Aderência às Escrituras ou "Mentalidade Aniquilacionista"?

Cum diebus nostris, quod dolenter referimus, zizaniae seminator, antiquus humani generis hostis, nonnullos perniciosissimos errores, a fidelibus semper explosos, in agro Domini superseminare et augere sit ausus, de natura praesertim animae rationalis, quod videlicet mortalis sit, aut unica in cunctis hominibus, et nonnulli temere philosophantes, secundum saltem philosophiam verum id esse asseverent: contra huiusmodi pestem opportuna remedia adhibere cupientes, hoc sacro approbante Concilio damnamus et reprobamus omnes asserentes animam intellectivam mortalem esse, aut unicam in cunctis hominibus, et haec in dubium vertentes, cum illa non solum vere per se et essentialiter humani corporis forma exsistat, sicut in canone felicis recordationis Clementis papae V praedecessoris Nostri in (generali) Viennensi Concilio edito continetur, verum et immortalis, et pro corporum quibus infunditur multitudine singulariter multiplicabilis, et multiplicata, et multiplicanda sit.

Cumque verum vero minime contradicat, omnem assertionem veritati illuminatae fidei contrariam omnino falsam esse definimus; et, ut aliter dogmatizare non liceat, districtius inhibemus: omnesque huiusmodi erroris assertionibus inhaerentes veluti damnatissimas haereses seminantes per omnia ut detestabiles et abominabiles haereticos et infideles, catholicam fidem labefactantes, vitandos et puniendos fore decernimus.

Visto que em nossos dias - e dolorosamente trazemos isso à baila - o semeador do joio, o antigo inimigo da raça humana, se atreveu a disseminar e espalhar no campo do Senhor uma série de erros perniciosos, sempre rejeitados pelos fiéis, especialmente sobre a natureza da alma racional, a saber, que ela é mortal, ou uma em todos os homens, e alguns, filosofando precipitadamente, afirmaram que isto é verdade, pelo menos de acordo com a filosofia, em nosso desejo de oferecer remédios adequados contra uma praga desse tipo, com a aprovação deste santo Concílio, condenamos e reprovamos todos os que afirmam que a alma inteligente é mortal, ou que ela é uma em todos os homens, e os que lançarem dúvidas sobre estas verdades, visto que ela [a alma] não só é, em si mesma, verdadeira e essencialmente a forma do corpo humano, conforme foi definido no cânon do Papa Clemente V nosso predecessor de feliz memória, publicado no Concílio (geral) de Viena, como também é múltipla de acordo com a multiplicidade de corpos em que ela é infundida, multiplicada, e para ser multiplicada.

E visto que a verdade nunca contradiz a verdade, declaramos toda afirmação contrária à verdade da iluminada fé como completamente falsa; e, que não se permita dogmatizar em contrário, proibimos isso estritamente, e decretamos que todos os que aderirem a erros desse tipo sejam banidos e punidos como hereges e infiéis detestáveis ​​e abomináveis ​​que disseminam as mais condenáveis heresias, que enfraquecem a fé católica.

Trecho da bula papal Apostolici Regiminis, emitida por Leão X em 19 de dezembro de 1513, condenando a “heresia” dos que rejeitavam o conceito da imortalidade natural da alma humana. Grifos acrescentados.

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Na longa história do Cristianismo, os conceitos da ‘sobrevivência da alma após a morte’ e o do "tormento consciente" sempre tiveram seus contestadores, mas já vão longe os tempos em que uma autoridade eclesiástica podia se expressar impunemente da maneira acima.

Isso não quer dizer, porém, que as pessoas que rejeitam tais conceitos hoje em dia estejam inteiramente livres de julgamentos adversos. Embora o “Tribunal do Santo Ofício” (Inquisição) tenha fechado as portas há séculos, e ninguém mais possa proibir outros de questionar tais coisas, classificando-os nos termos depreciativos acima, decretando inclusive a ‘condenação eterna’ para eles, ainda há – mesmo neste século 21 – quem direcione ataques contra tais indivíduos, como “último recurso” para depreciar as evidências bíblicas que eles apresentam.

Como apenas um exemplo disso, referindo-se ao conteúdo do artigo Textos "Mal Aplicados Pelos Aniquilacionistas"? um correspondente incluiu as seguintes declarações, em diferentes mensagens encaminhadas ao Mentes Bereanas:

“... não foram apenas os textos [bíblicos] sobre Seol que foram entendidos erroneamente, mas o próprio conceito sobre a alma foi alterado, com base em preconceitos adquiridos em sua formação religiosa desde tenra idade (sim, isto explica alguma coisa, embora não tudo), pois ele tem sido o mesmo entre os cristãos desde que Jesus disse aquelas palavras de Mateus 10:28, até que um belo dia surgiram os adventistas e outros...”

"Tais traduções livres (e não literais) [da Bíblia] foram feitas por pessoas que acreditam que uma alma vai literalmente para um profundo lugar da Terra chamado Seol depois da morte. Não existe a menor possibilidade de eles acharem que não é assim."

Essa Bíblia “pasteurizada” idealizada por cristãos aniquilacionistas, que não tinha nada que ver com a cultura religiosa daquele tempo, só existe na cabeça de tais cristãos, fomentada por engravatados do século 19 e uns “gatos pingados” de tempos mais antigos. Os livros que vieram a fazer parte da Bíblia eram parte de um mesmo coração pulsante que havia naquele tempo. Por isso que é uma violência querer entender Mateus 10:28 fora desse contexto histórico. Os cristãos acreditavam exatamente da maneira que lá está escrita. Geena ardente, Hades, tormento consciente, paraíso temporário para os espíritos dos justos (Luc. 23:43) etc. Tudo isso era crido literalmente da maneira que está posto na Bíblia.

“Acho interessante como é forte a influência de um conceito religioso sobre a mente humana. É uma demonstração de que o auto-engano não tem relação direta com a falta de formação acadêmica ou baixa cultura... Ao que parece, os defensores mais instruídos do sono da alma ou da aniquilação dela, quando buscam uma formação acadêmica ou autodidata relacionada à exegese, o fazem apenas para apoiar uma ideia preconcebida, adquirida em suas formações religiosas.”

[Todos os grifos foram acrescentados.]

Note-se que o âmago da argumentação é o mesmo nos dois casos, o antigo e o moderno. No século 16 a "questão" não era se a alma humana é mortal ou imortal. Todo o problema estava nos que afirmavam que ela é mortal. Estas pessoas eram merecedoras de reprovação, e, no conceito dos inquisidores, este era o “ponto final” da discussão.

Uma vez que, conforme foi demonstrado no artigo, nenhuma das aplicações de trechos bíblicos apresentadas em defesa da tese da “sobrevivência da alma após a morte” pode resistir ao exame contextual, a “solução final” à qual certos defensores dessa teoria apelam hoje é a mesma: Desviar o foco da questão para as pessoas, agarrando-se a afirmações genéricas (e bem categóricas) sobre os indivíduos envolvidos nesta controvérsia. Isto pode ser visto em frases tais como que 'este conceito tem sido o mesmo entre os cristãos', que “não existe a menor possibilidade” de os tradutores da Bíblia acharem isso ou aquilo, que os primitivos cristãos “acreditavam exatamente” ou “literalmente” assim, que os contestadores ‘entendem erroneamente’ os textos bíblicos, ‘alteram’ o significado de termos, 'fazem violência' ao texto bíblico e são ‘preconceituosos’, ou outras caracterizações toscas tais como “engravatados do século 19” e “gatos pingados” que teriam ‘inventado’ alguma “Bíblia pasteurizada” da ‘cabeça deles’. Não se concede a menor margem à possibilidade de tais pessoas estarem se pautando exclusivamente pela evidência contida nas próprias Escrituras. Segundo esses teóricos da “imortalidade da alma”, todo o problema está na mente dos que discordam deles. Qualquer raciocínio que contradiga essas teorias é necessariamente fruto de “auto-engano”!

Não é difícil entender a razão de o modus operandi dos que apelam a esses “argumentos” ser similar ao daquelas autoridades eclesiásticas: É bem mais fácil desviar a discussão para a ‘mentalidade aniquilacionista’ de outros, supostamente motivada por “preconceitos adquiridos em sua formação religiosa desde tenra idade”, do que discutir objetivamente as evidências que estas pessoas apresentam contra o conceito da “imortalidade da alma”. É bem mais cômodo retratar esses contestadores em termos pejorativos, tais como “engravatados” e “gatos pingados”, que ‘entendem errado a Bíblia’ e ‘ignoram a história do Cristianismo’ do que lidar decentemente com os dados bíblicos e históricos que essas pessoas apresentam.1

Além das falácias recorrentes, declarações como as citadas acima evidenciam também uma gritante falta de pesquisa adequada. Conforme se verá no levantamento que segue, não há evidência de que ‘preconceito oriundo de formação religiosa’ esteja por trás da rejeição da ideia da ‘sobrevivência da alma após a morte’. É também muito duvidoso que o conceito popular sobre a alma humana “tem sido o mesmo entre os cristãos... até que um belo dia surgiram os adventistas”. Uma simples observação do que disseram eruditos ― associados com uma série de instituições e de várias nacionalidades ― ao longo dos últimos séculos, aponta em outra direção: foi precisamente o exame que eles fizeram da evidência bíblica que os levou a dizer o que disseram, rompendo com sua própria tradição religiosa de longa data e questionando conceitos que eram altamente prezados por seus correligionários e colegas acadêmicos.

A lista que segue está ordenada de acordo com o ano de nascimento de cada escritor. Embora tenha sido incluída alguma informação sobre a religião ou as credenciais acadêmicas destes pesquisadores, não é a essas coisas que este artigo dá ênfase. O importante é o que eles afirmaram sobre a natureza humana, bem como os motivos que os levaram a essa posição. Qualquer pesquisa independente que nossos leitores porventura façam (e recomendamos isso fortemente) mostrará que muitos outros pesquisadores capacitados poderiam ter sido incluídos. A lista foi restrita, porém, a escritores que atendem às seguintes condições:

1 - Abordaram a questão pautando-se exclusivamente pela evidência bíblica (os autores que pontificaram sobre o assunto em outras bases, tais como a filosófica, não foram incluídos).

2 - Estiveram associados com religiões e/ou círculos acadêmicos que jamais poderiam ser classificados a esmo como “aniquilacionistas” pelos defensores do conceito da “sobrevivência da alma após a morte”.

 

NOTA IMPORTANTE: O fato de este artigo só apresentar pronunciamentos de eruditos cristãos dos últimos 5 séculos, não quer dizer que não tenha havido pessoas que defendiam o conceito condicionalista antes do século 15. A imprensa só veio a ser inventada pelo alemão Johannes Gutemberg em 1455, e um número considerável de expositores cristãos chegou a publicar livros ou opúsculos sobre a questão da imortalidade humana. Algumas destas obras tiveram ampla distribuição na Europa, e estão preservadas atualmente em formato digitalizado. (Todo o material que foi consultado para este levantamento integra o arquivo do Mentes Bereanas.) Como é óbvio, é bem mais fácil encontrar pronunciamentos de eruditos posteriores ao século 15, não só pela ampla distribuição que os escritos deles tiveram, como também pelo fato de o domínio quase absoluto da Igreja Católica Romana nos círculos religiosos europeus só ter sido seriamente abalado após a invenção da imprensa.

Aos leitores do Mentes Bereanas que tiverem interesse num exame abrangente dos conceitos defendidos pelos apologistas que viveram nos 3 séculos iniciais da Era Cristã (isto é, antes do surgimento da Igreja Católica, como instituição), recomendamos a obra A Doutrina da Imortalidade na Igreja Primitiva, disponível na seção de Publicações do site. O autor do livro concedeu permissão para distribuição gratuita da versão em português.

 

OS PRONUNCIAMENTOS

Martinho Lutero (1483-1546), reformador alemão e tradutor da Bíblia:

“Mas nós, cristãos, que fomos redimidos de tudo isso pelo sangue precioso do Filho de Deus, devemos treinar-nos e acostumar-nos, com fé, a desprezar a morte e a considerá-la como um profundo, intenso e doce sono; a considerar o esquife como nada mais que o seio de nosso Senhor Jesus, ou paraíso, a sepultura como nada mais que um confortável leito de sossego ou descanso. Como realmente ele é, aos olhos de Deus, pois ele testifica, João 11:11: “Lázaro o nosso amigo dorme”; Mateus 9:24: “a menina não está morta, mas dorme.” Do mesmo modo, também S. Paulo em 1 Cor 15, remove da vista todos os aspectos odiosos da morte no que se refere ao nosso corpo mortal, e não apresenta nada mais que aspectos encantadores e jubilosos da vida prometida. Lá ele diz: “É semeado em corrupção e será levantado em incorrupção; é semeado em desonra (isto é, numa forma repugnante e vil) e será levantado em glória; é semeado em fraqueza e será levantado em poder; é semeado em corpo natural e será levantado um corpo espiritual.”

(Christian Song Latin and German, for Use at Funerals [Música Cristã em Latim e Alemão, para Uso em Funerais], 1542, citado em Works of Martin Luther [Obras de Martinho Lutero], 1932, Vol. 6, págs. 287 e 288.)

“Assim, depois da morte a alma vai para o seu quarto e para sua paz, e enquanto está dormindo ela não percebe seu sono, e Deus preserva realmente a alma a ser despertada. Deus é capaz de despertar Elias, Moisés e outros, e assim controlá-los, de modo que eles viverão. Mas, como pode ser isso? Não sabemos; nós nos satisfazemos com o exemplo do sono físico, e com o que Deus diz: é um sono, um descanso e uma paz. Aquele que dorme, naturalmente não sabe nada do que acontece na casa de seu vizinho; e, porém, ele ainda está vivo, muito embora, ao contrário da natureza da vida, ele esteja inconsciente em seu sono. Exatamente o mesmo vai acontecer também nessa vida, porém de outro modo que é melhor.”

(Dr. Martin Luthers Sämtliche Schriften – Erster Teil - Auslegung des ersten Buches Mose, Erster Band [Obras Completas do Dr. Martinho Lutero – Parte 1 – Comentário a Gênesis, Volume 1], Johann Georg Walch, Concordia Publishing House, St. Louis, Missouri, EUA, colunas 1759, 1760. [O conjunto das “Obras Completas” foi publicado originalmente na Alemanha, entre 1740 e 1753.]).

“Devemos aprender a encarar nossa morte na perspectiva correta, de forma que não precisemos ficar alarmados por causa dela, como o descrente faz; pois em Cristo ela não é realmente morte, e sim um bom, doce e breve sono, que nos traz libertação deste vale de lágrimas, do pecado e do temor e da extremidade da verdadeira morte e de todos os infortúnios desta vida, e deveremos estar seguros e despreocupados, descansando doce e suavemente por um breve momento, como num sofá, até o momento em que ele nos chamará e nos despertará juntamente com todos seus queridos filhos para sua eterna glória e gozo. Pois já que nós a chamamos de sono, sabemos que não permaneceremos nela, mas seremos novamente acordados e vivificados, e que o período durante o qual dormimos não parecerá mais longo do que se tivéssemos apenas acabado de ir dormir. Assim, devemos censurar-nos por estarmos surpresos ou alarmados com esse sono na hora da morte, e de repente sairmos vivos da cova e da decomposição, e inteiramente bem, novos, com uma pura, limpa e glorificada vida, encontrarmos nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo nas nuvens...

Em todo lugar, as Escrituras fornecem essa consolação, que fala da morte dos santos, como se eles tivessem ido dormir e se ajuntaram aos seus pais, ou seja, venceram a morte por meio de sua fé e conforto em Cristo, e passaram a aguardar a ressurreição, junto com os santos que os precederam na morte.”

(A Compend of Luther's Theology, [Um Compêndio da Teologia de Lutero], editado por Hugh Thomson Kerr Jr., Filadélfia, EUA, The Westminster Press, 1943, pág. 242).

“Sobre suas “almas”, não tenho suficiente [conhecimento do problema] para responder. Estou inclinado a concordar com sua opinião de que as almas dos justos simplesmente dormem e que elas não sabem onde estão até o Dia do Juízo. Sou levado a esta opinião com base na palavra das Escrituras. “Eles dormem com seus pais”. Os mortos que foram levantados por Cristo e pelos apóstolos testificam este fato, já que eles estavam como se tivessem acabado de ser acordados do sono e não sabiam onde estiveram. A isto pode se acrescentar as experiências extáticas de muitos santos. Não tenho nada com o que eu poderia derrubar esta opinião. Mas não me atrevo a afirmar que isto seja verdade no caso de todas as almas em geral, por causa do êxtase de Paulo, e a ascensão de Elias e a de Moisés (que certamente não apareceram como fantasmas no monte Tabor).

Quem sabe como Deus lida com as almas que partiram? Não poderia [Deus] muito bem fazê-las dormir e acordar (ou [fazer com que durmam] pelo tempo que Ele quiser), assim como ele subjuga com o sono os que vivem na carne? E novamente, aquele trecho de Lucas 16 [:23 em diante], referente a Abraão e Lázaro, embora não force a premissa de uma universal [capacidade de sentir da parte dos falecidos], ainda assim atribui uma capacidade de sentir a Abraão e Lázaro, e é difícil fazer com que este trecho se refira ao Dia do Julgamento.

Eu penso o mesmo sobre as almas condenadas; algumas podem sentir as punições logo após a morte, mas outras podem ser poupadas das [punições] até aquele Dia [do Juízo]. Pois o folião [nessa parábola] confessa que está torturado; e o Salmo diz, “O mal alcançará o homem injusto quando ele perecer”. Talvez você também associe isso ao Dia do Juízo ou à agonia passageira da morte física. Então minha opinião seria que isto é incerto. É mais provável, porém, que com poucas exceções, todas [as almas que partiram] dormem sem ter qualquer capacidade de sentir. Considere agora quem eram os “espíritos em prisão” a quem Cristo pregou, conforme Pedro escreve: Não poderiam eles também dormir até o Dia [do Juízo]? E ainda quando Judas diz acerca dos sodomitas que eles sofrem a dor do fogo eterno ele está falando de um [fogo] atual.”

(Trecho da carta enviada a Nicholas von Amsdorf em 13 de janeiro de 1522, conforme citado em Luther's Works [Obras de Lutero], Vol. 48, págs. 360, 361)

Lutero postou suas 95 teses no sábado, 31 de outubro de 1517, em Wittenberg. Em sua Defesa de 41 de suas proposições, Lutero citou a declaração do papa sobre a imortalidade, alistando-a entre “essas opiniões monstruosas encontradas no monturo romano dos decretos”. A Proposição 27 dizia:

“Todavia, admito que o Papa estabeleça artigos de fé para si mesmo e para seus próprios fiéis – tais como:

a) Que o pão e o vinho são transubstanciados no sacramento;

b) que a essência de Deus não gera nem é gerado;

c) que a alma é a forma substancial do corpo humano;

d) que ele (o papa) é o imperador do mundo e rei do céu, e deus na terra;

e) que a alma é imortal;

e todas estas monstruosidades sem fim no monturo romano dos decretos – para que, assim como sua fé é, assim seja seu evangelho, bem como os fiéis e a igreja dele, e a boca tenha alimento apropriado e a tampa seja digna da panela.”

(Assertio Omnium Articulorum M. Lutheri per Bullam Leonis X. Novissimam Damnatorum (Declaração de todos os artigos de M. Lutero condenados pela mais recente Bula de Leão X), artigo 27, Weimar edition of Luther's Works [Edição de Weimar das Obras de Lutero], Vol. 7, págs. 131, 132.  (uma exposição ponto por ponto da posição dele, escrita em 1º de dezembro de 1520, em resposta a pedidos de uma abordagem mais completa do que a feita em seu Adversus execrabilum Antichristi Bullam, and Wider die Bulle des Endchrists).

Francis Blackburne (clérigo anglicano inglês), que estudou profundamente a posição de Lutero e pesquisou as fontes de evidências pertinentes a ela, resumiu a posição de Lutero conforme segue:

O cardeal Du Perron [1556-1618], supõe que Lutero negou a imortalidade da alma, por conta do efeito que a doutrina contrária teria sobre a prática da invocação dos santos. Mas é certo que o próprio Lutero ainda não tinha deixado de lado a prática da invocação na época em que escreveu essa defesa de seus artigos.

Depois disso Lutero realmente adotou a doutrina do sono da alma, numa base bíblica, e daí fez uso dela como uma refutação do purgatório e da adoração de santos, e continuou nessa crença até o último momento da vida dele.

Eu sei que isto tem sido controvertido até mesmo por alguns dos próprios seguidores dele. Por muitas razões a questão é merecedora de debate; e como a discussão disso quebraria a sequência de nossa presente dissertação, vou reservar o que eu tenho a dizer sobre o assunto para um Apêndice; observando que Lutero, em seu comentário sobre o Eclesiastes, que foi publicado no ano de 1532, estava clara e indubitavelmente do lado daqueles que defendem o sono da alma.”2

(A Short Historical View of the Controversy concerning an Intermediate State and the Separate Existence of the Soul, Between Death and the General Resurrection, deduced from the Beginning of the Protestant Reformation, to the Present Time [Um Breve Exame Histórico da Controvérsia referente a um Estado Intermediário e a Existência Separada da Alma entre a Morte e a Ressurreição Geral, inferido do Início da Reforma Protestante até o Momento Atual], Londres, 1765, págs. 14, 15).

O comentário citado dizia:

“Salomão conclui que os mortos estão dormindo, e nada sentem, em absoluto. Pois os mortos ali jazem, sem contar os dias nem os anos, mas quando forem despertados, terão a impressão de ter dormido apenas um minuto”.

(An Exposition of Solomon’s Book, Called Ecclesiastes or the Preacher [Uma Exposição do Livro de Salomão, Chamado Eclesiastes ou O Pregador], 1532, tradução para o inglês de 1573, fl. 151 v.).

Taito Almar Kantonen (erudito luterano americano) confirma o que disse Blackburne:

“Lutero, com a maior ênfase na ressurreição, preferiu concentrar-se na metáfora bíblica do sono. ‘Pois, do mesmo modo como aquele que adormece e chega à manhã inesperadamente quando acorda, sem saber o que lhe aconteceu, assim também nós levantaremos no último dia, sem saber como entramos e passamos pela morte.’ ‘Vamos dormir, até que Ele venha e bata no pequeno túmulo e diga, Doutor Martinho, levante-se! Então eu levantarei num momento e serei feliz com Ele para sempre.’”

(The Christian Hope [A Esperança Cristã], 1954, pág. 37, também citando o “Comentário a Eclesiastes” [de 1532]).

Teria Lutero mudado de ideia posteriormente? A esta pergunta Francis Blackburne responde com um incondicional “Não”:

“Será que Lutero em algum momento mudou de ideia, para retratar-se e adotar a doutrina contrária? Nem o nosso apologista diz isso, embora ele não estaria indisposto a que compreendêssemos dessa maneira. Ele só quer dizer que ele [Lutero] fez certas ressalvas em suas opiniões, cujo significado teremos ocasião para considerar aqui. Nesse meio tempo, é praticamente certo que ele manteve a ideia do sono da alma por dez longos anos sem essas ressalvas, ou seja, do ano de 1522, a data de sua carta a Amsdorf, até o ano de 1532, quando ele publicou o seu comentário sobre Eclesiastes. E a reflexão sobre a morte de João, eleitor da Saxônia, que morreu de apoplexia logo após seu retorno da perseguição naquele mesmo ano, mostrou que ele ainda não estava nada disposto a se retratar dela.”

Daí, segue-se a ponderada conclusão de Blackburne, depois de ter pesquisado meticulosamente toda a evidência. Ao discutir a opinião final de Lutero, expressa no próprio dia da morte dele, Francis Blackburne diz:

“Lutero considera aqui os que conhecerão seus amigos nessa vida eterna, como estando na mesma condição em que Adão estava quando Eva lhe foi apresentada pela primeira vez, ou seja, recém despertado de um sono profundo. A renovação por Cristo não pode significar qualquer coisa além da ressurreição dos mortos; e estas duas circunstâncias, consideradas em conjunto, não deixam qualquer margem para um estado intermediário consciente. Uma prova clara de que Lutero nunca se afastou dos sentimentos que havia expressado a Amsdorf em 1522, mas manteve até o momento de sua morte a mesma ideia uniforme de uma suspensão total do pensamento e da consciência durante o intervalo entre a morte e a ressurreição.”

(A Short Historical View of the Controversy concerning an Intermediate State and the Separate Existence of the Soul, Between Death and the General Resurrection, deduced from the Beginning of the Protestant Reformation, to the Present Time [Um Breve Exame Histórico da Controvérsia referente a um Estado Intermediário e a Existência Separada da Alma entre a Morte e a Ressurreição Geral, inferido do Início da Reforma Protestante até o Momento Atual], Londres, 1765, págs. 114, 124, 125).

William Tyndale (1484-1536), tradutor da Bíblia para o inglês:

“E quando ele [Thomas More] prova que os santos já estão em glória com Cristo no céu, dizendo: ‘Se Deus é o seu Deus, eles estão no céu, pois ele não é Deus de mortos’; aí ele rouba o argumento de Cristo, com o qual ele prova a ressurreição: que Abraão e todos os santos devem levantar novamente, e não que suas almas estavam no céu; cuja doutrina ainda não estava no mundo. E com essa doutrina ele remove completamente a ressurreição, e torna sem efeito o argumento de Cristo. Pois quando Cristo declara a Escritura, de que Deus é Deus de Abraão, e acrescenta que Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, e assim prova que Abraão deve levantar novamente; eu nego o argumento de Cristo, e digo junto com o Sr. More que Abraão ainda está vivo, não por causa da ressurreição, e sim porque a alma dele está no céu. E da mesma maneira, o argumento de Paulo aos Coríntios não tem qualquer valor: pois quando ele diz, ‘Se não há ressurreição, somos os mais miseráveis de todos os homens; aqui não temos prazer algum, mas tristeza, ansiedade e opressão; e, portanto, se não levantarmos novamente, todo o nosso sofrimento é em vão’: Não, Paulo, tu és ignorante; vá ao Mestre More, e aprenda de outro jeito. Não somos tão miseráveis, embora não ressuscitaremos; pois nossas almas vão para o céu assim que estivermos mortos, e estão lá em tão grande gozo como Cristo que ressuscitou.’ E eu fico admirado que Paulo não tenha consolado os tessalonicenses com essa doutrina, se ele soubesse dela, de que as almas dos seus mortos estavam em gozo, como ele fez com a ressurreição, que suas almas se levantariam novamente. Se as almas estão no céu, numa glória tão grande quanto os anjos, segundo sua doutrina, mostrai-me para que propósito serviria a ressurreição?”

(An Answer to Sir Thomas More’s Dialogue [Uma Resposta ao Diálogo de Sir Thomas More], Livro 2, Capítulo 8, pág. 118. Publicado originalmente em 1531 e reimpresso por The Parker Society em 1850, Editora da Universidade de Cambridge).

More: “Item, que todas as almas repousam e dormem até o dia do julgamento.”

Tyndale: E vós, ao colocá-las no céu, no inferno, e purgatório, destruís os argumentos por meio dos quais Cristo e Paulo provam a ressurreição. O que Deus faz com elas, isso saberemos quando formos até elas. A verdadeira fé apresenta a ressurreição, para a qual somos incentivados a olhar o tempo todo. Os filósofos pagãos, negando isso, disseram que as almas já vivem. E o papa juntou a doutrina espiritual de Cristo e a doutrina carnal de filósofos; coisas tão contrárias que não podem concordar, não mais do que o espírito e a carne se harmonizam num homem cristão. E visto que o papa de mente carnal consentiu com a doutrina pagã, desta forma ele corrompeu as Escrituras para estabelecê-la. Moisés disse em Deut. “As coisas encobertas pertencem ao Senhor, ao nosso Deus, mas as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre, para que sigamos todas as palavras desta lei.” Portanto, senhor, se amamos as leis de Deus, e vamos nos ocupar em cumpri-las , e vamos, por outro lado, ser mansos, e deixar Deus apenas com seus segredos, e aceitar que ele é mais sábio do que nós, não deveríamos fazer algum artigo da fé disso ou daquilo. Novamente, se as almas estão no céu, dizei-me, por que elas não estão tão bem como os anjos? E qual é, então, a finalidade da ressurreição?

(ibidem, Livro 4, Capítulo 2, págs. 180, 181).

Michael Sattler (1490-1527), anabatista alemão. Ele veio a ser um dos líderes originais deste movimento após deixar a Igreja Católica Romana, da qual havia sido monge beneditino. Em 1527, foi preso e executado como “herege” em Rottenburg (sul da Alemanha). Antes disso, na carta que enviou da prisão “À Igreja de Deus em Horb”, ele escreveu:

“Em suma, amados irmãos e irmãs, esta carta será um adeus a todos vós que verdadeiramente amam e seguem a Deus (outros que não conheço); e também um testemunho do meu amor que Deus deu no meu coração por vós, para o bem de vossa salvação. Eu realmente desejava, e creio que teria sido proveitoso, se eu tivesse trabalhado um pouco mais na obra do Senhor; mas é melhor para mim, ser libertado, e aguardar com Cristo a esperança dos abençoados.”

