O Corpo Governante

 

Não é que sejamos os amos de vossa fé, mas somos colaboradores para a vossa alegria, porque é pela vossa fé que estais em pé. — 2 Coríntios 1:24.

 A declaração de Paulo acima citada vinha-me repetidamente à mente durante os nove anos em que fiz parte do Corpo Governante das Testemunhas de Jeová. Eu desejaria que todas as Testemunhas pudessem ter a experiência de fazer parte dele. Talvez pudessem compreender então o que palavras apenas não podem transmitir.

Para esclarecer o que é o Corpo Governante:

As Testemunhas de Jeová entendem que Cristo Jesus, como Cabeça da congregação, alimenta e dirige sua congregação por meio da classe do “escravo fiel e discreto”. Esta classe é atualmente composta de um restante das 144.000 pessoas ungidas como herdeiros do reino celestial de Cristo.[1] Mas há um pequeno número de homens procedentes de tal classe que atua como Corpo Governante e desempenha todas as funções administrativas com relação à congregação mundial, não apenas em relação ao número atual de cerca de 8.600 “ungidos”, dos quais são tirados estes homens, mas também com relação aos mais de seis milhões de outras pessoas associadas, que não são consideradas como estando entre os herdeiros celestiais.[2]

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Para mim, parecia uma responsabilidade atemorizante quando me tornei um dos onze membros do Corpo Governante mundial em 1971 (o número aumentou posteriormente para dezoito em 1977 e vem se alterando com o decorrer dos anos).[3] As primeiras sessões das reuniões semanais a que assisti mostraram-se muito diferentes do que eu esperava.[4]

Fora recentemente posto em prática o rodízio da presidência e o vice-presidente Fred Franz era o presidente daquele ano. Porém, os assuntos a serem discutidos eram determinados pelo presidente da sociedade, Nathan Knorr. O que quer que ele considerasse aconselhável para ser discutido pelo Corpo, ele o trazia à reunião e essa era geralmente a primeira vez que tínhamos qualquer conhecimento do assunto em pauta. Durante algumas semanas, as reuniões consistiam simplesmente da consideração de listas de recomendações de representantes viajantes em diferentes países — o nome, a idade, a data de batismo, se era dos “ungidos” ou não, e os anos de serviço de tempo integral eram lidos em voz alta. Na vasta maioria dos casos, estes eram simplesmente nomes para nós; raramente conhecíamos qualquer dos indivíduos envolvidos. Assim, depois de ouvir tais leituras de listas do Suriname, Zâmbia ou Sri Lanka, costumávamos votar sobre a designação destes homens. Recordo-me de Thomas Sullivan (chamado geralmente de “Bud”), que estava então na casa dos oitenta, quase cego e com a saúde precária. Acontecia de ele ceder repetidamente ao sono durante estas sessões e parecia constrangedor acordá-lo para votar sobre coisas de que ele tinha pouco conhecimento. Às vezes, a reunião inteira não durava mais que poucos minutos; uma das que me recordo tendo durado apenas sete minutos (incluindo a oração inicial).

De vez em quando, o presidente Knorr trazia então alguma “correspondência de problemas” envolvendo questões quanto a certa conduta de Testemunhas individuais, e cabia ao Corpo decidir que norma deveria ser adotada em relação a estes, se a conduta específica exigia desassociação, alguma disciplina menor ou, absolutamente, nenhuma ação. Durante esse período (e estendendo-se até 1975), esperava-se que todas as decisões fossem unânimes. Após a discussão, fazia-se uma moção, reforçava-se esta e o presidente pedia então que se levantassem as mãos. Se não se obtivesse um voto unânime, visto que, ocasionalmente, os de posição diferente não votavam a favor duma moção, desenvolvia-se uma solução conciliatória a fim de obter-se unanimidade. Como é apenas natural nessas circunstâncias, havia certa sensação de pressão para se acompanhar a maioria em vez de se assumir uma postura solitária sobre os assuntos e parecer, desse modo, independente ou em desacordo com os demais. Houve votações em que não levantei a mão. Via de regra, porém, eu concordava. Nas poucas ocasiões em que a minha recusa em votar fazia com que alguém propusesse uma moção conciliatória, muito embora a moção conciliatória não parecesse completamente correta para mim, eu costumava ceder e votava com a maioria. Era evidente a necessidade de se concordar, se é que os assuntos seriam resolvidos e passados adiante em vez de levados a um impasse. Todavia, começaram a surgir questões que tornaram isto cada vez mais difícil para mim.

À medida que se passavam as semanas, mantinham-se discussões sobre assuntos tais como se um pai está qualificado como ancião caso permita que um filho ou uma filha se case com apenas dezoito anos de idade; se alguém está qualificado como ancião caso seja favorável a que seu filho ou sua filha recebam educação superior;[5] se alguém está qualificado como ancião no caso de haver mudança no turno de trabalho e ele perde algumas vezes (durante o turno noturno) reuniões congregacionais; se os anciãos podem aceitar a evidência circunstancial de adultério ou o testemunho da esposa de que seu marido lhe confessou o adultério, e se isto é suficiente para admitir o divórcio bíblico e um novo casamento; se um divórcio é biblicamente aceitável se, mesmo quando se cometeu adultério, aquele que obtém o divórcio é o cônjuge culpado em vez do inocente;[6] que validade tem um divórcio quando conseguido por outros motivos sem ser adultério se, após ser concedido o divórcio, vem à tona a prova de adultério antes do divórcio; como fica a situação se ao se obter tal divórcio houver adultério após o divórcio; caso o cônjuge inocente tenha relações sexuais com o cônjuge adúltero (logo depois de saber do adultério), anulará isto o direito de divorciar-se desse cônjuge e estar livre para casar-se novamente; se é correto uma Testemunha pagar uma multa no caso desta multa ser imposta em razão de uma infração da lei em resultado de sua atividade de testemunho ou de alguma posição que tenha adotado a fim de aderir às crenças das Testemunhas;[7] se é correto enviar alimento ou outra ajuda a pessoas por meio da Cruz Vermelha (o argumento principal aqui era que a cruz é um símbolo religioso e, por esta razão, a organização da Cruz Vermelha deve ser semi-religiosa; esta discussão foi bastante demorada e foi adiada para uma reunião posterior); questões sobre a prática corrente da Sociedade de usar canais irregulares para introduzir dinheiro em certos países (a Indonésia, por exemplo) duma forma que obtinha maior valorização pelos dólares americanos envolvidos, fazendo uso desta apesar de o país em questão ter leis que a declarem ilegal; também quanto a introduzir certo equipamento em alguns países sem ter de pagar a pesada taxa de importação imposta por lei; se as Testemunhas que pertencem a sindicatos podem aceitar designações de atividade grevista ou podem acatar uma ordem do sindicato para fazer trabalho de limpeza no prédio do sindicato em vez de aceitar designações tais como as de fazer piquete; se as Testemunhas podem atender ao recrutamento militar simplesmente para trabalhar em campos de algodão (isto veio da Bolívia).

Esta é apenas uma amostra parcial das coisas discutidas durante cerca dos dois primeiros anos de minha permanência no Corpo. O efeito de nossas decisões era considerável em seu impacto nas vidas dos outros. Em assuntos de divórcio, por exemplo, os anciãos de congregação atuam como uma espécie de tribunal religioso e, caso não fiquem convencidos quanto à validade duma ação de divórcio, o indivíduo que passa por tal divórcio e volta a se casar mais tarde, torna-se sujeito à desassociação.

Um problema fora da lista dos que acabei de mencionar, mas que provocou considerável discussão, envolvia um casal de Testemunhas da Califórnia. Alguém tinha visto no quarto deles certa literatura e fotografias que tratavam de práticas sexuais incomuns. (Não me lembro se soubemos exatamente como a pessoa que relatou isto veio a ter acesso ao quarto do casal.) A investigação e o interrogatório por parte dos anciãos locais confirmaram que o casal realmente se envolveu em relações sexuais além da simples copulação genital.[8] Chegou a Brooklyn correspondência dos anciãos e pedia-se ao Corpo Governante que decidisse quanto a que ação tomar, se é que deveria ser tomada, com relação ao casal.

Antes de a correspondência ser lida para nós naquela manhã, nenhum de nós, com exceção do presidente, tivera qualquer oportunidade de pensar no assunto. Mesmo assim, dentro de poucas horas, chegou-se à decisão de que o casal estava sujeito à desassociação. Isto ficou, daí por diante, estabelecido como uma regra formalmente publicada, aplicável a quaisquer pessoas que se envolvessem voluntariamente em práticas similares.[9]

A matéria publicada foi entendida e aplicada de tal forma que os casados se sentiam geralmente obrigados a relatar aos anciãos se existia ou se se desenvolveu tal prática em seu casamento, quer por consentimento mútuo quer por iniciativa só de um dos parceiros. (No último caso, esperava-se que o cônjuge que não deu início ao ato se apresentasse e transmitisse esta informação aos anciãos, caso o cônjuge que tomou a iniciativa não estivesse disposto a fazê-lo.) Deixar de prestar a informação era geralmente visto como sinal duma atitude impenitente e como pesando em favor da desassociação. A crença de que a desassociação separa alguém da única organização onde pode ser encontrada a salvação, bem como de amigos e parentes, exerce uma tremenda pressão sobre a pessoa para que se submeta à regra, não importando quão difícil possa ser confessar (ou relatar) aos anciãos.

