Predições e Presunção

 

Quando o profeta falar em nome de Jeová e a palavra não suceder nem se cumprir, esta é a palavra que Jeová não falou. O profeta proferiu-a presunçosamente. Não deves ficar amedrontado por causa dele. Deuteronômio 18:22.

 Quando se consideram atitudes em torno da prometida volta de Cristo Jesus, deve-se certamente preferir expectativa ansiosa à apatia. Os cristãos primitivos, decididamente, não eram apáticos acerca desse evento tão esperado.

Em certa ocasião, assisti a um programa de televisão no qual um representante de relações públicas do escritório da filial das Testemunhas de Jeová no Canadá, Walter Graham, respondia a perguntas sobre o fracasso de certas predições relacionadas com a volta de Cristo. Ele disse que, caso se achasse qualquer responsabilidade da parte das Testemunhas de Jeová neste respeito, isso se devia então exclusivamente ao “nosso anseio de ver o nome de Deus vindicado e o seu Reino governando a terra”.

A maioria das pessoas, penso eu, concordará que é simplesmente humano cometer o erro de falar coisas sob o impulso do momento, deixar que o pensamento fantasioso ou talvez o desejo intenso e a empolgação ansiosa influenciem nosso julgamento fazendo com que tiremos conclusões precipitadas. Em algum momento de nossas vidas, todos nós temos feito isso. Com certeza, se isso fosse tudo o que estava envolvido, ninguém teria motivo para grande preocupação.

No entanto, não acredito, pessoalmente, que isso seja tudo o que está envolvido aqui. As questões vão mais profundamente e os fatores relacionados têm um significado muito maior do que os de algum erro comum e incidental que às vezes todos nós cometemos. Isto se dá particularmente dessa maneira por causa do modo como as predições envolvidas afetaram os interesses mais importantes da vida das pessoas.

Um fator que não pode ser tratado levianamente é que o Corpo Governante encara as Testemunhas de Jeová, pelo menos os da “classe ungida” (à qual pertencem todos os membros do Corpo Governante) como desempenhando o papel de um “profeta”, designadas por Deus para essa tremenda responsabilidade.

Dessa forma, o exemplar da revista A Sentinela de 1º de outubro de 1972, na página 581, trouxe um artigo intitulado “Saberão Que Houve um Profeta no Seu Meio”. Levantava a questão quanto a se Jeová Deus tinha, nos tempos modernos, um profeta para ajudar o povo, “para avisá-los dos perigos e declarar-lhes as coisas vindouras”. A resposta dada foi sim, que o histórico atestava que havia tal profeta.  

IDENTIFICAÇÃO DO “PROFETA”

 

A estas perguntas pode-se responder na afirmativa. Quem é este profeta?

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Este “profeta” não era um só homem, mas um grupo de homens e mulheres. Era o grupo pequeno de seguidores das pisadas de Jesus Cristo, conhecidos naquele tempo como Estudantes Internacionais da Bíblia. Hoje, são conhecidos como testemunhas cristãs de Jeová. Ainda proclamam um aviso, e nesta sua obra comissionada juntam-se a eles e ajudam-lhes centenas de milhares de pessoas que escutaram a sua mensagem, crendo nela.

Naturalmente, é fácil dizer-se que este grupo age como “profeta” de Deus. Outra coisa é provar isso. A única maneira em que isto pode ser feito é recapitular a história. O que demonstra ela?

A “história” merece ser recapitulada. Que ela revela erros, até a organização central reconhece. Certa manhã em 1980, quando presidia a consideração do texto diário no lar de Betel em Brooklyn, o presidente da Sociedade, Fred Franz, relatou à família da sede suas recordações das expectativas mantidas em torno do ano de 1925, predito como o tempo para o “restabelecimento de todas as coisas” no milênio. Ele citou o Juiz Rutherford como tendo dito logo depois com relação às suas próprias predições: “Sei que fiz papel de asno.”[1] [Ou como se diria em português: “Sei que fiz papel de tolo”]

A organização, no entanto, trata estes erros como mera evidência da imperfeição humana e também como evidência do grande desejo e aspiração de ver cumpridas as promessas de Deus.

Eu creio que a “história” mostra que há algo mais que isso. Uma coisa é um homem fazer papel de “asno” por querer ver alguma coisa acontecer. Outra coisa bem diferente é ele instar com outros para que partilhem de suas idéias, criticá-los se não as aceitam, até duvidar da fé deles e contestar seus motivos se não entendem o assunto como ele entende.

Mais sério ainda é que uma organização que se apresenta como o porta-voz designado de Deus para toda a humanidade faça isto — e o faça, não por alguns dias ou meses, mas por anos, até mesmo décadas, repetidamente, a nível mundial. A responsabilidade pelos resultados não pode, na verdade, ser minimizada por dizer-se simplesmente: “Bem, ninguém é perfeito.”

Ninguém é perfeito, mas cada um de nós leva a responsabilidade pelo que faz. E isso se dá especialmente quando nossas ações afetam dramaticamente algo tão importante e pessoal como a relação dos outros com Deus.

Não é menos sério quando um grupo de homens está dividido em sua opinião quanto às predições relacionadas com certa data e apresenta, ainda assim, perante seus adeptos, uma aparência externa de confiança unificada, encorajando esses adeptos a depositarem confiança inabalável nessas predições.

Suponho que devo atribuir o mérito por convencer-me da realidade destas coisas também à minha experiência com o Corpo Governante. Durante os primeiros vinte anos mais ou menos de minha associação ativa com as Testemunhas de Jeová, eu tinha, no máximo, uma vaga idéia acerca de alguns fracassos de predições passadas e não lhes dava absolutamente qualquer importância significativa. Não tinha nenhum interesse em literatura que atacasse nossos ensinos neste ponto. Desde o fim dos anos cinqüenta em diante, certas publicações da Sociedade, tais como As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino (uma história da organização, em inglês) e o livro patrocinado pela Sociedade A Fé em Marcha (em inglês) mencionavam realmente estes fracassos, mas fazia isso de modo a fazê-los parecer como de pouca conseqüência e eu os via nessa mesma perspectiva.

 

A Fé em Marcha
(1957)

As Testemunhas de Jeová
no Propósito Divino (1959)

 

Foi somente no final dos anos setenta que me dei conta de quão longe tinha ido exatamente o assunto. Inteirei-me então sobre isso, não através da chamada “literatura dos opositores”, mas através das próprias publicações da Torre de Vigia e de Testemunhas ativas e respeitadas, inclusive co-membros do Corpo Governante das Testemunhas de Jeová.

1914 é a data principal sobre a qual se apóia grande parte da estrutura de doutrinas e de autoridade das Testemunhas de Jeová. As Testemunhas de Jeová defendem atualmente as seguintes crenças ligadas a essa data:

Que, em 1914, Cristo Jesus passou a estar “presente” de maneira invisível aos olhos humanos, começando, conseqüentemente nessa data, um período de julgamento para todos os seus professos seguidores e para o mundo.

Que, em 1914, Cristo Jesus começou sua regência ativa com relação ao mundo inteiro, com seu reino assumindo oficialmente o poder.

Que 1914 assinala o início dos “últimos dias” ou do “tempo do fim” predito na profecia bíblica.

Que a geração de pessoas que viviam em 1914 e que tinham a capacidade de compreender o que viram então acontecer seria a ‘geração que não passaria até que se cumprissem todas as coisas’, inclusive a destruição do sistema existente de coisas (isto foi mudado em 1995).

Que, três anos e meio depois de 1914 (em 1918), começou a ressurreição dos cristãos que dormiam na morte, desde os apóstolos em diante.

Que, por volta do mesmo tempo (em 1918), os verdadeiros seguidores de Cristo que viviam então entraram em cativeiro espiritual com relação à Babilônia, a Grande, sendo libertados no ano seguinte, 1919, ocasião em que Cristo Jesus os reconheceu coletivamente como seu “escravo fiel e discreto”, sua agência aprovada para dirigir sua obra e cuidar de seus interesses na terra, seu único canal para transmitir orientação e esclarecimento a seus servos por toda a terra.

Que, desse tempo em diante, está em andamento a obra da “colheita” final, resultando na divisão de todas as pessoas em duas classes, “ovelhas” e “cabritos”, com salvação ou destruição como seus respectivos destinos. (Isto foi mudado em 1995).

Enfraquecer a crença no significado da data fundamental de 1914 seria enfraquecer toda a superestrutura doutrinal (descrita acima), que se fundamenta nela. Seria também enfraquecer a pretensão de autoridade especial alegada pelos que atuam como o grupo que representa oficialmente a classe do “escravo fiel e discreto”.

Eliminar essa data como sendo de tanta importância poderia significar o virtual colapso de toda a estrutura de doutrinas e autoridade nela fundamentadas. Eis quão crítico é.