Um pouco adiante em sua carta, Sattler deixa claro qual era exatamente essa “esperança” que ele tinha em mente:

“...Finalmente, amados irmãos e irmãs, santificai-vos para Ele que vos tornou santos, e ouvi o que Esdras diz: “Olhai para o seu Pastor; ele vos dará descanso eterno; pois ele está próximo, que virá no fim do mundo. Estejam prontos para a recompensa do reino... Fugi da sombra deste mundo... Levantem-se e fiquem de pé, contemplem o número dos que são selados no banquete do Senhor; os que se apartaram da sombra do mundo, e receberam as gloriosas vestes do Senhor... e encerrem a lista daqueles que estão vestidos de branco, que cumpriram a lei do Senhor. O número de teus filhos, por quem ansiáveis está completo... Eu, Esdras vi sobre o Monte Sião uma grande multidão; que eu não podia contar, e todos eles louvavam ao Senhor com cânticos. E no meio deles havia um homem jovem de uma alta estatura, mais alto do que todo o resto, e sobre as cabeças de cada um ele pôs coroas, e era mais exaltado; o que me deixou muito maravilhado. Então eu perguntei ao anjo, e disse: Senhor, quem são estes? Ele respondeu, e disse-me: Estes são os que tiraram a roupa mortal, e puseram a imortal, e confessaram o nome de Deus: agora estão coroados, e recebem palmas. Então eu disse ao anjo: Quem é esse jovem que os coroou, e deu-lhes palmas em suas mãos? Então ele respondeu e me disse: É o Filho de Deus, a quem eles têm confessado no mundo. Então, eu comecei a elogiar grandemente a eles que se mantiveram tão firmes pelo nome do Senhor.” 2 Esdras. 2:34-36, 38-47; Rev. 19:12; Mat. 13:43”

(The Bloody Theater or Martyrs Mirror of the Defenseless Christians who baptized only upon confession of faith, and who suffered and died for the testimony of Jesus, their Saviour, from the time of Christ to the year A.D. 1660. [O Teatro Sangrento ou Espelho dos Mártires dos cristãos indefesos que se batizaram apenas pela confissão de fé, e que sofreram e morreram por causa do testemunho de Jesus, seu Salvador, desde o tempo de Cristo até o ano 1660 A.D.]. Republicado por David Miller, Lancaster, Pensilvânia, EUA, 1837. Este livro foi publicado originalmente na Holanda em 1660, por Thieleman J. van Braght, e registra histórias de mártires cristãos, principalmente anabatistas. A carta de Sattler encontra-se nas págs. 346-349.)

John Frith (1503-1533), clérigo protestante inglês, e mártir. Ele escreveu:

“Ainda que fosse o caso de todos os doutores afirmarem o purgatório, o que eles não fazem, estaria meu Senhor mais perto de seu objetivo? Nenhum jota, realmente; pois a autoridade dos doutores, pela própria confissão de meu Senhor, não vai tão longe, mas só deve ser admitida se eles confirmarem as palavras deles pelas Escrituras, ou mesmo por alguma razão provável. Pois meu Senhor escreveu desta maneira: (Artigo 37) “Assim, o Papa não admitiu toda a doutrina de São Tomás, que os homens devam acreditar que cada ponto que ele escreveu seja verdadeiro. Nem a igreja aprovou, seja S. Agostinho ou S. Jerônimo, nem a doutrina de qualquer outro autor, e sim que em alguns lugares podemos discordar deles, pois eles, em muitos lugares declararam abertamente que eram homens e que tinham errado muitas vezes.”

Estas são as próprias palavras de meu senhor. Ora, uma vez que os doutores às vezes erram, e em certos lugares não devem ser aceitos, (como ele concede a si mesmo), como devemos saber quando aprová-los, e quando rejeitá-los? Se devemos nos fiar na autoridade dos doutores, então aceitaríamos tanto a mentira como a verdade, já que eles afirmaram ambas. De modo que devemos ter um juiz para discernir entre a verdade e a falsidade. E quem seria esse? O Papa? Realmente não, pois sendo ele um homem (assim como os doutores eram), pode errar como eles erraram, e assim estaremos para sempre incertos. Desta forma, nosso juiz não deve ser parcial, flexível, nem ignorante (o que exclui todos os homens naturais); mas deve ser imutável, até mesmo quando investiga a parte inferior e fundamental de todas as coisas.

Quem deve ser? Realmente, as Escrituras e palavra de Deus, que foi transmitida por seu Filho, confirmada e selada pelo Espírito Santo, e testificada pelos milagres e pelo sangue de todos os mártires. Esta palavra é o juiz que deve examinar o assunto, a pedra de toque perfeita que testa todas as coisas, e o dia que desvenda todas as névoas da manipulação. Se os doutores disserem qualquer coisa que não seja dissonante desta palavra, então ela deve ser admitida e defendida como verdade. Mas se alguma coisa da doutrina deles discordar dela, isso deve ser abominado, e considerado como amaldiçoado.

... A primeira razão que meu Senhor deu, que não foi resolvida antes, (pois, como eu disse, as razões já anuladas serão desconsideradas) é esta, que ele baseou em diversos textos. “Sobre as almas que partiram, algumas já estão condenadas no inferno, e algumas já estão no céu.” E para provar esta verdade, ele declarou a parábola do homem rico. (Lucas xvi.). Tenho certeza de que meu Senhor não é tão ignorante ao ponto de dizer que uma parábola prova alguma coisa. Mas o uso correto de uma parábola é este, para expor um texto ou ponto difícil que foi tratado antes, e que nem todos os homens teriam capacidade de entender. Nem são todas as coisas iguais às que são faladas numa parábola, nem tampouco todas as coisas que são mencionadas numa parábola são verdadeiras; mas devemos considerar a coisa no contexto onde são mencionadas, e aplicá-las apenas àquilo de que elas estão falando, e deixar o resto de lado, como William Tyndale bem vos declarou na parábola do iníquo Mamon. Esta parábola é muito difícil de ser exposta. A razão é esta: homem algum pode detectar, pelo texto, para qual finalidade ele foi dita. Mas a causa parece ser que havia lá muitos dos fariseus e outra multidão que não acreditariam na pregação de Cristo, embora ele tenha confirmado sua palavra com a autoridade de Moisés e os profetas; mas eles estavam curiosos, e um tanto fantasiosos, e, portanto, eles não acreditariam em suas palavras, a não ser que algumas aparições se manifestassem a eles, assegurando-os de que estiveram mortas e que as palavras dele eram verdadeiras.

Foi a pessoas assim que ele contou esta parábola, concluindo francamente que eles não veriam aparição alguma, e também que isso não era necessário; mas que eles tinham Moisés e os profetas, e se não davam crédito nem a tais, eles não acreditariam se um dos mortos ressuscitasse e falasse com eles. Não obstante, que eu conceda a ele [o bispo de Rochester] que alguns já estão no inferno, e alguns no céu, (coisa que ele jamais será capaz de provar por meio das Escrituras, sim, e que claramente destrói a ressurreição, e rouba os argumentos por meio dos quais Cristo e Paulo provam que ressuscitaremos), ainda assim eu digo, que ele me conceda ver como concluirá. O que vem a seguir?

“Nem é crível”, (diz ele) “que todos os que são lançados no inferno devam ir logo para o céu, portanto, devemos colocar um purgatório, onde eles podem ser purificados.”

Eu respondo: Todos os que vivem são fiéis ou infiéis. Se a pessoa for infiel, então está condenada. (João iii.) Se ela crer, então não está condenada, mas passou da morte para a vida. (João iii. v.) O homem justo, quando morre, descansará em paz. (Sabedoria iii.) E todo homem fiel é justo perante Deus, conforme prova toda a Epístola aos Romanos. Logo, todo homem fiel deverá descansar em paz e não ser atormentado com dores do purgatório. E, por falar neste ponto, onde eles descansam, ouso dizer enfaticamente que eles estão na mão de Deus, e que Deus quer que ignoremos onde eles estão, e não tomemos a nós a tarefa de definir a questão.”

(The Works of The English Reformers – William Tyndale and John Frith, [As Obras dos Reformadores Ingleses – William Tyndale e John Frith], editado por Thomas Russell, A.M., Vol. 3, Terceiro Livro, Which Answereth Unto My Lord of Rochester, and Declareth The Mind Of The Old Doctors [Que Respondeu ao Meu Senhor de Rochester e Declarou o Pensamento dos Antigos Doutores], Londres, 1831, págs. 189-192.)

George Wishart (c.1513-1546), reformador escocês. Em 1546, Wishart foi levado perante o tribunal da Inquisição por se pronunciar contra diversos ensinos tais como a confissão auricular, transubstanciação, invocação de santos, celibato obrigatório, etc.

O Artigo 13 da acusação dos inquisidores dizia:

Tu, falso herege pregaste claramente, dizendo que não há purgatório; e que é uma coisa fingida que algum homem possa ser punido no purgatório depois dessa vida.”

A isso, Wishart respondeu:

“Meus senhores, como eu já disse frequentemente, sem testemunha e o testemunho das Escrituras não me atrevo a dizer nada. Eu li frequentemente ao longo da Bíblia, e ainda assim nunca encontrei tal termo, nem qualquer lugar das Escrituras que seja aplicável a ele. De modo que eu teria vergonha de ensinar o que não posso encontrar nas Escrituras.”

O Artigo 18 da acusação dizia:

Tu, falso herege pregaste dizendo abertamente que a alma do homem dorme até o último dia do julgamento e não obterá a vida imortal até esse dia.”

A isso, Wishart respondeu:

“Deus, cheio de misericórdia e bondade, perdoai os que dizem tais coisas de mim: Eu certamente sei, por meio da palavra de Deus, que a pessoa que começou a ter a fé de Jesus Cristo, e crê firmemente nele, eu sei com certeza que a alma desse homem jamais dormirá, mas viverá uma vida imortal. Que a vida de dia em dia é renovada em graça e aumentada; nem jamais perecerá ou terá fim, mas viverá imortal com Cristo. Para essa vida todos os que nele creem chegarão, e descansarão em glória eterna, Amém.”

(The Acts and Monuments of the Church [Os Atos e Monumentos da Igreja], John Foxe [mais conhecido como “O Livro dos Mártires”], edição de M. Hobart Seymour, Nova Iorque, Robert Carter & Brothers, 1855, págs. 625, 626. Note-se que, mesmo sob ameaça de morte, Wishart não negou que havia ensinado que não existe essa coisa chamada “purgatório” e que a alma está inconsciente entre o momento da morte e o dia da ressurreição. O que ele disse perante o tribunal é que a alma descansa em Deus e "viverá uma vida imortal" (no futuro). É essencialmente desta maneira que sempre entenderam os cristãos que se pautam pela Bíblia.)

Edward Wightman (1566-1612), ministro anabatista em Burton, Inglaterra. Ele envolveu-se também com os puritanos. Foi julgado pelo  Tribunal do Consistório da Catedral de Lichfield em 1611, condenado e queimado na estaca no ano seguinte, por ter publicado matérias questionando os “credos” da igreja oficial e outros ensinos “ortodoxos” tais como a Trindade e o batismo de crianças. Historicamente, foi a última pessoa na Inglaterra a ser executada como “herege”.

A “heresia” de Wightman começou com seu entendimento da mortalidade da alma, adotando o conceito do “sono da alma” de Martinho Lutero. Em uma de suas primeiras pregações públicas, ele disse que “a alma do homem morre com o corpo e não participa nem das alegrias do Céu, nem das penas do inferno, até o Dia do Juízo geral, mas descansa com o corpo até lá.” O Artigo 11 das acusações do Consistório dizia que as pregações ‘heréticas’ dele incluíam:

“Que a alma dorme no sono da primeira morte, assim como o corpo, e é mortal ao ser tocada pelo sono da primeira morte, assim como o corpo: e que a alma de nosso Salvador Jesus Cristo dormiu nesse sono da morte, assim como o corpo dele.”

(‘The 1607 Return of Staffordshire Catholics’ [O Retorno dos Católicos de Staffordshire em 1607], Marie Rowlands, Midland Catholic History Society, Nº 4, outono de 1963. Lives of Two and Twenty English Divines [Vidas de Vinte e Dois Clérigos Ingleses], Samuel Clarke, Londres, 1660, págs. 147, 148. Veja também Evangelical Biography [Biografia Evangélica], de Erasmus Middleton, Vol. III, 1816, págs. 28, 29. O relatório do julgamento de Wightman por “heresia” consta em A Complete Collection of State Trials [Coleção Completa dos Julgamentos do Estado], Vol. II, Londres, 1816, pág. 736.)

George Wither (1588-1667), puritano inglês. Em 1636 ele produziu uma tradução em inglês do tratado The Nature of Man [A Natureza do Homem], escrito originalmente em grego pelo bispo Nemésio, originalmente um platonista, e que depois se tornou bispo da cidade de Emesa (Fenícia), no quarto ou quinto século, sendo classificado como um dos “pais da Igreja”. Os comentários de Wither sobre o tratado indicam que suas próprias crenças estavam em harmonia com as de Nemésio e em conflito com a “ortodoxia” dos dias dele.

“Os hebreus afirmam que o HOMEM foi criado desde o princípio, nem completamente mortal, nem completamente imortal, mas, por assim dizer, em um estado entre ambas as naturezas, para que se ele seguisse os desejos do corpo, ele seria obrigado a tais alterações que pertencem ao corpo; mas se ele preferisse essas coisas boas que dizem respeito à alma, ele seria, então, honrado com a imortalidade.”

“Ademais, não se deve crer que Deus teria se arrependido tão depressa, e tornado imediatamente mortal o que tinha sido criado absolutamente imortal... Quando a alma vem ao corpo ela aperfeiçoa a criatura viva. Genesis 2. Assim, em uma criatura viva perfeita, nem pode a alma estar em algum momento sem o corpo, nem pode o corpo estar sem a alma, porque a alma não é o próprio corpo; mas é a alma do corpo: e desta forma está no corpo, sim, e nesse tipo de corpo: pois ela não tem existência por si só.”

(The Nature of Man [A Natureza do Homem], pág. 23 em diante.)

John Canne (1590-1667), pastor batista, publicou o trabalho de Richard Overton (Man's Mortality [A Mortalidade do Homem]) e defendia os mesmos conceitos dele, o que despertou muita hostilidade pública contra ele. Publicou também uma Bíblia com notas marginais, tida como a primeira desse gênero. Um de seus lemas era: ‘A Bíblia é o melhor intérprete da Bíblia.’

(The Conditionalist Faith of Our Fathers [A Fé Condicionalista de Nossos Pais], Vol. 2, págs. 169, 170.).

Joachim Stegmann (1595-1633), pastor luterano em Brandenburg (Alemanha) e posteriormente um teólogo sociniano. Foi também tradutor bíblico, matemático e reitor da Racovian Academy (Polônia):

Se os mortos vivem adequadamente – Em geral, temos visto até agora que os que seguem Lutero e Calvino como seus guias em Religião, não conseguem refutar solidamente os papistas. Ora, se nos voltarmos para detalhes, um grande campo se abriria diante de nós, no qual poderíamos discorrer. Mas para que não passemos dos limites da brevidade, abordaremos brevemente um ou dois pontos.

E mostraremos primeiramente que eles tanto proporcionam como retêm os fundamentos dos maiores erros que existem entre os papistas.

Mais uma vez, que eles ensinam essas coisas como são danosamente defendidas, não só contra os papistas, mas também contra o próprio coração da Religião Cristã; quero dizer a verdadeira piedade. Do mesmo tipo é essa opinião em que eles sustentam que os mortos vivem. Isso parecerá absurdo, e na verdade a coisa em si é muito absurda, e ainda assim eles creem nela. Pois eles supõem que as almas dos homens, naquele exato momento em que são separadas de seus corpos pela morte, são levadas quer para o céu, e lá sentem alegria celestial, e possuem todos os tipos de felicidade que Deus prometeu a seu povo; ou para o inferno, e são lá atormentadas e martirizadas com fogo inextinguível. E isto, como foi dito antes, eles atribuem a meras almas separadas dos corpos, antes mesmo da ressurreição dos próprios homens, isto é, enquanto eles ainda estão mortos. Mas essas coisas não podem acontecer a algo que não está vivo; pois o que não está vivo não sente, e, consequentemente, nem desfruta prazer, nem padece dor. Desta forma, eles creem, com efeito, que os mortos vivem: ou seja, da mesma maneira que afirmam que Pedro, Paulo e outros homens mortos vivem no céu. Ora esta é a base não só do Purgatório, mas também da horrível idolatria praticada entre os papistas, ao passo que invocam os santos que estão mortos. Elimine esta ideia e não haverá mais lugar para as outras. A qual finalidade serve o fogo do Purgatório, se almas separadas dos corpos não sentem nada? A qual finalidade servem orações à Virgem Maria, a Pedro, a Paulo e a outros homens mortos, se eles não podem nem ouvir orações, nem interceder por alguém? Pelo contrário, se isso for admitido, não se poderá derrubar facilmente a invocação dos santos. Ora, sendo a coisa de tal forma que mereça parecer absurda em si mesma para todos, vejamos se o contrário da mesma não pode ser estabelecido nas Escrituras. Nem precisamos ir longe em busca de um exemplo, já que temos um que emerge no argumento de Cristo, onde ele prova a futura Ressurreição dos Mortos a partir dele, que Deus é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, mas não é Deus de mortos, e sim de vivos: daí ele conclui que eles vivem para Deus, isto é, serão chamados de volta à vida por Deus, para que ele possa manifestar-se como seu Deus, ou Benfeitor. Este argumento seria completamente falacioso se antes da Ressurreição eles usufruíam a alegria celestial. Pois aí Deus seria seu Deus, ou Benfeitor, ou seja, para as almas deles, embora seus corpos jamais se levantassem novamente. Do mesmo modo, o raciocínio do Apóstolo seria falacioso, I Cor. 15. 30, 31, 32. onde ele comprovou a Ressurreição por meio deste argumento: Pois de outra forma os que creem em Cristo enfrentariam perigos toda hora em vão; sofreriam em vão tantas calamidades por Cristo; que ele ensinou com o seu próprio exemplo. Novamente, porque caso contrário, seria melhor cantar a canção dos epicuristas, ‘comamos e bebamos, pois amanhã morreremos’. Em suma, os cristãos seriam os mais miseráveis de todos os homens. Certamente isso seria falso, se os piedosos atualmente usufruíssem felicidade celestial em suas almas após a morte e os maus padecessem tormento. Pois aqueles não sofreriam calamidades em vão, nem estes iriam atrás dos prazeres da carne impunemente; e os piedosos seriam muito mais felizes do que os ímpios. Desta forma, é a coisa mais absurda do mundo afirmar que Cristo e o apóstolo Paulo não argumentaram corretamente; não está claro que a doutrina é falsa, que um absurdo tão grande seria atribuído a Cristo e ao apóstolo Paulo? Além disso, por que Pedro adiou a salvação das almas para o último dia? 1 Ped. 1. 5. ‘que pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé, para a salvação que está preparada para se revelar no último tempo: e Paulo adiou a Coroa da Justiça para o Dia do Juízo; 2 Tim 4. 8. ‘Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia’, etc. Para que propósito seria marcado o julgamento? Como poderia ter sido dito sobre os piedosos sob a antiga Aliança, que eles não receberam a promessa, ‘por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados’, Heb 11:40, se atualmente a alma de cada um deles após a morte, mesmo sem o corpo, usufrui a felicidade celestial?

Mas a própria natureza da coisa em si mesma refutou isso. Não é viver, morrer, sentir, ouvir, agir, algo próprio do homem inteiro, ou da combinação da alma e do corpo? Não é o corpo o instrumento da alma, sem o qual ela não pode executar suas funções? Como um artista que conhece seu ofício sabe, a menos que ele tenha instrumentos à mão, ele não poderá produzir coisa alguma. Se o olho se fechar, a alma não verá, pois a capacidade de ver lhe foi tirada. Assim que se restaure o instrumento, um homem logo verá. Portanto almas separadas dos corpos não estão nem mortas nem vivas, e consequentemente, não usufruem qualquer prazer, e não sentem qualquer dor; pois essas coisas são próprias da combinação inteira.

Mas as Escrituras dizem que os mortos não existem, que o Espírito retorna àquele que o deu; e sobre os Espíritos dos piedosos, que eles estão nas mãos de Deus, mas na ressurreição serão juntados com os corpos. E daí, tendo recebido os instrumentos, eles levarão adiante suas atividades.”

(Brevis disquisitio an et quo mado vulgo dicti Evangelici Pontificios, ac nominatim Val. Magni de Acatholicorum credendi regula judicium solide atque evidenter refutare queant., Eleutheropoli, 1633 / Brevis disquisitio: or, A brief inquiry touching a better way than is commonly made use of, to refute Papists, and reduce Protestants to certainty and unity in religion [Brevis disquisitio: ou, Uma breve pesquisa em busca de um modo melhor do que se faz costumeiramente para refutar os papistas, e levar os protestantes à certeza e à unidade em religião.], em The Phenix, Londres, 1708, Vol. II, Nº XXII, págs. 333-335).

John Milton (1608-1674), considerado como o maior dos poetas sacros e um dos mais influentes intelectuais ingleses, escreveu:

“Podemos compreender com base em outros trechos da Escritura, que quando Deus infundiu o espírito de vida no homem, o que o homem recebeu desse modo não era uma porção da essência de Deus, ou uma participação na natureza divina, mas essa medida da virtude ou influência divina, que era proporcional às capacidades do receptor. Pois parece, com base no Sal. civ. 29, 30. que ele infundiu o fôlego da vida em outros seres vivos também; — se lhes tiras o fôlego, morrem... envias o teu Espírito, e são criados; onde aprendemos que todos os seres vivos recebem animação de uma e da mesma fonte da vida e de fôlego; na medida em que, quando Deus leva de volta para si mesmo esse espírito ou fôlego de vida, eles deixam de existir. Ecles. III. 19. todos têm o mesmo fôlego. Nem tem a palavra espírito qualquer outro significado nos escritos sagrados, além de fôlego de vida que inspiramos, ou a faculdade vital, ou sensível, ou racional, ou alguma ação ou afeição pertencente a essas faculdades.

Tendo o homem sido criado desta maneira, diz-se, em consequência, que o homem tornou-se alma vivente; donde se pode inferir (a menos que, em vez disso, tomemos os autores pagãos como nossos mestres no que se refere à natureza da alma) que o homem é um ser vivo, intrínseca e adequadamente único e individual, e não composto ou separável, e não, segundo a opinião comum, constituído e moldado de duas naturezas distintas e diferentes, a partir da alma e do corpo,— e sim que o homem inteiro é alma, e a alma é homem, isto é, um corpo, ou substância individual, animada, sensitiva e racional; e que o fôlego de vida não era nem uma parte da essência divina, nem a própria alma, e sim como se fosse uma inspiração de alguma virtude divina adequada para o exercício da vida e da razão, e infundida no corpo orgânico; pois o próprio homem, o homem inteiro, quando foi finalmente criado, é chamado expressamente de uma alma vivente. Assim, a palavra usada em Gênesis para significar alma, é interpretada pelo apóstolo, 1 Cor. xv. 45 como animal. Mais uma vez, todos os atributos do corpo são atribuídos igualmente para a alma: o toque, Lev. v. 2 e seguintes. Se uma alma tocar alguma coisa impura, — o ato de comer, vii. 18. a alma que dela comer levará a sua iniqüidade; v. 20. a alma que comer da carne, e em outros lugares: — fome, Prov. xiii. 25. xxvii. 7. — sede, xxv. 25. como água fresca para a alma cansada. Isai. xxix. 8. — captura, 1 Sam. xxiv. 11. tu andas à caça da minha vida, para ma tirares. Sal. vii. 5. persiga o inimigo a minha alma e alcance-a.

Porém, onde falamos do corpo como um mero estoque sem sentidos, aí a alma deve ser entendida como significando tanto o espírito, ou suas faculdades secundárias, por exemplo a faculdade vital ou sensitiva. Assim, ela é muitas vezes distinguida tanto do espírito, como do próprio corpo. Luc. i. 46, 47. 1 Tes. v. 23. todo o vosso espírito, e alma, e corpo. Heb. iv. 12. a divisão da alma e do espírito. Mas que o espírito do homem deve ser separado do corpo, de modo a ter uma existência perfeita e inteligente, independentemente dele, não se diz em lugar algum nas Escrituras, e a doutrina está, evidentemente, em desacordo tanto com a natureza como com a razão, como será mais amplamente mostrado a seguir. Pois a palavra alma é também aplicada a todo tipo de ser vivente; Gen. i. 30. a todo animal da terra, etc. onde há vida (anima vivens, Tremell.) vii. 22. tudo o que tinha fôlego de espírito de vida em suas narinas, tudo o que havia em terra seca, morreu; contudo jamais se infere, com base nestas expressões, que a alma existe separada do corpo em alguma criação animal.

 

“A morte do corpo é a perda ou extinção da vida. A definição comum, que supõe que ela consiste na separação da alma do corpo, é inadmissível. Pois, que parte do homem é que morre quando esta separação acontece? É a alma? Isto não será admitido pelos defensores da definição acima. É o corpo, então? Mas, como é que se pode dizer que ele morre, se jamais teve qualquer vida em si mesmo? Portanto, a separação entre alma e corpo não pode ser chamada de morte do homem.

Então aqui surge uma questão importante, que, devido ao preconceito de teólogos em nome de suas opiniões preconcebidas, geralmente tem sido posta de lado sem exame, em vez de ser abordada com a atenção que merece. É o homem inteiro, ou é apenas o corpo que é privado de vitalidade? E, como este é um assunto que pode ser discutido sem pôr em perigo a nossa fé ou devoção, qualquer que seja o lado do conflito que defendamos, declararei livremente o que me parece ser a verdadeira doutrina, conforme coletada de inumeráveis trechos ​​das Escrituras; sem levar em conta a opinião das pessoas que pensam que a verdade deve ser procurada nas escolas de filosofia, em vez de nos escritos sagrados.

Visto, pois, que se afirma de maneira uniforme que o homem consiste de corpo, espírito e alma (quaisquer que sejam as áreas distintas atribuídas individualmente a essas divisões), mostrarei que na morte, o homem inteiro, e secundariamente cada componente sofre a privação da vida. Deve-se observar, em primeiro lugar, que Deus decretou a pena de morte contra o homem inteiro que pecou, ​​sem excetuar qualquer parte. Pois, o que poderia ser mais justo do que aquele que pecou em toda a sua pessoa, deva morrer em toda a sua pessoa? Ou, por outro lado, o que poderia ser mais absurdo do que a mente, que é a principal parte infratora, dever escapar da morte que foi ameaçada; e que o corpo apenas, ao qual a imortalidade foi igualmente atribuído antes de a morte vir ao mundo pelo pecado, deva pagar a penalidade do pecado por sofrer a morte, embora ele não estava envolvido na transgressão?

É evidente que os santos e fiéis da antiguidade, os patriarcas, profetas e apóstolos, sem exceção, mantinham esta doutrina...

Após apresentar numerosas referências bíblicas que estabelecem as crenças desses homens mencionados, Milton prossegue:

Até aqui, forneceu-se prova da morte do homem inteiro. Mas para que não se apele à distinção sofística de que, apesar de o homem inteiro morrer, isso não quer dizer que a totalidade do homem morra, continuarei a dar provas semelhantes no que se refere a cada uma das partes; o corpo, o espírito e a alma, de acordo com a divisão indicada acima.

Então, primeiramente, com relação ao corpo, ninguém duvida que ele sofra a privação da vida. Nem é a mesma coisa menos evidente no caso do espírito, admitindo-se que o espírito, segundo a doutrina proposta no capítulo sete [do livro], não tem participação na natureza divina, mas é puramente humano; e que razão alguma possa ser atribuída para que Deus, tendo condenado à morte o homem inteiro que pecou, ​​isente apenas o espírito, que é a principal parte transgressora, da punição decretada; principalmente levando-se em conta que, antes da entrada do pecado no mundo, todas as partes do homem era igualmente imortais; e que desde aquela época, em virtude da condenação de Deus, todas se tornaram igualmente sujeitas à morte. Mas, vamos às provas...

Daí ele considerou os trechos de Eclesiastes 3:18-21, Salmo 146:4 e 1 Coríntios 5:5, e prosseguiu dizendo o seguinte sobre a alma:

Finalmente, existe abundante testemunho para provar que a alma (se entendermos este termo como o conjunto completo do ser humano, ou se ele tiver de ser considerado como sinônimo de espírito) está sujeita à morte, tanto a natural, como a violenta...”

E ele apresentou esse “abundante testemunho” a que se referiu, citando e explicando mais uma longa série de referências bíblicas pertinentes.

(A Treatise on Christian Doctrine (Um Tratado Sobre a Doutrina Cristã), edição de Charles R. Sumner, Cambridge University Press, 1825, págs. 189-191, 279-286.)

Richard Overton (1609-1679), panfletista, publicou Man's Mortality [A Mortalidade do Homem], no qual se lê o seguinte na página de rosto:

“Um tratado no qual se prova, teológica e filosoficamente o seguinte. Que uma vez que o homem inteiro pecou, o homem inteiro morreu; ao contrário da distinção comum entre Alma e Corpo: E que a ida neste momento da alma para o céu ou para o inferno, é uma mera Ficção. E que é na Ressurreição que começa nossa imortalidade; e daí a verdadeira Condenação e Salvação, não antes disso.”

(Man's Mortality [A Mortalidade do Homem], 1643, frontispício.)

John Tillotson (1630-1694), arcebispo de Cantuária, afirmou:

“Pois temos de saber que as Escrituras nos supõem como homens, e participantes das noções comuns da natureza humana e, portanto, não nos ensinam filosofia, nem nos instruem solicitamente nas coisas que nascem conosco; mas supõem o conhecimento destas, e fazem uso destes princípios e noções comuns que estão em nós sobre Deus, a imortalidade das nossas almas e a vida por vir, para nos animar para o nosso dever, e acelerar nossos esforços pela felicidade. Pois eu não constato que a doutrina da imortalidade da alma seja expressamente declarada em algum lugar nas Escrituras, e sim presumida; da mesma maneira que as Escrituras não nos instruem solicitamente sobre as noções naturais que temos de Deus, mas supõem que elas sejam conhecidas por nós; e se ela as menciona, não é tanto para efeito de conhecimento como é para a prática; e, portanto, não precisamos ficar surpresos de que esta expressão, que estabelece para nós a natureza de Deus, mal seja usada uma vez nas Escrituras, e foi introduzida em alguma ocasião, e para algum outro fim, porque isso é uma coisa conhecida naturalmente.

... Assim com essa luz natural informando-nos que “Deus é um espírito”, não haveria a necessidade de as Escrituras nos inculcarem isso: é um excelente meio ou argumento para provar que a adoração a Deus deve ser principalmente espiritual; e, embora não era necessário que ele mencionasse isso por si próprio; ou seja, informar-nos sobre uma coisa que não poderíamos saber de outra maneira; ainda assim a sabedoria de Deus, pela menção expressa disso, parece ter tomado providência contra um erro, ao qual alguns espíritos mais fracos e mais grosseiros poderiam estar sujeitos. Vocês sabem que agrada a Deus, por meio de condescendência e acomodação de si mesmo à nossa capacidade, apresentar-se a nós nas Escrituras por imperfeições humanas; e fornece tais descrições de si mesmo, como se tivesse um corpo, e membros do corpo. Ora, para evitar qualquer erro ou engano que possa ser ocasionado por isso, parece muito adequado à sabedoria de Deus que alguma parte das Escrituras declare expressamente a natureza espiritual de Deus, para que ninguém por fraqueza ou obstinação possa entreter opiniões grosseiras acerca dele.”