A decisão do Corpo Governante em 1972 resultou num considerável número de “audiências judicativas” à medida que os anciãos investigavam os relatórios ou confissões das práticas sexuais envolvidas. As mulheres sofriam uma vergonha aflitiva em tais audiências ao responderem às perguntas dos anciãos sobre as intimidades de suas relações maritais. Muitos casamentos, em que um dos cônjuges não era Testemunha, passaram por um período turbulento, com o cônjuge que não era Testemunha protestando veementemente contra o que considerava uma invasão imprópria da privacidade do leito conjugal. Alguns casamentos se romperam, resultando em divórcio.[10]

Recebeu-se um volume sem precedente de correspondência durante um período de cinco anos, a maior parte dela questionando a base bíblica de tal intromissão na vida particular dos outros por parte dos membros do Corpo Governante e alegando incapacidade de compreender a validade dos argumentos propostos de forma impressa em apoio à posição adotada. (A principal passagem das Escrituras em que se apoiavam era Romanos, capítulo 1, versículos 24-27, que fala do homossexualismo, e os que escreviam à Sociedade salientavam que não podiam compreender como ela poderia ser corretamente aplicada às relações heterossexuais entre um homem e sua esposa.) Outras cartas, muitas vezes vindas de esposas, simplesmente expressavam confusão e angústia sobre sua incerteza quanto à propriedade de suas “preliminares sexuais”.

Certa mulher disse que tinha falado com um ancião e ele lhe havia dito para escrever ao Corpo Governante “a fim de obter uma resposta segura”. Assim, ela escreveu dizendo que ela e seu marido se amavam profundamente e descreveu então “certo tipo de preliminares sexuais” a que estavam acostumados, dizendo: “Creio que é um assunto de consciência, mas estou lhes escrevendo para ter certeza”. Encerrou com as seguintes palavras:

 

Estou assustada, sinto-me magoada, e estou mais preocupada neste momento com o sentimento [do meu marido] com relação à verdade... Eu sei que vocês me dirão o que devo fazer.

Em outra carta típica, um ancião escreveu dizendo que tinha um problema que precisava resolver em sua mente e em seu coração e, para chegar a isto, achou que “era melhor contatar a ‘mãe’ em busca de conselho”.[11] O problema tinha a ver com sua vida sexual dentro do casamento e disse que ele e sua esposa estavam confusos quanto a “onde traçar uma linha entre as preliminares sexuais e o próprio ato sexual”. Garantiu à Sociedade que ele e sua esposa “seguiriam ao pé da letra qualquer conselho que lhes fosse dado”.

Estas cartas ilustram a confiança implícita que estas pessoas vieram a depositar no Corpo Governante e a crença de que os homens que formam esse Corpo podiam dizer-lhes onde ‘traçar os limites’, mesmo em aspectos tão íntimos de suas vidas pessoais, que eles deveriam seguir estritamente à risca, “ao pé da letra”.

Muitas cartas foram expedidas em resposta pela Sociedade. Com freqüência, esforçavam-se em prover algum esclarecimento limitado (expressando sem dizer diretamente) quanto a quais preliminares sexuais estavam dentro dos limites das ações condenadas, enquanto outras estavam, em razão disso, liberadas.

Um memorando de um membro do Departamento de Serviço da Sociedade, de 14 de junho de 1976, considerava uma conversa telefônica com um instrutor de seminários (cursos realizados para anciãos). O memorando relata que o instrutor havia telefonado sobre um ancião presente ao seminário que confessou certas práticas sexuais desaprovadas em seu casamento. Diz o memorando:

 

O irmão [dando aqui o nome do instrutor] considerou detidamente o assunto com ele para determinar se era copulação oral o que estava envolvido... [O instrutor] lhe tinha dito que, em vista das circunstâncias, deveria ir até outros membros da comissão, e aconteceu de os outros membros da comissão estarem no curso, de modo que ele foi e conversou com eles. Agora [o instrutor] estava sem saber o que mais deveria ser feito... Sugeriu-se a [ele] que escrevesse um relatório completo à Sociedade sobre isto de modo que, quando tivesse qualquer caso como este aparecendo no futuro, ele já teria orientação quanto a como cuidar do assunto e não teria de telefonar.

Isto ilustra até que ponto chegava o interrogatório na vida íntima e até que ponto a sede da organização supervisionava toda a situação.

Carta após carta revelava que as pessoas envolvidas sentiam claramente a responsabilidade diante de Deus de relatar aos anciãos qualquer desvio da norma estabelecida pelo Corpo Governante. Um homem num estado do meio-oeste americano, que confessou ter violado a decisão do Corpo Governante no que se refere a suas relações maritais com a esposa, foi informado pelos anciãos que eles estavam escrevendo para a Sociedade sobre isto; ele também escreveu uma carta que seguiu anexa. Passaram-se oito semanas e finalmente ele escreveu outra vez a Brooklyn dizendo que a “espera, a ansiedade e a expectativa estão quase além do que posso suportar”. Disse que tinha sido removido de todas as designações na congregação, inclusive de fazer oração nas reuniões, e que, “quase a cada semana, estou perdendo alguma coisa pela qual tenho me esforçado e orado durante trinta anos”. Ele implorava por uma resposta urgente, dizendo:

 

Preciso muito de algum alívio mental quanto ao conceito que a organização de Jeová tem de mim.

Alguns anciãos se esforçavam em adotar uma maneira moderada de abordar o assunto. Todavia, agirem assim poderia torná-los passíveis de repreensão por parte dos escritórios da sede em Brooklyn. Considere esta carta:

 

Tradução

 

SCE:SSE

4 de agosto de 1976

Corpo de Anciãos da Congregação W...

das Testemunhas de Jeová, M...

 

A/C:______________

W...       M...

 

Prezados irmãos:

 

Temos uma cópia da carta datada de 21 de julho da comissão da Congregação S...da Califórnia, na qual escrevem sobre os problemas envolvendo J...

Informem-nos, por favor, se algum dos anciãos na congregação vem dando conselho incorreto com relação aos casos envolvendo sexo oral. Se algum dos anciãos na congregação tiver aconselhado a pessoas casadas que não seria impróprio para elas envolverem-se em sexo oral, então em que base foi dado tal conselho? Se foi dado um conselho errado, informem-nos então se foram dados passos apropriados para corrigir qualquer mal-entendido por parte dos indivíduos a quem foi dado o conselho errado e informem-nos se os anciãos envolvidos estão atualmente de acordo com o que tem sido apresentado nas publicações da Sociedade com relação ao sexo oral.

Se qualquer dos irmãos vem aconselhando a pessoas individuais que o sexo oral seria permissível como estimulação antes de ter-se propriamente relações sexuais, então tal conselho não foi correto.

Agradecemos por sua atenção ao assunto acima. Que a rica bênção de Jeová os acompanhe na medida em que se esforçam continuamente em cuidar de suas responsabilidades como anciãos de maneira exemplar.

 

Seus irmãos,

 

cc: Comissão Judicativa da

Congregação S... das

Testemunhas de Jeová, CA

A carta acima foi enviada pelo Departamento de Serviço da Sociedade a um Corpo de Anciãos (os nomes e os lugares específicos foram omitidos).[12]

Curiosamente, alguns anciãos até achavam que a posição do Corpo Governante era, de certa forma, um tanto tolerante ou limitada. Diz uma carta enviada por um ancião nos Estados Unidos:

 

Alguns dos anciãos de mais idade achavam que o Corpo Governante poderia ter ido ainda mais longe em condenar práticas pervertidas entre os casados por incluir a adoção de certas posições na realização do ato sexual...

Mais adiante, esse ancião expressou sua própria opinião, dizendo:

 

Já que Jeová foi tão minucioso neste capítulo [18] de Levítico, bem como nos outros capítulos sobre o comportamento sexual, por que não há nenhuma declaração dirigida aos casados quanto às formas aceitáveis e inaceitáveis de copulação? Não seria provável que Jeová o teria feito caso quisesse que esta área pessoal e particular da união matrimonial estivesse aberta ao escrutínio ou opiniões dos ‘juízes’ ou ‘homens mais maduros’ de Israel, de modo que se pudesse tomar uma ação apropriada contra os transgressores?

Alguns dos afetados pela regra da organização eram pessoas cujas funções sexuais normais haviam sido seriamente prejudicadas por uma operação ou acidente. Algumas destas expressavam desalento diante da situação em que foram colocadas pela decisão do Corpo Governante.

Uma destas pessoas, a qual havia ficado impotente desta maneira, havia durante os anos seguintes conseguido realizar sua função sexual por um dos meios agora condenados pela organização. Ele disse que, antes da decisão do Corpo Governante, fora capaz de deixar de sentir-se como um meio-homem porque ainda conseguia satisfazer sua esposa. Agora, ele escrevia dizendo que não podia ver nenhuma prova bíblica para a posição adotada na revista A Sentinela, mas que sua esposa se sentia na obrigação de obedecer e, como ele a amava, acedeu. Disse que sabia que ele era o mesmo de antes, embora estivesse emocionalmente desmoronando, visto temer que seu casamento fosse ficar seriamente afetado. Implorou que lhe informassem se não havia uma “brecha” na vontade de Deus que lhe permitisse o prazer de satisfazer sua esposa.