Apesar disso, poucas Testemunhas sabem atualmente que, por quase meio século — desde 1879 até o fim dos anos vinte —, as profecias relativas a datas na revista A Sentinela, (chamada A Torre de Vigia, na época) e publicações correlatas eram essencialmente contrárias a todas as crenças delineadas pouco acima. Quanto a mim, não me dei conta disso até anos recentes. Descobri então que, durante quase cinqüenta anos, o “canal” da Torre de Vigia (A Sentinela) havia atribuído tempos e datas diferentes para cada uma das coisas relacionadas acima, e que foi só o fracasso de todas as expectativas originais com relação a 1914 que levou à designação de novas datas para aqueles pretensos cumprimentos de profecias.

Conforme considerado num capítulo anterior, a pesquisa que eu tive de fazer com relação ao livro Ajuda ao Entendimento da Bíblia convenceu-me de que a data de 607 A.E.C. da Sociedade para a destruição de Jerusalém por Babilônia era contrária a toda evidência histórica conhecida. Ainda assim, continuei a depositar confiança nessa data apesar da evidência, achando que tinha apoio bíblico. Sem 607 A.E.C., a data crucial de 1914 seria posta em dúvida. Adotei o ponto de vista de que a evidência histórica era provavelmente defeituosa e argumentei nesse sentido no livro Ajuda.

Aí, em 1977, uma Testemunha de Jeová da Suécia, chamada Carl Olof Jonsson, enviou à sede em Brooklyn uma quantidade substancial de pesquisa que fizera sobre cronologia relacionada com a Bíblia e sobre especulação cronológica. Jonsson era ancião e estivera ativamente associado com as Testemunhas de Jeová por uns vinte anos.

Tendo eu mesmo experiência com pesquisa sobre cronologia, fiquei impressionado com a profundidade com que ele havia examinado a matéria, bem como pela inteireza e veracidade de sua apresentação. Basicamente, ele procurou chamar a atenção do Corpo Governante para a fragilidade nos cálculos cronológicos da Sociedade que levam à data de 1914 como o ponto final dos “tempos dos gentios”, mencionados por Jesus em Lucas, capítulo 21, versículo 24 (chamados de “os tempos designados das nações” na Tradução do Novo Mundo).

Explicado de forma resumida, chega-se à data de 1914 pelo seguinte processo:

No quarto capítulo da profecia de Daniel, ocorre a expressão “sete tempos”, aplicada aí ao rei babilônico Nabucodonosor enquanto descreve um período de sete anos de loucura pelo qual o rei passaria.[2] A Sociedade ensina que esses “sete tempos” profetizam algo maior, a saber, o período de tempo que se estende desde a destruição de Jerusalém (fixada pela Sociedade como 607 A.E.C.) até o fim dos “tempos dos gentios”, explicados como significando o período durante o qual as nações gentias exercem domínio “ininterrupto” sobre a terra.

Os “sete tempos” são interpretados como significando sete anos, com cada ano se constituindo de 360 dias. Sete multiplicado por 360 dá 2.520 dias. Entretanto, faz-se referência a outras profecias que usam a expressão “um dia por um ano.”[3] Empregando-se esta fórmula, os 2.520 dias se transformam em 2.520 anos, que vão de 607 A.E.C. ao ano de 1914 E.C.

Conforme observado anteriormente, os ensinos atuais da Sociedade sobre o início da regência do reino de Cristo, os “últimos dias”, o começo da ressurreição e coisas relacionadas estão todos ligados a este cálculo. Poucas Testemunhas são capazes de explicar a complicada aplicação e combinação de textos envolvidos. Todos, porém, aceitam o produto final deste processo e cálculo.

A maioria das Testemunhas de Jeová entende que esta explicação, que leva a 1914, é mais ou menos peculiar à sua organização, tendo sido publicada inicialmente pelo primeiro presidente da Sociedade, o Pastor Russell. Em sua contracapa, a publicação da Sociedade As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino, traz estas declarações:  

1870 Charles Taze Russell inicia seu estudo da Bíblia com um pequeno grupo de associados.

 

1877 É publicado o livro “Três Mundos” identificando a data 1914 como o fim dos “Tempos dos Gentios”.

 

A impressão transmitida aqui, bem como a apresentada dentro do livro, é que este livro Os Três Mundos (que Russell apenas financiou) foi a primeira publicação a conter este ensino sobre 1914.

Isto é o que eu pensava até a chegada do material do ancião sueco à sede mundial. Percebi então quantos fatos haviam sido ignorados ou encobertos pelas publicações da Sociedade.

Jonsson traçou primeiro a longa história da especulação cronológica. Mostrou que a prática de se aplicar arbitrariamente a fórmula de “um dia por um ano” a vários períodos de tempo encontrados na Bíblia foi inicialmente utilizada por rabinos judaicos, datando do primeiro século E.C. No século 9 E.C., uma “série de rabinos judaicos” começaram a fazer cálculos e predições utilizando esta fórmula de dia = ano com relação aos períodos de tempo de 1.290, 1.335 e 2.300 dias encontrados na profecia de Daniel, aplicando em cada caso suas conclusões ao tempo para o aparecimento do Messias.[4]

Entre professos cristãos, a prática surgiu pela primeira vez no século 12, começando com um abade católico romano, Joaquim de Flora. Não apenas os períodos de dias encontrados na profecia de Daniel, mas também os períodos de 1.260 dias mencionados em Revelação, capítulo 11, versículo 3, e capítulo 12, versículo 6, foram então interpretados empregando-se o método de “um dia por um ano”. Com o passar do tempo, os diversos intérpretes chegaram a uma notável sucessão de datas, incluindo em suas predições o ano de 1260, depois 1360 e, posteriormente, várias datas no século 16. Mudanças e novas interpretações tornavam-se regularmente necessárias à medida que uma data após outra passava sem que acontecesse o evento predito.

Em 1796, George Bell, ao escrever numa revista de Londres, predisse a queda do “Anticristo” (o papa, segundo seu entendimento). Isto deveria acontecer em “1797 ou 1813”, baseando sua predição na interpretação dos 1.260 dias, usando, porém, um ponto de partida diferente dos outros intérpretes (alguns haviam começado sua contagem a partir do nascimento de Cristo, outros a partir da queda de Jerusalém, outros a partir do início da Igreja Católica). Sua predição foi escrita durante a Revolução Francesa. Não muito depois de tê-la formulado, ocorreu um evento surpreendente — o papa foi capturado pelas tropas francesas e forçado a ir para o exílio.

Muitos viram isto como um extraordinário cumprimento da profecia bíblica e 1798 foi aceito por eles como o fim dos proféticos 1.260 dias. Com base nisto, desenvolveu-se o entendimento de que o ano seguinte, 1799, marcava o começo dos “últimos dias”.

Revoltas adicionais na Europa produziram uma enxurrada de novas predições. Entre os prognosticadores, achava-se um homem na Inglaterra chamado John Aquila Brown. Pelo início do século 19, ele publicou uma explicação dos 2.300 dias de Daniel, capítulo 8, que os apresentava como terminando em 1844 E.C. Este entendimento foi adotado pelo pioneiro americano do Segundo Advento, William Miller.

Veremos como estes cálculos vieram mais tarde a desempenhar um papel na história das Testemunhas de Jeová.

Entrementes, John Aquila Brown desenvolvia uma explicação que está intimamente relacionada com o ano de 1914, tal como essa data figura nas crenças das Testemunhas de Jeová. De que modo?

A evidência indica que Brown foi o verdadeiro originador da interpretação dos “sete tempos” de Daniel capítulo 4, a interpretação que produz os 2.520 anos pela fórmula dia-ano.

Brown publicou esta interpretação pela primeira vez em 1823 e seu método convertia os “sete tempos” em 2.520 anos, de um modo exatamente igual ao encontrado nas publicações da Torre de Vigia atualmente.

Isto foi 29 anos antes do nascimento de Charles Taze Russell, 47 anos antes de ele iniciar seu grupo de estudo da Bíblia e mais de meio século antes do aparecimento do livro Os Três Mundos.

Eu ignorava isso totalmente até o momento em que li o material enviado da Suécia para a Sociedade.

John Aquila Brown, entretanto, iniciava seu período de 2.520 anos em 604 A.E.C. e encerrava-o, portanto, em 1917 E.C. Ele predisse que nesse tempo “a plena glória do reino de Israel seria aperfeiçoada”.

De onde se originou, então, a ênfase sobre a data de 1914?

Após o fracasso das expectativas em torno do ano de 1844, houve conseqüentemente um divisão de vários grupos do Segundo Advento, estabelecendo a maioria deles novas datas para a volta de Cristo. Um destes grupos se formou em torno de N. H. Barbour, de Rochester, Nova York.

