O Vigésimo Ano de Artaxerxes e as "Setenta Semanas" de Daniel

As questões sobre a cronologia do reinado de Artaxerxes I e sua suposta relação com as 70 semanas de Daniel 9:24-27 exigiriam um pequeno livro para responder, e tal livro é, de fato, o que venho planejando escrever há alguns anos. Venho juntando material sobre o assunto por muitos anos, e até escrevi um breve artigo em sueco, em 1989. Porém, outros projetos ocuparam meu tempo livre desde então, e não espero conseguir retomar o trabalho sobre as 70 semanas tão cedo nos próximos anos. A consideração que segue é um exame dos argumentos apresentados pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados (dos EUA), defendendo a idéia de que Artaxerxes I ascendeu ao trono em 475 A.C., e não em 465 a.C. como defendem os historiadores modernos.

O que segue é um breve resumo do artigo em sueco sobre a cronologia do reinado de Artaxerxes.

Foi Xerxes co-regente com seu pai, Dario?

É fato que a organização Torre de Vigia tenta resolver os problemas criados pelo prolongamento do período do reinado de Artaxerxes de 41 para 51 anos (sendo a ascensão dele datada em 475 em vez de 465 A.C.) por abreviar o reinado de seu predecessor, Xerxes (485-465 A.C.) de 21 para 11 anos, argumentando que os primeiros 10 anos do reinado de Xerxes foram uma co-regência com seu pai, Dario.

Não existe a mínima evidência para apoiar essa co-regência. A consideração feita pela Torre de Vigia nas páginas 259-262 de seu dicionário bíblico Estudo Perspicaz das Escrituras, Volume 3 (1992) é uma grosseira distorção da evidência histórica. Eis o que se afirma na página 260: 

sólida evidência da co-regência de Xerxes com seu pai Dario. O historiador grego Heródoto (VII, 3) diz: ‘Dario achou-as [as razões do] pedido [de reinado de Xerxes] justas e nomeou-o seu sucessor. Acho, porém, que Xerxes teria reinado de qualquer maneira’. Isto indica que Xerxes foi feito rei durante o reinado de seu pai Dario.

Entretanto, se verificarmos a declaração de Heródoto, descobriremos que logo nas sentenças seguintes, ele contradiz diretamente a afirmação da Torre de Vigia de que houve uma co-regência de 10 anos de Xerxes com Dario, ao declarar que Dario morreu um ano depois dessa nomeação de Xerxes como seu sucessor. Diz Heródoto: 

Xerxes foi, então, proclamado publicamente como o próximo na linha de sucessão à coroa, e Dario estava livre para voltar sua atenção para a guerra. Porém, a morte o levou antes que seus preparativos estivessem completos; ele morreu no ano seguinte a este incidente e à rebelião egípcia, depois de um reinado de trinta e seis anos, sendo-lhe tirada a oportunidade de punir tanto o Egito como os atenienses. Depois de sua morte a coroa passou para seu filho, Xerxes.

O que descobrimos, então, é que Dario nomeou Xerxes como seu sucessor um ano (não dez!) antes de sua própria morte. Além disso, Heródoto não diz que Dario nomeou Xerxes como seu co-regente, e sim como seu sucessor. (Note-se, por exemplo, a fraseologia dessa passagem citada pela Torre de Vigia na tradução de Aubrey de Sélincourt no Penguin Books.) Nos parágrafos anteriores, Heródoto explica que uma regra comum entre os reis da Pérsia era, antes de irem à guerra nomear seus sucessores ao trono, para o caso de serem mortos nas batalhas. Segundo ele, esse costume foi seguido por Dario.

De modo que a organização Torre de Vigia cita Heródoto completamente fora do contexto, deixando fora as sentenças subseqüentes que refutam sua afirmação. Incrivelmente apresentam essa falsificação chamando-a de “sólida evidência”!

