, Altersten, Hanselid & Liljequist (Uppsala, Suécia, 1975), pág. 31 em sueco.

[46] A organização Torre de Vigia não ignora completamente estes fatos. A Despertai! de 8 de fevereiro de 1984, por exemplo, começou um artigo sobre o assunto declarando que a causa da atual explosão populacional é “em parte o declínio mundial do índice de mortalidade, decorrente de melhoradas assistência médica e condições econômicas e sociais”, mas depois passou rapidamente para uma consideração do crescimento exponencial como sendo a causa. Um artigo mais antigo, publicado na Despertai! de 8 de março de 1968, foi mais direito ao assunto declarando que “progressos no controle de doenças diminuíram drasticamente o índice de mortalidade na maioria dos países” e que “o controle em massa das doenças infecciosas produziu espetacular redução na mortalidade entre os bebês e as crianças.” (Páginas 4 e 5) As conseqüências desastrosas desse “controle em massa das doenças infecciosas” para a idéia do “sinal composto” não foram, é lógico, indicadas pela Torre de Vigia.

[47] E. P. Prentice, concentrando-se no impacto da fome sobre a raça humana, diz que “a curva horizontal representa o longo período de necessidade que o homem tem conhecido tão bem durante muitas épocas.” Então, “por volta de 1850, veio a abundância, e é a abundância que faz a torre elevar-se tão abruptamente de um horizonte que até aquele tempo não tinha sugerido qualquer possibilidade de uma mudança desse tipo.” – O Progresso: Um Episódio na História da Fome? (Nova Iorque, 1950), págs. xx, xxi em inglês.

[48] Befolkningslära, Erland Hofsten, (Lund, Suécia, 1982), pág. 14 em sueco.

[49] Estes são números do demógrafo francês Jean-Noel Biraben, citado por Hofsten. (Befolkningslära, pág. 17 em sueco)

[50] Befolkningslära, Hofsten, pág. 15 em sueco.

[51] A Geografia da Fome, Josué de Castro (Londres, 1952), págs. 162, 163 em inglês. O infanticídio, “a destruição deliberada de bebês recém-nascidos por meio da exposição ao frio, fome, estrangulamento, asfixia, envenenamento, ou por meio do uso de alguma arma letal”, foi o principal meio de controle dos nascimentos antes de o uso de contraceptivos e abortos legais ter se tornado comum. Antes do século vinte o infanticídio era praticado em larga escala, não só no Japão e na China, mas por todo o mundo, incluindo a Europa, provocando muitos milhões de mortes anualmente. Hoje o método foi substituído pelos abortos, que, embora sejam encarados por muitos, incluindo os autores e o tradutor deste livro, como inaceitáveis do ponto de vista cristão, ainda assim representam um desenvolvimento numa direção mais humana. Veja “Infanticídio: Uma Pesquisa Histórica”, Publicação Trimestral de História da Infância, William L. Langer, inverno setentrional de 1974, Vol. 1 em inglês, Nº. 3, págs. 353-365; também Estudos Sobre a População da China, 1368-1953, Ping-ti Ho (Cambridge, Massachusetts, 1959), págs. 58-61 em inglês. (O infanticídio ainda ocorre em algumas regiões na África e na América do Sul. Veja “Infanticídio”, Bárbara Burke, revista Ciência, maio de 1984, págs. 26-31 em inglês.)

[52] A Demografia Histórica, T. H. Hollingsworth (Londres e Southampton, 1969), pág. 331 em inglês.

[53] Befolkningslära, Hofsten, pág. 15 em sueco.

[54] Hollingsworth, pág. 311 em inglês. O gráfico foi redesenhado e atualizado por um perito amigo nosso, Fred Sørensen, que também contribuiu muito para outras partes deste livro.

[55] Numa tentativa de enfatizar a pestilência ou a doença como um aspecto notável hoje, A Sentinela de 15 de outubro de 1984, citou o Dr. William Foege dos Centros de Controle de Moléstias de Atlanta como tendo dito: “Estou convicto de que, possivelmente durante nossa existência, veremos outra variedade de gripe tão mortífera como a de 1918.” (Página 6)