(Sermons on Several Subjects And Occasions [Sermões Sobre Vários Assuntos e Ocasiões] Londres, 1743, Vol 8, Sermão 153, págs. 3707, 3708, Princeton Theological Seminary Library. É digno de nota que, embora Tillotson não fosse condicionalista e por mais que defendesse o conceito da “imortalidade da alma”, ele se viu obrigado a reconhecer honestamente que esta doutrina não é bíblica, e sim algo que se ‘presume’ que esteja lá. A argumentação que ele usou nada mais é que um esforço dele para atenuar este fato simples. Tais palavras acompanhantes não são de qualquer serventia para provar o ponto dele e podem até ser usadas contra o conceito da “imortalidade da alma”. Conforme admitido por ele próprio, enquanto as Escrituras ‘declaram expressamente a natureza espiritual de Deus’ [dispensando qualquer necessidade de os homens terem de ‘supor’ ou ‘presumir’ alguma coisa], elas ‘não declaram expressamente a doutrina da imortalidade da alma’.).

John Locke (1632-1704), filósofo inglês e pensador cristão, escreveu:

“É óbvio para qualquer um que lê o Novo Testamento, que a doutrina da redenção, e, consequentemente, do evangelho, está fundada sobre a suposição da queda de Adão. Portanto, para entender ao que somos restaurados por meio de Jesus Cristo, devemos considerar o que as Escrituras mostram que perdemos por meio de Adão.

... Para a pessoa que lê as Escrituras desta maneira imparcial, o que Adão caiu (é visível) foi do estado de perfeita obediência, que é chamado de justiça no Novo Testamento; embora a palavra, que no original significa retidão, seja traduzida como justiça: e devido a esta queda ele perdeu o paraíso, onde havia tranquilidade e a árvore da vida; ou seja, perdeu a bem-aventurança e a imortalidade. A penalidade ligada à violação da lei, com a sentença pronunciada por Deus para ela, mostra isso. A penalidade está expressa em Gên. ii. 17, “No dia em que dela comeres, certamente morrerás.” Como ela foi aplicada? Ele comeu: mas, no dia em que ele comeu, não morreu efetivamente; e sim foi expulso do paraíso da árvore da vida, e banido para sempre dele, para que não comesse dela e vivesse para sempre. Isto mostra que o estado do paraíso era um estado de imortalidade, de vida sem fim; que ele perdeu nesse mesmo dia em que comeu: sua vida dali em diante começou a encurtar, a ser consumida e a chegar ao fim; e dali até a morte efetiva ela nada mais foi que o período de um prisioneiro condenado, entre a condenação imposta e a execução, que era líquida e certa. Daí a morte entrou, e mostrou sua face, que antes estava oculta e não era conhecida. Conforme S. Paulo em Rom. v. 12 “Por um só homem entrou o pecado no mundo, e a morte pelo pecado”, isto é, um estado de morte e de mortalidade, e em 1 Cor. xv. 22, “em Adão todos morrem”; isto é, em razão da transgressão dele, todos os homens são mortais, e vêm a morrer.

Isto é tão claro nestes locais citados, e tão recorrente no Novo Testamento, que ninguém pode negar que a doutrina do evangelho nada mais é que a morte veio a todos os homens pelo pecado de Adão; as pessoas só divergem quanto ao significado da palavra morte: para alguns ela seria uma condição de culpa, em que não só ele, mas toda a sua posteridade estava tão envolvida que todos os descendentes dele mereciam o tormento sem fim, no fogo do inferno. Não direi nada mais aqui, além do que mencionei acima, sobre até que ponto, nas apreensões de homens, isso está de acordo com a justiça e a bondade de Deus: mas parece uma maneira estranha de compreender uma lei, que exige as palavras mais claras e diretas, que por morte deveríamos entender vida eterna em miséria. Poderia alguém entender que, por uma lei que diz “pelo crime tu certamente morrerás” – não que essa pessoa perderá sua vida, e sim que será mantida viva em tormentos intensos e perpétuos?

... Para isso, eles teriam de estar também numa condição de pecado necessário, e provocando Deus em cada ação que os homens fazem: um sentido ainda mais rígido da palavra morte do que o outro. Deus diz, que “no dia em que comeres do fruto proibido, morrerás”; isto é, tu e a tua posteridade estarão, para sempre depois disso, incapazes de fazer qualquer coisa, e estarão pecaminosos e provocando e merecendo minha ira e indignação. Poderia um homem digno colocar esses termos para a obediência de seus subordinados? Muito menos poderia o Deus justo impor, como um castigo pelo pecado que o desagradou, colocar o homem sob a necessidade de pecar continuamente, e assim multiplicar a provocação. A razão desta estranha interpretação, vamos encontrar, talvez, em alguns lugares mal compreendidos do Novo Testamento. Devo confessar que por morte aqui, eu não entendo nada além de deixar de existir, a perda de todas as ações de vida e sentido. Essa morte veio sobre Adão e toda a sua posteridade, por sua primeira desobediência no paraíso; sob cuja morte eles deveriam permanecer para sempre, se não fosse pela redenção por meio de Jesus Cristo. Se por morte, da qual Adão foi ameaçado, tivéssemos de entender a corrupção da natureza humana em sua posteridade, seria estranho não termos qualquer sinal disso no Novo Testamento, e ele nos dizer que a corrupção atingiu a todos por causa da transgressão de Adão, assim como ele nos diz isso sobre a morte. Mas, conforme eu lembro, o pecado de cada um é cobrado de si mesmo, apenas.”

(The Reasonableness of Christianity, as Delivered in the Scriptures [A Razoabilidade do Cristianismo, Conforme Manifesta nas Escrituras], 1695, págs. 4-7.)

Samuel Richardson (1633-1658), pastor da Primeira Igreja Batista Particular de Londres,  escreveu:

““Basil disse: se Deus tivesse dado a Adão uma natureza imortal e imutável, Ele teria criado um deus, não um homem. Agostinho, em seu Livro de Confissões, disse: pois o Senhor criou o homem do nada, por isso Ele deixou no homem uma possibilidade de retornar ao nada, se ele não obedecesse à vontade de seu Criador ... A morte está de acordo com a natureza; mas alcançar a imortalidade está acima da natureza... A Escritura declara que haverá uma ressurreição dos mortos, os justos e os injustos, Atos xxiv. 15. Os injustos entrariam na vida, mas não entrarão, João v. 29 ... A alma que pecar morrerá, Ez. xviii. 20; isto é tudo o que o pecado pode produzir.””

(‘On the Torments of Hell’ [Sobre os Tormentos do Inferno], Publicado originalmente em 1658. Republicado em The Doctrine of Eternal Hell Torments Overthrown [A Doutrina dos Tormentos Eternos no Inferno Derrubada], Trumpet Office, 1833, págs.66, 68, 75.)

Henry Dodwell (1641-1711) foi erudito e professor na Universidade de Oxford e veio a ser conhecido como ‘o sábio Dodwell’. Ele deliberou

“... provar com base nas Escrituras e nos Pais Primitivos, que a alma é, em princípio, naturalmente mortal, e sim realmente imortalizada pela Vontade de Deus.”

(Letter Concerning the Immortality of Human Souls [Carta Sobre a Imortalidade das Almas Humanas], 1708; An Epistle Discourse [Um Discurso Epístola], 1706.).

Isaac Newton (1642-1727), físico, matemático (descrito em seus dias como um “filósofo natural”) e teólogo inglês. Ele é amplamente reconhecido como um dos cientistas mais influentes de todos os tempos:

“Os cristãos dos primeiros tempos ensinavam que no dia do julgamento, Cristo sentenciaria alguns imediatamente para o céu, outros para tormentos perpétuos e outros para serem batizados com fogo e lançados na prisão até que pagassem o último centavo. Qual era a condição das almas entre a morte e o dia do julgamento as igrejas gregas daqueles tempos (até onde posso encontrar) não estabeleceram, até que Atanásio na vida de Antão, por relatar como Antão viu a alma de Amon subir ao céu, introduziu uma opinião de que as almas dos benditos iam para o céu imediatamente após a morte e, por consequência, que as dos ímpios iam imediatamente para o inferno e as de grau médio para o purgatório. E por ser absurdo que os homens devam ser recompensados antes de serem julgados, portanto, os atanasianos inventaram, sem qualquer fundamento nas Escrituras que há um julgamento duplo, o primeiro particular de cada um por ocasião de sua morte e o segundo geral. E para provar esta opinião alegam a promessa de Cristo ao ladrão que se corretamente pontuada pode ficar assim: ‘Em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso’, as palavras ‘eu te digo hoje’ sendo colocadas a título de resposta ao pedido do ladrão, ‘lembra-te de mim quando entrares no teu reino’. Eles também alegam a parábola do rico e Lázaro, aplicando-a ao tempo atual, ao passo que se tivessem o mesmo conceito de último dia que os primeiros cristãos tinham, entenderiam que ela poderia muito bem pertencer àquela época: e ademais ela é apenas uma Parábola. Eles também enfatizam S. Paulo dizendo ‘eu desejo ser dissolvido e estar com Cristo’: não considerando que o intervalo entre a morte e a ressurreição é para eles um sono que não se percebe, um momento. Eles também argumentam com base na visão de Moisés e Elias com Cristo, embora a visão não fosse das almas deles (pois Elias jamais morreu), e sim de seus corpos vivos. Por outro lado, se os santos vão para o céu antes da ressurreição, então cada homem é recompensado de acordo com suas obras antes de Cristo vir para recompensa-los e os mortos são julgados antes de chegar a hora em que eles seriam julgados Apoc. 11 e ‘muitos virão do leste e oeste e sentar-se com Abraão e Isaque e Jacó no céu’ antes do último dia, Mat. 8 e ‘os que dormem no pó brilharão como as estrelas no firmamento’ antes de despertarem e Daniel ‘recebeu sua sorte’ logo que morreu. Dan. 12 Se os homens não estivessem altamente preconcebidos, eles considerariam tais textos das Escrituras assim como estes: ‘Na morte não há lembrança de ti no sepulcro quem te louvará?’ Sal. 6.5, ‘Será tua amabilidade declarada no túmulo, tuas maravilhas na escuridão e a tua justiça na terra do esquecimento?’ Sal. 88:11, 12. ‘Os mortos não louvam o Senhor nem os que descem ao silêncio.’ Sal. 115.17. Os mortos não sabem coisa alguma... Não há trabalho, nem conhecimento, nem sabedoria na sepultura.’ Ecles: 9.5, 10. ‘A sepultura não pode louvar-te, a morte não pode celebrar-te.’ Isa. 38.18. ‘Deus nos gerou de novo para uma esperança viva, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança... no céu.’ 1 Ped. 1,3, 4, o que é o mesmo que dizer que sem a ressurreição não há qualquer esperança, ou qualquer herança no céu. E para o mesmo propósito S. Paulo fala: ‘Não queremos, irmãos, que sejais ignorantes com respeito aos que dormem, para não vos entristecerdes como os demais, que não têm esperança. Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante Jesus, trará, em sua companhia, os que dormem – Porquanto o Senhor descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor.’ 1 Tes. 4. Aqui se vê que o apóstolo coloca todas as nossas esperanças e consolo na ressurreição e a partir desse momento inicia-se nossa estada com Cristo no céu. E para o mesmo fim é que o próprio Cristo diz: ‘Pois vou preparar-vos um lugar. E, quando eu for e vos preparar um lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também.’ João 14,3. Assim, pois, São Paulo ainda não está com Cristo. Ele diz claramente que, ‘se os mortos não ressuscitam nossa fé é vã, os mortos em Cristo pereceram, somos de todos os mais miseráveis ​​e o que farão os que se batizam por causa dos mortos?’ 1 Cor. 15. E Cristo diz também tão claramente que ‘Deus não é Deus dos mortos’ e dali infere a ressurreição, pois Deus disse a Moisés: ‘Eu sou o Deus de Abraão.’

Ora, de acordo com o conteúdo destes textos das Escrituras, os primeiros cristãos situavam todos os mortos no Hades, isto é, não no inferno como traduzimos de modo corrupto a palavra, mas na terra da escuridão e do silêncio como o Antigo Testamento por vezes expressou isso. De onde veio a opinião de que Cristo, descendo ao Hades, trouxe com ele dali as almas dos Patriarcas. Mas os egípcios, os platonistas e outros pagãos colocaram as almas do melhor tipo de homens mortos nos sepulcros e estátuas e templos e no ar e no céu e assim encheram todos os lugares de fantasmas ou demônios. E Atanásio, ao fazer a alma de Amon subir ao céu, lançou as bases para introduzir nas igrejas gregas esta doutrina pagã de demônios, juntamente com a doutrina papista do purgatório. E isso eu considero ser a verdadeira origem da adoração de santos na igreja grega, pois Atanásio, no final da sua Epístola a Marcelino sobre a interpretação dos Salmos, escrita numa época de tentação ou provação (como ele chama) e, por consequência, antes da morte de Juliano, o apóstata, estabelece essa doutrina. ‘Que ninguém’, diz ele, ‘adorne os Salmos com palavras seculares de eloqüência, nem empreenda mudar as palavras, ou substitua completamente uma coisa por outra: mas que os recite e cante como eles estão escritos, que os santos que compuseran essas palavras, sabendo que elas eram suas próprias, possam louvar conosco. E pouco depois. Quando os demônios veem as palavras mudadas eles escarnecem delas, mas têm medo das palavras dos santos e não podem suportá-las. Nestas palavras Atanásio ensina três coisas, que os santos entendem o que dizemos, que eles intercedem por nós junto a Deus, e que, em certas formas de palavras há virtudes sobrenaturais: e estes princípios inferem prontamente a adoração de santos e encantamentos.”

(Paradoxical Questions concerning the morals & actions of Athanasius & his followers. [Perguntas paradoxais sobre a moralidade e as ações de Atanásio e seus seguidores]. Obra religiosa não publicada de Isaac Newton, que censura o campeão trinitarista, Atanásio. O texto (escrito por volta de 1690) encontra-se no Newton Project [Projeto Newton]:

http://www.newtonproject.sussex.ac.uk/view/texts/normalized/THEM00117)

Como podemos ver, Newton extrai seu argumento sobre como interpretar a promessa de Jesus ao ladrão na cruz com base na pontuação “apropriada”. Se, conforme consta no manuscrito de Newton, Jesus disse: “Em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso”, então Jesus quis dizer que está fazendo sua promessa ao ladrão hoje, visto que eles estão sendo crucificados, com vistas à imortalidade em algum momento não especificado no futuro. A localização da vírgula depois de “hoje” era, portanto, decisiva para a interpretação de Newton.3

(O trecho que define a posição condicionalista de Newton é o referente à questão: Whether Athanasius did not set on foot the invocation of saints. [Se Atanásio não deu início à invocação dos santos].).

William Coward (1657-1725), médico prático em Londres. Ele afirmou:

“Outros pensamentos sobre a alma humana demonstram que o conceito da alma humana, conforme se acredita ser uma substância Espiritual e Imortal unida a um Corpo Humano, é uma simples Invenção Pagã, e não Condizente com os princípios da Filosofia, Razão ou Religião.”

(A Survey of the Search After Souls [Um Levantamento da Busca Pelas Almas], escrito por volta de 1702.)

Henry Layton (1670-1706), anglicano e escritor:

“... durante a vida, vivemos e nos movemos em Cristo, e quando morremos descansamos e dormimos nele, na expectativa de sermos levantados em sua segunda vinda.”

(Arguments and Replies, in dispute concerning the nature of the soul [Argumentos e Réplicas, na disputa referente à natureza da alma], 1703; A Search After Souls [Uma Busca Pelas Almas], 1706.)

Johann L. von Mosheim (1694-1755), reitor da Universidade de Göttingen,  escreveu:

“que a alma, entre a morte e a ressurreição no último dia, não tem nem prazer nem dor, mas está numa condição de insensibilidade.” Ecle. 9:5: “Pois os vivos sabem que morrerão, mas os mortos nada sabem; para eles não haverá mais recompensa, e já não se tem lembrança deles.”

(Institutes of Ecclesiastical History [Institutos de História Eclesiástica], Livro IV, cent. XVI, Sec. III, Pt. 2, Cap. III, parágrafo 23.)

Edmund Law (1703-1787), mestre do St. Peter's College, arquidiácono de Staffordshire e bispo de Carlisle, que desafiou a doutrina de um estado intermediário consciente; defendeu a ideia de a morte ser um sono, uma ausência total da vida, pensamento ou ação – uma condição de descanso, silêncio e esquecimento. Ele escreveu:

“Deixe-me acrescentar os sentimentos de uma pessoa muito digna e piedosa, eminentemente bem versada na linguagem das Escrituras; refiro-me ao reverendo Dr. Taylor, que teve o prazer de escrever o seguinte:

‘Folheei seus papéis sobre um assunto importante, que deseja ser esclarecido e que não pode ser alocado dentro dos estreitos limites de uma nota; mas merece muito ser discutido num tratado distinto. — Ele abrange dois pontos, um sobre a natureza da alma humana, ou Espírito; tanto quanto a revelação nos dá alguma luz; o outro, referente ao estado a que a morte nos reduz. Com base na coleção de textos bíblicos sob o primeiro destes pontos, parece-me evidente que nenhum homem pode provar pelas Escrituras que a alma humana é um princípio, que vive, age, ou pensa independentemente do corpo. — Quanto ao outro assunto, a pergunta é: Será que as almas dos homens, ao morrerem, entram imediatamente numa condição de glória no Céu, ou numa condição de miséria no lugar de tormentos; e continuam conscientes, pensando, desfrutando, ou sofrendo, em uma ou outra condição, até a ressurreição? Ou será que elas permanecem mortas, sem pensamento, vida, ou consciência, até a ressurreição? A revelação sozinha pode dar uma resposta a estas perguntas: Pois qualquer que seja a natureza metafísica, essência ou substância da alma; que é totalmente desconhecida para nós: é demonstrativamente certo, que sua existência, tanto na forma como na duração dela; deve ser totalmente dependente da vontade e disposição de Deus. Deus deve estabelecer sua conexão e dependência de qualquer outra substância; tanto em suas operações, capacidades, como na duração. Portanto, todos os argumentos em favor da imortalidade natural da alma, derivados da natureza de sua substância ou essência, como se ela existisse e agisse separada do corpo, por ser substância dele, etc., são manifestamente inúteis. Se realmente vamos encontrar algo nas faculdades e operações da mente, das quais estamos cônscios, que mostram ser a vontade de Deus que devamos existir num estado futuro; esses argumentos permanecerão bons. Mas nunca podemos provar que a alma do homem é de uma natureza assim, que possa e deva existir, viver, pensar, agir, usufruir, etc. de maneira separada e independente do corpo. Toda a nossa experiência atual mostra o contrário. As operações da mente dependem, constante e invariavelmente, do estado do corpo; especialmente do cérebro. Se algumas pessoas que estão morrendo têm um uso consciente de suas faculdades racionais até o final; é porque a morte acometeu alguma outra parte; e o cérebro ainda permanece sólido e vigoroso. Mas qual é o sentido da revelação? Você forneceu uma valiosa coleção de textos que mostram isso bem claramente. —  A matéria produz muitas observações práticas; e os mais ardentes e fortes incentivos à piedade.’ —

Mas pode parecer questão de honra que devamos extrair todos estes em forma; juntamente com as consequências dessa doutrina; em relação ao papista ou deísta; até que a própria doutrina, que tem sido por tanto tempo desacreditada por um, e tão frequentemente desonrada pelo outro, se mostre livre dos vários preconceitos associados a ela; e seja finalmente compreendido que ela tem uma base justa nas Escrituras; pelas quais nós, protestantes professamos estar decididos; e quando tivermos devidamente examinado a tais; seja possível discernir, que para um cristão a imortalidade natural da mente humana, nem está necessariamente associada, nem dá qualquer evidência apropriada da condição futura, de recompensas e punições.

Concluirei com um testemunho, que o verdadeiramente sincero e consciencioso escritor mencionado acima dirige ao seu adversário, neste ponto. Comentários anexados ao Scr. Doctr. of Or. S. pág. 5. ‘Creio que ele está perfeitamente certo em afirmar, que a morte da qual Adão foi ameaçado era uma perda e extinção total da vida; e que a nossa vida presente, e a ressurreição dentre os mortos, deve-se à graça de Deus, em um Redentor: para isso ele tem boa evidência nas Escrituras; e merece honestamente o reconhecimento público do mundo cristão, por afirmar isso. Pois a remoção do erro, independentemente do que nossos preconceitos possam sugerir, longe de ser dolorosa, presta um grande serviço à religião.'”

(Considerations on the Theory of Religion [Considerações sobre a Teoria da Religião], 1765. A análise completa encontra-se no Apêndice do livro - págs. 365-424 - intitulado Concerning the Use of the Words Soul or Spirit in Holy Scripture and the State of the Dead There Described [Sobre o Uso das Palavras Alma ou Espírito nas Escrituras Sagradas e a Condição dos Mortos Descrita Lá]. A citação acima é o trecho concludente deste Apêndice.)

Francis Blackburne (1705-1787), clérigo anglicano e arquidiácono de Cleveland (nordeste da Inglaterra). Ele escreveu:

“A questão é, se as Escrituras fornecem quaisquer razões justas e sólidas para a doutrina da imortalidade da alma do homem e, em particular, qualquer evidência da existência dela, quando separada do corpo, num estado de percepção consciente; e se, em consequência desse conceito, existe certo estado intermediário de felicidade e miséria para homens bons e maus, respectivamente, entre a morte e a ressurreição geral.

Os que mantêm a ideia contrária a estes pontos alegam que, segundo as Escrituras, a vida e a imortalidade foram trazidas à luz pelo Evangelho de Cristo, excluindo-se todos os outros mestres, e qualquer outra revelação, pelo menos desde o nascimento de Moisés em diante; excluindo-se da mesma maneira todas as informações obtidas à luz da natureza, ou resultantes de dissertação filosófica sobre a substância ou as qualidades da alma humana. Eles insistem que Cristo é o caminho, a verdade, e a vida, de modo que ninguém vem ao Pai [no que se refere a ser como ele, e vê-lo como ele é num estado futuro], a não ser pelo poder mediador de Cristo. Que o modo de chegar a Deus, no sentido e pelos meios mencionados acima, é a ressurreição dos mortos, da qual a garantia é dada a todos os homens, pela ressurreição de JESUS. Eles defendem, além disso, que a sentença pronunciada sobre nossos primeiros pais, significou uma privação total da vida, sem qualquer reserva ou preservação para a vida da alma; e, por conseguinte, que a vida eterna, ou uma restauração e redenção das consequências desta sentença foi efetivada, revelada, consignada e assegurada para o homem, em e por meio de Cristo, e será cumprida de nenhuma outra maneira além da especificada por Cristo e seus apóstolos, o que não deixou qualquer margem para a conclusão de que há uma vida à parte ou intermediária para a alma, quando ela está separada do corpo.”

“... enquanto nossos reformadores estavam podando diligentemente os ramos da superstição e da impostura, eles inadvertidamente deixaram o cepo, com uma raiz vigorosa no solo, o que seus sucessores, com uma surpreendente falta de atenção às consequências perniciosas de seu equívoco, vieram a cultivar para um viçoso crescimento, com grande risco não só para a religião protestante, mas até mesmo para o próprio Cristianismo, que está agora bem próximo de ser sufocado e obscurecido sob a espessa sombra desta árvore venenosa bizarra.”

“É notável que os protestantes, que na maioria das vezes se recusaram a ser governados pela tradição, parecem ter se submetido a ela neste assunto com a mais absoluta deferência.”

“A doutrina do Novo Testamento é que os homens deverão se tornar imortais por meio de uma ressurreição dos mortos, uma restauração do homem inteiro à vida; e o N.T. está longe de reconhecer qualquer consciência intermediária no homem entre a morte e a ressurreição, pois ele sempre fala desse intervalo como um sono, o que implica uma suspensão da faculdade do pensamento, um descanso daqueles trabalhos que requerem pensamento, memória, consciência, etc., durante o qual tais faculdades são inúteis.

Mas isto não é tudo. O sistema bíblico da imortalidade supõe que o homem perdeu seu direito original à imortalidade, e nunca o teria recuperado, a não ser pela intervenção de um redentor. A consequência desta doutrina é que, entre o momento da perda, e o aparecimento real do Redentor, os mortos não poderiam ter a vida em sentido algum: e que nem antes nem depois do aparecimento do Redentor os homens mortos foram ou seriam restaurados à vida, a não ser pela maneira revelada pelo Redentor, ou seja, a ressurreição dos mortos.

Assim, supor que as almas de homens mortos estão vivas, conscientes e ativas, e capazes de felicidade e miséria, da morte do primeiro homem até a ressurreição do último, e pretender demonstrar isso por meio da razão e da filosofia é simplesmente anular todo o sistema cristão.”

(A Short Historical View of the Controversy concerning an Intermediate State and the Separate Existence of the Soul, Between Death and the General Resurrection, deduced from the Beginning of the Protestant Reformation, to the Present Time [Um Breve Exame Histórico da Controvérsia referente a um Estado Intermediário e a Existência Separada da Alma entre a Morte e a Ressurreição Geral, acompanhada do Início da Reforma Protestante até o Momento Atual], Londres, 1765, págs. xxvi-xxviii, xliii, xlv, 68, 69).

Peter Peckard (c. 1718-1797), clérigo anglicano e mestre no Magdalene College (Cambridge):

“Pode ser apropriado observar aqui, de uma vez por todas, que a negação de um princípio natural de imortalidade, não afeta de forma alguma a doutrina cristã bíblica de um estado futuro: Pois as Escrituras não nos asseguram em parte alguma da veracidade desta doutrina, desse princípio natural, e sim da redenção por Jesus Cristo, e disto somente: Mais ainda, as Escrituras declaram expressamente a mortalidade do homem, e a restauração à vida dessa mortalidade, pelo mesmo Jesus Cristo.”

“... Jesus Cristo veio ao mundo com o propósito de resgatar os homens da morte e dar-lhes a vida e a imortalidade. É bem certo que ele não poderia redimi-los do estado em que eles não estavam, nem dar-lhes a vida e a imortalidade que eles já possuíam. De modo que, por este esquema [a imortalidade natural da alma] todo o conceito de redenção por Jesus Cristo é absoluta e inteiramente destruído.”

(Observations on the Doctrine of an Intermediate State between Death and the Resurrection, [Observações Sobre a Doutrina de um Estado Intermediário entre a Morte e a Ressurreição], Londres, 1756, págs. 3, 4, 19).

Joseph Priestley (1733-1804) foi membro da Igreja Unitária, filósofo e cientista (atribui-se a ele a descoberta do elemento oxigênio):

“Creio ter provado suficientemente em minha [obra] Disquisitions Relating to Matter and Spirit [Dissertações Referentes à Matéria e ao Espírito] que, nas Escrituras, a condição de morte é representada como uma condição de insensibilidade absoluta, sendo oposta à vida. A doutrina da distinção entre alma e corpo, como duas substâncias diferentes, uma material e a outra imaterial, e por isso independentes uma da outra, sendo que a última pode até morrer e perecer, e a primeira, em vez de perder alguma coisa, em vez disso sai ganhando com a catástrofe, era originalmente uma doutrina da filosofia oriental, que depois se espalhou pela parte ocidental do mundo. Mas não parece que ela tenha sido adotada em algum momento pela maior parte dos judeus, e talvez nem mesmo pelo mais filosófico e erudito deles, como Josefo, até depois da época de nosso Salvador; embora Filo e alguns outros que residiam no Egito possam ter adotado essa doutrina num período anterior.

Embora se faça uma distinção nas Escrituras entre o princípio, ou lugar do pensamento no homem, e as partes que são destinadas a outras funções; e no Novo Testamento que este princípio possa, às vezes, ser entendido pelo termo alma; ainda assim não há qualquer exemplo, seja no Antigo ou no Novo Testamento, desta alma sendo suposta como estando em um lugar e o corpo em outro. Eles são sempre concebidos como estando juntos, de modo que a faculdade de percepção e pensamento realmente não podia ser considerada pelos escritores sagrados como nada além de uma característica de um homem vivo, e que, portanto, deixava de existir quando o homem estava morto, e não podia ser reavivada, a não ser com a restauração do corpo.

Consequentemente, não temos qualquer promessa de alguma recompensa ou qualquer ameaça de punição após a morte, a não ser as que são representadas como ocorrendo no momento da ressurreição geral. E é notável que, tanto nas Escrituras como entre nós, isso nunca é chamado de ressurreição do corpo (como se a alma, entrementes, estivesse em algum outro lugar), mas sempre de ressurreição dos mortos, ou seja, do homem. Se, portanto, há qualquer estado intermediário, no qual só a alma existe, consciente de alguma coisa, há um silêncio absoluto sobre isso nas Escrituras; sendo a morte sempre referida lá como uma condição de repouso, de silêncio e de escuridão, um lugar onde os maus deixam de importunar, mas onde os justos não podem louvar a Deus.”

(A History of the Corruptions of Christianity, Part V – The History of Opinions Concerning the State of the Dead [História das Corrupções do Cristianismo, Parte V - A História das Opiniões sobre a Condição dos Mortos], publicado originalmente em 1782, reimpresso em Londres: The British and Foreign Unitarian Association [Associação Unitarista Britânica e Estrangeira], 1871, pág. 132).

Richard Wright (1764-1836), ministro unitário inglês, e missionário itinerante do Fundo Unitariano, uma sociedade missionária estabelecida em 1806. Ele rompeu com o calvinismo:

“Uma ressurreição verdadeira deve ser precedida pela morte real do que é ressuscitado; o que não morre não pode ser ressuscitado dentre os mortos; a ressurreição apresentada nas Escrituras é uma ressurreição dos mortos; o que quer que deva ser ressuscitado dentre os mortos permanecerá morto até que seja levantado.”