Barbour estudou as obras de John Aquila Brown e adotou a maior parte de sua interpretação, mas alterou o ponto de partida dos 2.520 anos para 606 A.E.C. e surgiu com a data final de 1914 E.C. (Na realidade, isto representava um erro de cálculo, já que abrangeria somente 2.519 anos.)

Em 1873, Barbour publicava uma revista para seus adeptos do Segundo Adventismo intitulada inicialmente O Grito da Meia-Noite e, mais tarde, O Arauto da Aurora. Vê-se na página seguinte uma cópia da primeira página do Arauto da Aurora de julho de 1878, o ano anterior à publicação do primeiro número de A Sentinela. Note a frase no canto inferior à direita: “‘Os tempos dos Gentios’ terminam em 1914”.

Esta cópia foi tirada da revista que é mantida no arquivo da sede em Brooklyn, embora não esteja disponível ao uso geral. Sua existência lá mostra que algumas pessoas do pessoal da sede devem ter tido conhecimento de que a revista A Sentinela não foi evidentemente a primeira a publicar e a defender a data de 1914 como o fim dos tempos dos gentios. Esse ensino foi na verdade adotado da publicação do Segundo Adventismo de N. H. Barbour.

Pode-se observar também que, nessa época, julho de 1878, C. T. Russell havia-se tornado “editor assistente” desta revista do Segundo Adventismo, o Arauto da Aurora. O próprio Russell explica como ele veio a associar-se a N. H. Barbour e como veio a adotar a cronologia de Barbour, cuja maior parte inclui os “sete tempos” de Daniel capítulo quatro, que Barbour tinha, por sua vez, adotado de John Aquila Brown. A explicação de Russell acha-se publicada no número de A Sentinela de 15 de julho de 1906.

Foi por volta de janeiro de 1876 que o tema do tempo profético me chamou especialmente a atenção, no que se relaciona a estas doutrinas e esperanças. Aconteceu deste modo: Recebi um periódico chamado O Arauto da Aurora, enviado por seu editor, sr. N. H. Barbour. Quando o abri, identifiquei-o de imediato pela gravura em sua capa com o Adventismo e examinei-o com certa curiosidade para ver que data eles estabeleceriam em seguida para a queima do mundo. Mas, imaginem minha surpresa e alegria quando descobri, pelo seu conteúdo, que o editor estava começando a abrir os olhos para temas que, por alguns anos, haviam proporcionado grande regozijo aos nossos corações aqui em Allegheny — que o objetivo da volta do nosso Senhor não é destruir, mas abençoar todas as famílias da terra, e que a sua vinda seria como um ladrão, e não na carne, mas como um ser espiritual, invisível aos homens; e que o ajuntamento da sua igreja e a separação do “trigo” do “joio” prosseguiria no fim desta era sem que o mundo estivesse consciente disso.

Regozijei-me em descobrir que outros estavam chegando à mesma posição avançada, mas fiquei espantado em encontrar a declaração expressa com muita cautela de que o editor acreditava nas profecias que indicavam que o Senhor já estava presente no mundo (fora da vista, portanto, invisível), e que já estava no tempo da obra da colheita do trigo, — e que este entendimento era corroborado pelas profecias relativas ao tempo, as quais, apenas uns poucos meses atrás, ele supunha terem falhado.

Eis aqui um novo raciocínio: Seria possível que as profecias relativas ao tempo, que eu havia desprezado por tanto tempo, por causa do seu mau uso pelos Adventistas, pretendiam realmente indicar quando o Senhor estaria invisivelmente presente para estabelecer seu reino — algo que eu entendia claramente que não podia ser percebido de nenhuma outra maneira? Parecia, falando sem exagero, uma coisa razoável, muito razoável, esperar que o Senhor informasse seu povo sobre o assunto — especialmente por ter ele prometido que o fiel não haveria de ser abandonado na escuridão do mundo, e que, embora o dia do Senhor viesse como um ladrão de noite sobre todos os demais (furtivamente, sem avisar), não haveria de ser assim com os santos vigilantes e zelosos. — 1 Tessalonicenses 5:4.

Recordo certos argumentos usados por meu amigo Jonas Wendell e por outros Adventistas para provar que 1873 testemunharia a queima do mundo, etc. — a cronologia do mundo indicando que os seis mil anos desde Adão terminaram com o início de 1873 — e outros argumentos tirados das Escrituras que se supunha coincidir. Seria possível que estes argumentos relativos ao tempo, os quais eu havia desconsiderado como não merecendo atenção, contivessem realmente uma verdade importante que eles haviam aplicado erroneamente?”

Observe que, até esta ocasião, Russell afirma que não dava nenhuma importância a profecias relativas ao tempo, que as tinha, na verdade, “desprezado”. Que fez ele então?

Ansioso por aprender, de qualquer fonte, o que quer que Deus tivesse a ensinar, escrevi imediatamente ao sr. Barbour, informando-o sobre minha concordância com outros pontos e desejando saber particularmente por que e com base em que evidências bíblicas sustentava ele que a presença de Cristo e a colheita da era evangélica datava a partir do outono de 1874. A resposta mostrou que a minha suposição estivera correta, isto é, que os argumentos relativos ao tempo, cronologia, etc., eram os mesmos que os usados pelos Segundos Adventistas em 1873, e explicou como o sr. Barbour e o sr. J. H. Paton, de Michigan, um companheiro de trabalho dele, haviam sido Segundos Adventistas ativos até aquela época; e que, com a passagem da data de 1874 sem que o mundo fosse queimado e sem que eles vissem Cristo na carne, ficaram por certo tempo aturdidos. Examinaram as profecias relativas ao tempo que tinham passado aparentemente sem se cumprir e não conseguiram achar nenhuma falha, e começaram a perguntar-se se o tempo estava correto mas suas expectativas erradas, — se os conceitos do restabelecimento e bênção para o mundo, que eu mesmo e outros estávamos pregando, eram as coisas que se devia esperar. Parece que, não muito tempo depois do desapontamento deles quanto a 1874, um leitor do Arauto da Aurora, que possuía um exemplar da Diaglott, notou algo nele que lhe chamou a atenção, — que em Mateus 24:27, 37, 39, a palavra que em nossa versão comum é vertida por vinda, era traduzida presença. Esta era a chave. E, seguindo-se a isso, o tempo profético levou-os a conceitos corretos com relação ao objetivo e o modo da volta do Senhor. Eu, pelo contrário, fui levado desde o início a conceitos apropriados quanto ao objetivo e o modo da volta do nosso Senhor e, em seguida, ao exame do tempo para estas coisas, indicados na Palavra de Deus. Desse modo, Deus guia muitas vezes seus filhos a partir de diferentes pontos de verdade; mas quando o coração é sincero e confiante, o resultado deve ser o ajuntamento de todos esses.

Não havia, porém, nenhum livro ou outra publicação que apresentasse as profecias relativas ao tempo como eram então entendidas, de maneira que custeei as despesas do sr. Barbour para que viesse ver-me em Filadélfia (onde eu tinha alguns compromissos de negócios durante o verão de 1876), a fim de mostrar-me cabal e biblicamente, caso pudesse, que as profecias indicavam 1874 como a data em que a presença do Senhor e a ‘colheita’ começaram. Ele veio e eu fiquei convencido da evidência. Sendo um pessoa de firmes convicções e plenamente dedicado ao Senhor, vi imediatamente que os tempos especiais em que vivemos têm uma importância significativa sobre a nossa obrigação e trabalho como discípulos de Cristo; que, estando nós no tempo da colheita, o trabalho de colheita teria de ser realizado; e essa verdade presente era a foice pela qual o Senhor nos levaria a efetuar um ajuntamento e uma obra de colheita por toda a parte, entre seus filhos.

Assim, a visita do Segundo Adventista, N. H. Barbour, mudou as idéias de Russell sobre as profecias relativas a datas. Russell tornou-se editor assistente da revista de Barbour, o Arauto da Aurora. Deste tempo em diante, as profecias relativas ao tempo constituíram um aspecto destacado dos escritos de Russell e da revista A Sentinela que ele logo depois fundou.[5]

A interpretação dos “sete tempos” e a data de 1914, que Russell assimilou, estavam totalmente associados a data de 1874, havendo recebido importância primária por parte de Barbour e de seus adeptos (1914 ainda estava décadas no futuro, enquanto 1874 acabava de passar). Eles acreditavam que 1874 marcava o fim de 6.000 anos de história humana e esperavam a volta de Cristo naquele ano. Quando o ano passou e nada aconteceu, sentiram-se desiludidos. Como mostra a matéria citada anteriormente, um Segundo Adventista, que contribuía para a revista de Barbour, chamado B. W. Keith, notou mais adiante que certa tradução do Novo Testamento, The Emphatic Diaglott, usou a palavra “presença” em vez de “vinda” nos textos relacionados com volta de Cristo. Keith propôs a Barbour a idéia de que Cristo havia de fato retornado em 1874, porém invisivelmente, e de que Cristo estava agora invisivelmente “presente”, completando a obra de julgamento.