Outra “sólida evidência” apresentada em seu dicionário bíblico para apoiar a co-regência tem a mesma qualidade. Trata-se dos baixo-relevos encontrados em Persépolis, os quais Herzfeld (em 1932) achou que indicavam uma co-regência de Xerxes com Dario (Estudo Perspicaz, Vol. 3, pág. 260). Essa idéia, no entanto, é rejeitada pelos eruditos modernos. O simples fato de que o príncipe coroado é visto em pé atrás do trono mostra que ele não é um rei ou um co-regente, e sim um sucessor nomeado. Em segundo lugar, não foram encontrados nomes no relevo, e a conclusão de que o homem no trono é Dario e que o príncipe coroado é Xerxes não passa de uma suposição. J. M Cook, em sua obra sobre a história da Pérsia, argumenta que o príncipe coroado é Artobazanes, o filho mais velho de Dario. (Cook, O Império Persa, Nova Iorque, 1983, pág. 75 em inglês). Outro eruditos modernos, tais como A. B. Tilia e von Gall, argumentaram que o rei não pode ser Dario, mas deve ser Xerxes, e que o príncipe coroado, por sua vez, é o filho de Xerxes! (Cook, pág. 242 em inglês, nota de rodapé 24).

Como “evidência de fontes babilônicas” para a alegada co-regência a Torre de Vigia primeiro faz referência a “um palácio para Xerxes” que foi construído em Babilônia entre 498-496 A.C. Mas não há qualquer evidência provando que este palácio foi construído “para Xerxes”. J. M. Cook faz referência à declaração de Heródoto de que Xerxes só foi nomeado sucessor ao trono um ano antes da morte de Dario, em 486 A.C. e acrescenta: 

Se Heródoto estiver certo nisso, a residência construída para o filho do rei em Babilônia no começo da década de 490 deve ter sido destinada a Artobazanes. (Cook, págs. 74, 75 em inglês)

De forma que o palácio não prova nada a respeito de uma co-regência de Xerxes com Dario.

A “evidência” final para a afirmação da co-regência consiste em duas tabuinhas de argila datadas do ano de ascensão de Xerxes. Segundo a Torre de Vigia, ambas as tabuinhas são datadas em vários meses antes das últimas tabuinhas datadas para o último ano do reinado de Dario. (Estudo Perspicaz, Vol. 3, pág. 261) Esta “sobreposição” dos dois reinados, argumentam eles, indica uma co-regência.

Mas ou a Torre de Vigia esconde os fatos referentes a essas duas tabuinhas, ou fez uma pesquisa muito superficial desse assunto. A primeira tabuinha, designada como “A. 124” por Thompson no Catálogo dele de 1927, não é datada no ano de ascensão de Xerxes (486/485), como Thompson indicou. Isto foi um erro de cópia de Thompson. A tabuinha é realmente datada no primeiro ano de Xerxes (485/484 a.C.) Isso tinha sido indicado já em 1941 por George G. Cameron na Revista Americana de Linguagem e Literatura Semítica, Vol. LVIII, pág. 320 (em inglês), nota de rodapé 33. Logo, não houve qualquer “sobreposição” dos dois reinados.

A segunda tabuinha, “VAT 4397”, publicada com o número 634 por M. San Nicolo e A. Ungnad na obra deles de 1934, foi datada por eles no quinto mês (“Ab”). Note-se, porém, que os autores colocaram um ponto de interrogação depois do nome do mês. O caracter do mês na tabuinha está danificado e pode ser reconstituído de várias maneiras. No mais recente trabalho de Parker e Dubberstein, Cronologia Babilônica, publicado em 1956, onde a mesma tabuinha é designada como “VAS VI 177”, os autores apontam que a tabuinha “tem o caracter do mês danificado. Poderia ser IX [9], mas o mais provável é que seja XII [12].” (Página 17 em inglês) A suposição original de Nicolo e Ungnad foi totalmente abandonada. Uma vez que Dario morreu no sétimo mês, uma tabuinha datada no nono ou décimo segundo mês no ano de ascensão de seu sucessor é totalmente correta. Não houve qualquer “sobreposição” entre os dois reinados.

2. A fuga de Temístocles

Muito se escreveu nas publicações da Torre de Vigia sobre a fuga de Temístocles para a Pérsia. Este é um velho argumento, que se originou com o teólogo jesuíta Denis Petau (Petávio) e o arcebispo James Ussher no século 17. Foi apresentado bem detalhadamente por E. W. Hengstenberg em sua obra Cristologia do Antigo Testamento (em alemão), publicada em Berlim em 1832.