The Resurrection of the Dead an essential Doctrine of the Gospel; and the Neglect of it by reputed Orthodox Christians, an Argument against the Truth of their System [A Ressurreição dos Mortos, Uma Doutrina Essencial do Evangelho; e a Negligência dela por parte de Renomados Cristãos Ortodoxos, um Argumento contra a Verdade do Sistema Deles], Liverpool, Inglaterra, 1820, pág. 6. Sobre este tratado, The Unitarian Magazine Chronicle (editado por Edwin Chapman, Londres, 1834) disse na página 167:

“Neste tratado, a natureza e a importância da doutrina da ressurreição são apresentadas claramente; também a seriedade e a frequência com que as Escrituras insistem nisso; e, por fim, sua negligência pelos autodenominados ortodoxos; ‘em primeiro lugar, com base na consideração de que as principais doutrinas da ortodoxia de renome são independentes, e não têm qualquer conexão obrigatória com a ressurreição dos mortos; em segundo lugar, com base na consideração de que não há como harmonizar as principais doutrinas da ortodoxia de renome com ela:’ e daí segue-se um justo argumento: ‘que a ortodoxia moderna não é o evangelho puro de Jesus Cristo’.”

Richard Watson (1781-1833), teólogo metodista britânico, tido como uma das figuras mais importantes da Igreja Metodista do século 19:

“Uma questão, relacionada à transmissão desta corrupção da natureza dos pais para os filhos, tem sido debatida entre aqueles que, apesar disso, admitem o fato; alguns sustentando que a alma é ex traduce [origina-se da alma dos pais]; outros, que ela é originária de criação direta. É certo que, quanto à parte metafísica desta questão, não podemos chegar a qualquer conclusão satisfatória. As Escrituras, porém, parecem favorecer mais a doutrina da transmissão. “Adão gerou um filho à sua semelhança.” “O que é nascido da carne é carne”, que se refere, certamente, tanto à alma como ao corpo. Ademais, o fato de certas disposições e faculdades mentais eminentes serem frequentemente encontradas em famílias parece favorecer este conceito; embora se possa dizer de forma plausível que, como a mente opera por meio de instrumentos corporais, pode haver uma constituição familiar do corpo, como existe a da semelhança física, que pode ser mais favorável a que se desenvolva e exercite certas faculdades mais do que outras.

O argumento usual contra esta transmissão do espírito humano é que a doutrina que a produz tende ao materialismo. Mas isso decorre de um conceito equivocado acerca de em que se baseia a geração de um ser humano, que não consiste na produção de qualquer das partes constituintes do ser, o homem, a partir do nada, e sim em uni-las substancialmente uma com a outra. Assim, a matéria do corpo não é originada pela primeira vez, e sim arranjada, nem se pode supor que a alma seja, por esse ato, produzida pela primeira vez. Isso pertence a um poder superior; e daí, a única questão é se todas as almas foram criadas em Adão, e são transmitidas por uma lei que lhes é peculiar; que está sempre sob o controle da vontade dessa mesma Providência vigilante, de cuja constante atuação na produção e ordenação dos tipos, sexos, e circunstâncias da criação animal, temos provas abundantes; ou se elas são criadas diretamente. A objeção usual para este último conceito é que Deus não pode criar uma natureza má; mas se nossa corrupção é o resultado de privação, não de infecção positiva, o conceito da criação imediata da alma é livrado de uma grande dificuldade, embora não seja totalmente desembaraçado. Mas o princípio de linhagem da alma parece ter mais expressão com base na linguagem das Escrituras, e não é nada pequena a confirmação disso, que quando Deus designou seu próprio Filho a encarnar, ele deu um passo para fora do curso normal, e formou uma natureza humana sem pecado diretamente pelo poder do Espírito Santo. As dificuldades filosóficas que se levantaram perante esta opinião parecem ter surgido principalmente da suposição de que a consciência é um atributo essencial do espírito; e de que a alma é naturalmente imortal; sendo que a primeira não pode ser provada, enquanto que a última é contradita pelas Escrituras, que fazem da nossa imortalidade uma dádiva dependente da vontade do Dador. Outras dificuldades têm surgido por falta de se considerar a atuação constante de Deus em controlar a produção de todas as coisas, e especialmente das criaturas racionais responsáveis.”

(Theological institutes: or, A view of the evidences, doctrines, morals and institutions of Christianity [Institutos Teológicos: ou, Uma consideração das evidências, doutrinas, moralidade e instituições do Cristianismo]. Publicado originalmente em 1823, Nova Iorque: T. Mason e G. Lane, 1836, Vol II, págs. 82, 83).

Henry Grew (1781-1862), diácono, e posteriormente pastor batista. Ele escreveu:

Mas o que dizem as Escrituras? Em vão procuramos uma única declaração inspirada de que o homem, em geral, é imortal. O contrário é que é revelado. “Pode o homem MORTAL ser justo diante de Deus?” Jó 4:17. Aqui ele é representado como mortal; sem qualquer distinção de corpo, alma ou espírito. É verdade que nas escrituras usa-se o termo “corpo mortal”. Mas deve-se observar que isso é usado somente em referência aos santos a quem a vida eterna é dada por Jesus Cristo por meio da fé em seu nome. Se a alma ou o espírito do homem em geral, ou o homem em geral é, em um único trecho declarado como imortal, então devemos realmente concluir que quando ele é chamado mortal, a referência é a seu corpo apenas. Mas certamente o fato de o corpo ser mortal, não prova que a alma seja imortal. Sobre os santos se diz “o corpo está morto (ou seja, deve morrer) por causa do pecado, mas o espírito é vida (por quê? Porque ele é naturalmente imortal?) por causa da justiça” – isto é, “a justiça de Deus, pela fé em Jesus Cristo.” Rom. 3:22. A vida do homem, sem referência a alguma distinção entre corpo e espírito, estava originalmente associada à sua obediência. “No dia em que dela comeres, certamente MORRERÁS.” Não houve realmente uma execução imediata da penalidade. Todos os que admitem que a morte do corpo, ou a punição de um estado futuro, era o planejado na penalidade, devem admitir que a totalidade da pena não foi executada imediatamente. Mas se Deus de forma consistente com sua palavra, podia adiar a execução de alguma parte da pena, ele poderia, se quisesse, adiar a execução do todo. Um homem judicialmente condenado a morrer, é considerado como morto. Assim, o apóstolo disse aos seus irmãos, “o corpo está morto”, ou seja, condenado a morrer.

A mente perspicaz, não influenciada pela tradição humana, deve perceber que nos oráculos sagrados a imortalidade revela-se, não como um objeto que todos possuem, ou possuirão, e sim como um objeto a ser procurado e obtido pela fé e “perseverança em fazer o bem.” Rom. 2:7. Que profeta ou apóstolo “movido pelo Espírito Santo” disse alguma vez aos homens que eles têm almas imortais ou espíritos imperecíveis?

(Future Punishment, Not Eternal Life in Misery, but Destruction [Punição Futura, Não Vida Eterna em Miséria, e sim Destruição], Filadélfia, Pensilvânia, EUA, 1844, pág. 3).

“Deus, “soprou em suas narinas o fôlego de vida.” Compare esta expressão com a que está em Isa 2:22, “afastai-vos, pois, do homem cujo fôlego está no seu nariz.” É esta uma expressão apropriada para definir algo como uma alma imortal independente, como se supõe que o homem possui? Leia Gen. 7:21, 22. Se for possível que lancemos fora de nossas mentes o viés do preconceito, não deveríamos reconhecer que isto é uma expressão do simples fato de transmitir vitalidade à estrutura perfeitamente organizada formada do pó da terra? O Todo-Poderoso “soprou em suas narinas o fôlego de vida.” Será que alguém afirmaria que o fôlego, antecedente à sua conexão com o novo homem formado, era em si uma substância consciente, inteligente e imortal? Não foi a consciência e a inteligência o resultado da ligação deste fôlego com todas as funções materiais? Não estava ele destituído dessas qualidades antes dessa conexão? Se ele não possuía essa consciência e inteligência antes de sua ligação com a organização material, como ele poderia possuí-las quando, no momento da morte, ele é separado dessa organização? Se Gên. 2:7 comprova uma alma imortal no homem, não deveria Gên. 7:21, 22 provar o mesmo no caso dos animais?

... Se for verdade que o homem possui uma substância espiritual consciente tão superior e independente da organização material, como podemos explicar a omissão desse fato no registro inspirado da sua criação original? Por que não se faz qualquer menção de uma questão de importância tão transcendente? Não seria razoável esperar, de acordo com a teoria popular, que Moisés teria sido inspirado a registrar, em primeiro lugar, a criação dessa alma imortal como a principal parte da criatura nobre de tal alma imortal que haveria de ter domínio sobre toda a terra? Não teria sido a mera matéria da casa de habitação exterior um assunto secundário? Ou se era apropriado mencioná-la em primeiro lugar, seria apropriado chamá-la de HOMEM antes de sua ocupação por aquilo que é considerado tão essencial para a natureza do homem? É razoável supor que na descrição inspirada da criação do homem, seria adotada uma fraseologia que exclui a ideia de que a vida e a inteligência do homem se deriva dessa substância tão distinta?”

(The Intermediate State [O Estado Intermediário], Mogridge's Foundry, Filadélfia, EUA, 1849, Capítulo 1)

Richard Whitley (1787-1863), arcebispo de Dublin, Irlanda e professor e diretor em Oxford. Ele ensinou a destruição final dos ímpios e acreditava que

“Jamais se fala dos ímpios como sendo mantidos vivos, e sim perdendo a vida.”

(A View of the Scriptural Revelations Concerning a Future State. [Um Conceito das Revelações Bíblicas Referentes ao Estado Futuro.])

Karl Immanuel Nitzsch (1787-1868), teólogo luterano alemão, pastor em Wittenberg, e professor de História Eclesiástica e Teologia. Ele escreveu:

“A alma é dependente do Criador; ela não tem uma imortalidade absoluta. Certamente, ela foi criada e constituída com vistas à obtenção de uma vida eterna; mas ela perde a vida que lhe é pessoal na medida em que se torna uma estranha à verdade, ao amor e à salvação. Segue-se que com o progresso do pecado a alma avança em direção à destruição que a espera no inferno; em outras palavras, em direção à sua morte.”

(System der Christlichen Lehre [Sistema de Ensino Cristão], Bonn, Alemanha, 1851, Seção 122, págs. 253, 254).

Hermann Olshausen (1796-1839), professor de Teologia em Erlangen (Alemanha) e perito em exegese do Novo Testamento. Ele escreveu:

“Se, portanto, não houvesse ressurreição, e, consequentemente, nenhum reino de Deus, nenhuma restauração do Paraíso, os cristãos que sacrificassem tudo nesta vida para ganhar tudo na próxima seriam os mais miseráveis ​​dos homens. Mas, sendo Cristo a segurança para a nossa ressurreição, os primeiros frutos somente daqueles que dormiram, a ressurreição começou com ele. Billroth simplesmente assinala que απαρχη των κεκοιμημενων não é para ser entendido como uma simples aposição a Cristo, e sim como o predicado da frase inteira: Cristo ressuscitou como as primícias, i. e., para ser os primeiros frutos. Considerado do nosso ponto de vista moderno, a ideia é surpreendente; pareceria que o apóstolo respondeu: se o corpo não for levantado, seguramente o espírito do homem pode ainda continuar a existir; e para ele não é indiferente se a vida do homem foi de severa autonegação, ou de autoindulgência. Mas o apóstolo [Paulo] de modo algum reconhece a possibilidade de existência como espírito puro, sem órgãos corporais; a doutrina da imortalidade da alma e o nome são igualmente desconhecidos para a Bíblia inteira; e realmente com justiça, visto que uma consciência pessoal em seres criados pressupõe necessariamente as limitações do corpo.* A doutrina moderna da imortalidade não é materialmente diferente da suposição de que a alma flui de volta, como uma gota para o grande mar da vida universal. Está de fato em evidente contradição com a nossa doutrina que, até mesmo segundo o conceito bíblico, a alma deva ser considerada como existindo de maneira independente no intervalo entre a morte e a ressurreição. Mas, primeiro, a consciência neste estado, pelo menos no caso de muitos, pode ser considerada apenas como uma espécie de crepúsculo, razão pela qual se refere aos mortos como κεκοιμημενων, dormindo, sem, contudo, o nosso ser obrigatoriamente assumir neste caso uma inconsciência absoluta, como fizeram os ψυχοπαnnύcioi (psicopaniquistas); em segundo lugar, é de se supor que certa relação sempre se mantém entre os elementos do corpo e a alma separada, em estreita proporção à santificação do órgão que tinha instalado a alma na terra.

* Veja a observação em Paul Lehrberg., pág. 365, e o trecho citado aqui de Atenágoras “Da Ressurreição”, cap. 25."

(Biblical Commentary on the New Testament [Comentário Bíblico Sobre o Novo Testamento], traduzido do alemão para o inglês por David Fosdick Jr., Nova Iorque, Sheldon & Company Publishers, Vol. 4, 1861, pág 381.)

Edward Beecher (1803-1895), teólogo congregacionalista e presidente da Illinois College. Ele declarou:

"Se [a Bíblia] não reconhece, ela também nega expressamente a imortalidade natural e inerente da alma. Ela nos assegura que só Deus possui a imortalidade (1 Timóteo 6:16) Com base nisto, entendemos que Ele tem a imortalidade no sentido mais pleno – ou seja, a imortalidade inerente. Toda a existência além de Si mesmo, Ele criou e sustenta. Os homens não são, como Platão ensinou, seres eternos, auto-existentes, imortais em sua verdadeira natureza ... Não há imortalidade inerente da alma como tal. O que Deus criou Ele mantém em existência, e pode aniquilar à vontade.”

(Doctrine of Scriptural Retribution [A Doutrina da Retribuição Bíblica], pág. 58.)

John Thomas (1805-1871) foi editor do Apostolic Advocate e fundador dos Cristadelfianos. Ele acreditava na

“... extinção final dos ímpios e na imortalidade como uma dádiva por meio de Cristo.”

(John Thomas, em um de seus artigos.)

Amos Phelps, (1805-1874), clérigo metodista-congregacionalista e professor da Universidade de Yale, escreveu:

“Esta doutrina [a da imortalidade natural] pode ser rastreada através dos canais lamacentos de um cristianismo corrompido, um judaísmo pervertido, e filosofia pagã, e uma idolatria supersticiosa, até o grande instigador do mal no Jardim do Éden. Os protestantes a tomaram emprestada dos católicos, os católicos dos fariseus, os fariseus dos pagãos, e os pagãos da antiga serpente, que foi a primeira a pregar a doutrina nos humildes recessos do Paraíso para um público bem disposto a ouvir e dar atenção à nova e fascinante teologia: ‘Certamente não morrereis’”

(Leroy E. Froom, The Conditionalist Faith of Our Fathers [A Fé Condicionalista de Nossos Pais], 1965.)

William E. Gladstone (1809-1898), primeiro-ministro britânico e teólogo. Em uma crítica à Analogia do Bispo Butler e a defesa que ele fez da imortalidade inerente, Gladstone contestou:

“[É só] do tempo de Orígenes em diante que podemos considerar que a ideia da imortalidade natural, em oposição à do cristão, começou a ganhar uma posição firme na Igreja Cristã.”

“A doutrina da imortalidade natural, distinta da imortalidade cristã, não foi sujeita a testes severos de ampla publicidade e controvérsia resoluta, mas rastejou para dentro da Igreja, como que pela porta dos fundos; por meio dum silencioso embora eficaz processo, e seguiu o caminho de obter um título por prescrição tácita.”

"Outra consideração da maior importância é que a imortalidade natural da alma é uma doutrina completamente desconhecida nas Escrituras Sagradas, e não repousa sobre plano elevado algum a não ser uma engenhosamente sustentada, porém grave e formidavelmente contestada, opinião filosófica."

“O caráter do Todo-Poderoso está sujeito a acusações que não podem ser refutadas enquanto persistir a ideia de que pode, por ordem dele, haver algo tal como uma punição sem fim, mas que terá sido suficientemente resolvida na esfera do julgamento humano. Por isso, logo que tiver sido estabelecida e permitida essa punição, qualquer que seja, ela não pode ser interminável.”

Nos primeiros seis pontos do "SUMÁRIO DAS TESES SOBRE UMA VIDA FUTURA", ele disse:

1. QUE a imortalidade natural da alma não é ensinada nas Escrituras Sagradas.

2. Também não é recomendada pela autoridade moral de quod semper, quod ubique, quod ab omnibus [aquilo que todos, em toda parte, sempre acreditaram], mesmo após a colocação desse dito abrangente sob tais limitações, como se admite razoavelmente.

3. Nem é afirmada ou ordenada por qualquer uma das grandes assembleias da Igreja indivisa, ou por qualquer unanimidade, real ou moral, de Decretos e Confissões posteriores à divisão da Igreja em Oriental e Ocidental.

4. A imortalidade da alma deve propriamente ser considerada como ocupando seu lugar na religião a partir do fato de ser uma dádiva ou dotação devida à Encarnação do Senhor.

5. A sobrevivência da alma após a morte é, em si, distinta da imortalidade da alma, e está incluída na doutrina da ressurreição; e foi tratada dessa forma pelos primitivos Pais da Igreja.

6. Além disso, a existência da alma após a morte, na qual se acreditava tão amplamente nas religiões antigas à parte da revelação hebraica, era uma crença em sobrevivência, e não foi associada com qualquer prova e adoção formal de uma vida absolutamente sem fim.

(Studies Subsidiary to the Works of Bishop Butler [Estudos Subsidiários às Obras do Bispo Butler], Oxford, Clarendon Press, 1896, págs. 184, 195, 197, 241 e 260).

Dean Henry Alford (1810-1871) trabalhou em Cantuária e foi erudito bíblico. Ele acreditava que

“A duração e fixidez eterna pertencem somente àqueles que estão em conformidade com Deus."

(Dean H. Alford, autor de um Greek New Testament. [Novo Testamento em Grego]).

Jacob Blain (1812-1880), ministro batista em Nova Iorque, EUA:

O outro texto para provar que o homem foi feito imortal, ou com uma alma imortal, é Gen. 2:7, "E o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida, (plural); e o homem tornou-se uma alma vivente,” (criatura, como o original significa.) Observe — “O homem foi feito do pó;” então se “fôlego” significava uma alma ou entidade viva, outra parte, essa não era “o homem” pois o homem era “pó” – “tu és pó”, e não “teu corpo é pó”, como os teólogos fazem isto significar, por acrescentar ao que está escrito. Mas alma tornou-se uma grande palavra no século 19. Vamos ver o que isso significava nos tempos bíblicos.

Neste texto é dito: “E o homem tornou-se uma (nephesh chayiah) alma vivente”. Gen. 1:24 diz: “Produza a terra criatura vivente (nephesh chayiah) segundo a sua espécie, gado e coisas que rastejam.” Gênesis 2:19, “O Senhor formou todos os animais e os trouxe a Adão e tudo o que Adão chamou a toda criatura vivente (nephesh chayiah), esse era o seu nome”. Gen. 6:19, “E de toda (nephesh chayiah) coisa vivente de toda a carne trarás à arca para mantê-los vivos contigo.” Aqui, e em mais de vinte lugares, as mesmas palavras traduzidas como “alma vivente” são aplicadas aos animais, mas os tradutores vertem como criaturas vivas, ou coisa, etc. Chayiah é vivente, assim o homem tornou-se uma “criatura vivente”, ou alma vivente, e se isto significa uma alma imortal, então todos os animais e coisas rastejantes têm isso. Assim, vemos que os leigos são mantidos na ignorância por tradutores descuidados, e os expositores instruídos mantêm a obscuridade, e naõ farão “a visão plena.” ...

A palavra grega psuche tem o mesmo significado que nephesh em hebraico; E o primeiro sentido em Parkhurst é “respiração, vida animal, um animal vivo que vive por respirar”, etc. Ela é usada 105 vezes no NT., e traduzida como alma cinquenta e nove vezes, e como vida quarenta; também como mente, coração, e duas vezes é aplicada a animais. Rev. 8:9; 16:3.

Um erro em traduzi-la como alma em vez de vida é visto claramente em Mateus 16:25, 26 e Marcos 8:36, 37, onde é vertida quatro vezes como vida e quatro vezes como alma. O V. 25 diz “Pois todo aquele que quiser salvar sua vida (psuche) irá perdê-la. O V. 26, “Pois de que proveito é um homem ganha o mundo inteiro e perder sua própria alma (psyche)? Os letrados dizem ao povo que psuche (vida) no versículo 25, significa vida literal, e nós deveremos perdê-la, se necessário, em perseguições, mas no versículo 26 eles dizem que a mesma palavra, psuche (vida), significa uma alma imortal que não pode perder a vida ou morrer, mas eles são cuidadosos em não dizer que as palavras originais são as mesmas: se psuche tivesse sido corretamente traduzida nesses textos, ninguém teria pensado em ir até eles para provar que os homens têm almas imortais para perder no mundo vindouro. Eles terão vidas ressuscitadas para perder lá, e Cristo diz, positivamente, que aqueles que não suportarem a perseguição por causa dele, irão perdê-las lá.

(Death Not Life: Or The Destruction of the Wicked (Commonly Called Annihilation) Established, And Endless Misery Disproved [Morte, Não Vida: ou a Destruição dos Ímpios (Comummente Chamada Aniquilação) Estabelecida e o Tormento Eterno Refutado], Jacob Blain, John P. Jewett & Co, Boston, MA, EUA, 1854, págs. 31, 33).

Henry Theodore Cheever (1814-1897), teólogo e ministro presbiteriano-congregacionalista em Worcester, Massachusetts, EUA:

“O Cristianismo precisa basear sua esperança de imortalidade para o homem mais distintamente no fato de que Cristo ressuscitou, e que o homem perecível deverá viver novamente, não por causa de sua imortalidade inerente*, e sim porque Deus providenciou que nele, o Cristo, todos serão vivificados. E esta nova ressurreição de vida para a raça humana por meio de seu segundo Adão, o homem perfeito ideal, deve ser encarada como nada mais que a consumação de um processo criativo e promessa que teve início a partir da fundação do mundo (Tito 1:2) e necessária para completar o projeto do Autor, que é gerar da matriz deste sistema uma raça ungida digna de usar sua coroa, e de ser, sob Cristo, a administradora de sua autoridade e magnanimidade por toda a eternidade.

* O peso do testemunho das Escrituras é que o homem, tanto o corpo como a alma, é perecível. Admitimos espontaneamente que um espírito imortal da vida de Deus habita nele. Mas a própria questão em jogo na sua formação moral é se essa vida de Deus edificará para si uma morada eterna nele. Ele pode tornar-se tão degradado em caráter, ele pode desta forma provar-se tão indigno da vida eterna, que este espírito imortal poderá não só deixar de lutar lado a lado com ele, como também de viver nele. Nesse caso, sua personalidade e ser individual deverão desaparecer. Ele fracassa na vida eterna.

Nosso Salvador ensina que o homem pode se endurecer tanto contra a graça de Deus que ele “não será perdoado, nem nesta era nem na era que há de vir.” Mas a doutrina de “uma ressurreição de julgamento” dá esperança aos mortos de que sua falha aqui não é necessariamente final e irremediável. Que todos serão salvos, que não haverá qualquer rejeição de almas humanas neste grande projeto de Deus, é demais para afirmar. Mas, o fato de Ele ser obrigado por Seu próprio caráter, ou por Sua Palavra, a dotar todas as criaturas da raça humana com a imortalidade pessoal, não exige que acreditemos, quer pelas analogias da natureza quer pelas declarações da Palavra dele, embora possamos ter certeza de que os que não forem merecedores dessa dignidade da imortalidade, devendo, assim, ser lançados fora, não estão condenados a uma existência sem fim em tortura sem esperança. Eles podem descer na escala da criação até que se tornem “como animais irracionais feitos para serem apanhados e destruídos” Mas se assim for, eles deverão, assim como aqueles, “perecer completamente em sua própria corrupção” (II Pedro 2:12). — Words of Reconciliation [Palavras de Reconciliação], Volume IV., página 232.”

(Biblical Eschatology: Its Relation to the Current Presbyterian Standards and the Basal Principles that must underlie – Their Revision: Being a Review of the Writings of the Presbyterian Divine, L. C. Baker [Escatologia Bíblica: Sua Relação com as Atuais Normas e Princípios Fundamentais Presbiterianos que devem ser prioritários – Sua Correção: Sendo uma Revisão dos Escritos do Teólogo Presbiteriano, L. C. Baker], 1893, págs. 53, 54.).

John Hancock Pettingell (1815-1887) graduou-se em Yale e estudou ainda no Union Theological Seminary. Ele serviu como secretário distrital do Conselho Americano de Missões no Estrangeiro (Congregacionalista). Ele escreveu:

Vida e Morte, como palavras referentes a fenômenos, não precisam de qualquer definição ou explicação, pois elas designam fenômenos com os quais todos nós estamos familiarizados. Cientistas e metafísicos podem investigar seu significado interior; e debater sobre a fonte e essência reais e o significado destes fenômenos; mas, para todos os efeitos práticos, estes termos não necessitam de definição. O mesmo é verdade no caso de todos os termos definitivos e antitéticos que estão em uso comum em nossa língua, ou em qualquer idioma. O significado deles é tão óbvio que qualquer tentativa de defini-los, tal como a tentativa de demonstrar um axioma, só tende a obscurecer o assunto e confundir a mente.

A vida como um fenômeno da natureza está visível em todo lugar. Assim é a morte. Uma é colocada em confronto com a outra. Portanto, elas são chamadas de termos antitéticos. Cada um dos termos explica o outro. Se um deles é conhecido, o outro também deverá ser conhecido. Mas a morte não é simplesmente a antítese da vida, como a escuridão é da luz, e o frio é do calor. Ela é mais do que isso. Ela supõe uma vida anterior. Ela denota a perda do que certa vez alguém possuía. Nós não pressupomos a morte de uma pedra ou de um pedaço de barro. Nós dizemos que estes são inanimados. Eles não estão mortos, pois jamais tiveram vida e nunca morreram. “Sem vida” é a negação adequada de “vida”.

Nem podemos atribuir graus de morte da mesma maneira que podemos no caso de muitos outros termos. Isto é um termo absoluto e final. Nada pode ser classificado como morto enquanto existir alguma vida nele. Ele pode estar quase morto, ou prestes a morrer, mas não estará morto até que toda a vida esteja totalmente extinta.

Às vezes, porém, usamos o termo morte de maneira proléptica, ou seja, antecipando uma objeção que certamente surgirá em seguida; como quando dizemos sobre alguém que está acometido por uma doença fatal, ou se feriu fatalmente: “Ele é um homem morto.” Mas podemos usar esta figura de retórica apenas com referência à morte real em vista.

Isto é verdade no caso de todas as palavras que se aplicam às coisas materiais e físicas, e que são passíveis de utilizações secundárias e metafóricas; pois não temos outra maneira de falar de coisas que estão além do alcance de nossos sentidos sem usar tais termos.

Todas as verdades espirituais são representadas por termos que têm uma base física ou material. Afinal, é por meio da semelhança que se supõe que eles devem ter com coisas sensíveis que podemos apreendê-los. É daí que vem a necessidade de, ao abordar essas verdades mais elevadas, não só de usar esses termos físicos, mas também de ater-se estritamente à ideia expressa por eles, se quisermos entender nós mesmos ou ser compreendidos pelos outros. Pois, a menos que a analogia mais estrita seja preservada, podemos muito bem usar um termo com o significado de outro, ou como não significando termo algum, pois nenhuma ideia definida será expressa por eles.

Pode-se dizer que a vida de um homem está nas mãos de outro, que tem o poder de tirá-la dele. Ou podemos dizer que uma criança está morta para seus pais quando a vida dela está inteiramente perdida para eles. Compreendemos facilmente essas figuras de linguagem. Mas se a analogia for muito forçada ou obscura, o que queremos dizer será obscuro no mesmo grau. Esta é a razão pela qual algumas especulações metafísicas são tão difíceis de entender. Os termos usados ​​não sugerem qualquer analogia às nossas mentes. É por isso que alguns tipos de poesia não nos transmitem significado algum, ou são suscetíveis de quase qualquer interpretação que nossa fantasia possa ditar. Este era exatamente o segredo dos oráculos de Delfos. Eles eram formulados intencionalmente em termos metafóricos de aplicação ambígua. Este é justamente o uso que os especuladores teológicos aplicam nas palavras de Deus – as Escrituras Sagradas. Ao interpretar a linguagem da Sagrada Escritura num sentido metafórico, eles podem aplicar a ela qualquer significado que a fantasia deles exija.

Não há palavras na Bíblia que sofreram mais este tipo de abordagem do que essas duas palavras, Vida e Morte; pois são duas das palavras mais importantes em toda a Bíblia. Toda a controvérsia que existe entre nós e os que sustentam a natureza imortal do homem centra-se nessas duas palavras. Elas são as duas dobradiças nas quais toda a questão gira. Se elas tiverem de ser tomadas literalmente quando se referem ao destino do homem, conforme defendemos, então nossos adversários não têm qualquer fundamento para se basear em momento algum. Eles devem desistir de sua argumentação de vez. É absolutamente necessário para a manutenção da posição deles, que o significado literal e comum destas duas palavras seja excluído delas, quando se trata do destino do homem; e, como elas devem significar alguma coisa, outro significado deve ser encontrado e atribuído a elas, para se harmonizar com a doutrina deles acerca da imortalidade de todos os homens.

Afirmamos que as Escrituras querem dizer exatamente o que elas dizem, quando estabelecem a morte como o resultado certo do pecado, e a perpetuidade sem fim da vida como o quinhão dos justos apenas. Acreditamos que Jeová quis dizer exatamente o que Ele disse, exatamente o que Adão deve ter entendido que Ele quis dizer, quando Ele prometeu-lhe perpetuidade da vida apenas na condição de obediência, e ameaçou-o de morte em caso de desobediência. Ele [Adão] não poderia ter entendido essas palavras em algum outro sentido, nem entendeu assim, até o Tentador sugerir outro significado — um significado figurativo — como ele ainda continua fazendo com todos os que dão ouvidos à sua interpretação.