Uma “presença invisível” é uma coisa muito difícil para se contra-argumentar ou refutar. É algo semelhante a ter um amigo que lhe confessa receber a visita invisível e o conforto de um parente falecido e tentar provar então para esse amigo que não é realmente assim.

O conceito da “presença invisível” facultava, portanto, a estes Segundos Adventistas associados com Barbour dizerem que haviam tido, afinal, “a data certa [1874], mas haviam simplesmente esperado a coisa errada nessa data.”[6] Essa explicação foi também aceita e adotada por Russell.

Atualmente, vários milhões de Testemunhas de Jeová crêem e ensinam que a presença invisível de Cristo começou em 1914. Muito poucas se dão conta de que, por quase cinqüenta anos, a Sociedade Torre de Vigia anunciou e proclamou, em seu papel de profeta, que tal presença invisível começara em 1874. Tão tardiamente quanto em 1929, quinze anos depois de 1914, elas ainda estavam ensinando isto.[7]

As Testemunhas de Jeová crêem atualmente que Cristo iniciou oficialmente a regência do seu Reino em 1914. A revista A Sentinela ensinou durante décadas que isto acontecera em 1878.[8]

As Testemunhas de Jeová crêem atualmente que, em 1914, começaram também os “últimos dias” e o “tempo do fim”. A revista A Sentinela ensinou durante meio século que os “últimos dias” começaram em 1799 (aceitando a interpretação de George Bell publicada em 1796).

Elas crêem atualmente que a ressurreição dos cristãos ungidos, que morreram do tempo de Cristo em diante, começou a acontecer em 1918. Por mais de quarenta anos, a revista A Sentinela ensinou ter ela começado em 1881.

Sua crença atual é que, desde 1914 e depois dessa data, particularmente de 1919 em diante, está em andamento a grande obra da “colheita”, que deve chegar ao clímax com a destruição do atual sistema e de todos aqueles que não se mostraram sensíveis à sua atividade de pregação. Desde seu início, a revista A Sentinela tinha ensinado que, em vez disso, a “colheita” se estenderia de 1874 a 1914, e que, por volta de 1914, ocorreria a destruição de todas as instituições humanas deste mundo.

A organização coloca hoje a queda de “Babilônia, a Grande” (o “império mundial da religião falsa”) em 1919. Durante pelo menos quatro décadas, A Sentinela a situava em 1878, com a completa destruição de Babilônia esperada para 1914 ou 1918.

O que provocou a mudança em todos estes ensinos proféticos importantes aceitos durante tantas décadas e por tanta gente?

Foi o mesmo que se deu no caso de toda a longa série de predições do século 13 em diante — a falta de cumprimento de suas expectativas anunciadas.

Alguns talvez estejam inclinados a não levar isto a sério, encarando-a como se fosse uma mera afirmação. Afinal de contas, quase nenhuma das Testemunhas tem acesso atualmente aos números mais antigos de A Sentinela, e mesmo hoje, quando se discute a história passada da organização, as publicações da Sociedade ignoram ou apresentam uma visão parcial, às vezes alterada, destes ensinos advogados por tanto tempo. Não dão a mínima idéia do fervor e da confiança com que se promoviam estes entendimentos.

Considere então uma parte da evidência tirada do “histórico oficial” desta organização que professa exercer o papel de profeta dos tempos modernos.

Ao rever os números mais antigos da revista A Sentinela, de 1879 em diante, um aspecto notável é que estavam esperando que acontecessem coisas grandiosas bem naquele momento. Embora cressem que 1914 marcaria o fim dos “tempos dos gentios”, essa data tinha relativamente pouca influência sobre seu pensamento. Estavam pensando muito mais em 1874 e na crença de que Cristo tinha começado nessa ocasião sua presença invisível, introduzindo, daí em diante, o governo do seu Reino. Assim, esperavam passar muito em breve pela experiência da transferência para a vida celestial. Com isto, seria encerrada a oportunidade de chegarem a fazer parte da “noiva de Cristo”. Também esperavam que, muito antes de 1914, o mundo entraria num período de grande aflição, que se agravaria e evoluiria para um estado de caos e anarquia. Por volta de 1914, estaria tudo terminado, acabado, e Cristo Jesus teria assumido o pleno controle dos assuntos da terra, com a substituição completa de todo os sistemas humanos de governo pelo seu Reino.

Isto é bem ilustrado pela seguinte matéria tirada do número de janeiro de 1881 de A Sentinela, sendo certos pontos sublinhados aqui para conveniência do leitor:

Vemos também que, não somente a colheita da era judaica e a do evangelho formam um paralelo no ponto inicial, mas também no período de duração; a deles sendo ao todo quarenta anos, desde o tempo da unção de Jesus [no início de sua colheita, 30 A.D.] até a destruição de Jerusalém, em 70 A.D. Portanto, a nossa, tendo começado em 1874, termina com o fim do “dia da ira” e com o fim dos “tempos dos gentios” em 1914 — um período similar e correspondente de quarenta anos. Os primeiros sete anos da colheita judaica eram especialmente dedicados ao ajuntamento do trigo maduro dessa igreja; dos quais, três anos e meio se deram enquanto ele estava presente como o Noivo e os outros três anos e meio foram depois de ele ter vindo a eles como rei e sido glorificado, embora estivesse tudo sob sua supervisão e direção.

Conforme fora dito por João, ele limpou sua eira, recolheu seu trigo e queimou a palha. Portanto, eis aqui o paralelo se cumprindo: Encontramos [conforme demonstrado anteriormente — veja “A Aurora do Dia”] a lei e os profetas declarando-o presente na culminação dos “ciclos do Jubileu”, em 1874. E os paralelos nos mostram que começou então a colheita, e que o recolhimento da noiva para um lugar de segurança levará um tempo correspondente de sete anos, terminando em 1881. Mas, como, quando e por que a tropeçaram sobre Cristo “os servos da casa”? Se pudéssemos certificar-nos disto, conseguiríamos um indício de como, quando e por que tropeça a casa do evangelho, especialmente em vista do fato de que, em muitos aspectos, a obra final daquela era é o modelo exato desta.

——————————

Cremos que Cristo está agora presente, no sentido de ter começado a obra de tomar para si seu grande poder e domínio. A obra começou com a separação do joio do trigo na igreja vivente e na associação do trigo de todas as eras consigo mesmo na autoridade de seu reino. “Àquele que vencer, concederei sentar-se comigo no meu trono,” e “dar-lhe-ei autoridade sobre todas as nações”, para continuar até que todas as coisas sejam subjugadas sob ele. Parece apropriado, também, que a obra deveria começar assim, por tomar a sua noiva e os dois se tornarem um.

A verdadeira data-base para A Sentinela nessa época era claramente 1874. A partir dessa data, Cristo estava presente. Nos próximos quarenta anos, ele concluiria toda a sua obra de colheita. Por acreditarem nisto, achava-se que eventos dramáticos deveriam ocorrer mui rapidamente, talvez naquele mesmo ano de 1881, conforme argumentado no artigo adicional com o título “Por Quanto Tempo, Ó Senhor?” Observe estes pontos:

Esta é, sem dúvida, uma questão que muitos têm se perguntado, a saber: ‘Quão cedo virá a nossa mudança?’ Muitos de nós têm aguardado esta mudança por anos e, ainda com maior alegria, imaginamos o tempo em que nos juntaremos a Jesus e o veremos como ele é. No artigo concernente à nossa mudança, no periódico de dezembro, expressamos a opinião de que estava mais próxima do que muitos supunham e, enquanto não tentássemos provar que a nossa mudança se daria em algum tempo específico, mesmo assim, propomos que olhemos para as evidências que parecem indicar que a trasladação ou mudança da condição natural para a espiritual deverá ocorrer antes ou por volta do outono do nosso ano de 1881. A evidência de que a nossa mudança se dará por volta desse tempo aumenta, já que temos visto que a transformação em corpos espirituais não é o casamento. Enquanto pensávamos que o casamento fosse a mudança e sabendo que havia, desde 1978, três anos e meio de favor especial para a igreja nominal (deixada agora desolada), não podíamos esperar nenhuma trasladação antes de 1881 ou durante estes três anos e meio. Mas, uma vez que reconhecemos que ser admitido em casamento não significa apenas estar pronto para mudança (por reconhecer sua presença), mas também que essa admissão inclui a própria mudança, então as evidências de que entramos (ou seremos mudados) dentro do tempo mencionado são fortes e se apresentam a todos os interessados como dignas de investigação. À parte de qualquer prova direta de que a nossa mudança está próxima, o fato de que a maneira da mudança pode agora ser entendida é evidência de que estamos próximos do tempo da mudança, pois a verdade é “alimento no tempo devido” e só é entendida quando esse tempo chega. Será relembrado que, depois da primavera de 1878 (quando entendíamos que Jesus deveria aparecer como Rei), o tema da santidade ou das vestes de casamento estava muito agitado. E, à parte do paralelo em relação à era judaica e do favor que se demonstrava naquela época à nação judaica, o que implicava na presença do Rei, a consideração das vestes de casamento era também prova da exatidão da aplicação, pois “o Rei havia entrado para ver os convidados,” [Mat. xxii, 11] e todos estavam, portanto, interessados em saber como se encontravam diante dele. Ora, como a inspeção dos convidados é a última coisa que antecede à nossa mudança, a qual vem antes do casamento e estamos todos dando consideração agora à mudança, parece que o tempo dela está próximo.