Segundo os historiadores gregos Tucídides e Caronte de Lâmpsaco, Artaxerxes foi o rei com quem Temístocles falou após chegar à Pérsia. A Torre de Vigia argumenta que Temístocles morreu por volta de 471/70 A.C. Artaxerxes, portanto, deve ter iniciado o reinado dele antes dessa data e não tanto tempo depois, como 465 A.C. (Estudo Perspicaz, Vol. 3, pág. 260) Esses argumentos são aparentemente fortes, unicamente porque a Torre de Vigia deixa de fora algumas informações muito importantes. Para provar sua afirmação de que Temístocles conheceu Artaxerxes depois de sua chegada à Pérsia, cita-se uma informação de Plutarco de que “Tucídides e Caronte de Lâmpsaco relatam que Xerxes estava morto, e que foi o seu filho Artaxerxes com quem Temístocles teve a entrevista”. Mas eles deixaram de fora a segunda parte da declaração de Plutarco, que diz: 

… mas Éforo e Dinon e Clitarco e Heracleides, além de outros, acham que foi até Xerxes que ele veio. Tendo em vista os dados cronológicos, parece-me que Tucídides está mais certo, embora estes dados não estejam de forma alguma estabelecidos com segurança.

Assim, a Torre de Vigia esconde que Plutarco prossegue dizendo que diversos outros historiadores antigos escreveram sobre esse evento, e que a maioria deles afirmou que Xerxes, não Artaxerxes, estava no trono quando Temístocles chegou à Pérsia. Embora Plutarco (c. 46-120 AD) ache que Tucídides era mais confiável, ele enfatiza que os dados cronológicos não estavam seguramente estabelecidos de maneira alguma. Um fato que geralmente tem sido ignorado é que Tucídides escreveu seu relato sobre a fuga de Temístocles em algum momento depois de 406 A.C., ou aproximadamente duas gerações depois do evento. Ele se contradiz várias vezes em sua narrativa, o que mostra que a informação dele sobre o assunto não pode ser confiável. (Sobre isso, veja História Antiga da Universidade de Cambridge, Vol. V, 1992, pág. 14 em inglês.)

Mas mesmo que Temístocles tenha realmente contatado Artaxerxes, não há nada que prove que isso ocorreu na década de 470. Não há qualquer evidência em apoio da afirmação de que Temístocles morreu em 471/70 A.C. Nenhuma das fontes mencionadas pela Torre de Vigia dizem isso, e algumas delas, incluindo Plutarco, mostram claramente que ele morreu muito tempo depois, por volta de 459 A.C. (As Vidas de Plutarco, XXXI:2-5, em inglês) Passou-se um período considerável depois da tentativa de difamar Temístocles em Atenas no arcontado de Praxiergus (471/470 a.C.) até sua audiência com Artaxerxes (ou Xerxes). Houve várias tentativas antes de os inimigos de Temístocles conseguirem isso, forçando-o a fugir, primeiro de Atenas e finalmente da Grécia. A obra História Antiga da Universidade de Cambridge (em inglês, Vol. 5, pág. 62 em diante) data esta fuga em 469 A.C. Primeiro ele fugiu para perto de alguns amigos na Ásia Menor, e ficou lá por algum tempo. A Torre de Vigia cita Diodoro da Sicília para apoiar a data de 471/70 para o começo da difamação de Temístocles, mas evita mencionar a declaração de Diodoro, segundo a qual na chegada de Temístocles à Ásia Menor, Xerxes ainda estava no trono da Pérsia! (Diodoro da Sicília, XI:54-59). Isto, é claro, entra em conflito com a declaração de Tucídides de que a carta de Temístocles foi enviada da Ásia Menor para Artaxerxes.