Todas estas situações exerciam uma enorme tensão sobre a consciência dos anciãos, exortados a tratar com os que violavam a decisão do Corpo Governante. Na conclusão da carta do ancião, mencionada anteriormente, ele diz:

 

Acho que posso usar somente aquelas leis e princípios da Bíblia que compreendo com absoluta sinceridade e convicção ao representar a Jeová e Jesus Cristo e, caso tenha de aplicar estas leis e princípios ao exercer minha responsabilidade como ancião na congregação, quero fazê-lo, não porque vim a confiar que esta seja a organização de Jeová e vou segui-la, seja lá o que for que ela diga, mas fazê-lo porque creio sinceramente que é biblicamente aprovado e correto. Quero verdadeiramente continuar crendo como Paulo admoestou aos Tessalonicenses no segundo capítulo, versículo 13 [de sua primeira carta], a aceitar a palavra de Deus, não como de homens, mas pelo que verazmente é, como a palavra de Deus.

Apesar de eu achar as práticas sexuais envolvidas como sendo definitivamente contrárias a meus padrões pessoais, posso dizer honestamente que não fui a favor da decisão de desassociação tomada pelo Corpo. Mas isso é tudo o que posso dizer, pois, quando veio a votação, agi de acordo com a decisão da maioria. Senti-me consternado quando o Corpo me designou para preparar a matéria em apoio da decisão. Assim mesmo, aceitei a designação e a redigi como era desejo do Corpo e em conformidade com sua decisão. Assim, não posso dizer que agi de acordo com o mesmo ponto de vista excelente expresso pelo ancião que acabei de citar. A minha crença na organização como a única representação de Deus na terra me levou a fazer o que fiz naquela ocasião sem sentir, particularmente, grandes dores de consciência.

A maior parte da correspondência a este respeito nunca chegava ao Corpo Governante, sendo cuidada pelos membros do pessoal designado às “seções de correspondência” ou pelos membros do Departamento de Serviço. Entretanto, estou certo de que vários membros do Corpo Governante devem ter sido alertados, provavelmente através de contatos e conversas pessoais de que muitos achavam que eles tinham invadido de maneira imprópria a vida privada das pessoas. Quando finalmente, uns cinco anos depois, o assunto apareceu mais uma vez na agenda, a norma da desassociação foi revertida e o Corpo Governante se retirava então, de fato, dessa área íntima da vida dos outros. Mais uma vez, o Corpo me designou para preparar a matéria a ser publicada informando, desta vez, acerca da mudança. Achei pessoalmente satisfatório poder reconhecer, ainda que de maneira um tanto ambígua, que a organização estivera equivocada.

A Sentinela de 1º de agosto de 1978, páginas 29 a 31, continha essa matéria e incluía estes pontos:

 

...em vista da ausência de claras instruções bíblicas, trata-se de assuntos pelos quais o casal tem de levar a responsabilidade perante Deus, e que estas intimidades maritais não são da competência dos anciãos congregacionais, para tentar controlá-las ou promover a desassociação, tendo tais assuntos por base exclusiva... [Isto] expressa o vivo senso de responsabilidade de deixar as Escrituras predominarem, e de se refrear de tomar uma posição dogmática, quando a evidência parece não fornecer base suficiente.

De fato, esta era minha opinião com relação a uma infinidade de assuntos levantados diante de nós, de que não existia realmente nenhuma base nas Escrituras para se adotar as posições dogmáticas sobre a vasta maioria das coisas submetidas à nossa decisão. Expressei aí esse ponto de vista e ele foi aceito pelo Corpo com base neste argumento. Manifestei-o vez após vez posteriormente, mas raramente foi aceito.

Ao examinar as cartas disponíveis, algumas das quais nos haviam sido apresentadas, qualquer satisfação resultante de escrever essa matéria corrigindo a posição parece um tanto vazia. Pois sei que, não importa o que foi dito, isso jamais poderá compensar ou reparar de alguma maneira todo o dano e constrangimento, confusão mental, angústia emocional, sentimentos de culpa e casamentos arruinados em resultado da decisão anterior — decisão essa tomada em poucas horas por homens, dos quais quase todos estavam tendo uma abordagem ‘súbita’ do assunto, sem nenhum conhecimento prévio, não podendo pensar, meditar, nem orar especificamente sobre o assunto ou pesquisar as Escrituras, mas cuja decisão foi posta em vigor mundialmente durante cinco anos e afetou muitas pessoas pelo resto de suas vidas. Nada disso precisava ter ocorrido.

Outra questão suscitada, ligada de certo modo à anterior, envolvia uma Testemunha na América do Sul cujo marido lhe confessou ter tido relações sexuais com outra mulher. O problema era que ele tinha dito que as relações foram do tipo mencionado na questão anteriormente descrita, neste caso particular, copulação anal e não genital.

A decisão do Corpo Governante foi que isto não podia ser considerado como adultério; que o adultério requeria estritamente copulação genital, ‘capaz de gerar filhos’. Conseqüentemente, o homem não havia se tornado “uma só carne” com a outra mulher e, portanto, a decisão foi que a esposa não tinha nenhuma base para o divórcio bíblico e um novo casamento no futuro.

A regra da votação existente exigia unanimidade na decisão e eu me ajustei à maioria. No entanto, senti-me realmente perturbado ao pensar nesta mulher e no fato dela ser informada de que não podia optar biblicamente por ficar livre de um homem culpado de tal ato. A decisão significava também que um marido, que se envolvesse em atos homossexuais com outros homens ou que tivesse até mesmo relações com um animal, não estava sujeito ao divórcio bíblico, já que o homem não podia, com possibilidades procriativas, tornar-se “uma só carne” com outro homem ou com um animal. Na verdade, um número de A Sentinela tinha instruído especificamente nesse sentido pouco antes naquele ano.[13]

A perturbação emocional que senti levou-me a fazer um estudo dos termos no idioma original (o grego) usados em Mateus 19:9. A Tradução do Novo Mundo da Sociedade apresenta Jesus como dizendo:

 

Eu vos digo que todo aquele que se divorciar de sua esposa, exceto em razão de fornicação, e se casar com outra, comete adultério.

São usadas duas palavras diferentes, “fornicação” e “adultério”, e ainda assim, as publicações da Torre de Vigia têm, durante muitas décadas, adotado a posição de que ambas se referiam essencialmente à mesma coisa, que a “fornicação” significava um homem ter relações adúlteras com uma mulher que não seja sua esposa (ou uma mulher ter tais relações com um homem que não seja seu marido). Por que então, eu perguntava a mim mesmo, usou Mateus, ao registrar a declaração de Jesus, duas palavras diferentes (porneia e moikheia) se queria realmente dizer a mesma coisa, adultério, em ambos os casos?

Ao examinar muitas traduções, dicionários bíblicos, comentários e léxicos na biblioteca de Betel, a razão se tornou óbvia. Praticamente, cada livro que abria mostrava que o termo grego porneia (traduzido como “fornicação” na Tradução do Novo Mundo) era um termo muito amplo e se aplicava a TODOS os tipos de imoralidade sexual e, por esta razão, muitas traduções da Bíblia simplesmente o vertiam como “imoralidade”, “imoralidade sexual”, “impudicícia”, “infidelidade”.[14] Os léxicos mostravam claramente que o termo era também aplicado a relações homossexuais. Entretanto, o ponto conclusivo para mim foi compreender que, na própria Bíblia, porneia é usado em Judas, versículo sete, para indicar a conduta notoriamente homossexual das pessoas de Sodoma e Gomorra.

Preparei quatorze páginas da matéria contendo os resultados da pesquisa e tirei cópias para cada membro do Corpo. Mas eu não me sentia muito seguro quanto a como ela seria recebida, e por este motivo, fui ao escritório de Fred Franz e expliquei o que tinha feito, expressando minhas dúvidas de que a matéria seria favoravelmente aceita. Ele me disse: “não creio que haverá alguma dificuldade”.

Embora muito concisas, as palavras foram pronunciadas num tom de confiança. Quando lhe perguntei se gostaria de ver o que tinha sido encontrado, ele se recusou e disse novamente que achava que “não haveria problema”. Minha impressão foi a de que ele já estava ciente de alguns pontos que minha pesquisa havia revelado, no entanto, há quanto tempo eu não tinha como sabê-lo. Já que ele tinha sido o tradutor principal da Tradução do Novo Mundo da Sociedade, achei que com certeza ele deve ter se informado do verdadeiro sentido da palavra porneia (“fornicação”).

Quando o assunto surgiu na sessão do Corpo Governante, a matéria que eu lhes submeti foi aceita, tendo Fred Franz manifestado seu apoio, e fui designado para preparar os artigos a serem publicados em A Sentinela, apresentando a mudança de posição que isto acarretaria.[16]

Ainda me lembro de uma carta recebida algum tempo depois da publicação dos artigos, de uma Testemunha que havia, alguns anos antes, descoberto seu marido tendo relações com um animal. Como disse ela, “Eu não podia viver com um homem destes”, e se divorciou dele. Mais tarde, ela se casou novamente. A congregação a desassociou então porque não estava “biblicamente livre” para um novo casamento. Depois de aparecerem os artigos de A Sentinela, ela escrevia agora pedindo que, em vista da mudança de posição, fosse feita alguma coisa para limpar seu nome do vitupério que havia sofrido em resultado da ação desassociadora. A única coisa que eu pude fazer foi escrever para ela dizendo que os artigos publicados eram, em si mesmos, uma vindicação de seu modo de agir.