Apresentaremos agora o que mencionamos através dos modelos e pontos proféticos como parecendo indicar que a trasladação dos santos e o fechamento da porta à chamada de cima se darão por volta de 1881.

Seguia-se argumentação detalhada, com ênfase no outono de 1881 como o tempo provável de sua mudança para vida celestial e da ocasião “em que a porta — a oportunidade de vir a ser membro da noiva — se fechará”. Isto seria 35 anos antes de 1914, o que, para eles, era apenas um ponto final, o tempo durante o qual todas as coisas se acabariam.

A expectativa de que os cristãos ungidos da “classe da Noiva” passariam por uma transição para a vida celestial pelo outono de 1881, obviamente, não se materializou. À medida que os anos se passavam, o período considerado começou a prolongar-se e 1914 começou a receber uma ênfase um tanto maior. Todavia, ainda era o ponto terminal, quando a eliminação dos reinos terrestres e a destruição da “cristandade nominal” haveriam de se completar, já que se acreditava que Cristo começara a exercer seu pleno poder do Reino em 1878, conforme demonstrado no livro publicado por Russell em 1889, com o título O Tempo Está Próximo página 239:

Tradução:

Tem sido exatamente assim nesta colheita: A presença de nosso Senhor como Noivo e Ceifeiro foi reconhecida durante os primeiros três anos e meio, de 1874 A.D. a 1878 A.D. Desde esse tempo, ficou enfaticamente claro que em 1878 A.D. chegou o tempo em que deveria começar o julgamento real da casa de Deus. É aqui que se aplica Rev. 14:14-20, e nosso Senhor tornou-se visível como o Ceifeiro coroado. Sendo o ano 1878 A.D. o paralelo de sua tomada de poder e autoridade no tipo, assinala o tempo claramente para a verdadeira tomada do poder como Rei dos reis pelo nosso presente, espiritual e invisível Senhor — o tempo dele assumir seu grande poder para reinar, o que, na profecia, está intimamente associado à ressurreição de seus fiéis e ao começo da aflição e da ira sobre as nações. (Rev. 11:17, 18)

 

NÃO RECONHECERAM O TEMPO DA SUA INSPEÇÃO 

LUCAS 19:44; MATEUS 24:38, 39

NOSSO SENHOR SE APRESENTANDO EM TRÊS PAPÉIS — COMO NOIVO, CEIFEIRO E REI.

JOÃO 3:29; 4:35, 38; MATEUS 21:5, 9, 4; 2 COR. 11:2; REV. 14:14, 15; 17:14.

UM MOVIMENTO DO ADVENTO NA ÉPOCA DO NASCIMENTO DE JESUS,

30 ANOS ANTES DE SEU ADVENTO

E UNÇÃO COMO MESSIAS NA

 ÉPOCA DO BATISMO.

UM MOVIMENTO DO ADVENTO EM 1844, 30 ANOS ANTES DA VERDADEIRA ÉPOCA DE SUA PRESENÇA, PARA DESPERTAR E PROVAR A IGREJA.

 

A PRÓPRIA PRESENÇA DO

SENHOR COMO NOIVO E

CEIFEIRO — OUTUBRO, 29 A.D.

ASSUME PODER E TÍTULO

COMO REI TRÊS ANOS E MEIO

DEPOIS — 33 A.D.

A PRÓPRIA PRESENÇA DO SENHOR COMO NOIVO E CEIFEIRO — OUTUBRO, 1874 A.D.

ASSUME PODER E TÍTULO

COMO REI TRÊS ANOS E MEIO

DEPOIS — 1878 A.D.

A PRIMEIRA OBRA DO REI, O JULGAMENTO.

REJEITADA A CASA DOS JUDEUS NOMINAIS; É LIMPADO O TEMPLO LITERAL.

MAT. 20:18; 21:5-15; 23:37; 24:1.

A INTEIRA DESTRUIÇÃO DO

ESTADO JUDAICO, CONSUMADA 37 ANOS APÓS TER SIDO REJEITADO

— OU 40 ANOS A PARTIR DO INÍCIO DA COLHEITA — 70 A.D.

REJEITADA A CASA DOS CRISTÃOS NOMINAIS; É LIMPADO O TEMPLO ESPIRITUAL.

1 PE. 4:17; REV. 3:16; MAL. 3:2

A INTEIRA DESTRUIÇÃO DA CRISTANDADE NOMINAL, CONSUMADA 37 ANOS APÓS TER

SIDO REJEITADA — OU 40 ANOS A PARTIR DO INÍCIO DA

COLHEITA — 1914 A.D.

 

Mesmo depois da virada do século, nos primeiros anos após 1900, o foco ainda se concentrava sobre 1874 e 1878 como datas-chaves em torno das quais girava todo pensamento. Eles já estavam dentro dos “últimos dias” desde 1799, dentro do período da “colheita” desde 1874, Cristo estivera exercendo seu poder real desde 1878 e a ressurreição havia então começado. O passar dos anos não alterou estas afirmações. Estavam todas relacionadas a eventos invisíveis, diferente da predição acerca da ‘trasladação para o céu dos santos vivos’ esperada em 1881. Sem nenhuma evidência visível para tirar-lhes o crédito, estas afirmações podiam ser, e foram, mantidas.

A três anos de 1914, em 1911, A Sentinela ainda proclamava a importância de 1874, 1878 e 1881. “Babilônia, a Grande” havia caído em 1878 e seu “fim total” viria em outubro de 1914. Foi feito, entretanto, um ‘ajuste’ com relação ao “fechamento da porta” da oportunidade para tornar-se parte da classe do Reino celestial, colocada anteriormente em 1881. Agora os leitores de A Sentinela são informados de que a “porta” ainda “se mantém entreaberta” nesta matéria do número de 15 de junho de 1911:

Observando estes paralelos, encontramos 1874 como o início desta ‘colheita’ e do ajuntamento dos ‘eleitos’ desde os quatro ventos do céu; 1878 como o tempo em que Babilônia foi formalmente rejeitada, Laodicéia foi vomitada — o tempo desde o qual se declara, ‘Caiu, caiu Babilônia’ —, destituída do favor divino. O paralelo em 1881 parece indicar que ainda se mantinham certos favores aos em Babilônia até essa data, não obstante a rejeição do sistema; e, desde essa data, temos entendido que essa relação não tem sido em nenhum sentido vantajosa, mas tem sido, em muitos sentidos da palavra, uma clara desvantagem da qual, somente com dificuldade poderia alguém libertar-se, auxiliado pela graça do Senhor e pela verdade. E, em harmonia com este paralelismo, outubro de 1914 testemunhará o fim total de Babilônia, ‘como uma grande mó lançada no mar’, completamente destruída como sistema.

Voltando atrás: Admitamos que seja razoável concluir que o encerramento dos favores sobre o Israel carnal represente o encerramento do favor especial da era Evangélica, a saber, o convite à chamada de cima; dessa forma, nosso entendimento é que a ‘chamada’ ampla ou geral desta era para as honras do reino cessou em outubro de 1881. Entretanto, como já foi mostrado nos ESTUDOS DAS ESCRITURAS, fazemos a distinção entre o fim da “chamada” e o fechamento da ‘porta’; e cremos que a porta para a classe do reino não está ainda fechada; que se mantém entreaberta por um tempo, a fim de permitir que os que já aceitaram a ‘chamada’ e deixaram de usar seus privilégios e oportunidades, com o sacrifício de si mesmos, sejam expulsos e a fim de permitir que outros entrem e recebam suas coroas, em harmonia com Rev. 3:11. Portanto, o tempo atual, desde 1881 até que a porta para o sacrifício no serviço do Senhor seja completamente fechada, é um período de “peneiramento com respeito a todos os que já estão no favor divino, numa relação pactuada com Deus.”