Depois de algum tempo, evidentemente alguns anos na Ásia Menor, Temístocles finalmente foi para a Pérsia. Lá, ele passou um ano estudando o idioma antes de seu encontro com o rei. Esse encontro deve ter ocorrido no fim do ano 465 A.C. ou no início de 464 A.C. Conforme defende o historiador A. T. Olmstead, Xerxes pode muito bem ter estado no trono quando Temístocles chegou à Pérsia, mas deve ter morrido pouco depois, de modo que Temístocles, após seu primeiro ano aprendendo o idioma persa, encontrou Artaxerxes. Dessa maneira as afirmações conflitantes dos historiadores antigos podem ser harmonizadas, pelo menos parcialmente. 

Após seu encontro com o rei persa, Temístocles estabeleceu-se na cidade de Magnésia, onde viveu por alguns anos antes de sua morte. (As Vidas de Plutarco, XXXI:2-5). É realmente impossível, portanto, datar sua morte em 471/70 A.C., como faz a Torre de Vigia.

3. As tabuinhas datadas para os anos “50” e “51” de Artaxerxes

Para apoiar a afirmação de que Artaxerxes reinou por 51 anos em vez de 41, a Torre de Vigia faz referência a duas tabuinhas datadas no “50º” e “51º” ano dele, respectivamente. A primeira tabuinha, designada BM 65494 no Catálogo das Tabuinhas Babilônicas no Museu Britânico, Vol. VII (Londres, 1987), de E. Leichty e A. K. Grayson, ainda não foi publicada. A segunda tabuinha, CBM 12803 (=BE 8/1, 127), por outro lado, foi publicada em 1908 por Albert T. Clay em A Expedição da Universidade de Pensilvânia Para Babilônia, Série A: Textos Cuneiformes, Vol. VIII, texto 127. Todas as autoridades em História Aquemênida concordam que estas duas tabuinhas cuneiformes contém erros de escrita.

Conforme a Torre de Vigia indica, a tabuinha publicada por Albert Clay está com uma datação dupla: “51º ano, ano de ascensão, mês 12, dia 20, Dario, rei das terras.” (Estudo Perspicaz, Vol. 3, pág. 261) De modo que o texto parece igualar o 51º ano [de Artaxerxes, evidentemente; o nome não é fornecido no texto] com o ano de ascensão de seu sucessor, Dario II.

Porém, mais uma vez a Torre de Vigia não diz toda a verdade. O motivo é que a verdade completa muda totalmente o quadro. Existem muitas tabuinhas datadas do fim do reinado de Artaxerxes, graças à descoberta de um arquivo cuneiforme da empresa Murashu. Em Os Textos de Murashu de Istambul (em inglês, Istambul, 1997), V. Donbaz e M. W. Stolper explicam que o arquivo de Murashu é “a maior fonte documental disponível para a Babilônia Aquemênida abrangendo os anos entre Xerxes e Alexandre.” (Página 4 em inglês) Praticamente todas as tabuinhas são datadas para os reinados de Artaxerxes I e seu sucessor, Dario II. O número atinge o pico nos últimos dois anos do reinado de Artaxerxes e nos primeiros sete anos do reinado de Dario II, como se pode ver no gráfico abaixo, publicado por Donbaz e Stolper na página 6 (em inglês) da obra citada acima. O arquivo inclui mais de 60 textos do 41º ano de Artaxerxes e do ano de ascensão de Dario II e chega ao auge com cerca de 120 textos datados no 1º ano de Dario II!

 

Todos os textos de Murashu com anos preservados; o número de textos para cada ano está especificado. [Nota do Tradutor: Parte escura dos gráficos: Tabuinhas já publicadas.]

Conforme foi mostrado pelos antigos historiadores gregos, os meses que se seguiram à morte de Artaxerxes foram um período caótico. Seu filho e sucessor Xerxes II foi assassinado por seu irmão Sogdiano, depois de apenas algumas semanas de reinado. Daí, o usurpador Sogdiano manteve o trono por cerca de sete meses, após o que foi assassinado por Dario II em fevereiro de 423 A.C. Mas como Sogdiano nunca foi reconhecido como rei legítimo, os escribas continuaram datando os textos deles no reino de Artaxerxes por alguns meses depois da morte dele. É até possível que Artaxerxes tenha morrido perto do fim de seu 40º ano, como defendem alguns eruditos, de modo que os escribas tiveram de estender artificialmente o reino dele para incluir um 41º ano. Esta é uma questão que ainda está sendo debatida entre os eruditos.Só quando Dario II ascendeu ao trono no 11º mês babilônico (correspondente a parte de fevereiro e parte de março de 423 AEC) foi que os escribas começaram a datar os textos no reinado dele também. Mas para evitar qualquer confusão, os escribas geralmente datavam os textos de maneira dupla, mencionando tanto o 41º ano [de Artaxerxes] como o ano de ascensão de Dario II. Fizeram isso porque era importante para eles manter uma contagem cronológica exata dos reinados, uma vez que este era o calendário deles e a “era” com base na qual eles datavam diversos eventos, tais como os acontecimentos políticos, observações astronômicas e transações econômicas.