Apesar de ter sido satisfatório preparar mais uma vez a matéria reconhecendo e retificando um ponto de vista errôneo da organização, persistia em mim o pensamento sóbrio de que isto jamais poderia desfazer qualquer dano que a posição anterior tenha causado durante tantas décadas e — só Deus sabe — a quantas pessoas.

O Corpo Governante nessa época era, na realidade, tanto um tribunal judicativo como também — já que suas decisões e definições tinham força de lei para todas as Testemunhas de Jeová — um corpo legislativo. Era um “Corpo Governante” no mesmo sentido em que o Sinédrio dos tempos bíblicos podia ser chamado desse modo, sendo suas funções semelhantes. Assim como todas as principais questões envolvendo o povo para o nome de Jeová, nesse período, eram trazidas perante o Sinédrio em Jerusalém para ser resolvidas, acontecia também com o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová em Brooklyn.

Não era, porém, um corpo administrativo em nenhum sentido da palavra. A autoridade e responsabilidade administrativas ficavam exclusivamente com o presidente da corporação, Nathan H. Knorr. Eu não esperava por isto, uma vez que, no mesmo ano de minha designação, o vice-presidente Franz havia proferido um discurso, publicado posteriormente em A Sentinela de 1º de junho de 1972, no qual ele descreveu o papel do Corpo Governante, contrastando-o com o da corporação, a Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados. Mencionado por alguns como o “discurso do rabo abanando o cão”, sua linguagem era extraordinariamente audaciosa e franca, afirmando vez após vez que a corporação era simplesmente uma “agência”, um “instrumento temporário” usado pelo Corpo Governante (páginas 338 e 344):

 

29 Esta organização evangelizadora mundial não é modelada segundo nenhuma sociedade civil da atualidade, que talvez seja exigida pelas leis dos governos políticos dos homens, que agora enfrentam a destruição na “guerra do grande dia de Deus, o Todo-Poderoso”, no Har-Magedom. (Rev. 16:14-16) Nenhuma sociedade civil da terra amolda a organização evangelizadora nem a governa. Antes, esta governa tais sociedades como meros instrumentos temporários, úteis para a obra do grande Teocrata. Por isso, é modelada segundo o Seu objetivo para ela. É uma organização teocrática, regida do Alto divino para baixo, e não das fileiras para cima. Os membros dedicados e batizados dela estão sob a Teocracia! As sociedades terrenas deixarão de existir quando, dentro em breve, perecerem os governos humanos que lhes concedem alvará.

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De modo que os membros votantes da Sociedade compreendem que este corpo governante poderia usar mais diretamente esta “agência administrativa” como instrumento para o trabalho da classe do “escravo fiel e discreto” por serem os membros do corpo governante parte da Diretoria da Sociedade. Reconhecem que esta Sociedade não é o corpo administrativo, mas apenas uma agência para assuntos administrativos.

Por isso, os membros votantes da Sociedade não desejam que haja qualquer base para conflito e divisão. Não desejam criar nenhuma situação em que a “agência administrativa” controle e dirija o usuário desta agência, usuário que é o corpo governante representando a classe do “escravo fiel e discreto”. Do mesmo modo como não é o rabo que abana o cão, mas o cão que abana o rabo. Uma pessoa jurídica religiosa, constituída segundo a lei de César, não deve tentar dirigir e controlar seu criador, antes, o criador da pessoa jurídica religiosa deve controlá-la e dirigi-la.

Estas foram declarações fortes. O problema era que apresentavam um quadro completamente contrário à realidade. O corpo governante não controlava a corporação, nem no tempo em que o discurso mencionado acima foi dado pelo vice-presidente, nem no tempo em que a matéria foi publicada, nem por mais de quatro anos depois disso. O quadro apresentado tornou-se eventualmente realidade, mas somente em conseqüência de um ajuste muito drástico, do tipo desagradavelmente carregado de emoções agitadas e de considerável divisão. Estranho como possa parecer à maioria das Testemunhas de Jeová atualmente, o tipo de Corpo Governante descrito nesse discurso jamais havia existido em toda a história da organização. Levou mais de noventa anos para que ele viesse a surgir, e a sua existência atual compreende apenas um curto período de pouco mais de duas décadas e meia. Vou explicar por que faço tal afirmação e como ela é confirmada por fatos.

Os três monarcas

Como sabeis, os chefes das nações às mantêm sob seu poder e os grandes sob seu domínio. Não deve assim entre vós. — Mateus 20:25, 26, Tradução Ecumênica.

A história das Testemunhas de Jeová assume registro oficial particularmente com a publicação da primeira edição da revista Torre de Vigia (agora A Sentinela), em 1º de julho de 1879. A corporação chamada Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados foi formada em 1881 e registrada como pessoa jurídica em 1884. É uma verdade comprovada que lá no passado a organização não ‘amoldava, governava ou dirigia’ (para usar as palavras do vice-presidente) o corpo governante dos que estavam associados com a Torre de Vigia. Não o fazia e nem, de fato, poderia fazê-lo, pela simples razão de que não existia um “corpo governante”.

Charles Taze Russell iniciou pessoalmente a revista A Sentinela como sua própria revista e era seu único editor; durante sua vida, todos os que estavam associados com a Sociedade Torre de Vigia reconheciam-no como seu único e exclusivo pastor. Naturalmente, é verdade que a Sociedade, uma vez formada, tinha uma diretoria (a esposa de Russell, Maria, fazia originalmente parte dela). Mas a diretoria não era vista como um corpo governante, nem tinha essa função. Contudo, A Sentinela de 1º de junho de 1972, página 344, faz esta afirmação:

 

Segundo os fatos disponíveis, o corpo governante chegou a estar associado com a Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados de Pensilvânia. C. T. Russell fazia manifestamente parte daquele Corpo Governante lá no último quarto do século dezenove.

O que revelam realmente os “fatos disponíveis”?

Concernente à Diretoria, diz o próprio Russell numa edição especial da Torre de Vigia de Sião, datada de 25 de abril de 1894, página 59:

 

Tendo, até 1º de dezembro de 1893, três mil, setecentas e cinco (3.705) ações com direito a voto, de um total de seis mil, trezentas e oitenta e três (6.383) ações com direito a voto, a irmã Russell e eu elegemos naturalmente os diretores e, dessa maneira, controlamos a Sociedade; e isto ficou plenamente entendido desde o princípio pelos diretores. A utilidade deles, ficou entendido, se manifestaria em caso de nossa morte.[17]

 

OS TRÊS PRIMEIROS PRESIDENTES DA TORRE DE VIGIA (EUA), E SEUS PERÍODOS NA PRESIDÊNCIA

Charles Taze Russell
(1884-1916)

Joseph Franklin Rutherford
(1917-1942)

Nathan Homer Knorr
(1942-1977)

Que Russell claramente não considerava os diretores (ou quaisquer outros) juntos com ele mesmo como um corpo governante, é evidente pelo modo de agir que ele consistentemente seguiu. Diz A Sentinela de 1º de março de 1923, página 68:

Sempre que outros lhe perguntavam: “Quem é o servo fiel e prudente?” — O irmão Russell costumava responder: “Alguns dizem que sou eu; enquanto outros dizem que é a Sociedade.”

O artigo prossegue então dizendo:

Ambas as declarações são verdadeiras; pois o irmão Russell era, de fato, a Sociedade no sentido mais absoluto, pelo seguinte, por ele determinar as diretrizes e o rumo da Sociedade sem prestar contas a nenhuma outra pessoa na terra. Algumas vezes ele buscava conselho de outras pessoas ligadas à Sociedade, ouvia suas sugestões e, em seguida, agia de acordo com seu próprio julgamento, crendo que o Senhor queria que ele assim o fizesse.