Isso foi escrito em 1911 e a data do desfecho final, 1914, estava agora próxima. Com sua chegada, a colheita estaria terminada, os últimos dias teriam alcançado seu ponto culminante, suas esperanças estariam completamente cumpridas. O que ensinavam exatamente as publicações da Torre de Vigia que aconteceria quando chegasse a data de 1914?

O livro O Tempo Está Próximo, publicado 25 anos antes de 1914, nas páginas 76 a 78, estabelece sete pontos, conforme alistados a seguir:

 

A fotocópia acima omite os pontos 4, 5 e 6. Mas segue-se a tradução de todos os sete pontos:

Neste capítulo, apresentamos a evidência bíblica que prova que o término total dos tempos dos gentios, isto é, o término total de sua licença de domínio se vencerá em 1914 A.D.; e que essa data será o limite máximo da regência de homens imperfeitos. E observe-se que, se isso se revela como um fato firmemente estabelecido pelas escrituras, provará:

Em primeiro lugar que, nessa data, o Reino de Deus, pelo qual nosso Senhor nos ensinou a orar, dizendo, “Venha o Teu Reino”, terá alcançado o pleno controle universal, e que será então ‘instalado’, ou firmemente estabelecido, na terra.

Em segundo lugar, provará que ele, cujo direito é portanto assumir o domínio, estará então presente como o novo Regente da terra; e não apenas isso, mas provará também que ele há de estar presente por um período considerável antes dessa data; já que a derrubada destes governos gentios é causada diretamente por ele espatifá-los como um vaso de oleiro (Salmos 2:9; Rev. 2:27), e pelo estabelecimento de seu próprio governo justo em substituição a eles.

Em terceiro lugar, provará que, algum tempo antes do fim de 1914 A.D., o último membro da divinamente reconhecida Igreja de Cristo, do ‘sacerdócio real’, do ‘corpo de Cristo’, será glorificado com a Cabeça; já que cada membro deve reinar com Cristo, sendo co-herdeiro com ele no Reino, que não pode ser plenamente ‘instalado’ sem cada membro.

Em quarto lugar, provará que, daquele tempo em diante, Jerusalém não será mais pisoteada pelos gentios, mas se erguerá do pó do desfavor divino para honra, visto que os “tempos dos gentios” terão se cumprido ou completado.

Em quinto lugar provará que, nessa data, ou antes dela, começará a ser retirada a cegueira de Israel, já que a ‘cegueira parcial’ devia continuar somente ‘até que houvesse entrado a plenitude dos gentios’ (Rom. 11:25), ou, em outras palavras, até que o pleno número dentre os gentios, que haveriam de ser membros do corpo ou noiva de Cristo, fossem plenamente selecionados.

Em sexto lugar, provará que o grande ‘tempo de aflição’ tal como nunca houve desde que existe nação”, alcançará seu ponto culminante no reino mundial da anarquia; e os homens aprenderão então a ficar parados e a reconhecer que Jeová é Deus e que ele será exaltado na terra. (Salmo 46:10) A condição das coisas, descrita em linguagem simbólica como ondas agitadas do mar, o derretimento da terra, o nivelamento da montanhas e a queima dos céus, terá se passado e a ‘nova terra e novo céu’, com suas bênçãos de paz começarão a ser reconhecidas pela humanidade abalada pela aflição. Mas o Ungido do Senhor e a sua autoridade legítima e justa serão primeiro reconhecidos pela companhia dos filhos de Deus, enquanto atravessam a grande tribulação — a classe representada por m e t no Plano das Eras (veja também as páginas 235 a 239, Vol. I.); posteriormente, bem no seu final, pelo Israel carnal; e, finalmente, pela humanidade em geral.

Em sétimo lugar, provará que, antes dessa data, o Reino de Deus, organizado em poder, estará na terra, e golpeará e esmagará então a imagem gentia (Dan. 2:34) — consumirá totalmente o poder destes reis. Seu próprio poder e domínio serão estabelecidos tão logo ele esmiúce e pulverize, por suas variadas influências e operações, as ‘potências que são’ — civis e eclesiásticas — ferro e argila.

Estas declarações são da edição anterior a 1914. Note como algumas de suas declarações foram ‘ajustadas’ na edição posterior a 1914 (1924).

Conforme pode ser observado na matéria citada, a edição anterior a 1914 diz claramente que 1914 “será o limite máximo da regência de homens imperfeitos”. Disse que, nessa data, o Reino de Deus “terá alcançado o pleno controle universal, e que será então ‘instalado’, ou firmemente estabelecido, na terra”.

A edição posterior a 1914 encobre isto ao dizer:

Neste capítulo apresentamos a evidência bíblica provando que o término total dos tempos dos gentios, isto é, o término total de sua licença de domínio se vencerá em 1914 A.D.; e que essa data verá a desintegração da regência de homens imperfeitos.

E observe-se que, se isso se revela como um fato firmemente estabelecido pelas escrituras, provará:

Em primeiro lugar que, nessa data, o Reino de Deus, pelo qual nosso Senhor nos ensinou a orar, dizendo, ‘Venha o Teu Reino’, começará a assumir o controle, e que será pouco depois ‘instalado’, ou firmemente estabelecido na terra, sobre as ruínas das instituições atuais.

No terceiro ponto, a edição anterior a 1914 declarou que, antes do fim em 1914, o último membro do “corpo de Cristo” seria glorificado com a Cabeça. Aqui, também, a edição posterior a 1914 alterou a fraseologia e eliminou qualquer referência ao ano de 1914:

Em terceiro lugar, provará que, algum tempo antes do fim da derrocada, o último membro da divinamente reconhecida Igreja de Cristo, do ‘sacerdócio real’, do “corpo de Cristo”, será glorificado com a Cabeça; já que cada membro deve reinar com Cristo, sendo co-herdeiro com ele no Reino, que não pode ser plenamente ‘instalado’ sem cada membro.”

Assim, fez-se um esforço visível nas edições posteriores para encobrir os mais óbvios fracassos das declarações mais confiantes feitas com relação a 1914, já que essa data havia passado sem que os eventos preditos acontecessem. Poucas Testemunhas de Jeová hoje fazem qualquer idéia da magnitude das pretensões envolvendo esse ano ou do fato de que nenhum dos sete pontos originais sequer se cumpriu como foi declarado. Essas expectativas recebem atualmente apenas menção muito rápida nas publicações da Sociedade; algumas são totalmente ignoradas.[9]

De fato, ao ler as recentes publicações da Sociedade, alguém pode chegar talvez à conclusão de que Russell, o presidente da Torre de Vigia, não falou especificamente sobre o que 1914 traria exatamente. Essas insinuam que qualquer expectativa exagerada ou afirmação dogmática era da responsabilidade dos outros, os leitores. Um exemplo disto se encontra na história oficial, As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino (em inglês), página 52:

Não há dúvida de que muitos, durante este período, eram excessivamente entusiásticos em suas declarações quanto ao que se podia esperar. Alguns liam as declarações de A Sentinela como dizendo o que jamais pretenderam dizer e, ao passo que era necessário para Russell chamar a atenção para a certeza de que estava prevista uma grande mudança no fim dos tempos dos gentios, ele ainda encorajava seus leitores a manterem a mente aberta, especialmente quanto ao elemento de tempo.

O livro cita trechos de revistas A Sentinela mas estes, ao serem examinados, simplesmente não apóiam a declaração apresentada. O único que trata especificamente de um “elemento de tempo” específico é tirado de A Sentinela de 1893, que diz:

Uma grande tempestade está próxima. Apesar de ninguém saber exatamente quando ela irromperá, parece razoável supor que não pode ser mais que doze ou catorze anos ainda no futuro.

Isto não contribui em nada para provar a asserção feita; simplesmente confirma o que é mostrado por outros escritos de Russell, isto é, que ele definitivamente esperava que irromperia uma calamidade mundial antes da chegada de 1914, não mais tarde que 1905 ou 1907, de acordo com a matéria citada, e que esta deflagração levaria à eventual destruição de todos os governantes da terra nessa data final.

O livro As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino (página 53) cita a declaração de Russell em A Sentinela de 1912, conforme segue:

Há certamente espaço para ligeiras diferenças de ponto de vista sobre este assunto e isso nos leva a conceder um ao outro a mais ampla latitude. A permissão de poder aos gentios pode terminar em outubro de 1914 ou em outubro de 1915. E o período de intensa luta e anarquia “tal como nunca existiu desde que há nação” pode ser o fim conclusivo dos tempos dos gentios ou o começo do reinado do Messias.