Afirmamos que, quando os homens morrem agora em consequência do pecado, eles realmente morrem; e viverão novamente, não porque sejam imortais e devem naturalmente continuar vivendo, e viver para sempre, mas apenas pelo propósito gracioso de Deus, que foi dado a conhecer no Evangelho de Cristo, que é a Ressurreição e a Vida; e que por meio dele, e dele somente, outra vida, uma vida eterna superior e melhor, é concedida ao Seu povo redimido; e que a segunda morte dos condenados é também uma morte verdadeira, da qual não há ressurreição.

Eles defendem, por outro lado, que, para a vida ativa, consciente e sensitiva do homem não há fim, nenhuma morte literal, como no caso de todos os outros seres vivos sobre a terra; que tanto a primeira morte como a segunda morte, mencionadas nas Escrituras como consequência do pecado, denotam uma condição de pecado e miséria, as quais, se o pecador não se regenerar deles, serão eternamente perpetuadas no inferno; e que a vida, a vida eterna que Cristo dá ao seu povo redimido, é um estado de pureza e bem-aventurança perpetuada para sempre no céu. Ora, acreditamos que esse uso frívolo das declarações simples da Palavra de Deus é totalmente injustificado, um sacrilégio, e uma subversão da verdade. Em nome do Mestre, cuja palavra é a regra suprema da nossa fé, protestamos contra isso, e insistimos em aceitar e compreender estas palavras —  Vida e Morte —  com o significado exato que elas parecem ter. Fazemos isso pelas seguintes razões:

1. Não há qualquer boa razão para que elas não devam ser aceitas e compreendidas desta maneira.

...

2. É contrário a todas as regras bem estabelecidas e universalmente aceitas de interpretação colocar um significado incomum nas palavras de qualquer escritor, a menos que estejamos especialmente autorizados por ele a fazê-lo, ou a menos que o estilo de escrita do próprio documento justifique isso.

...

3. Estas duas palavras — Vida e Morte — não são simplesmente as palavras cruciais nessa controvérsia, mas elas são as principais palavras pelas quais as sanções da lei divina nos são dadas a conhecer.

...

4. Não se pode dar qualquer outra definição razoável ou satisfatória a essas palavras.

...

5. É só por aceitar essas palavras, Vida e Morte, de acordo com seu sentido simples e literal, que as Escrituras — especialmente os trechos históricos, doutrinais, didáticos e exortativos — podem se fazer inteligíveis e auto consistentes.

...4

(The Life Everlasting: What Is It? Whence Is It? Whose Is It? [A Vida Eterna: O Que É? De Onde É? De Quem É?], 2ª edição, J. D. Brown, Filadélfia, EUA, 1883, págs. 175-207 [Veja também as págs. 537-600.]).

Henry Constable (1816-1894), cônego em Cork, Irlanda.

"VI. Vamos agora chamar a atenção dos nossos leitores para o fato de que o Antigo Testamento sempre fala do Hades como um lugar de morte. A teologia platônica comum nos diz que a sepultura, o receptáculo do corpo, é um lugar de morte, mas que o Hades, o receptáculo das almas desencarnadas, é um lugar de vida. Negando que a alma morre ou perece na morte: sustentando que ela mantém uma perfeita vida, passível de cada pensamento que temos agora, tendo até mesmo mais capacidade de ser suscetível a emoções alegres ou dolorosas do que tem aqui, e, no caso dos redimidos desfruta de uma felicidade muito maior do que jamais havia experimentado nesta era ou mundo, eles defendem, e precisam defender, que o Hades é uma região de vida. Para todos, os bons e os maus, eles são obrigados a defender que ele é uma terra de viventes; ao mesmo tempo em que, com suas ideias sobre o que significa a vida em seu sentido mais verdadeiro e próprio, a saber, bem-estar e felicidade e santidade, eles devem, no caso das almas redimidas, defender que o Hades é preeminentemente uma região de vida. Onde não há qualquer pecado – onde não há tristeza – onde se desfruta de paz e felicidade, e até mesmo onde se aguarda com esperança e certeza uma existência mais esplêndida, é com a maior certeza e, inquestionavelmente, uma terra de vida. Comparada com ele esta terra atual é, mesmo em seu aspecto mais feliz, um vale de lágrimas. De acordo com isso, os próprios nomes que a teologia usual atribui a essa parte do Hades, onde supostamente as almas justas habitam separadas dos ímpios, refletem totalmente a ideia deles. Dois desses nomes são “Paraíso” e “Seio de Abraão”. O Paraíso é uma região de vida: o seio de Abraão é uma região de vida. E, assim, observa-se claramente que quaisquer que sejam as ideias que eles associem à suposta divisão do Hades onde situam as almas perversas, essa parte do Hades onde situam as almas justas deve ser verdadeira e preeminentemente uma região de vida.

Mas, será que o Antigo Testamento alguma vez fala desse modo? Deixamos à parte aqui o caso das almas perversas. Poderia muito bem ser o caso de as Escrituras só falarem em termos sombrios da localidade delas. Então, vamos deixá-las de lado por completo. Mas as almas justas e os homens justos estão no Hades, tanto como os ímpios. Ora, será que as Escrituras alguma vez falam do Hades em conexão com eles como uma terra de vida? Nunca. Nenhuma vez sequer. Instamos com nossos teólogos platônicos para que apresentem um único trecho do Antigo Testamento que faça isso. É claro que sabemos que há, aqui e ali, uma imagem poética, como Isaías xiv., onde se diz que os que estão no Hades realizam ações de homens vivos. Todos os trechos desse tipo iremos examinar aos poucos. Se não nos enganamos, cada trecho desse tipo fala dos ímpios, não dos justos. Mas o que dizemos é isso, que cada trecho do Antigo Testamento que fala do Hades sem linguajar poético em relação aos crentes, ou descreve os sentimentos dos crentes em sua perspectiva de entrar no estado do Hades, fala desse estado e lugar como um lugar de morte e não de vida."

(Hades; or, the Intermediate State of Man [Hades; ou, o Estado Intermediário do Homem], Londres: Elliot Stock, 62, Paternoster Row, E.C., 1873, pags. 53, 54. Sublinhado acrescentado.)

Edward White (1819-1887), pastor congregacionalista em St. Paul’s Chapel e presidente da União Congregacional. Por mais de quarenta anos ele foi um eminente defensor da imortalidade condicional. Ele escreveu:

“Mantenho firmemente, depois de quarenta anos de estudo sobre o assunto, que o conceito da aplicação de um tormento no corpo e na alma que será absolutamente eterno, é unicamente o que dá base para as ideias de Ingersoll na América, ou Bradlaugh na Inglaterra [ambos ateus]. Creio, com mais firmeza do que nunca, que esta é uma doutrina tão contrária a todas as linhas da Bíblia quanto é contrária a todo instinto moral da humanidade”.

(Introdução ao livro The Unspeakable Gift [O Dom Indescritível], 1884, pág. 22.)

No ano seguinte, ele acrescentou:

“O Antigo Testamento está inteiramente de acordo com a crença na vida eterna dos servos de Deus, e na eterna destruição dos ímpios. E, quando tomado em seu sentido simples, não está de acordo com qualquer outra crença...”

“Os Evangelhos e as Epístolas com igual força aderem quase uniformemente à linguagem referente à condenação dos perdidos, a qual, tomada em seu sentido simples, ensina, como faz o Antigo Testamento, que eles hão de morrer, perecer, ser destruídos, não verão a vida, e sim sofrerão destruição, destruição eterna, ‘destruição’, conforme diz Cristo, ‘do corpo e da alma na Geena.’

(Homiletic Monthly (Inglaterra), março de 1885.)

Em lugar algum a Bíblia ensina a imortalidade inerente, mas ensina que o objetivo da redenção é transmitir isso... A transmissão dela exige uma regeneração do homem pelo Espírito Santo, e uma ressurreição dos mortos.”

(Report, London Conference on Conditional Immortality [Relatório, Conferência de Londres Sobre Imortalidade Condicional], 15 de maio de 1876, págs. 28, 29.). Sobre esta conferência, Edward White declarou:

“Estas são as idéias que nos juntaram nesta manhã. Elas são agora firmemente defendidas por uma imensa multidão de pessoas conscientes de todas as terras, pois, embora sejamos apenas um pequeno grupo aqui reunido, representamos um imenso exército na Europa e América. Estes conceitos estão se espalhando todos os dias em meio às igrejas; e entre seus seguidores incluem-se alguns dos homens mais importantes da ciência, teólogos, missionários, filólogos, filósofos, pregadores, e estadistas.”

George G. Stokes (1819-1903), professor na Universidade de Cambridge e presidente da Sociedade Real. Ele escreveu:

Os defensores da teoria da imortalidade natural da alma parecem ser quase unânimes na crença de que, no momento da morte, o homem passa para uma condição diferente de existência consciente, que passa por uma mudança adicional na ressurreição. E muitos dos que não mantêm a teoria simplesmente expressaram acordo, neste aspecto, com aqueles que a mantêm. Ademais, parece ser em direção a essa condição que os pensamentos de nações não instruídas se voltam, quando pensam em um estado futuro de qualquer maneira.

Nenhum argumento favorável à imortalidade natural da alma que este autor tenha visto, parece-lhe ser de qualquer valor; e, quanto à crença predominante entre nações sem instrução, se é verdade que o homem foi criado numa condição em que, se ele tivesse continuado, teria sido apto à imortalidade, e foi dotado com aspirações à imortalidade, era natural que depois da perda da imortalidade devido à transgressão, o homem buscasse satisfazer seu desejo de imortalidade imaginando que tinha algo imortal em sua natureza. É, então, para a revelação que devemos olhar se quisermos descobrir algo sobre a condição do homem no estado intermediário.

Ora, como foi por meio do evangelho que a vida e a imortalidade foram trazidas à luz, é principalmente para o Novo Testamento que devemos olhar para obter informações sobre o assunto que temos agora diante de nós. Descobrimos, porém, que é, no mínimo principalmente, para o estado depois da ressurreição que os nossos pensamentos são dirigidos, quando se pensa numa vida futura. Tem sido bem colocado que as Escrituras baseiam nossas esperanças de uma vida futura, não na imortalidade da alma, mas na ressurreição do corpo. Há relativamente poucos trechos em o estado intermediário parece ser mencionado de qualquer maneira. Destes, dois ou três são tão obscuros que sua verdadeira interpretação é bem incerta. Há dois ou três em que, à primeira vista, o estado intermediário parece ser referido como sendo de consciência, mas que, em uma análise mais aprofundada, mostram-se como, de acordo com o entendimento deste autor, perfeita e naturalmente explicáveis com base na suposição oposta. Não está em conformidade com o plano desta coleção [de escritos dos eruditos participantes do simpósio] que os escritores devam entrar em discussão, mas é desejável que eles declarem suas próprias opiniões; e, de acordo com este desejo, o escritor do presente artigo aventura-se a dizer que sua própria mente se inclina fortemente para o conceito de que o estado intermediário é um no qual, assim como num desmaio, o pensamento está em suspenso; um que, concordemente, envolve uma aniquilação do tempo interveniente para cada indivíduo em particular.

Mas, seja como for, uma coisa parece ser certa: que na teologia popular e nos hinos populares o estado intermediário recebeu uma expansão totalmente diferente do que encontramos nas Escrituras; uma expansão que vai longe no sentido de banir do conceito o estado da ressurreição e o dia do juízo, embora, assim como a primeira, este tenha ocupado um lugar tão proeminente na mente dos apóstolos e das pessoas a quem eles escreveram, que eles falavam com frequência dele simplesmente como “o dia” ou “aquele dia”.

(That Unknown Country: or Future Retribution According to the Teachings of Scripture and the Opinions of Sages, Scholars and Divines. [Essa Terra Desconhecida: ou A Retribuição Futura de Acordo com os Ensinamentos das Escrituras e as Opiniões de Sábios, Eruditos e Teólogos.], C. A. Nichols & Co., Publishers, Massachussets, EUA, 1888; págs. 828-830)

“No relato bíblico da criação e da queda do homem não há nada indicando que o homem era por criação um ser imortal. Pelo contrário, sua imortalidade é representada como dependente, não de sua condição de criação, e sim de algo fora dele, e seu direito ao uso disso era dependente da obediência dele, e disso ele foi cortado em sua queda, “para que não viva para sempre.” Não há nada indicando que a “morte”, imposta por sua desobediência afetou uma única parte de sua natureza, ou era algo menos do que a eliminação total. Na declaração que foi feita à mulher há de fato uma fraca indicação de alguma vitória sobre a serpente a ser alcançada de algum modo por meio da semente da mulher. Porém, qual seria a natureza dessa vitória, ou como ela seria conseguida, não pode ser deduzido de uma dica tão breve; e se uma revelação mais completa foi feita na ocasião, pelo menos não somos informados disso.

Assim, não admira que nos registros que possuímos das dispensações Patriarcal e Judaica (pelo menos até perto do final da última), apareça muito pouca indicação de qualquer anulação desse resultado específico da Queda, ou seja, que “a morte passou a todos os homens”. O Prebendário Eow apontou claramente quão pouco, comparativamente falando, os pensamentos dos próprios homens bons daquelas eras foram estimulados pela contemplação de uma vida futura, e quão vagas eram as ideias deles com relação a isso. Somos informados que eles ‘morreram em fé’. Mas, ao mesmo tempo somos informados de que essa fé era de uma natureza bem elementar, consistindo numa crença de que Deus existe e que Ele é o recompensador dos que diligentemente o buscam. Alguma fé desse tipo, definida mais ou menos de acordo com a extensão do que foi revelado ao indivíduo ou em geral aos homens de sua época, constituindo um vislumbre à distância de promessas não recebidas, pode ter levado os homens bons a uma expectativa mais ou menos confiante de que, de alguma forma, Deus não deixaria que a morte triunfasse sobre seus servos, mas haveria algo em reserva para eles além.

Não é a proposta aqui rastrear a origem dos conceitos bem mais definidos sobre uma vida futura mantidos pelos judeus, ou pelo menos por uma grande parte deles, antes da Era Cristã. Passaremos a considerar a evidência da imortalidade que encontramos na luz mais clara da dispensação cristã.

Ora, vez após vez no Novo Testamento, encontramos a oferta do que é chamado de vida eterna para os que a aceitarem nas condições em que ela é oferecida. Os que trazem para a interpretação desses trechos uma noção preconcebida da imortalidade natural do homem são obrigados a dar à expressão “vida eterna” um sentido figurado, e eliminar dela a ideia comum da vida como existência. Pois claramente não se ofereceria como um presente o que já se possuísse, nem haveria como se falar em alguns conseguirem algo que já era possuído por todos. É verdade que somos informados que todos serão levantados novamente, mas não que haverá uma ressurreição de vida eterna para todos. Para os ímpios será apenas uma ressurreição de julgamento. O destino deles é um sobre cujos detalhes lança-se um véu, mas a linguagem na qual isso se expressa e as imagens pelas qual se ilustra parecem apontar para uma destruição miserável, e em todo caso, indicam algo bem terrível.

Para o cristão, portanto, defende-se a evidência de que a imortalidade repousa sobre sua promessa como um presente — um dom sobrenatural em sua natureza, e cuja promessa é comprovada por evidência sobrenatural. Ela envolve a ressurreição, embora a ressurreição por si só não a garanta; e até mesmo os defensores mais vigorosos de uma imortalidade natural, se é que eles admitem uma ressurreição de qualquer maneira, não defendem que ela seja outra coisa além de sobrenatural. Na verdade, o que quer que se pense sobre a condição do homem entre a morte e a ressurreição, nas Escrituras a questão de uma vida futura está ligada com a da ressurreição. Assim, nosso Senhor infere a ressurreição, e quer dizer o que os próprios saduceus podem ter deduzido com base nas palavras ditas [a Moisés] na sarça; e S. Paulo, ao defender que a doutrina da ressurreição pertence à essência da fé, corajosamente usa o argumento de que sua negação logicamente conduz à adoção da máxima manifestamente anticristã, de que teríamos de aproveitar ao máximo esta vida enquanto a temos, pois é tudo o que temos — “Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos.” A doutrina da imortalidade natural, independentemente de ressurreição levaria a uma conclusão bem diferente.

Que não se pense que basear nossas esperanças de imortalidade na promessa do dom da vida eterna diminui a nossa ideia do que essa expressão transmite; que os que associam uma interpretação puramente figurativa a ela a entendem melhor de alguma forma. O conceito de que basear nossas esperanças de imortalidade na promessa da vida eterna envolve alguma degradação do significado do termo surge simplesmente de separar antes a ideia da imortalidade da de obediência e consequente felicidade. Uma vez que se aceite o relato bíblico da Queda, pelo menos no que parece ser sua interpretação simples — ou seja, que pela desobediência o homem perdeu a imortalidade — é lógico que a imortalidade só seria restaurada em conexão com um esquema no qual os efeitos morais da Queda seriam remediados, e o homem restaurado a uma condição de justiça plena. Assim, a promessa da vida eterna envolvendo existência eterna traz consigo, ate mesmo conceitualmente, assim como o faz pelas declarações expressas das Escrituras, tudo o que os defensores de uma interpretação puramente figurativa colocam sobre ela; mas traz algo mais, ou seja, a própria existência.

Assim, dentro deste conceito, que embora evidentemente mantido em tempos muito antigos, apenas em anos recentes foi revivido em grande medida, o qual envolve uma interpretação mais simples e direta das declarações das Escrituras sobre o assunto do que meio século atrás era comumente recebido, o ensino das Escrituras, o senso moral e as indicações da ciência até o ponto em que elas têm que ver com a questão, estão todos em harmonia. As mais altas aspirações daqueles bons homens da antiguidade, que, embora “esperavam a cidade que tem os verdadeiros alicerces”, ainda assim “morreram em fé, não tendo recebido as promessas”, se cumpriram e ainda mais. Os pressentimentos ameaçadores dos transgressores intencionais são cumpridos pela declaração expressa de atemorizante e final “julgamento e ardente indignação que há de consumir os adversários”, mas não estamos envolvidos nas tremendas dificuldades éticas que atingem a suposta necessidade de associar uma punição certa e absolutamente infinita para os pecados de uma vida finita. Finalmente, se houver alguma dificuldade em se acreditar numa vida futura, pelo fato de a investigação científica mais perspicaz não conseguir dar a menor indicação de qualquer coisa além da sepultura, o que é contrário ao que seria de se esperar no caso de um ser naturalmente imortal, a resposta é —Isso é precisamente o que teria de se esperar a priori em bases puramente teológicas. Todo o ser do homem foi perdido pela Queda, e a vida futura não é seu direito de primogenitura, mas depende de uma dispensação sobrenatural da graça. Olhar para a estrutura corpórea do homem em busca de indicações de imortalidade, olhar até mesmo para seus elevados poderes mentais – elevados realmente, mas infelizmente mal utilizados – é buscar o vivente entre os mortos. O homem deve olhar, não para dentro de si mesmo, mas para fora de si em busca da garantia da imortalidade. “Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo as primícias dentre aqueles que dormiram. Visto que a morte veio por meio de um só homem, também a ressurreição dos mortos veio por meio de um só homem. Pois da mesma forma como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados.” [1 Cor. 15:20-22]

(Immortality, a Clerical Symposium [Imortalidade, um Simpósio Clerical], James Nisbet & Co., Londres, 1887, págs. 118-124.)

John J. S. Perowne (1823-1904), erudito em hebraico e bispo anglicano de Worcester, Inglaterra. Ele escreveu:

“A imortalidade da alma não é nem defendida nem afirmada no Antigo Testamento... A imortalidade da alma é um fantasma que foge de sua mais ansiosa compreensão.”

(Hulsean Lectures on Immortality [Palestras de Hulsean Sobre Imortalidade], 1868, pág. 31.)

David Thom (1828-1867), ministro da Igreja da Escócia em Liverpool, Inglaterra:

“A vida da alma, ou mente humana, era, conforme entendemos de Gênesis II. 17, para ter sido condicionalmente prolongada para sempre; ou, se a frase for mais bem colocada, tinha uma imortalidade condicional conferida a ela. Mas a condição foi violada. Gen. iii. 1-6. A partir desta violação, a morte de alma foi o resultado imediato e necessário: versículo 7 e seguintes. Deixando de lado, por ora, a questão de saber se a alma era em seu estado original realmente imortal ou não, é, se se deve apoiar nas declarações da Palavra de Deus, um fato, que agora, pelo menos, ela é mortal, ou, mais corretamente falando, está morta.

... A alma, segundo as Escrituras, não se tornou mortal, simplesmente, mas ela realmente morreu, no momento em que Adão transgrediu; a transgressão, ou, se você preferir, o efeito necessário da transgressão, tendo sido sua morte: e morta ela continuou desde então, e como alma deverá continuar.

... A alma, como vimos, não é um princípio, imaterial, significando desta forma um princípio substancial; mas é simplesmente o tipo, figura ou sombra desse princípio substancial. Portanto, toda conclusão elaborada com base nesta sua substancialidade assumida, e, entre as demais, a suposta inferência de que ela é natural e essencialmente imortal, cai por terra junto com as premissas sobre as quais ela é edificada. A sombra duma mente, longe de necessariamente existir para sempre, pode, ou melhor deve, do mesmo modo que a sombra dum corpo, desaparecer ou morrer.”

(Soul and Spirit [Alma e Espírito], Londres, 1867, págs. 33, 34.)

George Dana Boardman (1828-1903), teólogo batista, escreveu o seguinte sobre o assunto da imortalidade:

Nem um único trecho da Sagrada Escritura, de Gênesis a Revelação, ensina, até onde posso ver, a doutrina da imortalidade natural do homem. Por outro lado, a Sagrada Escritura diz enfaticamente que só Deus tem a imortalidade (1 Tim. 6:16): Ou seja: Apenas Deus é natural e inerentemente, em Sua própria essência, imortal”.

“Se, então, o Homem é imortal, é porque a imortalidade foi concedida a ele. Ele é imortal, não porque foi criado assim, e sim porque se tornou tal, derivando sua imortalidade do Único que possui imortalidade. E a partir deste fato a ‘Árvore da Vida’, no meio do Jardim parece ter sido o símbolo designado e a promessa. Que este é o significado da ‘Árvore da Vida’ é evidente com base nas palavras concludentes do Registro da Queda:

“Disse Deus Jeová: Eis que o homem se tem tornado como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Agora para que ele não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente, Deus Jeová o enviou para fora do jardim do Éden, a fim de cultivar a terra de que havia sido tomado. Assim expulsou ao homem; e ao oriente do jardim do Éden pôs os querubins e o chamejar de uma espada que se volvia por todos os lados, para guardar o caminho da árvore da vida.” Gênesis 3:22-24

Se o homem é inerentemente imortal, que finalidade haveria para alguma ‘Árvore da Vida’ afinal? Isso parece estar bem claro: A imortalidade estava de alguma forma parabolicamente condicionada a comer desta Árvore misteriosa, e a imortalidade era para o homem inteiro – espírito, alma e corpo.”

(Studies in the Creative Week [Estudos Sobre a Semana da Criação], 1878, págs. 215 e 216.)

Robert W. Dale (1829-1895) foi um Pastor Congregacional da Igreja de Carr's Lane, em Birmingham. Ele foi editor da revista The Congregationalist; presidente do ‘União Congregacional da Inglaterra e do País de Gales’; e presidente do ‘Primeiro Conselho Internacional de Igrejas Congregacionais em 1891’. Ele anunciou sua aceitação do condicionalismo em um escrito perante a União Congregacional de 1874.

“A vida eterna, conforme creio, é a herança dos que estão em Cristo. Aqueles que não estão nele sofrerão a Segunda Morte da qual não haverá ressurreição... Não estou apercebido de que elas [as posições do condicionalismo] tenham prejudicado de alguma maneira a autoridade em meu ensino de qualquer uma das grandes doutrinas centrais da fé cristã. A doutrina da Trindade permanece intocada; a doutrina da encarnação, a doutrina da expiação em seu sentido evangélico, a doutrina da justificação pela fé, a doutrina do julgamento pelas obras e a doutrina da regeneração recebeu, acredito eu, uma nova e mais intensa ilustração com base nessas conclusões.”

(Relatado em ‘Edward White’, His Life and Work [‘Edward White’, Sua Vida e Obra], de Freer, 1902, págs. 354-355.)

Lyman Abbott (1835-1922) foi pastor congregacionalista e editor do Christian Union [União Cristã] e do The Outlook [Panorama]. Ele escreveu:

“Fora dos muros de Jerusalém, no vale da Geena, era mantido perpetuamente aceso um fogo, no qual o refugo da cidade era atirado para ser destruído Este é o fogo do inferno do Novo Testamento. Cristo advertiu seus ouvintes de que a persistência no pecado irá torná-los refugo para ser lançado fora da cidade santa, para ser destruído. O verme que não morria era o verme devorador das carcaças, e é também claramente um símbolo, não de tortura, e sim de destruição.”

“O conceito de que a punição final do pecado é a continuação no pecado e sofrimento também se baseia em parte, segundo me parece, numa falsa filosofia do homem. Esta filosofia é que o homem é por natureza imortal. Aumentou minha convicção, que segundo o ensinamento tanto da ciência como da Bíblia, o homem é por natureza um animal, e como todos os outros animais mortais, essa imortalidade pertence unicamente à vida espiritual, e essa vida espiritual é possível somente na comunhão e contato com Deus; que, em suma, a imortalidade não foi conferida à raça na criação à revelia, mas é conferida na redenção, sobre todos os da raça que escolherem a vida e a imortalidade por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor.”

(That Unknown Country [Essa Terra Desconhecida], 1889.)

Heinrich Hermann Schultz (1836-1903), teólogo protestante alemão, professor em Basileia e Göttingen, pregador universitário principal, conselheiro do Consistório Estatal da Igreja de Hanover e abade em Bursfelde:

“Se, portanto, qualquer ser que não seja Deus tem vida, e especialmente se essa vida for indestrutível, isso só pode ser em virtude de alguma relação com Deus. Todos os seres no universo, visíveis e invisíveis, estão em relação com Deus como criaturas com seu Criador. O homem não é exceção; sua vida não é inerente: ela é derivada, e, portanto, pode ser destruída. O que Deus criou não pode ser uma parte de Deus e, consequentemente, não pode ter em si a fonte da vida. A criatura deve, portanto, estar sempre dependente dessa fonte divina para a continuação de sua vida, e ela não pode ser essencialmente imortal, muito embora sua vida seja prolongada pela eternidade por um poder fora de si mesma.”

(Die voraussetzungen der christlichen lehre von der Unsterblichkeit [Os Princípios da Doutrina Cristã da Imortalidade], Göttingen, Alemanha, 1861, pág. 414.)

Repetindo este conceito vinte anos depois, ele escreveu:

Gottingen, 9 de dezembro de 1881.

J. H. Pettingell.

Prezado Senhor. – Lamento dizer-lhe que nem meu tempo livre nem meu conhecimento do idioma inglês me permitem atender seu pedido. Eu só posso dizer em poucas palavras que a minha opinião atual quanto à “imortalidade condicional” é a mesma que era em 1861, quando publiquei meu livro, “Die Voraussetzunger der Christlichen Lehre von der Unsterbtichkeit.”*

* Os Princípios da Doutrina Cristã da Imortalidade

Estou bem certo de que a opinião comum sobre esta doutrina não é derivada de origens cristãs, e sim dos dogmas da filosofia grega que tornaram Deus e o mundo iguais, e, naturalmente, encontrariam a fonte da vida divina e imortal na natureza, especialmente na natureza do homem. O Evangelho, ao ensinar-nos que não há vida a não ser pela vontade de Deus, obriga-nos a pensar que não pode haver vida eterna, mas apenas em Deus e naquelas naturezas que a recebem dele.

Quando Deus fez o homem à Sua imagem e herdeiro da imortalidade, Ele lhe deu uma alma superior às leis de destruição que reinam nas coisas naturais, e capaz de Sua própria vida. Mas Ele não concedeu [ao homem] ter vida em si mesmo, separado de seu Criador.

Ele tornou o homem herdeiro da própria vida imortal de Deus, mas na condição de ele permanecer ligado ao seu Senhor em amor e obediência (a árvore da vida no Éden). Mas o homem na sua separação pecaminosa de Deus não tem esta vida. Ele está entregue à morte, e somente por sua salvação, ou seu julgamento ele foi dotado com uma vida transitória.

Apenas um dos homens tem vida em si mesmo – o Filho de Deus – em quem Ele se agradou residir com toda a Sua verdade e amor. Somente por meio dele, e salvos por Ele, podemos aceitá-la e tê-la como nossa propriedade. Quem tiver o amor de Deus passou da morte para a vida.

Quem ainda não aceitou a misericórdia de Deus tem vida transitória, tanto quanto essa pessoa seja capaz de salvação ou julgamento. Quando ele é salvo ele ganha a vida imortal – nesta vida ou no futuro.

Quem estiver separado para sempre do amor de Deus em Cristo está no domínio da morte. E se ele permanecer em existência para sempre, isso não seria por sua própria natureza, mas apenas à base do terrível julgamento de Deus. Mas o Evangelho nos ensina que haverá a Segunda Morte, e que Deus dará ao réprobo, com o inferno, a morte e o diabo, às chamas eternas de Sua ira – isto é, que Ele vai destruí-los como o fogo destrói a palha e a madeira jogadas nele. Isso é o que eu penso ser a doutrina do Evangelho, e estou contente em saber que essa doutrina está agora se espalhando rapidamente nos países cristãos.

Sinceramente,

H. Schultz.

(“Uma Carta – do Professor HERMANN SCHULTZ, Göttingen, Alemanha”, em  The Life Everlasting [A Vida Eterna], John Hancock Pettingell, 1883, págs. 737, 738.)

Emmanuel Pétavel-Olliff (1836-1910), pastor protestante suíço e erudito bíblico. Ele escreveu:

"Sem dúvida, o espírito de Deus dá ao homem sua força vital; mas isso não quer dizer que a criatura faz parte do Criador, e por conta disso possui a imortalidade do próprio Deus. A alma criada teve um princípio; pode, portanto, chegar a um fim; ela chegará a um fim a menos que um propósito expresso do Criador perpetue sua existência."