Em resposta à pergunta de alguns leitores de A Sentinela, C. T. Russell escreveu em 1906:

Não, as verdades que apresento, como porta-voz de Deus não foram reveladas em visões ou sonhos, tampouco pela voz audível de Deus, nem todas elas de uma só vez, mas gradativamente; especialmente desde 1870 e, particularmente, desde 1880. Tampouco é este claro desvendamento da verdade devido a qualquer habilidade ou grande percepção humana, mas por causa do simples fato de que chegou o tempo devido de Deus; e, se eu não falasse e não se pudesse achar outro instrumento, as próprias pedras clamariam.[18]

Crendo ser ele mesmo o “porta-voz de Deus” e seu instrumento para desvendamento da verdade, compreende-se a razão pela qual ele não via necessidade alguma de um corpo governante. No ano seguinte a esta declaração, Russell preparou sua “Última Vontade e Testamento”, que apareceu na revista A Sentinela de 1º de dezembro de 1916, depois de sua morte naquele ano. Visto que nada ilustra de maneira mais clara o poder absoluto exercido por Charles Russell sobre a revista A Sentinela, o texto completo deste testamento é apresentado no Apêndice. Podemos observar aqui o que declara o segundo parágrafo deste Testamento conforme publicado:

Contudo, ao fazer doação da revista Torre de Vigia de Sião, do Trimestral da Velha Teologia e dos direitos autorais dos livros Estudos das Escrituras da Aurora do Milênio, e de vários outros folhetos, hinários, etc., à Sociedade Torre de vigia de Bíblias e Tratados, eu o fiz com o entendimento de que eu manteria completo controle de todos os interesses destas publicações durante a minha existência e que, depois de minha morte, estes seriam conduzidos de acordo com meus desejos. Passo agora a declarar tais desejos — minha vontade com relação aos mesmos — conforme segue:

Apesar de ter doado a revista A Sentinela à corporação (ao ser registrada como pessoa jurídica em 1884), ele a considerava claramente como a sua revista, a ser publicada segundo a sua vontade, mesmo depois de sua morte. Ele dispôs que, com sua morte, uma Comissão Editora de cinco homens, escolhidos e nomeados pessoalmente por ele, deveria ter a inteira responsabilidade editorial pela revista A Sentinela.[19] Legou também todas as suas ações com direito a voto, da corporação, a cinco mulheres nomeadas por ele como fideicomissárias e providenciou que, no caso de algum membro da Comissão Editora ter de ser disciplinado por má conduta, estas mulheres deveriam servir, juntamente com outros fideicomissários da corporação (os diretores, evidentemente) e o resto dos membros da Comissão Editora, como um conselho de sentença para decidir o caso do membro da Comissão Editora acusado.[20]

Já que uma única pessoa não pode constituir um corpo coletivo, os fatos mostram que durante a vida de C. T. Russell, isto é, até 1916, não havia sequer a aparência de um corpo governante. E continuou sendo assim durante a presidência do seu sucessor, Joseph F. Rutherford. Alguém poderia supor que os membros da Comissão Editora, junto com a Diretoria, compunham tal corpo governante. Porém, os fatos mostram que essa suposição estava errada.

Na reunião anual da corporação em janeiro de 1917, Rutherford foi eleito para substituir Russell como presidente. No início de sua presidência, quatro dos sete diretores (a maioria) objetaram ao que consideravam como um comportamento arbitrário da parte do presidente. Ele não estava reconhecendo a Diretoria e nem trabalhando com ela como um corpo, mas estava agindo unilateralmente, tomando medidas e informando-lhe só depois o que havia decidido fazer. Eles achavam que isto estava totalmente em desacordo com o que o Pastor Russell, o “servo fiel e prudente”, havia delineado como o proceder a ser seguido. Ter eles expressado objeção resultou em sua eliminação sumária da Diretoria.[21]

Rutherford achava que, ainda que eles tivessem sido designados pessoalmente por C. T. Russell como diretores vitalícios, a condição de diretor destes quatro nunca fora confirmada numa reunião anual da corporação. Segundo A. H. MacMillan, membro destacado do pessoal da sede nessa época, Rutherford consultou um advogado de fora que concordou que isto dava margem à demissão dos homens — isto é, com apoio legal.[22]

Rutherford tinha, portanto, de escolher. Ele poderia acatar as objeções da maioria do conselho e procurar fazer as retificações. (Se ele tivesse visto estes homens como a maioria de um “Corpo Governante” do tipo descrito em A Sentinela de 1972, teria sido moralmente obrigado a fazer isso.) Ou, poderia aproveitar-se do dispositivo legal mencionado e usar sua autoridade presidencial para demitir os diretores que não concordavam com ele.

Preferiu o segundo caminho, designando diretores que ele mesmo escolheu em substituição.

Que dizer da Comissão Editora? A Sentinela (em inglês) de 15 de junho de 1938, página 185, mostra que, em 1925, a maioria desta comissão “se opôs fortemente” à publicação do artigo intitulado “O Nascimento da Nação” (significando que “o reino havia começado a funcionar” em 1914). A Sentinela diz qual foi o resultado para aqueles que discordavam do presidente:

...mas, pela graça do Senhor, [o artigo] foi publicado, e isso marcou realmente o início do fim da comissão editora, indicando que o próprio Senhor está dirigindo a sua organização.

A Comissão Editora estava agora eliminada. Rutherford tinha efetivamente eliminado qualquer oposição a seu controle total da organização.

Um aspecto interessante de tudo isto é que, durante todo este tempo, não somente o livro O Mistério Consumado, o principal pomo de discórdia em 1917, mas também a revista A Sentinela estiveram ensinando de maneira vigorosa que o Pastor Russell era na verdade o “servo fiel e prudente” predito nas Escrituras, a quem o Amo faria “governante sobre sua casa”.[23] A maneira pela qual este ensino fora usado para insistir na completa conformidade de todos é bem ilustrada por estas declarações de A Sentinela de 1º de maio de 1922, página 132: 

FIDELIDADE É LEALDADE

Ser fiel significa ser leal. Ser leal ao Senhor significa ser obediente ao Senhor. Abandonar ou repudiar o instrumento escolhido do Senhor significa abandonar ou repudiar o próprio Senhor, baseado no princípio de que aquele que rejeita o servo enviado pelo Amo, rejeita, por esse meio, o Amo.

Não há ninguém hoje na verdade atual que possa honestamente dizer que recebeu conhecimento do plano divino de qualquer outra fonte além do ministério do irmão Russell, direta ou indiretamente. Por intermédio de seu profeta Ezequiel, Jeová prefigurou o cargo de um servo, identificando-o como alguém vestido de linho, com um tinteiro de escrevente de lado, o qual foi comissionado para passar através da cidade (a cristandade) e consolar os que gemem por iluminar suas mentes com relação ao grande plano de Deus. Notem que este era um privilégio não outorgado pelo homem, mas pelo próprio Senhor. Porém, em cumprimento ao arranjo do Senhor, ele usou um homem. O homem que ocupou esse cargo, pela graça do Senhor, foi o irmão Russell.

Mais uma vez, em A Sentinela de 1º de março de 1923, páginas 68 e 71, no artigo intitulado “Lealdade é a Prova”, a submissão aos ensinos e métodos de Russell foi igualada a submissão à vontade do Senhor:

 

3 Cremos que todos os que estão agora se regozijando na verdade atual concordarão que o irmão Russell ocupou fielmente o cargo de servo especial do Senhor e que foi feito governante sobre todos os bens do Senhor.

________________________________________________ 

38 Cada conservo tem demonstrado sua habilidade ou capacidade e progredido na mesma proporção em que tem se submetido alegremente à vontade do Senhor por trabalhar no campo da colheita do Senhor em harmonia com o modo do Senhor, modo esse em que o Senhor usou o irmão Russell para delinear, já que o irmão Russell ocupava o cargo desse “servo fiel e prudente”. Ele fez a obra do Senhor de acordo com o modo do Senhor. Se, então, o irmão Russell fez a obra do Senhor no modo do Senhor, qualquer outro modo de fazê-la é contrário ao modo do Senhor e não poderia ser, portanto, um modo fiel de cuidar dos interesses do reino do Senhor.

A questão era bem clara. Ou alguém se alinhava e se conformava lealmente aos ensinos e ao modo deste ‘governante sobre a casa do Amo’ (Russell), ou se tornava culpado de repudiar a Cristo Jesus e, portanto, de ser um apóstata. Raramente um apelo à aceitação da autoridade humana foi expresso com mais vigor.

O que torna isso tão notável é que, alguns anos depois da morte de Russell e durante o próprio tempo em que se fizeram estas afirmações sobre ele, as providências tomadas por ele em vida e sua escolha pessoal de homens para o cargo de supervisão foram deixadas de lado pelo novo presidente. As declarações contidas em seu “Testamento” foram descartadas como não tendo força legal e nem também, evidentemente, força moral. A Sentinela (em inglês) de 15 de dezembro de 1931, página 376, fala sobre isso:

 

24 Os fatos que se sabe bem que existem e que se aplicam às palavras proféticas de Jesus são os seguintes: Em 1914, Jeová colocou seu Rei em seu trono. Os três anos e meio que vieram imediatamente depois proveram a oportunidade de provar os que haviam respondido à chamada do reino quanto a se eram egoístas ou altruístas. Em 1916, morreu o presidente da Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados. Encontrou-se um papel escrito e assinado por ele, e que foi chamado de sua “última vontade e testamento”, mas que não era de fato um testamento. Pareceu então que o irmão Russell, alguns anos antes de sua morte, tinha chegado à conclusão de que não podia fazer tal testamento. A obra da organização de Deus não está sujeita ao controle do homem ou ao controle da vontade de qualquer criatura. Portanto, não era possível dar continuidade à obra da Sociedade para a glória e a honra do Senhor conforme estava delineado nesse documento escrito, chamado ‘testamento’.