Foram encontradas várias dessas tabuinhas datadas duplamente. F. X. Kugler, na página 396 de seu trabalho Sternkunde und Sterndienst in Babel, II. Buch, II. Teil, Heft 2 (Münster, 1924), apresentou a informação cronológica sobre quatro delas. Outras tabuinhas desse tipo foram encontradas desde então.  São conhecidas agora dez dessas tabuinhas datadas duplamente, das quais todas, exceto uma, igualam “ano 41”, evidentemente de Artaxerxes I, com o “ano de ascensão de Dario”. A exceção é a CBM 12803, o texto no qual aparece ano “51”, em vez de “41”. E todos, exceto um (BM 33342) desses dez textos pertence ao arquivo de Murashu. Os nove textos datados duplamente, nos quais aparece “ano 41, ano de ascensão de Dario” são:

BM 54557: (= Zawadzki JEOL 34:45f.) Texto de Sipar [?]. Embora datado apenas no ano de ascensão de Dario II (mês IX [?], dia 29), o corpo do texto faz referência a um período "do mês V ano 41 de Ar(takshatsu...) [Artaxerxes] até o fim do mês XII, ano 41, ascensão de Dario.” (A informação sobre este texto foi recebida do Prof. Matthew W. Stolper, o principal especialista no arquivo de Murashu, em uma carta de 29 de janeiro de 1999).

Bertin 2889: Texto de Babilônia datado em "dia 26, mês XI, ano 41, ano de ascensão de Dario." O texto não está publicado, mas a informação sobre a data foi recebida por Jean-Frédéric Brunet, procedente do Dr. Francis Joannès, em 3 de julho de 2003. (Correspondência de Brunet para Jonsson, 22 de dezembro de 2003)

BM 33342: Texto de Babilônia datado em "mês Shabatu [mês XI]; dia 29, ano 41, ano de ascensão, Dario, Rei dos Países." (Mateus W. Stolper em AMI, Vol. 16, 1983, págs. 231-236) Este texto não pertence ao arquivo de Murashu.

BE 10 nº. 4: (=TuM 2/3, 216) Texto de Nipur datado no dia 14, mês XII, ano 41, ano de ascensão de Dario II, rei dos países.

BE 10 nº. 5: Texto de Nipur datado no dia 17, mês XII, ano de ascensão de Dario, rei dos países. A primeira linha diz "até o final de adar (mês XII) do ano 41, ano de ascensão de Dario, rei dos países".

BE 10 nº. 6: Texto de Nipur datado no ano de ascensão de Dario. O mês e o dia estão ilegíveis, mas da linha 2 em diante menciona-se o ano completo "do primeiro mês do ano 41 até o fim do mês XII do ano de ascensão de Dario".

PBS 2/1 nº. 1: Texto de Nipur datado no dia 22, mês XII, ano 41, ano de ascensão de Dario II.

BE 10 nº. 7: (TuM 2/3, 181) Texto de Nipur datado no mês I, dia 2, ano 1, de Dario II. A linha 6 menciona o produto interno para o "ano 41, ano de ascensão de Dario".

PBS 2/1 nº. 3: Texto de Nipur datado no mês I, dia 5, ano 1, de Dario II. As linhas 2 e 3 fazem referência a impostos, para o período "até o fim do mês XII, ano (4)1, (asc)ensão de Dario" A linha 13 diz: "até o fim de adar [mês XII], ano 41."

Explicação das abreviaturas usadas na lista acima:

AMI:

Archaologische Mitteilungen Iran aus.