Porém, alertamos mais uma vez a todos os nossos leitores que não profetizamos nada sobre os tempos dos gentios acabarem em um tempo de calamidade, nem sobre a época gloriosa que seguirá imediatamente depois da catástrofe. Simplesmente destacamos o que dizem as Escrituras, expressando nossas opiniões com respeito a seu significado e instando com nossos leitores a que julguem, cada um por si mesmo, o significado delas. Estas profecias ainda querem dizer a mesma coisa para nós... Por mais que alguns possam fazer afirmações categóricas do que sabem, e do que não sabem, nós nunca nos entregamos a isto; porém, simplesmente asseveramos que cremos dessa e daquela maneira, por tais e tais razões.

Este é, portanto, o quadro que a organização procura transmitir. Compare-o com outras declarações apresentadas na revista A Sentinela e demais publicações, declarações sobre as quais as publicações da Sociedade não fazem atualmente a menor referência. Pergunte-se se é verdade que a responsabilidade por quaisquer afirmações dogmáticas recai fora da Sociedade, que, em vez disso, recai sobre aqueles que “lêem” nas publicações uma certeza jamais intencionada, particularmente com relação ao que 1914 haveria de trazer.

Extraído de O Tempo Está Próximo, publicado em 1889, páginas 98 e 99, lemos o seguinte:

Tradução: 

Na verdade, é esperar grandes coisas afirmar, como o fazemos, que dentro dos próximos 26 anos, todos os atuais governos serão derrubados e dissolvidos; porém, estamos vivendo em um tempo especial e peculiar, ‘O Dia de Jeová,’ no qual os assuntos chegarão a uma conclusão rápida; e está escrito, ‘O Senhor realizará uma obra curta sobre toda a terra.’“ (Veja Vol. I., cap. xv.)

————————

Em vista da forte evidência bíblica concernente aos tempos dos gentios, consideramos uma verdade estabelecida que o final definitivo dos reinos deste mundo e o pleno estabelecimento do Reino de Deus estarão realizados pelo fim de 1914 A.D. Nessa ocasião, a oração da Igreja, desde quando seu Senhor empreendeu sua partida _ “Venha o Teu Reino” _ , será respondida; e sob essa administração sábia e justa, a terra inteira se encherá da glória do Senhor _ com conhecimento, justiça e paz (Salmo 72:19; Isa. 6:3; Hab. 2:14); e a vontade de Deus será feita “na terra, como é feita no céu”.

Se você disser, não simplesmente que alguma coisa é verdadeira, mas que a considera uma “verdade estabelecida”, não é isso o mesmo que dizer que sabe que é assim? Não é isso ‘entregar-se a afirmações categóricas’? Se existe alguma diferença, quão grande é esta diferença?

Na mesma publicação, na página 101, aparece esta declaração:

“Não se surpreendam, pois, se apresentamos, nos capítulos seguintes, provas de que o estabelecimento do Reino de Deus já começou, que está destacado na profecia como devendo começar a exercer o poder em 1878 A.D., e que a ‘batalha do grande dia do Deus, o Todo-poderoso’ (Rev. 16:14), que terminará em 1914 A.D. com a completa destruição do atual domínio da terra, já foi iniciada. O ajuntamento dos exércitos está claramente visível do ponto de vista da Palavra de Deus.

Se a nossa visão não ficar obstruída pelo preconceito, quando conseguimos ajustar corretamente o telescópio da Palavra de Deus, podemos ver com clareza o caráter de muitos dos eventos que devem ocorrer no ‘Dia do Senhor’ _ de que estamos bem no meio desses eventos, e que chegou ‘o Grande Dia de Sua Ira.

Dois anos depois de ter-se publicado este livro, publicou-se outro livro de Russell, Venha o Teu Reino (em inglês), em 1891 e, na página 153, encontramos o seguinte:

Tradução:

A predita queda, pragas, destruição, etc., que sobreviriam à mística Babilônia, foram prefiguradas pela grande angústia e destruição nacional que sobrevieram ao Israel carnal, e que terminou com a completa destruição da nação em 70 A.D. E o período da queda tem também uma correspondência; visto que, desde o tempo em que nosso Senhor disse, ‘Vossa casa vos fica abandonada’, de 33 A.D. a 70 A.D. são 36 anos e meio; e, do mesmo modo, de 1878 A.D. ao fim de 1914 A.D. são 36 anos e meio. E com o fim de 1914, aquilo que Deus chama de Babilônia e os homens chamam de cristandade, terá passado, conforme já está demonstrado pela profecia.

No ano seguinte, 1892, no número de 15 de janeiro, A Sentinela dizia que a “batalha” final já havia começado, devendo seu fim ocorrer em 1914:

Enquanto era uma surpresa agradável para nós (em vista dos relatos sensacionais e hostis que se publicam com tanta freqüência), achar a situação na Europa, como a descrevemos aqui — de acordo com o que as Escrituras nos haviam induzido a esperar —, ainda assim, tão grande é nossa confiança na Palavra de Deus e na luz da verdade atual que brilha sobre ela, que não poderíamos ter duvidado de seu testemunho, quaisquer que fossem as aparências. A data do encerramento dessa “batalha” está definitivamente marcada nas Escrituras como sendo outubro de 1914. Ela já está em andamento, datando seu início de outubro de 1874. Até agora, tem sido principalmente uma batalha de palavras e um tempo para organização de forças – capital, trabalho, exércitos e sociedades secretas.

Nunca houve um tempo em que se formaram tantas coligações como no presente. As nações não estão apenas se aliando umas às outras para proteger-se contra outras nações, mas as várias facções dentro de cada nação estão se organizando para proteger seus diversos interesses. Mas, por enquanto, as várias facções estão simplesmente estudando a situação, examinando a força de seus adversários e procurando aperfeiçoar seus planos e poder para a luta futura, que muitos, sem o testemunho da Bíblia, parecem convencer-se de que é inevitável. Outros ainda se iludem dizendo, Paz! Paz! quando não há nenhuma possibilidade de paz até que o reino de Deus assuma o controle, compelindo-os a que se faça sua vontade na terra como é feita agora no céu.

Este aspecto da batalha deve continuar com variável sucesso para todos os envolvidos; a organização deve ser muito cabal; e a luta final será comparativamente curta, terrível e decisiva _ resultando em anarquia geral. Em muitos sentidos, as convicções dos grandes generais do mundo coincidem com as predições da Palavra de Deus. Então, ‘Ai do homem ou nação que der início a próxima guerra na Europa; pois .’. Esta será induzida não apenas por animosidades nacionais, mas também por ressentimentos, ambições e animosidades sociais e, caso não seja levada a um fim pelo estabelecimento do reino de Deus nas mãos de seu eleito e da então glorificada Igreja, a espécie seria exterminada. _ Mateus 24:12.

Este pequeno artigo que aparece em A Sentinela de julho de 1894 revela o quanto eles viam as condições mundiais daquele tempo como prova clara de que o mundo estava então prestes a entrar em suas ânsias finais, com seu último suspiro ocorrendo em 1914:  

 

Tradução: 

PODE SER ADIADO ATÉ 1914?

Dezessete anos atrás as pessoas diziam, com relação aos detalhes cronológicos apresentados na AURORA DO MILÊNIO: Parecem razoáveis em muitos aspectos, mas certamente não ocorrerão mudanças radicais entre o momento atual e o final de 1914; se vocês tivessem provado que aconteceriam dentro de um século ou dois, isso pareceria muito mais provável.

Que mudanças têm ocorrido desde então e que velocidade está se alcançando diariamente?

“O velho está passando rapidamente e o novo está chegando.”

Agora, em vista dos recentes problemas trabalhistas e da ameaça de anarquia, nossos leitores estão escrevendo para saber se não deve haver algum erro na data de 1914. Eles dizem que não vêem como as condições atuais podem agüentar tanto tempo sob tensão.

Não vemos nenhum motivo para mudarmos os números — nem poderíamos mudá-los se quiséssemos. Eles são, acreditamos, datas de Deus, não nossas. Mas, tenham em mente que o fim de 1914 não é a data para o início, mas para o fim do tempo de aflição. Não vemos motivo algum para alterarmos nossa opinião expressa na visão apresentada em A Torre de Vigia de 15 de janeiro de 1892. Aconselhamos que a leiam novamente.

É verdade que se usa aqui a palavra “opinião”, mas quão significativo isto é quando, ao mesmo tempo, se inclui Deus no quadro como apoiando as datas anunciadas? Quem estaria inclinado a duvidar das “datas de Deus”?