Apenas oito anos antes, A Sentinela, o “canal do Senhor”, havia insistido que Russell “fez a obra do Senhor de acordo com o modo do Senhor” e, por este motivo, “qualquer outro modo de fazê-la é contrário ao modo do Senhor”. Agora, oito anos mais tarde, qualquer um que se opusesse a que Rutherford deixasse de lado as instruções dadas por aquele a favor de quem A Sentinela tinha argumentado tão rigidamente como o “servo fiel e prudente”, era retratado como movido por má vontade e malícia, como obreiro da iniqüidade:

 

No entanto, esta classe dos jogados fora ou rejeitados realmente choram e gemem, rangem seus dentes contra seus irmãos porque, dizem eles, ‘a vontade do irmão Russell está sendo ignorada e A Sentinela não está sendo publicada como ele instruiu’; e erguem suas mãos em horror piedoso e derramam lágrimas de crocodilo porque a organização do Senhor na terra não está sendo usada de acordo com a vontade de um homem. Em outras palavras, usam estas pretensões como pretexto para pranto, lamento e pesar. Eles se lamentam, se queixam e choram porque não têm o encargo da Sociedade. Rangem seus dentes contra os que estão empenhados na obra do Senhor e dão expressão a toda forma de má vontade, malícia e declarações mentirosas contra aqueles que outrora eles alegavam ser seus irmãos. Judas menciona a mesma classe e suas palavras estabelecem definitivamente o tempo em que este lamento e pranto haveriam de começar, a saber, por ocasião da vinda do Senhor Jesus ao templo de Jeová para julgamento. Diz ele: “Estes são resmungadores, queixosos, comportando-se segundo as suas próprias paixões [desejos egoístas]; e suas bocas proferem palavras bombásticas [apresentando-se como os favorecidos de Deus], tendo pessoas de homens em admiração por interesse [em outras palavras, expressam sua admiração pela pessoa de um homem e desejam admiração para si mesmos, e sua conduta e modo de agir se encaixam exatamente nas palavras do apóstolo]. Ostentam grande pretensão de amor e devoção a um homem, a saber, o irmão Russell, mas está claro que agem desta maneira com o objetivo de auferir alguma vantagem egoísta. Portanto, o propósito de mencionar-se estas coisas e, evidentemente, o propósito de o Senhor permitir que seu povo as entenda é para que possam evitar tais obreiros da iniqüidade.

É difícil explicar um comportamento tão inconstante, instável, errático. Ainda assim, este era supostamente o canal que o Senhor Jesus achara tão digno de ser constituído como seu canal exclusivo para fornecer orientação às pessoas na terra.

Na realidade, por volta de 1925, J. F. Rutherford exercia a direção inconteste da Sociedade e os anos seguintes só fortaleceram seu controle sobre todas as funções da organização.[24]

Isto incluía o controle total do que seria publicado por meio do canal de A Sentinela e de outras publicações usadas em prover o alimento espiritual às congregações mundialmente. Recordo-me de meu tio ter-me falado certo dia em seu escritório sobre uma ocasião em que Rutherford apresentou certa questão, um novo ponto de vista, diante da família de Betel para ser discutido.[25] Meu tio contou que, na consideração, ele se expressou de maneira negativa sobre o novo ponto de vista proposto, fazendo-o com base nas Escrituras. Depois disso, o presidente Rutherford, disse ele, o designou pessoalmente para preparar a matéria em apoio deste novo ponto de vista, apesar de ele, Fred Franz, ter deixado claro que não o considerava bíblico.

Em outra ocasião, ele relatou que o “Juiz” (Rutherford) estabeleceu, mais adiante em sua presidência, uma norma firme de que a revista A Sentinela trouxesse somente artigos que enfatizassem a profecia ou a obra de pregação. Por esse motivo, passou-se um período de anos em que artigos sobre temas tais como amor, bondade, misericórdia, longanimidade e qualidades similares simplesmente não apareciam na revista.

Assim, por um período de quase sessenta anos das presidências de Russell e Rutherford, cada homem agia segundo sua própria prerrogativa ao exercer sua autoridade presidencial sem o menor indício de algum corpo governante.

Quando o Juiz Rutherford morreu em 8 de janeiro de 1942, Nathan H. Knorr foi eleito unanimemente como presidente pela diretoria. A estrutura organizacional permaneceu basicamente a mesma, apesar de alguns ajustes, já que Knorr delegou parte da responsabilidade. (As circunstâncias tornaram isto realmente necessário, já que o número de Testemunhas aumentara de apenas 108.000 por ocasião da morte de Rutherford para mais de dois milhões durante a presidência de Knorr). Sem ser escritor nem particularmente um estudioso das Escrituras, Knorr se apoiava em Fred Franz (o vice-presidente) como uma espécie de árbitro final em assuntos bíblicos e redator principal da organização. Questões tais como as discutidas nas sessões do Corpo Governante (relatadas anteriormente neste capítulo) foram, durante décadas, submetidas a Fred Franz para uma decisão. Se o presidente Knorr achava que a decisão podia ter algum efeito crítico sobre o funcionamento da Sociedade em certos países do mundo, ele, normalmente, a discutia pessoalmente com Fred Franz e não hesitava em demonstrar de forma pragmática o que as circunstâncias tornavam recomendável, prevalecendo sobre o vice-presidente caso necessário. Como foi observado anteriormente, esta relação básica continuou até os anos 70, conforme ilustrado pela decisão de se voltar a ter corpos de anciãos nas congregações. Essa decisão em particular dependeu principalmente do ponto de vista e da opinião de uma só pessoa, o vice-presidente, e, quando ele mudou de idéia e favoreceu a volta dos corpos de anciãos, o presidente concordou.

Ocorria basicamente o mesmo com toda matéria publicada. O presidente selecionava os artigos principais para A Sentinela entre as matérias submetidas por vários escritores e, em seguida, passava-as adiante para o Departamento de Redação para correção das provas e quaisquer ajustes ou aprimoramentos necessários. Estes eram então lidos finalmente pelo vice-presidente e pelo presidente e, caso aprovados, eram publicados. Karl Adams, que era o encarregado do Departamento de Redação quando me iniciei nele em 1965, me explicou que o presidente, nessa época, havia dado considerável liberdade ao departamento quanto à revisão de tais matérias. Ele destacou a única exceção, a saber, qualquer matéria escrita pelo vice-presidente, ao dizer que “o que vem do irmão Franz é visto como ‘pronto para ser publicado’, sem nenhum ajuste a ser feito.”

No entanto, o presidente pôde, mais uma vez então, prevalecer pelo seu cargo. Como exemplo, em 1967 o presidente Knorr enviou a Karl Adams, Ed Dunlap e a mim, cópia de certa matéria “Perguntas dos Leitores” que Fred Franz havia preparado e entregue para ser publicada.[26] Bem no ano anterior, publicou-se um livro de autoria de Fred Franz no qual se destacava que o ano 1975 marcaria o fim de 6.000 anos da história humana. Comparando esses 6.000 anos a seis dias de mil anos cada, escreveu ele:

 

Assim, dentro de poucos anos em nossa própria geração, atingiremos o que Jeová Deus poderia considerar como o sétimo dia da existência do homem.

 43 Quão apropriado seria se Jeová Deus fizesse deste vindouro sétimo período de mil anos um período sabático de descanso e livramento, um grandioso sábado de jubileu para se proclamar liberdade através da terra a todos os seus habitantes! Isto seria muito oportuno para a humanidade. Seria bem apropriado da parte de Deus, pois, lembre-se de que a humanidade ainda tem na sua frente o que o último livro da Bíblia Sagrada chama de reinado de Jesus Cristo sobre a terra por mil anos, o reinado milenar de Cristo. Jesus Cristo, quando na terra há dezenove séculos, disse profeticamente a respeito de si mesmo: “Porque Senhor do sábado é o que é o Filho do homem.” (Mateus 12:8) Não seria por mero acaso ou acidente, mas seria segundo o propósito amoroso de Jeová Deus que o reinado de Jesus Cristo, o “Senhor do sábado”, correspondesse ao sétimo milênio da existência do homem.[27]

Fazia muitas décadas que não se via tal sentimento de empolgação entre as Testemunhas de Jeová como a provocada por estas declarações. Desenvolveu-se uma tremenda onda de expectativa, ultrapassando em muito o sentimento de expectativa do fim que eu e outros tínhamos experimentado no início dos anos 40.

Por isso ficamos pasmos ao ver que a “Pergunta dos Leitores”, que Fred Franz havia então formulado, argumentava que o fim de 6.000 anos viria de fato um ano antes do que se acabara de publicar no novo livro, a saber, que viria em 1974 em vez de 1975. Conforme Knorr contou a Karl Adams, quando recebeu esta matéria, ele foi a Fred Franz e perguntou a razão da mudança repentina. Franz replicou terminantemente: “É assim mesmo. É 1974.”

Knorr não se sentia à vontade com a mudança e por isso enviou cópias a nós três com um pedido para que a submetêssemos a nossas observações individuais. A argumentação do vice-presidente se apoiava quase inteiramente no uso de um número cardinal e um ordinal no relato do dilúvio em Gênesis, capítulo 7, versículos 6 e 11 (“seiscentos anos” e o “seiscentésimo ano”). O argumento procurava mostrar que faltava um ano na contagem do tempo apresentada no novo livro e que se precisava acrescentar um ano, fazendo com que o fim de 6.000 anos viesse um ano antes, em 1974 em vez de 1975.

Cada um de nós escreveu de modo respeitoso que não achávamos que a matéria deveria ser publicada, que teria um efeito extremamente perturbador sobre os irmãos.[28] O presidente evidentemente concordou, já que a matéria preparada pelo vice-presidente nunca foi publicada; contudo, foi uma ocorrência bem rara.