(The Problem of Immortality [A Questão da Imortalidade], 1892, pág. 53.

Robert Baker Girdlestone (1836-1923), clérigo anglicano e erudito em hebraico. Ele foi chefe do departamento de tradução da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira:

“Quando o escritor da Epístola aos Hebreus diz que a palavra de Deus penetra “na divisão da alma e do espírito” (Hebreus 4:12), e quando São Paulo ora para que o “espírito, alma e corpo” de seus convertidos sejam plenamente conservados irrepreensíveis (1 Tessalonicenses 5:23), esboça-se uma divisão psicológica da parte imaterial da natureza humana que é exatamente similar ao que encontramos percorrendo todo o A.T. A Bíblia segue na suposição de que há duas esferas da existência, que podem ser chamados mente e matéria; ela nos diz que a chave para o mistério do universo deve ser encontrada, não na substância material da qual ele é composto, nem nas agências ou influências que causam os fenômenos da natureza que sucedem um ao outro em sequência regular, e sim num Mentor Supremo, que planeja todas as coisas com a sua sabedoria, e as sustenta pelo seu poder. As Escrituras trazem o mundo imaterial para bem próximo de cada um de nós; e enquanto todos nós somos apenas muito conscientes da nossa relação com as coisas transitórias e físicas, o Registro Sagrado lembra-nos, em todas as páginas, que somos o produto da absoluta e imutável Fonte de toda a existência. Um homem sente-se, às vezes tentado a dizer: ‘acreditarei apenas no que vejo’; mas o primeiro sopro de vento ou o primeiro choque de eletricidade diz que ele deve ampliar seu credo. Se ele ainda avançar pouco, por afirmar sua fé somente nas forças que afetam a matéria, ele será confrontado com o fato de que a matéria que compõe o corpo humano torna-se, por essa própria circunstância, sujeita a forças e influências para as quais qualquer outra matéria é desconhecida. Ele encontra um mundo no interior, assim como um mundo exterior, e ele é obrigado a reconhecer que seu corpo físico é a casa de um ser extra físico, que ele chama de ego e que é, por outro lado, um recipiente de conhecimento e sentidos obtidos através da instrumentalidade do corpo, e por outro lado um agente originando ou gerando uma força que se diz estar no mundo exterior.

É em relação a esta vida interior e seu funcionamento que o homem é o filho de Deus. Sua estrutura é de terra, nascido da terra, aliado com toda a existência física, e sujeito às leis da luz, calor, eletricidade, gravitação, e como tal, tanto quanto seja a quantidade de átomos de matéria vegetal ou mineral. Mas a existência imaterial que permeia essa estrutura, investe-a com a consciência, inundando-a com sensibilidade, iluminando-a com compreensão, permitindo-lhe planejar, prever, querer, governar, fazer leis, simpatizar, amar – Este ego, este pulso de existência, este núcleo de sentimento, pensamento e ação, é um raio de sol do céu, um habitante de uma esfera imaterial do ser, ordenado por Deus, seu Pai para viver, crescer e se desenvolver dentro do tabernáculo [tenda, ou barraca] da carne.

O equivalente hebraico para a palavra ‘alma’ é Nephesh (נֶפֶש), que corresponde a ψυχή no grego. O verbo cognato Naphash, para revigorar, encontra-se em Êxodo 23:12; Êxodo 31:17 e 2 Samuel 16:14. Nephesh tem várias nuanças de sentido e de tradução, que devem ser agregadas tanto quanto possível sob uma ou duas palavras-chave. A alma é, propriamente falando, o princípio animador do corpo, e é a propriedade comum de homens e animais. Assim, em Lev. 24:18, lemos: “Aquele que matar um animal fará restituição por ele; besta por besta’; isto é literalmente, ‘Quem ferir a alma de um animal deve compensá-lo; alma por alma.’ É também usado com relação a animais inferiores em Gen 1:21; 1:24; Gênesis 2:19; 9:10, 12, 15, 16, e em Lev. 11:46; sendo traduzido como criatura nestes trechos.

Em alguns trechos no Pentateuco, nephesh foi traduzido como ‘alguém’; a palavra é, portanto, usada num sentido indefinido, a alma representando a pessoa, como quando falamos de uma cidade contendo tantos milhares de ‘almas’. Porém, talvez estejamos errados se atribuirmos um sentido indefinido à palavra nas Escrituras. Seguem-se exemplos que podem habilitar-nos a decidir a questão: – Lev. 2:1, 'Quando alguém (lit. “uma alma”) for oferecer uma oferta de cereais’; Lev. 24:17: ‘Aquele que matar algum homem’, lit. ‘quem ferir alguma alma de homem’ – a alma representando a vida; Núm. 19:11: ‘Aquele que tocar o cadáver de algum homem, será imundo sete dias’, lit. ‘aquele que tocar a (parte) morta de alguma alma de um homem, será imundo sete dias’; versículo 13, ‘Quem tocar em algum morto, cadáver de algum homem’, lit. ‘a (parte) morta de uma alma de um homem que morreu’ ‘e não se purificar contamina o tabernáculo do Senhor’; 31:19, ‘quem de vós tiver matado alguma pessoa’, lit. ‘quem de vós tiver matado uma alma’; veja também Num. 35:11, 15, 30. Em todos estes trechos um corpo morto é considerado como aquilo que seria adequadamente animado pela alma, mas, devido à lei pelo qual o homem tem de voltar ao pó, a cena que se vê é de um corpo sem alma, e desta forma um objeto que (representando o pecado) deve ser considerado como cerimonialmente impuro.

Esta ideia é corroborada por outros trechos onde se fala sobre contato com os mortos. Assim, Lev. 21:11, ‘não se chegará a cadáver algum’, é, literalmente, ‘nem se chegará a alguma alma morta’; assim Num. 6:6: ‘não se aproximará de qualquer alma morta’; veja também o cap. 9:6, 7, 10, onde ‘corpo morto’ é literalmente ‘alma’, a ideia de morte sendo entendida do contexto. O mesmo é o caso em Num. 5:2, ‘os imundos por causa de contato com algum morto’, lit. ‘com alguma alma’; e 6.11, ‘do que pecou relativamente ao morto’, lit. ‘com respeito à alma.’

Em Salmos 17:9, ‘inimigos mortais’ são literalmente ‘inimigos da minha alma ou vida’. Em Jó 11:20, ‘desistir do fantasma’ é ‘o expirar da alma’. Assim também em Jer. 15:9, a tradução literal é ‘ela expirou a alma.’

A alma é, portanto, a fonte de animação para o corpo; em outras palavras, é a vida, seja de homem ou de animal. Assim, Nephesh é traduzido como ‘vida’ em Gênesis 19:17; Gênesis 19:19, onde lemos sobre a vida de Ló sendo salva; Gênesis 32:30: ‘Vi Deus face a face, e a minha vida foi preservada’; Genesis 44:30, ‘sua vida está ligada com a vida do rapaz’; Êxodo 21:23 ‘darás vida por vida’;, versículo 30, ‘Ele dará pelo resgate da sua vida tudo o que for colocado sobre ele.’

Em Deut. 24:7, lemos: ‘Se um homem for encontrado roubando alguém (lit. ‘uma alma’) de seus irmãos’, etc.; assim também em Eze. 27:13, ‘Eles comercializavam as pessoas (lit. ‘as almas’) dos homens.’ Pelo uso da palavra Nephesh aqui a maldade da prática de tratar os homens como se fossem bens e haveres a serem comprados e vendidos é reprovada. Este é, sem dúvida, o crime mencionado em Apocalipse 18:13. Não se deve, porém, colocar muita ênfase no fato de a palavra alma ser mencionada nestes lugares. Talvez a palavra ‘pessoa’ no sentido em que falamos de uma ofensa contra a pessoa de um homem ou de uma lesão corporal, seja o real significado nesses trechos. Esta tradução foi adotada em Gen. 14:21; Lev. 27:2 (onde se faz referência tanto a homens como a animais); Núm. 5:6; 19:18 e Eze. 16:5 (onde talvez a palavra ‘alma’ estaria melhor). Uma tradução semelhante é ser, que é encontrada em Lev. 11:43, ‘Não vos façais (lit. ‘vossas almas’) abomináveis, por nenhum réptil que se arrasta, nem neles vos contamineis’; 1 Reis 19:4, ‘ele pediu para si (ou com respeito à sua alma) a morte.’ É usado figurativamente neste sentido, em Isa. 5:14, ‘Portanto o inferno grandemente se alargou’ (lit. ‘sua alma’).

A ênfase que se dá à palavra alma em Gen. 27:31, e outros, ‘Para que a tua alma me abençoe’ é notável, e talvez possa ser explicada de acordo com os trechos referidos acima. A bênção, apesar de ter saído da boca veio do homem vivo, – de seu ser pessoal.

Em hebraico, assim como na maioria dos outros idiomas, o derramamento do sangue de um homem era uma frase usada para representar a tomada de sua vida, pois ‘o sangue é a vida’ nesta frase repetida muitas vezes (por exemplo; Lev. 17:11, 14) vemos que o sangue é (ou seja, representa) ‘a alma’; e se um fluir para fora do corpo, a outra desaparece também. Em Prov. 28:17, lemos literalmente, ‘O homem que pratica a violência ao sangue de uma alma fugirá para a cova’; assim como em Eze. 33:6, ‘se a espada vier e tirar uma alma’ (‘pessoa’, Versão Autorizada [Rei Jaime]) dentre eles, o seu sangue requererei da mão do atalaia’; Jonas 1:14, 'Não pereçamos pela vida deste homem, e que não se ponha sobre nós o sangue inocente.’

Esta identificação mística do sangue e da vida é de grande interesse levando-se em conta a obra expiatória de Cristo. Somos informados que Ele derramou sua alma na morte, e que Ele derramou o seu sangue para a remissão dos pecados. Evidentemente, o derramamento do sangue foi o sinal externo e visível da separação da alma do corpo na morte; e essa separação resultou num sacrifício voluntário oferecido pelo Filho Divino, de acordo com a vontade do Pai, foi o meio de por de lado o pecado.

Mas a Nephesh ou alma é algo mais do que o simples princípio animador do corpo; no mínimo, se for considerada sob esta luz, um conceito ampliado deve ser inferido desta organização misteriosa que chamamos de corpo, e ela deve incluir os apetites e desejos. A palavra é traduzida como ‘apetite’ em Prov. 23:2 e Ecle. 6:7. Compare com as palavras de Israel, ‘nossa alma tem fastio deste pão tão vil’, Num. 21:5. Outros trechos em que se apresenta uma ideia semelhante são os seguintes: –

Ecle. 6:9, ‘Melhor é a vista dos olhos do que o vaguear da cobiça’ (lit. ‘da alma’).
Isaías 56:11, ‘Cães gulosos’ (lit. ‘cães de alma e apetite fortes’).
Hab. 2:5, ‘Ele dilata como o Cheol o seu desejo, e é como a morte que não se pode fartar.’
Miquéias 7:3, ‘Os poderosos contam como vão satisfazer os seus maus desejos.’
Jer. 22:27; 44:14, ‘Jamais retornarão à terra à qual anseiam voltar.’
Jui. 18:25, ‘homens de ânimo mau’ (lit. ‘amargos da alma’).
1 Sam. 22:2, ‘homem de espírito desgostoso’ (lit. ‘amargo da alma’).
Exo. 15:9, ‘Deles satisfar-se-á o meu desejo (i. e. alma).’
Sal. 78:18, ‘Tentaram a Deus nos seus corações, pedindo comida segundo o seu apetite.’
Sal. 105:22, ‘para instruir os seus oficiais como desejasse.’
Deut. 23:24, ‘poderão comer as uvas que desejarem.’
Deut. 21:14, ‘deixe-a ir para onde quiser.’
Sal. 27:12; 41:1, ‘Não me entregues ao capricho dos meus adversários.’
Eze. 16:27, ‘eu a entreguei à vontade das suas inimigas’

Nephesh é também traduzido como mente e coração em vários lugares onde estas palavras são utilizadas no sentido de desejo e inclinação. Assim, Gen. 23:8, ‘Se é de vossa vontade que eu sepulte a minha morta’; 2 Reis 9:15, ‘Se é da vossa vontade, ninguém saia da cidade’; Deut. 28:65, ‘coração angustiado’; 1 Sam. 2:35, ‘um sacerdote fiel, que procederá segundo o que tenho no coração e na mente’; Eze. 36:5, ‘menosprezo da alma.’

Em uns poucos trechos onde Nephesh foi traduzido como coração, o significado é evidentemente o mesmo que nos últimos trechos citados, ou seja, desejo e inclinação. Assim, Exo. 23:9, ‘vós conheceis o coração (ou seja, a natureza, sentimentos ou desejos) do estrangeiro’; Lev. 26:16, ‘tristeza de coração’ (lit. ‘definhamento de vida ou desejo’); Deut. 24:15, ‘Ele põe o coração nisso’, isto é, ele deseja isso; compare Ose. 4:8; 2 Sam. 3:21, ‘Tudo o que o teu coração deseja’; Sal. 10:3, ‘O ímpio gloria-se do desejo do seu coração’; veja também Prov. 23:7, 27:9, 28:25, e Eze. 25:6,15. Em Jer. 42:20, e Lam. 3:51, coração significa ‘o ser’, como nos trechos já considerados.

Em Jó 41:21, Nephesh foi traduzido como fôlego; em Isaías 19:10, nós a encontramos traduzida como peixe, e em Isa. 3:20, encontra-se a tradução ainda mais estranha frascos de perfume. No segundo trecho, em vez de ‘lagos para peixes’, críticos modernos costumam traduzir pelas palavras ‘aflitos na mente’; e no último supõe-se que um perfume doce desejável seja o significado.

Todas as traduções de Nephesh já foram mencionadas, exceto a mais comum de todas, ou seja, alma. Onde quer que esta palavra ocorra na Versão Autorizada [Rei Jaime], ela corresponde a Nephesh, exceto em Jó 30:15, onde se usa outra palavra (נְדִבָתִ֑י), que pode ser traduzida como liberdade ou nobreza, e em Isa. 57:16 (‘as almas que fiz’), onde a palavra neshamah (נְשָׁמָה) provavelmente significa um ser que respira.

Se alguém perguntar o que é a alma, a resposta, segundo o A.T., é que a alma é o centro pessoal do desejo, inclinação e apetite, e que a condição normal dela é estar operando em ou por meio de uma organização física, seja humana ou outra. Assim, quando lemos que o homem ou Adão tornou-se uma alma vivente (Gen. 2:7), devemos entender que a estrutura que tinha sido moldada do pó tornou-se a habitação e, até certo ponto, a serva de um ego ou centro de desejo ou apetite. Quando a alma parte (Gen. 35:18), o corpo fica desocupado, e o ego que se desenvolveu com o desenvolvimento do corpo em meio às circunstâncias da vida terrestre é desalojado da sua morada. Ele pode, todavia, retornar novamente ao seu antigo lar por meio da operação de Deus, como foi o caso do filho da viúva (1 Reis 17:21).

O fato de que os desejos aos quais a alma dá à luz são frequentemente contra a vontade de Deus fixam o pecado na alma; assim lemos, ‘se uma alma pecar’, etc.; e a consequência para a alma é a morte – ‘a alma que pecar, essa morrerá’, Eze. 18:4. Daí a necessidade de expiação para a alma (Lev. 17:11), e de sua conversão ou restauração a uma vida de conformidade com a lei de Deus (Sal. 19:7; 34:22). De acordo com a lei de substituição, o Messias havia de dar a Sua alma como uma oferta pelo pecado, e derramá-la até a morte (Isa. 53:10, 12), mas ele não haveria de ser deixado entre os mortos (Sal. 16:10); e a ressurreição do Salvador provê uma firme base para a confiança de que Deus responderá à oração do penitente, ‘sara a minha alma, pois pequei contra ti.’

No N.T. ψυχὴν frequentemente significa vida, como em Mateus 2:20, ‘Aqueles que buscam a vida da criança’; Mateus 6:25, ‘Não seja solícito para com a sua vida’ (ou existência animal). Em Mateus 10:28, faz-se uma distinção entre a destruição do corpo, que o homem pode trazer, e a perdição ou ruína da alma na Geena, que só Deus pode causar. Às vezes parece haver um jogo com a palavra, como quando o Salvador diz ‘aquele que perder sua vida ou alma (no sentido comum da palavra) a achará’ (em um sentido novo e mais elevado), Mat. 10:30; 16:25. Ao descrever sua missão, nosso Senhor disse claramente que Ele veio dar a sua alma ou a vida em resgate por muitos (Mat. 20:28). Em Mat. 22:37, o Senhor, citando Deut. 6:5, diz, ‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração (ou sentimento), e de toda a tua alma (ou desejo), e de todo o teu pensamento (ou capacidade de apreciação). Em João 10:24, lemos, ‘Até quando nos deixarás em dúvida?’, mas uma tradução mais literal e ao mesmo tempo melhor seria ‘Até quando deixarás as nossas almas em suspense?’ (Ἕως πότε τὴν ψυχὴν ἡμῶν αἴρεις).

Em Atos 2:27, Pedro cita o Salmo (16:10), ‘Não deixarás a minha alma no Hades.’ Este trecho certamente, pode ser entendido como significando, ‘Pois não deixarás o meu cadáver na sepultura’; mas está bem mais de acordo com o uso das duas importantes palavras alma e Hades entendermos que o princípio animador, o ego de nosso Salvador não deveria ser consignado ao mundo inferior como um lugar permanente de moradia.

No que se referee a outros trechos, pode ser suficiente dizer que a palavra alma é usada no Novo Testamento no mesmo sentido do Antigo, mas que há uma maior predominância de trechos no Novo em que ela recebe o sentido mais profundo, o ego ou lugar do desejo e inclinação e da vida oculta, que é redimida pela fé em Cristo (Heb. 10:39).”

(Synonyms of the Old Testament [Sinônimos do Antigo Testamento], Longmans, Green and Co., Londres, 1871, págs. 92-100.)

Ethelbert William Bullinger (1837-1913), clérigo anglicano britânico, erudito bíblico e teólogo. Foi secretário da Sociedade Bíblica Trinitária (cargo que manteve até sua morte). Bullinger foi também o editor principal da The Companion Bible:

2 – άδης, HADES. Esta é uma palavra pagã e chegou até nós cercada de tradições pagãs, que tiveram sua origem em Babel, e não na Bíblia, e chegaram até nós por meio do judaísmo e do romanismo.

Como Hades (uma palavra de origem humana) é usada no Novo Testamento, é a equivalente do hebraico sheol (uma palavra de origem divina), seu significado pode ser extraído, não da imaginação humana, e sim a partir de seu uso divino no Antigo Testamento. Se sabemos isto, sabemos tudo o que se pode saber. Assim, fornecemos uma lista completa de todas as suas sessenta e cinco ocorrências no Antigo Testamento. Damos a lista completa com base na V[ersão] A[utorizada], com as variações da V[ersão] R[evisada]; chamando atenção para o fato de que a V[ersão] R[evisada] americana não traduz a palavra em lugar algum, mas simplesmente a translitera assim: “Sheol”.

Daí, após enumerar todos os 65 usos de Sheol no Antigo Testamento, Bullinger prossegue:

Num exame cuidadoso da lista acima, alguns fatos se destacam de maneira bem clara.

(i.) Observa-se que na maioria dos casos Sheol é traduzida como “sepultura”. Para ser exato, 54 por cento: enquanto “inferno” é 41 ½ por cento; e “poço” apenas 4 ½ por cento.

Portanto, com base na lista acima, sepultura destaca-se como a tradução melhor e mais comum.

(ii.) No que se refere à palavra “poço”, pode-se observar que, em cada um dos três casos em que ela ocorre (Num. 16:30, 33 e Jó 17:16), é tão evidente que o sentido é sepultura que podemos banir “poço” de nossa consideração e substituí-la por sepultura como a tradução de Sheol.

(iii.) Quanto à tradução “inferno”, ela não representa Sheol, porque tanto pela definição do dicionário como pelo uso coloquial “inferno” significa, o local da punição futura. Sheol não tem esse significado, mas denota o atual estado da morte. “Sepultura” é, portanto, uma tradução muito mais adequada, porque ela visivelmente nos sugere o que é invisível para a mente, a saber, a condição da morte. Ela [a palavra inferno] é, necessariamente, enganosa para o leitor [dum idioma moderno] fazendo-o ver a primeira representando o último.

(iv.) O estudante descobrirá que “sepultura”, tomada literalmente, bem como figurativamente, satisfaz todas as exigências do Sheol hebraico: não tanto por Sheol significar especificamente Uma sepultura, como também por significar genericamente a sepultura.

As Escrituras Sagradas são absolutamente suficientes para explicar a palavra Sheol para nós.

(v.) Se nós inquirirmos isso na lista das ocorrências da palavra Sheol, acima, ela ensinará

(a) que, quanto à direção ele está para baixo.

(b) que quanto a lugar, ele está na terra.

(c) que, quanto à natureza ele é apresentado como o estado da morte. Não o ato de morrer, para o qual não temos qualquer palavra em inglês, e sim o estado ou a duração da morte. Os alemães são mais afortunados, tendo a palavra sterbend para o ato de morrer.

Portanto, Sheol significa a condição de morte; ou a condição dos mortos, da qual a sepultura é uma evidência tangível. Ele tem relação unicamente com os mortos. Ele pode, às vezes, ser personificado e representado como falando, assim como outras coisas inanimadas são. Ele pode ser representado por uma palavra cunhada, Gravedom, no sentido de domínio ou o poder da sepultura [“grave”, em inglês].

(d) Quanto a ele estar em contraste em relação à condição dos vivos, veja Deut. 30:15, 19 e 1 Sam. 2:6-8. Nem uma vez sequer ele é associado com os vivos, exceto por contraste.

(e) Quanto à associação, ele é usado em conexão com

luto (Gen. 37:34-35),

tristeza (Gen. 42:38; 2 Sam. 22: 6; Sal. 18:5; 116:3),

medo e terror (Num. 16:27, 34),

choro (Isa. 38: 3, 10, 15, 20),

silêncio (Sal 31:17; 6:5; Ecle. 9:10.),

ausência de conhecimento (Ecle. 9:5-6, 10),

punição (Núm. 16:27, 34; 1 Reis 2:6, 9; Jó 24:19; Sal. 9:17, R.V., RE-tornou, como antes de sua ressurreição).

(f) E, finalmente, quanto à duração, o domínio de Seol ou sepultura continuará até, e terminará somente com a ressurreição, que é a única saída dele (veja Ose. 13:14, etc.; e compare Sal. 16:10 com Atos 2:27, 31; 13:35).

Agora, se as onze ocorrências de Hades no Novo Testamento forem examinadas cuidadosamente, chegaremos às seguintes conclusões:

(a) Hades é invariavelmente associado com a morte; mas nunca com a vida: sempre com pessoas mortas; mas nunca com os vivos. Todos no Hades “NÃO VIVERÃO NOVAMENTE” até que sejam ressuscitados dentre os mortos (Rev. 20:5). Se eles não “vivem novamente” até que sejam levantados, é perfeitamente claro que eles não podem estar vivos agora. Caso contrário, eliminaríamos completamente a doutrina da ressurreição.

(b) Que a palavra “inferno” de modo algum representa a palavra grega Hades; pois já vimos que ela não dá uma ideia correta de seu equivalente hebraico, Seol.

(g) Que Hades pode significar apenas e exatamente o que Sheol significa, a saber, o lugar onde a “corrupção” é vista (Atos 2:31; compare com 13:34-37); e do qual a ressurreição é a única saída.

(A Critical Lexicon and Concordance to the English and Greek New Testament [Léxico e Concordância Crítica Para o Inglês e Grego do Novo Testamento], Kregel Publications, Grand Rapids, Michigan, EUA, publicado originalmente em 1908, págs. 367-369 [da edição de 1999]).

Joseph Agar Beet (1840-1924) foi professor wesleyano. Ele declarou:

“As páginas que seguem são... um protesto contra uma doutrina que, durante longos séculos, tem sido quase universalmente aceita como verdade divina ensinada na Bíblia, mas que me parece completamente alheia a ela, tanto na fraseologia como no pensamento, e derivada unicamente da filosofia grega. Até tempos recentes, esta doutrina estranha tem sido relativamente inofensiva. Mas, como mostrei aqui, ela está agora produzindo resultados mais graves...”

“Naturalmente, será dito sobre esta e sobre algumas outras doutrinas, que, se não são explicitamente ensinadas na Bíblia, estão subentendidas e presumidas lá ... Esses que reivindicam a autoridade de Deus para seu ensino têm de provar que vem dele. Tal prova, neste caso, eu nunca vi.”

(Last Things – Preface to The Immortality of the Soul: A Protest [As Últimas Coisas – Prefácio à Imortalidade da Alma: Um Protesto], 5ª Ed., 1902.).

James Orr (1844–1913) ministro presbiteriano escocês e professor de história da igreja e teologia:

A Bíblia, como logo veremos, não sabe nada sobre uma imortalidade abstrata da alma, como as escolas falam dela; nem é sua Redenção uma Redenção da alma apenas, mas do corpo também. É uma Redenção do homem em toda a sua personalidade complexa — corpo e alma juntos. Foi no corpo que Cristo ressuscitou dentre os mortos; no corpo que ele ascendeu ao céu; no corpo que ele vive e reina lá para sempre. É a promessa dele que, se ele vive, nós também viveremos; e esta promessa inclui uma garantia da ressurreição do corpo. A verdade subjacente a isto é que a morte para o homem é um efeito do pecado. Não estava no propósito original do Criador para o homem que ele devesse morrer, — que essas duas partes componentes de sua natureza, corpo e alma, deveriam ser violentamente interrompidas e cortadas, como a morte agora as corta. A morte é um fato anormal na história da raça; e a Redenção é, entre outras coisas, a anulação desse mal, e a restauração do homem à sua completude normal como um ser pessoal.

... Assim, a verdadeira doutrina bíblica da imortalidade, penso eu, inclui os seguintes pontos:

1. Ela repousa sobre a doutrina bíblica da natureza humana. Segundo a Bíblia, e de acordo com os fatos, o homem é um ser composto — não, como Deus e os anjos, um espírito puro, e sim um espírito incorporado, um ser feito de corpo e alma. A alma, é verdade, é a parte superior da natureza humana, a sede da personalidade e da vida mental, moral e espiritual. Porém, ela é destinada e adaptada para a vida no corpo, e o corpo e a alma juntos fazem o homem — o ser humano completo.

2. Não fazia parte do propósito do Criador para o homem em sua constituição ideal que corpo e alma devessem ser separados. A imortalidade que o homem deveria desfrutar era uma imortalidade em que o corpo teria sua parte. Esta é a verdade profunda no ensinamento da Bíblia quando ela diz que, com referência ao homem, a morte é o resultado do pecado. Se o pecado não tivesse entrado, deveríamos supor que o homem — o homem completo — teria desfrutado da imortalidade; até mesmo seu corpo, suas energias reabastecidas de forças vitais de dentro, sendo isento de decadência, ou pelo menos não decaindo até que uma habitação nova e mais espiritual para a alma tivesse sido preparada. Com a entrada do pecado e a saída da santidade da alma, esta condição cessou, e o corpo caiu, como parte da natureza geral, sob a lei da morte.

3. A alma em separação do corpo está em um estado de imperfeição e mutilação. Quando um ser humano perde um de seus membros, nós o consideramos um ser mutilado. Se ele perdesse todos os seus membros, nós o consideraríamos ainda mais mutilado. Assim, quando a alma está totalmente desnudada do seu corpo, ainda que a consciência e a memória permaneçam, ela ainda deve ser considerada — e na Bíblia é considerada — como subsistindo numa condição imperfeita, uma condição de vida enfraquecida, poderes diminuídos, capacidades restritas de ação —em suma, um estado de privação. O homem cuja vida está escondida com Cristo em Deus, sem dúvida, com essa vida reterá a bem-aventurança que lhe pertence, mesmo no estado de separação do corpo — ele estará “com Cristo, que é muito melhor”; mas ainda é verdade que, enquanto permanecer nesse estado desencarnado, ele deseja uma parte de si mesmo, e não pode ser perfeitamente abençoado, como será depois que seu corpo, em forma renovada e glorificada, for restaurado.

4. O último ponto, portanto, na doutrina bíblica é que a verdadeira imortalidade é por meio da Redenção, e que esta Redenção abrange a Ressurreição do corpo. É uma Redenção completa, uma Redenção do homem em toda a sua personalidade, e não simplesmente de uma parte do homem. Este é um assunto que será considerado depois. É suficiente para o momento ter demonstrado que as doutrinas bíblicas da natureza do homem, da conexão entre o pecado e a morte, da Redenção e da verdadeira imortalidade, se unem e formam uma unidade — são de uma peça completa.

(The Christian View of the God and the World, as Centring in the Incarnation, [O Conceito Cristão de Deus e o Mundo, Centrado na Encarnação] Nova Iorque, EUA: Anson D. F. Randolph and Co., 1893. págs. 229-233).

Johan Wilhelm Personne (1849-1926), teólogo e bispo luterano sueco, e também tradutor e comentarista bíblico.  Ele considerava a Bíblia como o ‘padrão determinante eterno’ e criticava conceitos e dogmas que não se ajustassem ao conteúdo dela. Em harmonia com isso, numa “carta pastoral” ele disse, entre outras coisas:

“No que se refere a estes nossos escritos confessionais, há uma doutrina muito importante, que é abordada de maneira muito breve, vaga e insatisfatória. Eu quero dizer a doutrina sobre a condição dos mortos, e em geral a doutrina das últimas coisas. Esta foi, e ainda é, o ponto mais fraco dos escritos confessionais luteranos. Isto é devido ao temor que os reformadores tinham da doutrina romana do purgatório e da indulgência. Em vista disso, as apresentações “ortodoxas” em relação à condição dos mortos e as últimas coisas são muito ambíguas. Eu entendo que ainda é “ortodoxo” ensinar que o destino do homem é decidido quando ele morre, de modo que daí ele vai [imediatamente] para o céu ou para o inferno. A doutrina de um estado intermediário entre a morte e o julgamento final ainda é realmente considerada herética. Mas como devemos considerar de maneira “ortodoxa” o julgamento final? Devem os espíritos dos mortos ser convocados juntos do céu e do inferno para serem revestidos com seus corpos e julgados novamente? Pois eles já receberam seu julgamento final por ocasião da morte, de acordo com a velha doutrina “ortodoxa”.