Atualmente, a organização diria que estes assuntos são todos superficiais, de somenos importância quando comparados ao que costumam apresentar como uma verdade maior, a saber, que a Sociedade estava certa sobre o “fim dos tempos dos gentios” como ocorrendo em 1914, a única crença inicial com relação a 1914 que ainda permanece. Mas, ao dizerem isto, eles cometem provavelmente o maior ato de representação falsa de todos. Pois o fato é que tudo o que se reteve foi a expressão: “o fim dos tempos dos gentios”. O significado atribuído à expressão é totalmente diferente do significado a ela atribuído pela Sociedade Torre de Vigia durante os quarenta anos que vão até 1914.

Durante todos aqueles quarenta anos, os associados à Sociedade Torre de Vigia entendiam que o “fim dos tempos dos gentios” significaria a derrubada completa de todos os governos terrenos, sua total destruição e substituição pela regência de toda a terra pelo reino de Cristo. Não restaria nenhuma regência humana. Recordem a declaração nas páginas 98 e 99 do livro O Tempo Está Próximo, dizendo que “dentro dos próximos 26 anos [a partir de 1889], todos os atuais governos serão derrubados e dissolvidos.” Que, “Em vista da forte evidência bíblica concernente aos tempos dos gentios, consideramos uma verdade estabelecida que o final definitivo dos reinos deste mundo e o pleno estabelecimento do Reino de Deus estarão realizados pelo fim de 1914 A.D.”

Atualmente, o significado atribuído à expressão “fim dos tempos dos gentios” (ou “os tempos designados das nações”) é completamente diferente. Não é o fim real do domínio dos governos humanos como resultado de sua destruição por Cristo. Diz-se agora que é o fim de sua “regência ininterrupta” da terra, sendo a interrupção o resultado de haver Cristo assumido invisivelmente o poder e começado a reinar em 1914 e a dirigir sua atenção de um ‘modo especial’ para a terra, (o que é, na verdade, aquilo que fora ensinado anteriormente quanto ao ano de 1874).

Já que, mais uma vez, é no domínio invisível que se diz que isto ocorreu, é difícil argumentar contra tal teoria. O fato de que nada mudou absolutamente desde 1914 com relação ao domínio da terra pelos governos terrenos não parece ser visto como de alguma conseqüência. A “licença” deles expirou, diz-se agora, estando invisivelmente cancelada pelo Rei invisível, e, dessa forma, veio o “fim” do seu tempo designado.

Tudo isto é comparável a proclamar-se durante quarenta anos que, numa certa data, o ocupante indesejável de uma propriedade seria completamente expulso, removido para sempre, e então, quando a data vem e se vai e o ocupante ainda continua lá como sempre, aparecer então com uma explicação evasiva dizendo: “Bem, eu cancelei sua licença e, no que me diz respeito, é como se ele tivesse ido embora. E, além do mais, agora estou vigiando as coisas mais de perto”.

Reconhecidamente, quanto mais se aproximava 1914, mais cautelosas se tornavam as previsões. Ao passo que Russell havia argumentado que a tempestade de aflição e a anarquia universal ocorreriam antes de outubro de 1914, mais tarde, em um número de 1904 da revista, ele disse:  

 

Tradução: 

ANARQUIA UNIVERSAL — POUCO ANTES OU DEPOIS DE OUTUBRO DE 1914 A.D.

O que parece ser à primeira vista a coisa mais trivial e totalmente desvinculada do assunto, mudou nossa convicção com respeito ao tempo de quando pode ser esperada a anarquia universal, segundo os números proféticos. Agora, esperamos que o clímax anárquico do grande tempo de aflição, que precederá as bênçãos do Milênio ocorrerá depois de outubro de 1914, A.D. — bem imediatamente depois, em nossa opinião — “em uma hora”, “repentinamente”.[10]

E, enquanto ele havia afirmado em 1894 que os cálculos expostos eram “datas de Deus, não nossas”, em A Sentinela de 1º de outubro de 1907, sete anos antes de 1914, disse ele então:

 

Um querido irmão pergunta: Podemos nos sentir absolutamente seguros de que é correta a cronologia apresentada nos ESTUDOS DA AURORA DO MILÊNIO? — de que a colheita começou em 1874 A.D. e findará em 1914 A.D. numa calamidade de amplitude mundial, que eliminará todas as instituições atuais e será seguida pelo reino de justiça do Rei da Glória e de sua noiva, a igreja?

Respondemos, como o temos freqüentemente feito antes nas AURORAS e SENTINELAS, oralmente e por carta, que nós nunca afirmamos que nossos cálculos fossem infalivelmente corretos; nós nunca afirmamos que fossem conhecimento, nem baseados em evidência incontestável, fatos, conhecimento; a nossa afirmação tem sido sempre que eles se baseiam na fé.

Este mesmo artigo continua, entretanto, a dar a entender que os que duvidam desses cálculos são carentes de fé. Diz ele:

“Lembrem-se mais uma vez de que os pontos fracos da cronologia são suplementados pelas várias profecias que se entrelaçam com ela de maneira tão notável que a fé na cronologia se torna quase conhecimento de que é correta. A mudança de um único ano tiraria a harmonia das belas correspondências; já que algumas profecias são contadas a partir de A.C., algumas a partir de A.D., e algumas dependem de ambos os períodos. Cremos que Deus pretendia que essas profecias fossem compreendidas ‘no tempo devido’; cremos que as compreendemos agora — que elas nos falam através desta cronologia. Não selam elas desse modo a cronologia? Selam com respeito à fé, mas não independente dela. Nosso Senhor declarou, “O sábio entenderá”; e ele nos diz “Vigiai” para que possamos conhecer; e é esta cronologia que nos convence (a qual podemos aceitar e realmente a aceitamos pela fé) de que a Parábola das Dez Virgens está agora em processo de cumprimento — que ouviu-se seu primeiro grito em 1844 e que seu segundo grito, ‘Eis aqui o Noivo’ — presente — se deu em 1874.

Quão proveitoso é — ou, quanto a isso, quanta humildade demonstra — reconhecer própria falibilidade enquanto se dá a entender, ao mesmo tempo, que somente aqueles que aceitam os seus pontos de vista estão demonstrando fé, estão entre os sábios que entenderão’? Não estariam aqueles que deixaram de atender a estes “gritos” de 1844 e 1874 classificados logicamente como as “virgens tolas” da parábola?

O mesmo artigo havia dito anteriormente:

Os tempos e as épocas de Deus são dados de tal maneira como sendo convincentes somente àqueles que, pela intimidade com Deus, são capazes de reconhecer seus métodos característicos.

Desse modo, se alguém expressasse dúvidas quanto à cronologia da Sociedade, colocava-se sutilmente em dúvida a própria qualidade de sua relação com Deus — juntamente com sua fé e sua sabedoria. Esta é uma forma de intimidação intelectual, uma prática que aumentou de múltiplas maneiras, uma vez que o ano de 1914 havia se passado sem que se cumprissem as expectativas publicadas mundialmente.

 

NOTAS:


[1] Esta declaração de Rutherford é citada na revista Despertai! de 22 de setembro de 1987, página 19, em nota de rodapé.

[2] Daniel 4:17, 23-33.

[3] Números 14:34; Ezequiel 4:6.

[4] Daniel 8:14; 12:11, 12. O texto completo da pesquisa de Carl Olof Jonsson acha-se desde então publicado sob o título Os Tempos dos Gentios Reconsiderados, (Primeira edição: Lethbridge: Hart Publishers, 1983; segunda, terceira e quarta edições: Commentary Press, 1987, 1998 e 2004, respectivamente; primeira edição em português: 2008).

[5] Foi depois da reunião com Barbour que Russell escreveu um artigo no The Bible Examiner (Examinador da Bíblia), publicada por George Storrs, outro adventista, no qual Russell apresentou a data 1914 a que Barbour havia chegado. Como tantas revistas dos Segundos Adventistas, a revista a que Russell deu início, incluía o termo Herald (Arauto) em seu título, Torre de Vigia de Sião e Arauto da Presença de Cristo (presença de Cristo que se acreditava ter iniciado em 1874).

[6] A Sentinela de 15 de julho de 1906, anteriormente citada, mostra que eles fizeram realmente uso desse mesmo argumento.

[7] Veja o livro Profecia (em inglês), publicado em 1929, páginas 64, 65. A Sentinela de 15 de fevereiro de 1975, páginas 122, 123, faz menção desta crença, mas não dá nenhum indício de que continuou sendo ensinada depois de 1914.

[8] Este entendimento começou a ser mudado em 1922, no congresso de Cedar Point, oito anos depois de 1914.

[9] Do mesmo modo, também, com as afirmações feitas acerca dos anos 1878 e 1881, as quais, juntamente com aquelas envolvendo 1799 e 1874, foram todas eventualmente descartadas como errôneas.

[10] A Torre de Vigia de 1º de julho de 1904.