Foi durante a presidência de Knorr que o termo “corpo governante” começou a ser usado com certa freqüência.[29] A literatura começava então a associar tal corpo com a Diretoria da Sociedade Torre de Vigia. No livro da Sociedade, Qualificados Para Ser Ministros, (publicado em 1959, em português, página 328), aparece a declaração:

 

Durante os anos desde que o Senhor veio a Seu Templo, o Corpo Governante visível tem sido intimamente identificado com a diretoria desta Corporação.

Assim, os sete membros da diretoria eram considerados como sendo os sete membros do “Corpo Governante”.

Todavia, o fato é que essa situação deles era semelhante à observada no caso dos diretores dos dias de Russell e de Rutherford.

Marley Cole, uma Testemunha que escreveu um livro (com a colaboração total da Sociedade) intitulado Testemunhas de Jeová – A Sociedade do Novo Mundo (em inglês), destaca isto.[30] Numa parte com o título “Rebelião Interna”, ele descreve a controvérsia entre Rutherford e a Diretoria em 1917, dizendo:

 

Quatro diretores queriam uma reorganização . . . Como as coisas se achavam, o presidente era a administração. Ele não lhes consultava. Comunicava-lhes o que estava fazendo somente depois de ter feito. Ele os estava pondo na posição de conselheiros em assuntos legais da corporação.

Rutherford não fazia mistério quanto a ‘ir em frente’. O Pastor, antes dele, tinha trabalhado dessa maneira. O Pastor emitia ordens administrativas sem a aprovação antecipada da Diretoria.

Então, numa nota ao pé da página, diz Cole:

 

Que o presidente da Sociedade continuou a exercer daí em diante tal liberdade irrestrita pode ser observado pelo seguinte relato sobre as ações de N. H. Knorr com relação à produção de uma nova tradução da Bíblia.[31]

A Sentinela (em inglês) de 15 de setembro de 1950, páginas 315 e 316, foi então citada. Ela revela que os membros da Diretoria foram pela primeira vez informados pelo presidente sobre a existência da Tradução do Novo Mundo (provavelmente, um dos maiores projetos já empreendidos pela organização) somente depois que a tradução da parte das Escrituras Gregas já tinha sido concluída e estava pronta para ser impressa.

Até 1971, quando foi dado o discurso do “rabo abanando o cão”, a Diretoria não se reunia em base regular, mas somente quando o presidente decidia convocá-la. Às vezes, passavam-se meses sem reunião alguma, sendo a agenda mais freqüente composta, evidentemente, de assuntos corporativos tais como a compra de propriedades ou de algum novo equipamento. Normalmente, eles não tinham nada a dizer sobre que matéria bíblica seria publicada, nem se buscava sua aprovação. O vice-presidente Franz deixou isto claro quando depôs perante um tribunal na Escócia em 1954, num caso conhecido como o Caso Walsh. Perguntado quanto ao que era feito no caso de ser feita alguma mudança importante na doutrina e se essa tinha de ser primeiro aprovada pela Diretoria, o vice-presidente respondeu (sendo reproduzida aqui a matéria da transcrição oficial do tribunal, com “P” representando a pergunta do Advogado e “R” a resposta dada por Fred Franz):

 

P. Em assuntos espirituais, tem cada membro da Diretoria um parecer igualmente válido? R. O presidente é o porta-voz. Ele profere os discursos que revelam avanço no entendimento das Escrituras. Por conseguinte, ele pode designar temporariamente outros membros da sede para dar outros discursos que apresentem qualquer parte da Bíblia sobre a qual se tenha lançado luz adicional. P. Diga-me, são estes avanços no entendimento, como o senhor os chama, submetidos ao voto dos diretores? R. Não. P. Como se tornam eles pronunciamentos oficiais? R. Passam pela comissão editora e eu dou o meu O.K., depois de uma análise bíblica. Passo-os então para o presidente Knorr e o presidente Knorr dá o O.K. final. P. Não vai de maneira alguma perante a Diretoria? R. Não.”[32]

Eu pessoalmente sabia que essa versão dos fatos era verdadeira no que se relaciona à Diretoria. Antes de 1971, participei de uma reunião com vários membros do pessoal de redação, convocada por Karl Adams, e levantou-se a questão quanto a como conseguir-se a aprovação do presidente sobre certos melhoramentos sugeridos na revista A Sentinela. Alguém propôs que Lyman Swingle, que estava presente como um dos escritores, desse uma entrada no assunto com Knorr. A resposta de Swingle foi breve, mas demasiadamente representativa da realidade da situação. Disse ele: “Por que eu? Que posso fazer? Sou apenas um diretor.”

A situação continuou a mesma, mesmo depois da ampliação do Corpo Governante de modo a incluir mais que os sete diretores. Em 1975, durante uma sessão, veio à discussão certa matéria preparada pelo vice-presidente para ser usada como discurso de congresso. Envolvia a parábola do grão de mostarda e a parábola do fermento (encontradas em Mateus capítulo 13) e argumentava com detalhes que o “reino dos céus” a que Jesus se referiu nestas parábolas era, na realidade, um reino “de imitação”, uma contrafação. Um membro do Corpo que havia lido a matéria não se sentiu convencido pela argumentação. Após a discussão, dos catorze membros presentes, somente cinco (incluindo Knorr e Fred Franz) votaram a favor do uso da matéria como discurso de congresso, os outros nove não foram a favor. De modo que ela não foi usada – não como discurso, mas a matéria foi publicada num livro lançado no congresso e, em poucos meses, apareceu também na revista A Sentinela.[33] O fato de quase dois terços dos membros do Corpo presentes terem expressado pelo menos alguma falta de confiança na matéria não afetou a decisão do presidente de ir em frente com sua publicação.

Não só os conteúdos das revistas e de outras literaturas, mas também quase cada aspecto da atividade mundial das Testemunhas de Jeová — a direção dos 90 ou mais escritórios de filiais (sendo cada superintendente de filial descrito como o “ministro presidente do cristianismo dentro do território para o qual fora designado”), a supervisão de todo o trabalho de todos os representantes viajantes, a direção da escola de missionários de Gileade e a designação e o trabalho de todos os missionários, o planejamento de congressos e programas de congresso — tudo isto e muito mais eram prerrogativa exclusiva de uma única pessoa: o presidente da corporação. O que quer que o Corpo Governante considerasse ou não em qualquer destas áreas ocorria estritamente em resultado da decisão e vontade dele.

Tudo isto era difícil de ser conciliado com os artigos publicados depois do “discurso do rabo abanando o cão” do vice-presidente. A sua linguagem ali tinha sido bastante enfática e deveras conclusiva:

 

Assim, também, embora não estivesse presente nenhum dos apóstolos de Cristo no século dezenove, o espírito santo de Deus deve ter operado para com a formação do corpo governante para o seu restante ungido da classe do ‘escravo fiel e discreto’. Os fatos falam por si mesmos. Surgiu um corpo de cristãos ungidos que aceitaram e assumiram as responsabilidades de governar os assuntos do povo dedicado, batizado e ungido de Jeová, que segue as pisadas de Jesus Cristo e se esforçava a cumprir a obra declarada na profecia de Jesus em Mateus 24:45-47. Os fatos falam mais alto do que palavras. O corpo governante existe. As testemunhas cristãs de Jeová sabem e afirmam com gratidão que não se trata duma organização religiosa de um só homem, mas que ela tem um corpo governante de cristãos ungidos pelo espírito.[34]

Infelizmente, o quadro apresentado simplesmente não era verdadeiro. Os fatos, já apresentados pelas próprias publicações aprovadas da Sociedade Torre de Vigia e pelas declarações de diretores, mostram claramente que não existia nenhum corpo governante em nenhum sentido real no século 19 durante a presidência de Russell, nem no século 20 durante a presidência de Rutherford, e nem existia algum no sentido descrito neste mesmo artigo de A Sentinela durante a presidência de Knorr. Era um quadro de aparência impressionante, mas era ilusório, fictício. O fato é que prevaleceu um arranjo monárquico desde a própria formação da organização (sendo a palavra “monarca” de origem grega e significando “aquele governa sozinho”, também definida nos dicionários como “aquele que detém posição e poder preeminentes”). Que o primeiro presidente era benigno, o seguinte severo e autocrático, e o terceiro muito prático à maneira de homens de negócios, não altera de maneira alguma o fato de que cada um dos três presidentes exerceu autoridade monárquica. A grande maioria das Testemunhas que constitui o que o artigo de A Sentinela havia descrito como as “fileiras” — e inclusive a maioria dos que compõem a “classe do escravo fiel e discreto” — estava totalmente despercebida disto. Aqueles que estavam em posições suficientemente próximas da sede da autoridade sabiam que era assim; quanto mais próximos estavam, mais conscientes dos fatos se tornavam.

Isto era particularmente veraz com relação aos membros do Corpo Governante e, em 1975, o “cão” decidiu que era tempo de “abanar o rabo”. A maioria dos membros sentiu que já era tempo para os fatos começarem finalmente a se harmonizar com as palavras que estavam sendo proferidas e publicadas.