... “É evidente que temos de pensar em um estado intermediário entre a morte e o julgamento, o que a Bíblia ensina claramente, a saber “Hades” ou “Reino da morte”... Se haverá ordem ou razão nesta doutrina – e isso nós, luteranos, tanto clérigos como leigos, temos o direito de exigir – então nossos escritos confessionais sobre este ponto devem ser considerados alterados de acordo com os ensinamentos da antiga [igreja. Indiretamente isso começou vinte e oito anos atrás [1883], quando no Novo Testamento e na confissão apostólica da fé, a velha tradução luterana incorreta de “Hades” por “inferno” foi alterada para a tradução correta, “reino da morte”.”

... “Para mim, é inexplicável como é que uma pessoa que tenha esse conceito ‘ortodoxo’ pode ter algum momento feliz nessa vida. Ele está constantemente em contato com pessoas cujo destino final, [acredita ele] será a de serem atormentados eternamente; e, se ele vive numa grande comunidade, ele ouve quase diariamente os sinos da igreja anunciarem – de acordo com seu conceito ‘ortodoxo’ – que uma alma humana foi lançada em meio ao tormento eterno, sem fim. Para mim, é ainda mais inexplicável que tal pessoa ‘ortodoxa’ possa esperar ter um só momento feliz na eternidade, quando  ao mesmo tempo em que ela própria está numa condição abençoada, prossegue o tormento sem fim e a agonia de inumeráveis ​​milhões de condenados. Pode tal pessoa, se ama o seu próximo como a si mesma, ter até mesmo um único momento feliz? Pois, segundo essa doutrina de uma pessoa ‘ortodoxa’, a morte seria frequentemente a porta para a condenação eterna e a agonia sem fim para seu parente mais próximo, seus pais, seus irmãos e irmãs, seu cônjuge e seus filhos. Como pode essa pessoa ter um único momento feliz?”

(Til Prästerskapet i Linköpings stift [Ao Clero da Diocese de Linköping], 1910, págs. 20, 21, 24, 25.)

George Waller (1857-1912), reitor anglicano de St. John, the Baptist e St. George’s, Stamford, Inglaterra, filólogo, gramático e erudito em hebraico, grego e latim. Ele escreveu:

“A imortalidade da alma é uma doutrina de origem pagã. Ela era mantida pelos sacerdotes pagãos da Caldéia, Babilônia e Egito, séculos antes da era cristã, e por Pitágoras, o filósofo, que ensinou a pré-existência e a transmigração das almas. Depois dele, isso foi ensinado por Sócrates, filósofo pagão mais célebre; e, depois dele, por Platão e os platônicos, a partir dos quais surgiram algumas das primeiras heresias da igreja cristã dos primeiros quatro séculos. A doutrina da existência da alma ou espírito do homem em felicidade ou miséria após a morte, independentemente do corpo, não se encontra em parte alguma nas escrituras do Antigo ou do Novo Testamento; ao passo que, no Novo Testamento, a ressurreição do corpo é apontada em todos os lugares como a grande esperança central da igreja cristã.

... Com base na citação acima [Gen. 3:19-24], aprendemos que o homem foi criado do pó, um Organismo ou corpo material, perfeito em todas as partes, adaptado para o exercício de todos os poderes e faculdades da mente e do corpo para os quais foi criado, através dos meios dos sentidos, da visão, audição, etc., com que foi dotado, e que estavam no corpo; mas, diferente de todos os animais inferiores, ele foi agraciado com o poder da razão, pelo qual ele seria capaz de conhecer e compreender, e seguir a vontade de seu Criador, quando fosse revelada. Mas este organismo ou corpo estava sem vida, até que ‘Deus soprou nas narinas do homem o fôlego da vida’; então, e só então, a vida e o movimento tornaram-se evidentes em todas as partes, e o homem ‘tornou-se uma alma vivente’, ou pessoa; capaz de exercer todos os poderes da mente e do corpo com o qual Deus havia dotado seu organismo, e teria continuado a usá-los, e para sempre, se não fosse pelo pecado da desobediência, em virtude da qual ele seria privado do uso e exercício perpétuo deles, e teria consciência da terrível sentença de maldição, ao ser expulso do Paraíso do Éden, tendo início a morte e a mortalidade.

... O conceito bíblico da morte, portanto, é uma cessação completa de todos os poderes e faculdades da mente e do corpo, que eram exercidos em um Organismo ou corpo material vivente, quando ‘o pó voltasse à terra como o era; e o espírito’, que é fôlego ou a vida de todos os homens (bons ou maus), ‘voltasse a Deus, que o deu’, Eclesiastes xii:7.”

(The Biblical View of the Soul, [O Conceito Bíblico da Alma], Publicado por Longmans, Green and Co. – Londres, Nova Iorque e Bombaim, 1904, págs. 65, 67, 68.)

Eric Lewis (1864-1948), da Universidade de Cambridge foi missionário no Sudão e na Índia, e declarou os seguintes pontos:

1. Que o homem é mortal. Que a imortalidade não é dele por natureza, e sim uma dádiva de Deus para ele em Cristo, condicionada à fé e obediência, que o penhor da imortalidade, é o Espírito de Deus. E sua imortalidade é aplicada na ressurreição.

2 Que, na morte, a alma do homem, seu organismo físico, morre, e que o homem retorna ao pó.

3. Que na morte seu espírito, que não é uma entidade pessoal à parte de seu corpo, retorna a Deus que o deu, enquanto o próprio homem vai para o sono inconsciente até a ressurreição.

4. Que na ressurreição Deus chama o homem morto de volta à vida, soprando novamente dentro dele o seu Espírito... O corpo da ressurreição, dado aos justos por ocasião da vinda de Cristo, será um corpo espiritual, um corpo glorificado, assim como o seu próprio [o de Cristo] depois da ressurreição dele.

5. Que haverá uma ressurreição para o julgamento, bem como para a vida. Aqueles cujos nomes não forem encontrados escritos no livro da vida serão lançados no lago de fogo, para perecerem definitivamente lá, queimados como a palha. Quanto tempo durará o sofrimento deles, é conhecido por Deus, apenas. O julgamento deles será segundo as ações de cada um. Esta é a ‘segunda morte’, da qual não haverá ressurreição.

(Eric Lewis, Life and Immortality [Vida e Imortalidade], 1949; Christ the First Fruits, [Cristo, as Primícias], pág. 79.)

W. A. Brown (1865-1943) foi do Union Seminary, em Nova Iorque. Ele acreditava que:

“De Israel veio a doutrina da ressurreição, e do advento; da Grécia, a doutrina da imortalidade natural.”

(The Christian Hope [A Esperança Cristã], 1912.)

Frank Selwyn Macaulay Bennett (1866-1947), Reitor da catedral de Chester (de 1920 a 1937) e erudito anglicano:

“Nenhuma doutrina da imortalidade natural da alma tem um lugar legítimo dentro do recinto de nossa fé cristã. É uma doutrina filosófica e não pode pretender fazer parte da verdade revelada.”

(The Resurrection of the Dead [A Ressurreição dos Mortos], Chapman & Hall Londres, 1929, pág. 55).

James Moffat (1870-1944), tradutor da Bíblia e missionário:

“É a alma capaz de alcançar um valor imortal, ou é ela essencialmente imortal? No esquema da fé cristã, pode ela ser aniquilada? É a personalidade uma propriedade imorredoura ou ela é conseguida por meio da obediência à vontade criativa de Deus apenas? As implicações do conceito cristão da fé não são incompatíveis com a última hipótese e é, conforme creio, uma justa questão considerar se o conceito comumente chamado de Imortalidade Condicional poderá ser confirmado no futuro. Ele é contrário ao platonismo, mas não há muita evidência contra ele na mensagem do Cristianismo, como alguns parecem ter como certo”.

(“Hell” [Inferno], Literary Digest, 5 de abril de 1930, pág 22. Não existe qualquer registro de alguma contestação desta declaração, nem de qualquer negação ou modificação dela por parte de Moffatt.)

James Alexander Findlay (1880-1962), pastor metodista inglês e professor de Novo Testamento em Didsbury College (uma instituição metodista afiliada à Universidade de Bristol) durante 30 anos.  Foi também autor de diversos comentários a livros do Novo Testamento. Ele escreveu:

“Quanto mais eu estudo rigorosamente a Bíblia, mais convencido fico de que a doutrina da imortalidade condicional é consistente com a misericórdia, bem como com a justiça de Deus. Ela dá um significado para algumas das palavras mais severas de Jesus, que estamos sempre prontos para explicar como meramente figurativas. Contra todas as diluições das advertências mais solenes de nosso Senhor, eu protesto com todas as minhas forças: devemos levar essas advertências a sério. O “fogo inextinguível” do qual ele falou tantas vezes não é um fogo de tormento, e sim um fogo destrutivo, e é uma realidade terrível.”

(“Is Immortality an Inalienable Possession of Man?” [É a Imortalidade Uma Possessão Inalienável do Homem?] – The British Weekly, 4 de maio de 1933, pág. 84 (coluna intitulada “The Correspondence of Prof. J. Alexander Findlay” [A Correspondência do Prof. J. Alexander Findlay]).

William Temple (1881-1944), arcebispo de Cantuária e primaz da Grã-Bretanha. Ele escreveu:

“[A] doutrina da vida futura envolve[rá] nosso primeiro ato de desembaraçar o autêntico ensinamento das Escrituras clássicas dos acréscimos que rapidamente começaram a obscurecer isso.”

“O homem não é imortal por natureza ou por direito; mas ele é passível de imortalidade e se lhe oferece a ressurreição dos mortos e a vida eterna caso ele receba isso de Deus e nos termos de Deus.”

“Não existem, todavia, muitos trechos [bíblicos] que falam do tormento eterno dos perdidos? Não; até onde chega meu conhecimento, não há um sequer.”

“Afinal de contas, a aniquilação é um castigo eterno embora ela não seja um tormento sem fim.”

“Uma coisa que podemos dizer com confiança: o tormento eterno deve ser descartado. Se os homens não tivessem importado o conceito grego e antibíblico da imperecibilidade natural da alma individual, e daí lessem o Novo Testamento com isso já em suas mentes, eles teriam elaborado, com base nele, uma crença, não no tormento eterno, e sim na aniquilação. É o fogo que é chamado de eterno, não a vida lançada nele.”

“Como pode haver o paraíso para qualquer pessoa enquanto existe inferno, concebido como tormento infindável para alguns? Cada alma supostamente amaldiçoada nasceu para o mundo como filho de uma mãe, e o Paraíso não pode ser um paraíso para ela se seu filho estiver em tal inferno.”

(Drew Lecture on Immortality [Esboço de Palestra sobre Imortalidade], 1931; Nature, Man and God [Natureza, Homem e Deus], 1953; Christian Faith and Life [Fé e Vida Cristãs], 1931; 16ª Edição, 1954; págs. 81, 454, 460 e 472).

Walter Robert Matthews (1881–1973), clérigo anglicano, decano na Catedral de São Paulo (Londres), além de conferencista nas universidades de Harvard e Oxford. Ele escreveu:

“A ideia de que a punição eterna dos ímpios está implícita de alguma maneira na crença na justiça divina parece-me uma das mais estranhas aberrações da mente humana, e a ideia de Calvino de que o inferno manifesta a glória de Deus, por mostrar Sua justiça, não menos do que o céu, por mostrar Sua misericórdia, é uma das mais horrorosas. Estamos então sendo conduzidos por nossos pressupostos fundamentais como Cristãos Teístas para a conclusão do universalismo? Devem todas as almas, no final, ser salvas? Eu não acho que um [destes conceitos] nos seja imposto pelo pensamento de Deus sobre o qual nos apoiamos, na verdade nenhum dos dois conceitos parece-me estar realmente em harmonia com ele. O conceito alternativo para a imortalidade inerente da alma é algum tipo de imortalidade condicional ou conferida. Este conceito parece estar mais de acordo com o pressuposto fundamental do Teísmo e, provavelmente se adequará melhor com o que nós possamos conceber ser a ordem moral do universo. Mas o contraste normalmente esboçado é aquele entre a imortalidade e a ressurreição do corpo. Esta última doutrina, conforme tem sido frequentemente salientado, é o aspecto característico do ensino cristão do Novo Testamento.

(“The Destiny of the Soul” [“O Destino da Alma”], The Hibbert Journal, janeiro de 1930, pág.199 em diante.)

John Baillie (1886-1960), teólogo escocês e ministro da Igreja da Escócia. Foi professor na Universidade de Edimburgo por vinte anos:

“Se rejeitarmos a doutrina [pagã] do mal eterno, então temos de escolher entre as alternativas de sobrevivência condicional e da restauração universal. E esta escolha provavelmente será determinada pelo nosso julgamento de uma única questão. O condicionalista sustenta que a aniquilação completa é o destino natural das almas das quais todo traço da imagem de Deus foi apagado, e pode ser que o condicionalista esteja certo nisto.”

(“And the Life Everlasting,” [E a Vida Eterna], Charles Scribner's Sons, Nova Iorque, EUA, 1933 e Oxford University Press, 1934, págs. 244, 245).

Paul Althaus (1888-1966), teólogo luterano alemão, professor titular de teologia sistemática e prática na Universidade de Göttingen. Ele escreveu:

A esperança da igreja primitiva centrava-se na ressurreição do Último Dia. É isto o que primeiramente chama os mortos para a vida eterna (1 Cor 15; Filipenses 3:21). Esta ressurreição acontece para o homem e não só para o corpo. Paulo fala da ressurreição não ‘do corpo’, mas ‘dos mortos’. Este conceito da ressurreição entende implicitamente a morte como também afetando o homem inteiro...

Nenhuma ênfase, porém, é colocada neste segundo fator, mas somente no primeiro, isto é, que as almas estão realmente vivas e abençoadas já antes da ressurreição. Assim, os conceitos bíblicos originais foram substituídos por ideias do dualismo helenístico, gnóstico. A ideia do Novo Testamento sobre a ressurreição, que afeta o homem total teve de dar lugar à imortalidade da alma. O Último Dia também perde seu significado, pois as almas receberam tudo o que é de importância decisiva, muito antes disso. A tensão escatológica não é mais fortemente direcionada para o dia da Vinda de Jesus. A diferença entre isto e a esperança do Novo Testamento é muito grande.

(The Theology of Martin Luther [A Teologia de Martinho Lutero], Fortress Press, 1966, págs. 413, 414.).

Nathaniel Micklem (1888-1976), teólogo congregacionalista britânico e Doutor em Teologia no Queen's Theological College (Ontário, Canadá). Ele ensinou tanto Antigo Testamento como Novo Testamento na Europa e na América do Norte e também atuou como diretor do Colégio de Mansfield (Inglaterra):

A imortalidade da alma é uma doutrina grega; ela não é bíblica. Os hebreus e os cristãos falavam sobre a ressurreição. Essa é a linguagem, não de sobrevivência, mas de vitória... Pessoas irrefletidas frequentemente supõem que sobreviverão à morte e esperam que, fazendo isso, encontrarão a existência um tanto menos difícil no além-túmulo... Estamos aptos a argumentar que a ressurreição de Cristo, se pudermos crer nela, assegura-nos de nossa própria sobrevivência. Mas isso é enxergar na ressurreição de Cristo pouco mais do que o retorno de Lázaro do túmulo. Isto é muito inferior à convicção triunfante da igreja primitiva de que Cristo tinha conquistado a vitória, não só sobre a morte física, mas também sobre o pecado, o desespero e todo tipo de escravidão espiritual.”

(The Doctrine of Our Redemption [A Doutrina de Nossa Redenção], Taylor & Francis, Londres, 1943, págs. 78, 79.)

David Richard Davies (1889-1958), reitor da St. Mary Magdalen na Grã-Bretanha. Ele afirmou:

“A alma do homem não necessariamente é automaticamente imortal. Ele é passível de ser destruído. A Bíblia não oferece qualquer fundamento para se acreditar que a alma está imune à morte e destruição. A alma pode ser destruída.

A imortalidade da alma não é uma doutrina bíblica, e sim filosofia grega. A doutrina bíblica sobre a alma é a da ressurreição dos mortos. O homem é um ser criado. Deus o criou a partir do nada. O homem foi criado para a imortalidade, mas por sua própria rebelião contra Deus, fez-se mortal.”

“O conceito hebraico do homem era totalmente diferente. Na Bíblia o homem é considerado como uma unidade de ‘vida’ ou espírito, que se manifesta como a alma e o corpo. Uma vez que o homem se fez mortal, sua alma, em consequência, também participa da mortalidade. O homem não é um composto de duas entidades diferentes, matéria e espírito, e sim uma unidade de espírito funcionando como matéria e alma. É esta unidade que é mortal.”

(The Art of Dodging Repentance, [A Arte de Esquivar-se do Arrependimento] 1952, págs. 84, 85).

Emil Brunner (1889-1966), professor de teologia sistemática e prática na Universidade de Zurique, Suíça, e professor convidado na Universidade de Princeton e na Universidade Cristã Internacional de Tóquio, Japão.

Depois de considerar o conceito histórico generalizado, da ‘sobrevivência da alma após a morte’ como ‘a separação da alma do corpo’, ele afirmou:

“Para a história do pensamento ocidental, o ensino platônico da imortalidade da alma veio a ser de significado especial. Ele penetrou tão profundamente no pensamento do homem ocidental que, ainda que com certas modificações, foi assimilado pela teologia cristã e pelo ensino da Igreja, sendo até mesmo declarado pelo Concílio de Latrão de 1512 [1513] como um dogma, contradizê-lo era uma heresia.”

Daí, ele acrescentou:

“Só recentemente, como resultado de um entendimento aprofundado do Novo Testamento, levantaram-se sérias dúvidas quanto à sua compatibilidade com a concepção cristã da relação entre Deus e o homem.”

Segundo o platonismo:

“O corpo é mortal, a alma imortal. A casca mortal, esconde esta essência eterna que na morte é libertada de sua concha externa.”

Depois de observar que ‘esta concepção dualista do homem não corresponde à perspectiva cristã’, ele então comentou:

“Uma vez que esta maneira de roubar do mal o seu aguilhão corre necessariamente em paralelo com a representação inócua da morte por meio do ensino sobre a imortalidade, esta solução do problema da morte está em oposição irreconciliável com o pensamento cristão.”.

Comentando ainda sobre a ‘doutrina da imortalidade da alma’, que o cristianismo medieval ‘extraiu da filosofia grega’, ele observa que isso era` ‘totalmente estranho ao seu [do Cristianismo] próprio ensino fundamental.’ E acrescenta:

“A opinião de que nós homens somos imortais porque nossa alma é de uma essência indestrutível, por ser divina, é, de uma vez por todas, irreconciliável com o conceito bíblico de Deus e do homem.”

“A crença filosófica na imortalidade é como um eco, que tanto reproduz como falsifica a Palavra primária desse Criador divino. Ela é falsa porque não leva em conta a perda real desse destino original, devido ao pecado”.

(Eternal Hope [Esperança Eterna], 1954, págs. 100, 101, 105-107)

Gerardus van der Leeuw (1890-1950), professor da Universidade de Groningen, Holanda. Após citar Eclesiastes 3:19-21, ele comentou:

“A imortalidade [inata] é uma concepção que se encaixa na filosofia do panteísmo. À morte diz respeito, não a imortalidade, e sim a Ressurreição”.

“A igreja – não importa o quão helenizada ela possa ser na doutrina e prática – sempre manteve a ressurreição do corpo... O corpo morre, a morte não está sendo negada de maneira alguma. Mesmo o Espírito, a alma que eu sou, não existirá. A alma também morrerá. Mas toda a vida do homem será renovada por Deus. Deus me levantará “nos últimos dias.”

“Muitos pregadores de tempos recentes são bem hesitantes em pregar sobre a imortalidade. Mas, em dias anteriores, quando pregavam sobre a vida eterna, era sem esforço que davam asas a imaginações de um corpo corruptível e uma alma imortal. Os mais antigos livros devocionais e hinários de igreja estão repletos disso. Mesmo agora as pessoas nas casas de luto e nos cemitérios estão sendo consoladas pelas mesmas fontes – ainda assim estas representações não são cristãs sob aspecto algum, e sim puramente gregas e contrárias à essência da fé cristã.”

(Onsterfelijkheid of Opstanding (Imortalidade ou Ressurreição), 1947, pág. 20, 30 e 32).

Anders Theodor Samuel Nygren (1890-1978), teólogo luterano sueco. Foi professor de Teologia Sistemática na Universidade de Lund e também bispo em Lund, Suécia:

“Quando Platão fala da alma, a ideia da imortalidade da alma está sempre presente. A imortalidade é um dom natural da alma, que sugere sua origem divina. Tudo o que é preciso é que a alma se purifique e se liberte da escravidão aos sentidos, para retornar à sua origem divina. A vida de imortalidade divina é sua condição normal. Esta ideia da imortalidade natural da alma é completamente alheia ao motivo Ágape. Em vez disso, encontramos uma crença na ressurreição dos mortos. No curso da história estas duas – a crença na imortalidade da alma e a crença na ressurreição dos mortos – têm sido constantemente misturadas; embora na verdade elas pertençam a dois mundos religiosos e éticos opostos. Onde quer que a imortalidade natural da alma se torne o dogma religioso fundamental, podemos estar certos de que estamos dentro da esfera de Eros. Mas onde o motivo Ágape é dominante, ele se expressa regularmente na crença na ressurreição dos mortos. Se a participação na vida eterna de Deus é possível para o homem, a possibilidade não se baseia em qualquer qualidade ou dom natural do homem, mas única e exclusivamente em um ato poderoso de Deus. Assim como é Deus quem torna o pecador justo, é Deus quem faz os mortos viverem. A ressurreição é a assinatura do Ágape Divino. Ela não tem nada que ver com o contraste entre a alma e o corpo, como se uma parte do ser do homem fosse de natureza divina e imortal, enquanto a outra fosse impura e perecível. A morte é o julgamento de Deus sobre a vida humana em sua totalidade, e a ressurreição é a renovação da vida humana, da mesma maneira em sua totalidade, através do amor de Deus.”

(Agape and Eros [Ágape e Eros], um tratado publicado originalmente em sueco em dois volumes em 1930 e 1936. Traduzido para o inglês em volume único por Philip S. Watson, em 1953. O trecho acima está nas págs. 224 e 225 da edição em inglês.)

Reinhold Niebuhr (1892-1971), professor no Union Theological Seminary. Depois de contrastar o conceito ‘clássico’ sobre o homem da antiguidade greco-romana, com o conceito ‘bíblico’, Niebuhr afirma que os dois ‘foram realmente fundidos no pensamento do catolicismo medieval.’ O conceito clássico de que a ‘mente’ ou ‘espírito’ é ‘imortal’ foi inseparavelmente ligado ao conceito dualista do homem. Ele observa, porém que, entre os hebreus,

“o conceito de uma mente imortal em um corpo mortal permanece desconhecido até o final.”

“O Platonismo de Orígenes destrói completamente o sentido bíblico da unidade do homem.”

“A concepção inteiramente platônica de Gregório [de Nissa] da relação da alma para com o corpo é vividamente expressa em sua metáfora do ouro e da liga.”

“A ideia da ressurreição do corpo é um símbolo bíblico que as mentes modernas tomam como a maior ofensa e que há muito foi substituído na maior parte das versões modernas da fé cristã pela ideia da imortalidade da alma. Esta última é considerada como uma expressão mais plausível da esperança de vida eterna.”

“A ressurreição não é uma possibilidade humana no sentido que se pensa que a imortalidade da alma é. Todas as evidências plausíveis e implausíveis da imortalidade da alma são esforços por parte da mente humana de dominar e controlar a consumação da vida. Todos tentam provar, de uma maneira ou de outra que um elemento eterno na natureza humana é merecedor e capaz de sobrevivência além da morte.”

“A esperança cristã da consumação da vida e da história é menos absurda do que as doutrinas alternativas que buscam compreender e efetuar a conclusão da vida por meio de algum poder ou capacidade inerente ao homem e sua história.”

(‘The Nature and Destiny of Man’ [A Natureza e o Destino do Homem], Scribners, 1955, (Gifford Lectures at Edinburgh, 1939), Vol. 1, págs. 5, 7, 13, pág.153 [nota de rodapé], 172; Vol. 2, págs. 294, 295, 298].

Georges Vasilievich Florovsky (1893-1979), sacerdote da Igreja Ortodoxa, teólogo e historiador, considerado um dos mais influentes teólogos ortodoxos do século 20. Falando sobre o tratado de Henry Dodwell, ele escreveu:

“Um erudito anglicano do século XVII, Henry Dodwell (1641-1711, certa vez Camden "Preletor" de História na Universidade de Oxford), publicou em Londres um livro curioso, sob um título bastante desconcertante:

Um Discurso Epistolar, provando, pelas Escrituras e pelos Primeiros Pais, que a Alma é um Princípio naturalmente Mortal; mas é realmente imortalizada pela Vontade de Deus, para Punição; ou para Recompensa, por sua União com o Divino Espírito Batismal. Dentro está provado que, Ninguém tem o poder de conceder esse Divino Espírito Imortalizador, desde os Apóstolos, mas só os Bispos (1706).

O argumento de Dodwell era muitas vezes confuso e complicado. O principal valor do livro, porém, estava em sua imensa erudição. Dodwell, provavelmente pela primeira vez, juntou uma enorme massa de informações sobre a primitiva doutrina cristã do homem, ainda que ele não pudesse aplicá-la corretamente em si mesmo. E ele estava certo em sua afirmação de que o Cristianismo não estava preocupado com uma “imortalidade” natural, e sim com a Comunhão sobrenatural da alma com Deus: “o Único que tem imortalidade” (1 Tim. 6:16). Não é de admirar que o livro de Dodwell tenha provocado uma violenta controvérsia. Uma acusação formal de heresia foi movida contra o autor. No entanto, ele encontrou alguns fervorosos apoiadores. E um escritor anônimo, “um Presbítero da Igreja da Inglaterra”, publicou dois livros sobre o assunto, apresentando um cuidadoso estudo da evidência patrística de que “o Espírito Santo (era) o Autor da Imortalidade, ou a Imortalidade (era) um Graça Peculiar do Evangelho, (e) não um Ingrediente Natural da alma”, e que “a Imortalidade (era) preternatural[não inerente] às Almas Humanas, o Dom de Jesus Cristo, coligido pelo Espírito Santo no Batismo.””