BE:

A Expedição Babilônica da Universidade da Pensilvânia, Série A: Textos Cuneiformes, ed. por H. V. Hilprecht (Filadélfia, 1893-1914). Vols. 1 a 6 editados por Albert T. Clay em 1904.

Bertin:

G. Bertin, Coleção de Tabuinhas de Terracota Babilônicas. Principalmente Contratos, Vols. I-VI (Londres, 1883). Não publicado.

BM:

Museu Britânico.

JEOL:

Jaarbericht van het Vooraziatisch-Egyptisch Genootschap “Ex Oriente Lux”.

PBS:

Universidade da Pensilvânia. Museu Universitário. Publicações da Seção Babilônica (Filadélfia, 1911 – ). Os dois primeiros volumes foram editados por Albert T. Clay.

TuM:

Texte und Materialien der Frau Professor Hilprecht Coleção de Antiguidades Babilônicas im Eigentum der Universität Jena (Leipzig).

 

Todos estes nove textos comprovam unanimemente que Dario II ascendeu ao trono no 41º ano de seu antecessor. As tabuinhas mostram claramente que Artaxerxes não pode ter reinado por mais de 41 anos. Conforme declarado acima, o texto publicado por Albert Clay em 1908, o único citado pela Torre de Vigia, pertence à mesma categoria dos textos citados acima, que são datados duplamente, a única diferença sendo que ele atribui ao antecessor de Dario um reinado de 51 anos em vez de 41. É bem evidente que o número “51” na tabuinha é um erro do escriba. Essa é a única conclusão razoável para se chegar, visto que a única alternativa seria alegar que número “41” em todas as outras nove tabuinhas está errado.

É difícil acreditar que os escritores da Torre de Vigia não saibam nada sobre a existência de várias tabuinhas datadas duplamente e se referem à ascensão de Dario. Citar apenas aquelas duas tabuinhas que contém erros de grafia (anos “50” e “51”) e silenciar a respeito de todas as outras tabuinhas que igualam o ano de ascensão de Dario com o ano “41” de seu antecessor está longe da honestidade para com os leitores.

Albert T. Clay, que publicou a tabuinha com o número errado “51” escrito nela, estava totalmente apercebido de que isso era um erro do escriba. À direita do número errado em sua cópia publicada do texto, ele indicou que “51” era um “erro para 41”.

 

Tabuinha "CBM 12803", publicada por Albert T. Clay como Nº 127 em A Expedição Babilônica da Universidade da Pensilvânia, Série A: Textos Cuneiformes, Vol. VIII (Filadélfia, 1908), P1. 57. [Nota do Tradutor: Observe o apontamento do ‘erro para 41’, no canto inferior direito da figura.]

 

Esse erro foi fácil de cometer, já que a diferença entre "41" e "51" em caracteres cuneiformes é apenas uma pequena cunha – um toque com o estilo [haste pontiaguda para grafar caracteres cuneiformes]. Esses erros não são incomuns. O texto com o número "50" em vez de "40" é só mais um exemplo do mesmo tipo de erro. O professor Matthew W. Stolper explica:

“Sim, é um erro muito fácil de ocorrer. Como você talvez saiba, o sinal que indica "ano" antes do numeral termina com quatro cunhas angulares espaçadas. O dígito "40" em "41" é representado por mais quatro cunhas angulares espaçadas, com uma configuração ligeiramente diferente. Seria preciso um simples deslize do estilo para acrescentar uma cunha a mais.” – Carta de Stolper a Jonsson, 29 de janeiro de 1999.

O reinado de Artaxerxes fixado astronomicamente

A evidência decisiva para a duração do reinado de Artaxerxes é a informação astronômica encontrada em várias tabuinhas datadas no reinado dele. Um desses textos é o “diário” astronômico “VAT 5047”, datado claramente no 11º ano de Artaxerxes. Embora o texto esteja danificado, ele tem intacta a informação sobre duas posições lunares relativas aos planetas e às posições de Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno. Esta informação é suficiente para identificar a data do texto como sendo 454 A.C. Como este foi o 11º ano de Artaxerxes, o ano anterior, 455 A.C., não pode ter sido seu 20º ano, como a Torre de Vigia alega, e sim seu 10º ano. Seu 20º ano, então, deve ter sido 445/44 A.C. (Veja Diários Astronômicos de Babilônia e Textos Relacionados, Sachs/Hunger, Vol. 1, Viena, 1988, págs. 56-59 em inglês.)