Curiosamente, o que se fez foi essencialmente a mesma coisa que os quatro diretores haviam proposto em 1917, uma reorganização, um esforço da parte deles que tem sido, daí em diante, consistentemente descrito nas publicações da Torre de Vigia como um ‘complô ambicioso’ e uma ‘conspiração rebelde,’ dessas que, ‘pela graça de Deus, não logrou êxito!’ Cinqüenta e cinco anos mais tarde, basicamente a mesma proposta teve êxito, mas somente depois de meses de turbulência para o Corpo Governante. 

 



[1] O termo “escravo fiel e discreto” é tirado da parábola de Jesus em Mateus 24:45-47 e o número 144.000 é tirado de Revelação 7:4 e 14:3.

[2] Veja o Anuário das Testemunhas de Jeová de 1994, Página 33.

[3]  Na época, os sete membros eram: Nathan Knorr, Fred Franz, Grant Suiter, Thomas Sullivan, Milton Henschel, Lyman Swingle, John Groh (estes sete eram também diretores da Sociedade Torre de Vigia), seguidos por William Jackson, Leo Greenlees, George Gangas e Raymond Franz. Com exceção de Raymond Franz, todos estes já faleceram.

[4] O Corpo Governante como um todo se reúne todas as quartas-feiras.

[5] A educação superior é geralmente desaprovada como capaz de conduzir à perda de fé e como proporcionando uma atmosfera que tende a contribuir para a imoralidade.

[6] Nessa época, a regra era que o divórcio somente seria biblicamente aceitável no caso de ser obtido pelo cônjuge inocente.

[7] A regra era que a multa não devia ser paga, que nestas circunstâncias, seria uma admissão de culpa e, portanto, uma transigência da integridade de alguém. Esta regra mudou.

[8] O artigo de A Sentinela de 15 de junho de 1970 (páginas 380 e 381) havia concentrado a atenção pela primeira vez em tais relações sexuais, considerando-as extensamente, e isto serviu com certeza para tornar os anciãos sensíveis aos rumores de tal conduta. De fato, foi provavelmente o principal responsável por este relatório sobre práticas privadas do leito conjugal.

[9] Veja A Sentinela de 1º de novembro de 1973, páginas 670 e 671; também a de 1º de maio de 1973, página 287.

[10] Num memorando dirigido ao Corpo Governante, datado de 9 de agosto de 1976, um membro do pessoal da sede, que cuida da correspondência, relata: “Houve muitos e muitos problemas em resultado da posição adotada, muitas vezes quando há um marido incrédulo [significando uma não-Testemunha]. Esposas têm se recusado a permitir que tais maridos as estimulem desta maneira ou a estimulá-los desta maneira. Em conseqüência disso, casamentos foram destruídos.”

[11] Muitas Testemunhas se referem à organização como “nossa mãe” e isto se dá devido a revista A Sentinela (em inglês) haver usado este termo dessa maneira, como no número de 1º de fevereiro de 1952, página 80, e no número de 1º de maio de 1957, páginas 274, 84; veja também A Sentinela de 1º de abril de 1994, página 32.

[12] Esta é uma reprodução da cópia a carbono e, por esta razão, não traz nenhum carimbo de assinatura. O símbolo “SCE” identifica o escritor da carta como Merton Campbell, do Departamento de Serviço.

[13] Veja A Sentinela de 15 de maio de 1972, página 319.

 

[14] A palavra “adultério” que aparece no grego original de Mateus 19:9 é moikheia e, diferente de porneia, não é ampla quanto ao significado, mas bastante limitada, restringindo-se a adultério no sentido comum da palavra.

[15] A Tradução do Novo Mundo não traz o nome de nenhum tradutor e é apresentada como resultado do trabalho anônimo da “Comissão da Tradução do Novo Mundo”. Outros membros dessa comissão eram Nathan Knorr, Albert Schroeder e George Gangas; entretanto, Fred Franz era o único com suficiente conhecimento dos idiomas bíblicos a tentar uma tradução deste tipo. Ele havia estudado grego durante dois anos na Universidade de Cincinnati, mas era apenas autodidata em hebraico.

[16] Veja A Sentinela de 1º de maio de 1973, páginas 286 e 287.

[17] A Sra. Russell renunciou como editora adjunta de A Sentinela em outubro de 1886, devido a desacordo com seu marido e, em 9 de novembro de 1897, ela se separou dele. Ela continuou, entretanto, como diretora da Sociedade até 12 de fevereiro de 1900. Em 1906, obteve o divórcio.

[18] A Sentinela,de 15 de julho de 1906, página 229, veja também Testemunhas de Jeová Proclamadores do Reino de Deus, página 143, parágrafo 2.

[19] Russell não incluiu Rutherford entre estes cinco mas o colocou num segundo grupo de cinco que poderiam servir como substitutos se a situação o exigisse.

[20] O livro As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino (em inglês), publicado em 1959, página 64, diz que, pela lei, os votos de Russell morreram com ele.

[21] Típico deste modo de agir foi a decisão de Rutherford de publicar o livro intitulado O Mistério Consumado, apresentado como ‘obra póstuma de Russell’, porém escrita realmente por Clayton J. Woodworth e George H. Fisher. Rutherford não só havia deixado de consultar os diretores sobre a escrita do livro, aliás, eles nem sequer sabiam que ele estava sendo publicado até Rutherford anunciá-lo diante da “Família de Betel”, o pessoal da sede. Publicações posteriores da Torre de Vigia, inclusive o livro As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino (páginas 70, 71), em inglês, dão a impressão de que esta era a causa inicial e primária das objeções dos quatro diretores. Isto distorce os fatos, já que Rutherford anunciou a demissão destes quatro homens como diretores no mesmo dia (17 de julho de 1917) em que apresentou o livro O Mistério Consumado diante do pessoal da sede. O anúncio da demissão dos diretores foi feito, de fato, antes de o livro ser apresentado.

[22] A. H. MacMillan, A Fé em Marcha (em inglês), (Englewood Cliffs: Prentice-Hall, Inc., 1957), página 80. O prefácio do livro foi escrito por N. H. Knorr.

[23] Veja O Mistério Consumado, páginas 4, 11; A Sentinela (em inglês) de 1º de março de 1922, páginas 72, 73; 1º de maio de 1922, páginas 131; 1º de março de 1923, páginas 67, 68.

[24] A. H. MacMillan relata em A Fé em Marcha: “Russell havia deixado muito a critério do indivíduo quanto a como deveríamos cumprir nossas responsabilidades. . . Rutherford queria unificar a obra de pregação e, em vez de permitir que cada indivíduo desse a sua própria opinião e dissesse o que pensava ser correto e fizesse o que estava na sua própria mente, Rutherford começou aos poucos a se tornar o principal porta-voz da organização. Essa era a maneira, pensava ele, em que a mensagem podia ser mais bem apresentada sem nenhuma contradição.”

[25] O ponto em questão era, ou o novo entendimento de que as “potestades superiores” de Romanos 13:1 não eram as autoridades governamentais da terra, mas sim Jeová e Jesus Cristo, ou a decisão relacionada com a eliminação dos corpos de anciãos, qual dos dois eu não me recordo agora.

[26] Dos três que receberam as cópias, eu era o único que professava ser da classe “ungida”, tendo feito tal afirmação desde 1946.

[27] Vida Eterna na Liberdade dos Filhos de Deus, publicado em 1966, páginas 29, 30.

[28] Em minha carta, salientei que o argumento se apoiava principalmente numa parte das Escrituras que é difícil de ser definida e que os motivos fornecidos para a mudança eram, na melhor das hipóteses, frágeis.

[29] Em A Sentinela (em inglês) de 1º de junho de 1938, página 168, num artigo sobre “Organização”, as expressões “corpo central” e “autoridade central” são usadas, mas apenas com referência ao corpo dos apóstolos e àqueles que eram seus associados imediatos, sem fazer-se nenhuma aplicação moderna, a expressão “corpo governante” surgiu pela primeira vez em seu uso atual em A Sentinela (em inglês) de 15 de outubro 1944, página 315, e 1º de novembro de 1944, páginas 328-333.

[30] Marley Cole, Testemunhas de Jeová — A Sociedade do Novo Mundo (em inglês), (Nova York: Vintage Press, 1955), páginas 86-89. Cole escreveu o livro como se ele não fosse uma Testemunha e estivesse escrevendo um relato imparcial. A idéia era que por ter-se o livro publicado por uma editora de fora, ele poderia alcançar pessoas que normalmente não queriam aceitar literatura da Sociedade. Essa era, portanto, uma forma de tática de relações públicas.

[31] Ibid., página 88.

[32] Apesar de o vice-presidente fazer referência a uma “comissão editora”, ele mais tarde identifica somente a si mesmo e ao presidente Knorr como pertencente a essa comissão entre os membros da Diretoria. Na realidade, não havia “comissão editora” oficial alguma além destes dois. Em 1965, Karl Adams era a única outra pessoa cuja assinatura era regularmente requerida sobre matéria a ser publicada, e ele não era membro da Diretoria, nem professava ser da classe “ungida”.

[33] Veja o livro Está Próxima a Salvação do Homem da Aflição Mundial!, publicado em 1976, páginas 197-206; também A Sentinela de 1º junho de 1976, páginas 333-352.

[34] A Sentinela de 1 de junho de 1972, página 345.