A Astrologia Como Razão Para a Astronomia Babilônica

Com o objetivo de depreciar o valor dos textos astronômicos, alguns defensores da cronologia da Torre de Vigia enfatizaram que o interesse dos babilônios em fenômenos celestes era motivado pela astrologia. Embora seja verdade que este era um motivo importante para o estudo que faziam do céu, isto na verdade contribuiu para a exatidão das observações.

Na grande coleção de presságios antigos chamada Enuma Anu Enlil (cuja forma final data do período Neo-Assírio) é dada a seguinte instrução ao observador:

Quando a Lua for eclipsada observarás com exatidão o mês, o dia, a vigília noturna, o vento, o curso e a posição das estrelas em cujo reino o eclipse ocorre. Indicarás os presságios relativos ao mês, ao dia, à vigília noturna, ao vento, ao curso e às estrelas deste eclipse.

Para os “astrólogos” babilônicos os eclipses desempenhavam o papel mais proeminente, e, desse modo, todos os detalhes eram da máxima importância. O Dr. A. Pannekoek conclui que “a motivação astrológica, por exigir muita atenção na observação da lua, forneceu a melhor base para a cronologia”.[1]

Ademais, seria um engano pensar que a “astrologia” no sentido que esta palavra tem hoje, era praticada no período Neobabilônico ou antes disso. A idéia de que o destino de uma pessoa é determinado pelas posições das estrelas e planetas na data de seu nascimento ou concepção originou-se bem mais tarde, durante o período persa. O mais antigo horóscopo descoberto data de 410 A.E.C.[2] Conforme é indicado por B. L. van der Waerden, a astrologia primitiva “tinha um caráter bem diferente: ela auxiliava em predições de alcance limitado de eventos públicos em geral, tais como guerras e colheitas, à base de fenômenos notáveis tais como eclipses, nuvens, surgimento e desaparecimento anuais de planetas, enquanto que os [posteriores] 'caldeus' helenísticos prediziam destinos individuais com base nas posições de planetas e signos do zodíaco na data do nascimento ou da concepção”.[3]

Desse modo, o professor Otto Neugebauer explica que “a ‘astrologia’ mesopotâmica está muito mais para a previsão do tempo com base em fenômenos observados nos céus do que para a astrologia no sentido moderno da palavra”. Ele enfatiza também que a origem da astronomia não foi a astrologia e sim as questões do calendário: “A determinação da estação do ano, a contagem do tempo, os festivais lunares — estas são as questões que orientaram o desenvolvimento da astronomia por muitos séculos” e “até mesmo a última fase da astronomia da Mesopotâmia ... foi dedicada principalmente às questões do calendário lunar”.[4]

 

[Este artigo é um excerto do Apêndice ao livro Os Tempos dos Gentios Reconsiderados, de Carl Olof Jonsson]



Notas de rodapé:

[1] Uma História da Astronomia, A. Pannekoek (em inglês - Londres: George Allen & Unwin Ltd, 1961), págs. 43, 44.

[2] “Horóscopos Babilônicos”, A. J. Sachs, Diário de Estudos Cuneiformes, Vol. 6 (1952), pág. 49, em inglês.

[3] “História do Zodíaco”, B. L. van der Waerden, Archiv für Orientforschung, Vol. 16 (1952/53), pág. 224.

[4] Astronomia e História. Ensaios Selecionados, Otto Neugebauer (em inglês - Nova Iorque: Springer-Verlag, 1983), pág. 55. — Para uma abordagem extensiva sobre a natureza da astrologia babilônica, veja Aspectos da Divinação Celestial Babilônica: As Tabuinhas de Eclipse Lunar de Enuma Anu Enlil, Francesca Rochberg-Halton (= Archiv für Orientforschung, Beiheft 22), (Horn, Áustria: Verlag Ferdinand Berger & Söhne Gesellschaft M.B.H., 1988), págs. 2-17.