Há também algumas tabuinhas datadas para o 21º e último ano de Xerxes. Uma delas, BM 32234, que é datada no dia 14 ou 18 do 5º mês do 21º ano de Xerxes, pertence ao grupo de textos astronômicos chamados “textos de ciclos de 18 anos” ou “textos saros”. A informação astronômica preservada nessa tabuinha estabelece que ela é do ano 465 A.C. O texto inclui a interessante informação que segue: “Mês V 14 (+x) Xerxes foi assassinado por seu filho.” Este texto sozinho não somente mostra que Xerxes reinou por 21 anos, como também mostra que o último ano dele foi 465 A.C, não 475 como a Torre de Vigia defende!

Existem vários “textos saros” desse tipo, abrangendo os reinados de Xerxes e Artaxerxes. As descrições bem detalhadas e datadas de eclipses lunares ocorridos em diferentes anos dos reinados deles estabelecem a cronologia desse período como uma cronologia absoluta.

Duas outras tabuinhas astronômicas dos reinados de Xerxes e Artaxerxes, BM 45674 e BM 32299, contém observações datadas do planeta Vênus. De novo, essas observações estabelecem a cronologia desse período como uma cronologia absoluta.

Temos, então, grande número de observações astronômicas datadas em diferentes momentos dos reinados de Xerxes e Artaxerxes preservadas nas tabuinhas cuneiformes. Em muitos casos, só uma ou duas dessas observações seriam suficientes para estabelecer o início e o fim dos reinados deles. O total de observações astronômicas datadas para esses reinados, porém, é de umas 40 ou mais. É impossível, portanto, mudar as datas dos reinados deles em um ano que seja! A datação que a Torre de Vigia faz do 20º ano de Artaxerxes em 455 A.C. é demonstravelmente errada. Isto, naturalmente, prova também que a interpretação organizacional das setenta semanas de Daniel está errada.

As setenta semanas de Daniel

Diversas aplicações das 70 semanas de Daniel apareceram ao longo dos séculos. Algumas delas, incluindo a da organização Torre de Vigia, têm de ser prontamente descartadas, porque elas têm mostrado estar em conflito direto com as datas estabelecidas historicamente. Essas interpretações não tem nada que ver com a realidade.

Se o 20º ano de Artaxerxes foi 445/44 em vez de 455, ainda é possível iniciar a contagem naquele ano, contanto que usemos um “ano profético” de 360 dias em vez do ano solar de 365,2422 dias. Isso foi demonstrado por Sir Robert Anderson em seu livro O Príncipe Vindouro (em inglês, publicado originalmente em 1895). A aplicação dele foi recentemente melhorada por H. W. Hoehner em seu livro Aspectos Cronológicos da Vida de Cristo (em inglês - 1977), página 135 em diante. Estes autores mostram que os 476 anos, do 20º ano de Artaxerxes, 445/44 A.C., até a morte de Cristo (se for fixada em 33 A.D.) correspondem a 483 anos de 360 dias. (476 x 365,2422 são 173.855 dias, e se esse número for dividido por 360 temos 483 anos.) Este é só um exemplo de uma aplicação que tem pelo menos a vantagem de usar uma data estabelecida historicamente para o seu início.

Há, naturalmente, muito mais que pode e deve ser dito sobre este assunto. Nas páginas acima eu tentei resumir algumas das mais importantes observações. No decorrer do tempo, membros das Testemunhas de Jeová e outros me escreveram a respeito desse problema, e talvez esse resumo possa ser de alguma ajuda para outros que também tenham perguntas sobre a questão. No futuro espero arranjar tempo para escrever uma consideração mais detalhada sobre esse assunto.

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© Carl Olof Jonsson, 1989. Revisado em 1999 e 2003. - Tradução da revisão de 2003 – Mentes Bereanas