Sob o tópico “O Homem É Mortal”, ele considera a questão da definição de “homem”, que é, e sempre foi totalmente obscurecida pelos defensores da “imortalidade da alma”:

“No pensamento dos dias de hoje, a “imortalidade da alma” é geralmente superestimada, de tal forma que a “mortalidade do homem” é quase despercebida. Só nas recentes filosofias “existencialistas” é que somos novamente lembrados fortemente de que a existência do homem é intrinsecamente sub specie mortis. A morte é uma catástrofe para o homem. Ela é o seu “último (ou melhor, definitivo) inimigo”, eschatos echthros (I Cor. 15:26). “Imortalidade” é obviamente um termo negativo; ele é correlativo com o termo “morte”. E aqui novamente nós encontramos o Cristianismo em um conflito aberto e radical com o “Helenismo”, sobretudo com o platonismo. W. H. V. Reade, em seu recente livro, The Christian Challenge to Philosophy [O Desafio Cristão à Filosofia], coloca aptamente em confronto duas citações: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1:14) e “Plotino, o filósofo de nosso tempo, estava como que envergonhado de estar na carne” (Porfírio, Life of Plotinus [A Vida de Plotino], I). Daí, Reade prossegue: “Quando a mensagem do Dia de Natal e um breve resumo de Porfírio do credo de seu mestre são postos dessa forma em comparação direta, deve ser suficientemente claro que eles são totalmente incompatíveis: que nenhum cristão pode possivelmente ser um platonista, nem algum plantonista ser cristão; e deste fato elementar os platonistas, para ser justo com eles, estavam perfeitamente cientes.” Eu só acrescentaria que, infelizmente, os cristãos não parecem estar cientes “deste fato elementar”. Através dos séculos, até a nossa própria época, o platonismo tem sido a filosofia favorita de eruditos cristãos. Não é nosso propósito neste momento explicar como isso poderia acontecer. Mas este lamentável mal-entendido (para não dizer mais) resultou numa absoluta confusão no pensamento moderno sobre morte e imortalidade. Podemos ainda usar a velha definição de morte: é uma separação da alma do corpo, psyhi horismos apo thomatos (Nemesius, De natura hominis, 2; ele cita Chrysippus). Para um grego, isso era uma libertação, um “retorno” para a esfera nativa dos espíritos. Para um cristão era uma catástrofe, uma frustração da existência humana. A doutrina grega da Imortalidade nunca poderia resolver o problema cristão. A única solução adequada foi oferecida pela mensagem da Ressurreição de Cristo e pela promessa da Ressurreição Geral dos mortos. Se nos voltarmos novamente para a antiguidade cristã, encontramos esse ponto estabelecido claramente numa época remota. São Justino foi bem enfático nesse ponto. “As pessoas que dizem que não há ressurreição dos mortos, e que suas almas, quando morrem, são levados para o céu, não são cristãs de modo algum”. (Dial. 80). O autor desconhecido do tratado Sobre a Ressurreição (atribuído tradicionalmente a São Justino) declara o problema com muita precisão. “Pois o que é o homem senão um animal racional composto de corpo e alma? É a alma, por si só, homem? Não, mas a alma do homem. Será que o corpo é chamado de homem? Não, mas é chamado o corpo do homem. Se nenhum destes é por si só o homem, mas o que é composto dos dois juntos é que é chamado homem, e Deus chamou o homem à vida e ressurreição, Ele chamou não uma parte, mas o todo, que é a alma e o corpo.” (Sobre a Ressurreição, 8). Atenágoras de Atenas desenvolve o mesmo argumento em seu admirável tratado Sobre a Ressurreição dos Mortos. O homem foi criado por Deus para um propósito definido, para existência perpétua. Ora, “Deus não deu existência e vida independente nem à natureza da alma por si só, nem à natureza do corpo separadamente, mas sim aos homens, compostos de alma e corpo, de modo que, com estas mesmas partes de que eles se compõem, quando eles nascem e vivem, eles devem atingir após o término desta vida o fim comum delas; a alma e o corpo compõem no homem uma entidade viva”. Ele não mais seria um homem, argumenta Atenágoras, se a totalidade de sua estrutura fosse quebrada, pois então a identidade do individuo também seria quebrada. A estabilidade do corpo, sua continuidade em sua própria natureza, deve corresponder à imortalidade da alma. “A entidade que recebe intelecto e razão é o homem, e não a alma sozinha. Em consequência o homem deve permanecer para sempre composto de corpo e alma.” Caso contrário, não haveria homem, e sim apenas partes do homem. “E isso é impossível, se não há ressurreição. Pois se não há ressurreição, a natureza dos homens como homens não continuaria.”. O pressuposto básico de todo o argumento é que o corpo pertence intrinsecamente à plenitude da existência humana. E, portanto, o homem, como homem, deixaria de existir, se a alma tivesse de permanecer para sempre “desencarnada”. Isto é precisamente o oposto do que os plantonistas sustentavam. Os gregos sonhavam em vez disso, com uma desencarnação completa e final. Uma encarnação era só a escravidão da alma. Para os cristãos, por outro lado, a morte não era um fim normal da existência humana. A morte do homem é anormal, é um fracasso. A morte do homem é “o salário do pecado” (Rom. 6:23). É uma perda e corrupção. E desde a Queda o mistério da vida é desalojado pelo mistério da morte. Misteriosa como a “união” da alma e do corpo realmente é, a consciência imediata do homem dá testemunho em favor da totalidade orgânica de sua estrutura psicofísica. Anima autem et spiritus pars hominis esse possunt, homo autem nequaquam, disse São Ireneu (Adv. haereses V, 6.1) Um corpo sem alma é só um cadáver, e uma alma sem corpo é um fantasma. O homem não é um fantasma sem corpo, e cadáver não é uma parte do homem. O homem não é um “demônio sem corpo”, simplesmente confinado na prisão do corpo. É por isso que a “separação” da alma e do corpo é a morte do próprio homem, a descontinuação de sua existência, de sua existência como homem. Consequentemente, a morte e a corrupção do corpo constituem uma espécie de apagamento da “imagem de Deus” no homem. Um homem morto não é completamente humano. São João de Damasco, em um de seus gloriosos hinos no Serviço Fúnebre, diz sobre isto: “Eu choro e lamento, quando eu contemplo a morte, e vejo nossa beleza, feita segundo a imagem de Deus, jazendo no túmulo desfigurada, desonrada, destituída de forma.” São João esta falando, não do corpo do homem, mas do próprio homem. “Nossa beleza à imagem de Deus” não é o corpo, mas o homem. Ele é de fato uma “imagem da insondável glória de Deus”, mesmo quando “ferido pelo pecado”. E na morte, revela-se que o homem, esta “estátua racional” moldada por Deus, para usar a frase de São Metódio (Da ressurreição, 34,4: to agalma to logikon), é nada mais que um cadáver. “O homem nada mais é que ossos secos, um cheiro fétido e alimento de vermes.” Pode-se falar do homem como sendo “uma hipóstase em duas naturezas”, e não só de, mas precisamente em duas naturezas. E na morte esta hipóstase humana é quebrada. E não existe mais homem algum. E, portanto, o homem espera ansiosamente pela “redenção do seu corpo” (Rom. 8:23: ten apolytrôsin tou sômatos hêmôn). Conforme diz São Paulo em outros lugares “porque não queremos ser despidos, mas revestidos da nossa habitação celestial, para que aquilo que é mortal seja absorvido pela vida.” (2 Cor. 5:4). O aguilhão da morte está precisamente em ser “o salário do pecado”, ou seja, a consequência de uma relação distorcida com Deus. Não é apenas uma imperfeição natural, nem é apenas um impasse metafísico. A mortalidade do homem reflete a alienação do homem de Deus, que é o Único Dador da Vida. E, nesse afastamento de Deus, o Homem simplesmente não pode “perdurar” como homem, não pode permanecer totalmente humano. O status de mortalidade é essencialmente “sub-humano”. Enfatizar a mortalidade humana não significa oferecer uma interpretação “naturalística” da tragédia humana, e sim, pelo contrário, significa rastrear a condição humana até sua raiz religiosa definitiva. A força da teologia patrística era precisamente o seu interesse na mortalidade humana, e, consequentemente, na mensagem da Ressurreição. A miséria da existência pecaminosa não foi de forma alguma subestimada, mas foi interpretada não só nas categorias ética ou moral, como também na teológica. O fardo do pecado consistia não só em autoacusações da consciência humana, não só na consciência de culpa, mas também numa desintegração completa de todo o tecido da natureza humana. O homem caído não era mais homem, ele estava existencialmente “degradado”. E o sinal dessa “degradação” era a mortalidade do homem, a morte do homem. Na separação de Deus a natureza humana torna-se desajustada, sai de sintonia, como estava antes. A própria estrutura do homem torna-se instável. A “união” da alma e do corpo torna-se insegura. A alma perde seu poder vital, ela não é mais capaz de vivificar o corpo. O corpo é transformado no túmulo e prisão da alma. E a morte física torna-se inevitável. O corpo e a alma não estão mais, por assim dizer, assegurados e ajustados entre si. A transgressão do mandamento divino “reinstaurou o homem no estado da natureza”, como Santo Atanásio coloca, — eis to kata physin epestrepsen. “Que, como ele foi feito do nada, assim também em sua própria existência ele sofreu corrupção no devido tempo, de acordo com toda a justiça.” Pois sendo feita do nada, a criatura também existe sobre um abismo de nulidade, sempre pronta a cair nele (De incarnatione, 4 e 5). “Que teremos que morrer um dia, é tão certo como não se pode recolher a água que se espalhou pela terra.” (2 Sam. 14:14). “O estado de natureza”, do qual Santo Atanásio fala, é o movimento cíclico do Cosmos, no qual o homem caído está irremediavelmente enredado, e este enredamento significa a degradação do homem. Ele perde sua posição privilegiada na ordem da Criação. Mas esta catástrofe metafísica é apenas uma manifestação da relação interrompida com Deus.”

(Collected Works of Georges Florovsky, Vol. III: Creation and Redemption [Coleção de Obras de Georges Florovsky, Vol. III: Criação e Redenção] (Nordland Publishing Company: Belmont, Mass., 1976), Capítulo VI, “Dimensions of Redemption” [Dimensões da Redenção], págs. 213-240. Este artigo apareceu originalmente como “The Resurrection of Life” [A Ressurreição da Vida] no Bulletin of the Harvard University Divinity School, XLIX, No. 8 (abril de 1952), págs. 5-26.)

Basil Ferris Campbell Atkinson (1895-1971), bibliotecário na Universidade de Cambridge, comentou sobre Gênesis 2:7 dizendo:

“Pensou-se às vezes que a transmissão do princípio da vida, como é trazido diante de nós neste versículo, implicou imortalidade do espírito ou da alma. Afirma-se que, ser feito à imagem de Deus envolve a imortalidade. A Bíblia nunca diz isso. Se isso envolve a imortalidade, por que não envolve também a onisciência ou onipresença, ou qualquer outra qualidade ou atributo do Infinito? Por que se aplicaria a um só atributo? O fôlego da vida não foi soprado no coração do homem, e sim em suas narinas. Ele envolveu vida física. Ao longo da Bíblia o homem, à parte de Cristo, é concebido como feito de pó e cinzas, uma criatura física, a quem o princípio da vida é emprestado por Deus. Os pensadores gregos tendiam a conceber o homem como uma alma imortal aprisionada num corpo. Esta ênfase é oposta à da Bíblia, mas encontrou um amplo espaço no pensamento cristão.”

(The Pocket Commentary of the Bible, Part One: Book of Genesis [Comentário Bíblico de Bolso, Parte Um: Livro de Gênesis], 1954, pág. 32.)

John Olof Cullberg (1895-1983), professor de filosofia da religião, doutor em teologia e bispo luterano na Igreja da Suécia (Diocese de Västerås, Uppsala):

A natureza do homem não é responsável pela crença na ressurreição, mas apenas o poder criativo do amor de Deus nos dá a garantia de uma vida após a morte. Não há nada em mim que mereça sobreviver à morte. Em si mesma, a minha alma é tão mortal como meu corpo. Mas a vida eterna, a qual Deus pode criar aqui mesmo em meu coração, envolve a promessa de uma existência nova, pessoal, que não conhece a morte e a corrupção, uma vida em comunhão eterna com Deus e com aqueles a quem o Seu amor incomensurável salvou. Assim também ressoa a fé na ressurreição nas palavras apostólicas: “Pois estou certo de que nem a morte, nem a vida... será capaz de nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.”

(‘Dogmernas Insida’, Herdabrev till Vasterds stift. [No Interior dos Dogmas, Carta Pastoral à Diocese de Västerås], 1940.)

James Stuart Stewart (1896-1990), ministro da Igreja da Escócia e professor de linguagem, literatura e teologia do Novo Testamento na Universidade de Edimburgo:

“Ora, para as mentes gregas, o inteiro conceito de uma ressurreição era estranho, novo e intrigante. A primeira reação natural de um grego diante da nova ideia seria perguntar, “Com que corpo eles vêm?” A filosofia ensinara aos gregos a crer em uma imortalidade puramente espiritual, sem um corpo de qualquer tipo. Os sábios consideravam o corpo como um túmulo no qual o espírito vivo estava sepultado. σῶμα σῆμα [“o corpo é o túmulo”], eles costumavam dizer. A morte era o escape da alma aprisionada. Mas Paulo não pôde conceber desse modo um reino de espíritos desencarnados. Para ele, a simples ideia teria sido repulsiva: testifica a seriedade de seu desejo de ‘não ser encontrado nu’ após a morte, e sim ‘revestido de nossa habitação que é do céu.’ É claro que o verdadeiro ponto em questão, conforme Paulo viu bem claramente, era a continuação da identidade pessoal. Algum tipo de corpo deveria existir, se a individualidade essencial da alma haveria de sobreviver.”

(A Man in Christ: the Vital Elements of St. Paul’s Religion [Um Homem em Cristo: Os Elementos Vitais da Religião de S. Paulo], Harper & Row – Publishers, Nova Iorque, EUA, 1935, pág. 267).

Aubrey R. Vine (1900-1973), editor do ‘The Congregational Quarterly’ e professor no Yorkshire United Independent College. Ele afirmou:

“Não se deve aplicar a palavra ‘imortal’ a um espírito humano, se reconhecemos claramente que ele só é imortal na graça e no agrado de Deus. Só Deus é imortal por sua própria natureza e sem restrição.”

A imortalidade natural do espírito é um conceito grego, não um conceito cristão.”

“Contra a ideia da imortalidade natural do espírito devemos estabelecer o fato de que Deus é o único auto-existente e que nada existe ou continua a existir exceto por Sua graça e vontade, dentro deste esquema ou dentro de qualquer outro Deus. Só Deus está à parte do esquema. Portanto, quando usamos a palavra ‘imortal’, em relação a qualquer coisa, além de Deus, devemos perceber sempre que só Deus é imortal por sua própria natureza e sem qualquer restrição.”.

(An Approach to Christology [Uma Abordagem à Cristologia], 1948, págs. 311 (nota de rodapé), 314, 315.)

Taito Almar Kantonen (1900-1993), professor de teologia sistemática por muitos anos no Hamma Divinity School (agora Trinity Lutheran Seminary) e doutor honoris causa pela Universidade de Helsinque (Finlândia). Ele escreveu:

“Uma vez que o neoplatonismo era a filosofia espiritual prevalecente durante o período de formação da teologia cristã, não surpreende que muitos dos Pais tenham identificado a doutrina cristã da vida eterna com a imortalidade platônica. Através dos séculos, esta crença não bíblica continuou a permear o pensamento cristão e fundir-se com o animismo popular, em um aparentemente auto evidente e formidável “verdade”, de tal forma que parecia ser uma verdadeira pedra angular da fé cristã. No Quinto Concílio de Latrão (1512-1517), a igreja romana na realmente proclamou-a como um dogma oficial da igreja. Os reformadores estavam satisfeitos com os antigos credos que ensinam a “ressurreição do corpo”, não a “imortalidade da alma”. Mas a última crença ficou embutida com tanta firmeza no pensamento protestante também, que se imagina que o teólogo ou o ministro que é levado a rejeitá-la pelas Escrituras está explodindo a rocha eterna. Assim, quando o erudito suíço Oscar Cullmann, conhecido por sua profunda interpretação do Novo Testamento e suas positivas convicções cristãs, publicou um estudo no qual destacou o contraste entre a concepção grega da imortalidade da alma e a doutrina cristã da ressurreição dos mortos, ele despertou uma tempestade de protestos. Ele foi acusado de ser um monstro que se delicia em causar angústia espiritual, um que oferece pedras, senão serpentes, às pessoas famintas do pão da vida. No prefácio à [na época] recente tradução do estudo para o inglês (Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?) o professor Cullmann afirma que nenhum crítico sequer tentou refutá-lo pela exegese bíblica, que é a inteira base de sua apresentação, e implora aos seus leitores para que ouçam o que as Escrituras têm a dizer. Não podemos esperar compreender o conceito cristão, a menos que estejamos dispostos a escutar as Escrituras, mesmo quando ela contradiz os nossos próprios desejos acalentados e opiniões tradicionais... O homem não tem uma parte mortal, o corpo, e uma parte imortal, a alma. Ele é uma unidade indivisível, um corpo animado pela alma. Como tal, se encarado sob o aspecto do corpo ou o da alma, ele existe apenas por sua relação com Deus.”

Life after Death [Vida Após a Morte] (Filadélfia, EUA: Fortress Press, 1962), págs. 14, 15.

Martin J. Heinecken (1902-1998), professor de Teologia Sistemática do Seminário Teológico Luterano da Filadélfia, EUA. Ao falar do homem como sendo uma unidade, ele declarou:

“No registro bíblico da criação é-nos dito que Deus formou o homem do pó da terra, e que Ele então lhe soprou nas narinas e o homem se tornou uma alma vivente. Isto é geralmente interpretado como que Deus fez uma alma, que é a pessoa verdadeira, e que daí Ele deu a essa alma uma habitação temporária num corpo, feito do pó da terra. Mas este é um dualismo falso... O homem deve ser considerado como uma unidade”.

Estamos lidando com um ser unificado, uma pessoa, e não com algo que é chamado de alma e que habita numa casa chamada corpo, como se o corpo fosse apenas uma ferramenta para a alma usar, mas que não é realmente uma parte da pessoa.”

Voltando-se em seguida, para a questão da imortalidade da alma o professor Heinecken diz então:

 “É defendido por algumas pessoas que existe dentro de cada homem um núcleo imutável e indestrutível, imortal em seu próprio direito. Ele não é afetado pelo tempo; não teve princípio, nem pode ter fim. Sempre existiu e sempre existirá. Veio para este mundo de coisas mutáveis do reino da eternidade e voltará para ele.”

O conceito cristão não deve de maneira alguma ser identificado com a crença na imortalidade da alma acima. A crença cristã é na imortalidade do relacionamento com Deus, e na ressurreição. O dualismo cristão não é o da alma e corpo, mente eterna e coisas transitórias, e sim o dualismo do Criador e a criatura. O homem é uma pessoa, um ser unificado, um centro de responsabilidade, apresentando-se perante seu Criador e Juiz. Ele não tem qualquer vida ou imortalidade dentro de si mesmo. Ele surgiu por meio do poder criativo de Deus. Ele passa tantos anos nesta terra quantos a providência de Deus atribui a ele. Ele enfrenta a morte como o salário do pecado.”

"Os homens têm especulado desta maneira: No momento da morte, a alma se separa do corpo. Daí ela aparece diante de Deus em um juízo preliminar, que não é mencionado em lugar algum nas Escrituras, e entra num estado preliminar ou de bem-aventurança ou de condenação. Então, quando a última trombeta soar, o corpo é ressuscitado e se junta novamente à alma, e completo novamente, o corpo e a alma reunidos aparecem na cena do julgamento público final, de lá para entrar na bem-aventurança definitiva ou condenação final. Não é à-toa que, com este conceito, os homens devem ter pouca utilidade para a ressurreição, e por fim descartaram completamente o conceito e ficaram satisfeitos com o resgate apenas da alma.

"Morrer, então, significa passar para a ressurreição e o julgamento no final dos tempos. Ainda que digamos que todos os homens dormem até que a trombeta final toque, qual é a passagem do tempo para aqueles que estão dormindo? A transição do momento da morte para o da ressurreição ainda seria instantânea para eles. Ela não seria diferente de ir para a cama à noite e acordar pela manhã.

(Basic Christian Teachings [Ensinos Cristãos Básicos], Muhlenberg Press, Filadélfia, EUA, 1949, págs. 36-38, 133-136.)

Oscar Cullmann (1902-1999), teólogo de tradição luterana e professor de Novo Testamento e história da igreja primitiva no Basel Reformed Seminary e na Universidade Sorbonne, em Paris, França. Ele escreveu:

“Se reconhecermos que a morte e a vida eterna no Novo Testamento estão sempre ligadas ao evento de Cristo, torna-se evidente que para os primitivos cristãos a alma não é inerentemente imortal, mas só se tornou imortal por meio da ressurreição de Jesus Cristo, e através da fé nele. Fica claro também que a morte não é intrinsecamente a Amiga, e sim que seu “aguilhão”, seu poder, é tirado por meio da vitória de Jesus sobre ela com sua morte. E, finalmente, torna-se claro que a ressurreição já realizada não é o estado de cumprimento, pois este é futuro, momento em que o corpo é também ressuscitado, o que só ocorrerá no “último dia”.

“A resposta à questão “Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos” no Novo Testamento é inequívoca. Não há maneira de harmonizar o ensino dos grandes filósofos Sócrates e Platão com o ensino do Novo Testamento. Que as pessoas envolvidas, as vidas delas, e a atitude delas por ocasião da morte podem até ser respeitadas pelos cristãos, os apologistas do segundo século mostraram.”

(Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead? The Witness of the New Testament [Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? O Testemunho do Novo Testamento] (Nova Iorque, EUA: Macmillan & Co., 1964) – Trechos extraídos da Introdução e da Conclusão. Uma “edição compacta” desta obra pode ser vista aqui.).

Frederick Fyvie Bruce (1910-1990), professor de grego e exegese bíblica em várias universidades da Grã-Bretanha, e um respeitado erudito acerca da vida e ministério do apóstolo Paulo. Escreveu também comentários a muitos livros bíblicos:

“Paulo evidentemente não poderia contemplar a imortalidade além da ressurreição; para ele um corpo de algum tipo era essencial para a personalidade. Nosso pensamento tradicional sobre a ‘alma imortal’, que deve muito à nossa herança greco-romana, torna difícil que apreciemos o conceito de Paulo. É, sem dúvida, uma simplificação exagerada afirmar que enquanto para os gregos o homem era uma alma encarnada, para os hebreus ele era um corpo animado; e ainda assim há substância suficiente na afirmação para dizermos que neste, assim como em outros aspectos, Paulo era ‘um hebreu de hebreus’ (Fil. 3:5). Para outros, incluindo vários de seus convertidos em Corinto, o desengate do grilhão do corpo era uma consumação a ser devotadamente almejada; mas se Paulo desejava ser libertado da mortalidade desta atual ‘morada’ terrena, era visando a trocá-la por uma que era imortal; estar sem um corpo de algum tipo seria uma forma de nudez espiritual ou isolamento do qual a mente dele se retraiu.

(Paul, Apostle of the Heart Set Free [Paulo, Apóstolo do Coração Libertado], William B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids, Michigan, EUA, 1977, pág. 311).

“No uso bíblico, a imortalidade pertence inerentemente a Deus apenas; ou senão pertence apenas àqueles a quem Deus a concede. Mais uma vez, quando os seres humanos estão em causa, a imortalidade na Bíblia é direcionada ao corpo, não à alma.

Em nossa cultura ocidental, o pensamento e a linguagem sobre a imortalidade foram amplamente determinados pela doutrina de Platão sobre a imortalidade da alma. Porém, qualquer tentativa de combinar a doutrina de Platão com o ensino da Bíblia só pode resultar em confusão. Pois Platão não entendia por imortalidade o que os escritores bíblicos entendiam por ela, e o que Platão entendia por alma não é o que os escritores bíblicos entendiam por alma.

Para o cristão, a esperança da imortalidade está vinculada à ressurreição de Cristo.”

(No “Prefácio” ao livro de George Wisbrock, Death and the Soul [A Morte e a Alma], Oakbrook, IL, EUA: ZOE-Life Books, 1990).

George Eldon Ladd (1911-1982), pastor batista e professor de teologia e exegese do Novo Testamento no Fuller Theological Seminary (Pasadena, Califórnia, EUA):

“Para entender a esperança do Antigo Testamento devemos, em primeiro lugar, compreender o conceito de homem do Antigo Testamento. Ele está em nítido contraste com a concepção grega do homem. Um dos conceitos gregos mais influentes do homem deriva do pensamento platônico e teve frequentemente uma forte influência sobre a teologia cristã. É o de que o homem é um dualismo de corpo e alma. A alma pertence ao mundo real, permanente, noumenal (pensamento abstrato); o corpo pertence ao mundo visível, transitório, temporal, fenomenal. Não se imagina que o corpo seja mal, ipso facto [inerentemente; em si mesmo], como era o caso na concepção gnóstica posterior, e sim um obstáculo para o cultivo da mente e da alma. O homem sábio é aquele que aprende como disciplinar o corpo para que ele seja mantido sob controle e não prejudique o cultivo da alma. Nesse conceito, a alma é imortal, e a “salvação” significa o voo da alma por ocasião da morte para escapar do fardo do mundo fenomenal e encontrar plenitude no mundo da realidade eterna.

Um versículo de Paulo, tirado do contexto, pode ser interpretado sob essa luz. “Porque não miramos as coisas que se veem, mas sim as que não se veem. Pois as coisas que se veem são temporais e as que não se veem são eternas.” (2 Coríntios 4:18). Isso soa como dualismo platônico; mas no contexto do pensamento paulino, as ‘coisas que não se veem’ eternas significam o mundo de Deus que por fim vai dissolver este mundo e transformá-lo. Isto inclui a ressurreição do corpo. Paulo jamais concebe a salvação da alma separada do corpo. Salvação significa o resgate do corpo, bem como de toda a ordem criada (Rom. 8:21-23).

O conceito de Paulo baseia-se na concepção do Antigo Testamento sobre o homem, no qual a “alma” do homem (nephesh) é primariamente sua vitalidade, sua vida – nunca uma “parte” separada do homem. “Espírito” é, antes de qualquer coisa o espírito de Deus (ruach), seu sopro, seu poder (Isa. 31:3; 40:7), que criou e sustenta todas as coisas vivas (Sal. 33:6; 104:29-30). O espírito de Deus cria o espírito humano (Zac. 12:1), mas nem a alma nem o espírito do homem é encarado como uma parte imortal do homem, que sobrevive à morte. A morte do homem ocorre quando seu espírito – seu fôlego – é retirado (Sal 104:29; Ecle. 12:7). E pode-se dizer que sua alma – sua nephesh  – morre (Núm. 23:10, literalmente, “morra minha alma a morte dos justos”; Juí. 16:30, “morra minha alma com os filisteus”). Em outros lugares, afirma-se que a alma (nephesh) parte para o Seol (Sal. 16:10: “Pois não deixarás a minha alma no Seol”; cf. Sal. 30:3; 94:17.). Nestas últimas referências, nephesh é praticamente sinônimo do pronome pessoal; não há qualquer ideia sobre uma alma imortal existente após a morte. Em suma, o conceito do Antigo Testamento sobre o homem é que ele é um corpo animado em vez de uma alma encarnada. “Vida” no Antigo Testamento é a existência corporal neste mundo em comunhão com o Deus vivo (Deut 30:15-20.). “Morte” significa o fim da vida, mas não a cessação da existência. Os mortos existem no Seol como “sombras” (Prov. 9:18; Isa. 14:9; 26:19.) Uma “sombra” não é alma ou espírito do homem; é o próprio homem, ou melhor, uma pálida réplica de um homem. É o homem despojado de sua vitalidade e energia – uma sombra de seu ser terrestre. A coisa má sobre o Seol é que, na morte, o homem é cortado da comunhão com Deus (Sal 6:5; 88:10-12; 115: 17).”

(I Believe in the Resurrection of Jesus, [Creio na Ressurreição de Jesus], 1975, Wm. B. Eerdmans Publishing Company, EUA, págs. 44-49. Com exceção de uma delas, as notas de rodapé, onde o autor faz referência a outros autores foram omitidas na tradução de ambas as citações acima, para simplificação.).

John William Wenham (1913-1996), erudito bíblico inglês e pastor anglicano:

Imortalidade da Alma

Há, assim, uma grande carga de material que prima facie [à primeira vista] sugere a destruição como o fim definitivo dos condenados. O conceito tradicional obtém a maior parte de sua plausibilidade de uma crença de que o ensino de nosso Senhor sobre Geena tem de ser atrelado a uma crença na imortalidade da alma. Um fogo ardente destruirá qualquer criatura viva, a menos que essa criatura seja imortal. Se o homem é feito imortal, toda a nossa exegese deve mudar. Mas será que ele é? De Gênesis 3 em diante, o homem parece ser realmente mortal; é-nos dito claramente que só Deus tem a imortalidade (1 Tim. 6:16); a imortalidade é algo que os que fazem o bem buscam (Rom. 2:7); a imortalidade para o crente foi trazida à luz pelo evangelho (2 Tim. 1:10) – ele ganha a imortalidade (ao que parece) quando ganha a vida eterna e se torna participante da natureza divina; a imortalidade é finalmente vestida na última trombeta (1 Cor. 15:53). Não, dizem os tradicionalistas, Deus ao fazer o homem o fez imortal, para que ele viva, não só além da morte, mas também além da segunda morte, para todo o sempre. Os fogos do inferno continuarão a infligir dor em pessoas que não podem ser consumidas.

Alguns reconhecem que só Deus é inerentemente imortal e que Ele poderia, se quisesse, aniquilar qualquer coisa que Ele fez, incluindo seres humanos. Mas Ele tanto quis que todos os que creem se tornassem participantes da natureza divina e assim se tornassem imortais, como também quis que os que rejeitassem o convite evangélico não morram, mas continuem vivos sofrendo o tormento sem fim que merecem. Portanto, não somos imortais por natureza, mas por decreto divino, o que, em termos práticos, parece dar no mesmo.

Ora, o curioso é que quando se pede uma prova bíblica da imortalidade da alma, a resposta que normalmente se dá é que ela não é ensinada explicitamente em parte alguma, mas que (conforme já citado de Shedd) “é presumida em todo lugar”. Goulburn também diz que a doutrina da imortalidade do homem ‘parece estar gravada no coração do homem quase tão indelevelmente quanto a doutrina da existência de Deus’. (pág. 68) O grande teólogo holandês Hermann Bavinck a defende como uma doutrina bíblica, mas diz que ela é mais bem demonstrada pela razão do que pela revelação. Que a vida além da morte é repetidamente ensinada nas Escrituras e todos creem nisso instintivamente, eu concordo prontamente, mas de sua natureza e duração nós nada sabemos a não ser por revelação. Se alguma coisa se tornou cristalinamente clara para mim com o passar dos anos, é esta: filosofar sobre a vida após a morte é inútil; devemos nos ater às Escrituras e apenas às Escrituras. Certamente algo tão importante quanto a imortalidade da alma e o tormento eterno dos condenados não pode ser presumido!

(Facing Hell: The Story of a Nobody, An Autobiography [Enfrentando o Inferno: A História de um João-Ninguém, Uma Autobiografia], trecho do capítulo 27, "The Case For Conditional Immortality" [A Argumentação a Favor da Imortalidade Condicional], Carlisle, Inglaterra: Paternoster Press, 1998, págs. 229-257.)

Derwyn Randulp Grier Owen (1914-1997), professor de Conhecimento Religioso na Trinity College, foi também professor e mestre em filosofia e religião na Wycliffe College, em Toronto, Canadá. Ele disse:

“Se nos voltarmos para a Bíblia, porém, conforme veremos depois, descobrimos que um conceito bem diferente sobre o homem é assumido ao longo dela. Aqui não há dualismo e dificilmente alguma ideia da imortalidade da alma individual e independente.”

“Platão permanece até o fim como um dualista antifísico. É ele, e seus seguidores, que são, acima de tudo, responsáveis ​​por impor a antropologia ‘religiosa’ no pensamento ocidental.”

Esta última crença em especial – a ideia de que a alma pode existir sem o corpo – obviamente implica alguma forma de dualismo corpo-alma... Esse dualismo corpo-alma era uma ideia implícita necessária para a doutrina grega da imortalidade da alma.”

“Ora, há alguns trechos bíblicos isolados que podem sugerir a ideia da imortalidade da alma, no sentido grego, mas o conceito bíblico normal é bem diferente: no Novo Testamento é a ressurreição do corpo que está enfatizada, e esta doutrina é quase uma contradição direta da escatologia “órfica”. Porque, então, os Pais [da Igreja] se inclinaram para essa noção em grande parte não bíblica?”

“O fato é que a adoção da ideia “religiosa” da imortalidade da alma separável pelos Pais [da Igreja] obrigou-os à doutrina do dualismo corpo-alma.”

“A ideia do estado intermediário por fim evoluiu para a doutrina do purgatório.”

“Os Pais [da Igreja] ficaram, sem dúvida, impressionados com a força dos argumentos apresentados pela filosofia grega para provar a imortalidade da alma. E, finalmente, é claro, a ideia de um estado intermediário deu ao ser humano outra chance de ser purgado de seus pecados antes do julgamento final. Foi o desenvolvimento desta noção que levou à doutrina do purgatório, com todas as superstições e práticas questionáveis ​​que, com o tempo formaram o sistema purgatorial e, no fim, forneceram parte da causa imediata da Reforma.”.

“A resultante antropologia deles [os Padres da Igreja] era uma mistura de ideias bíblicas e gregas. À doutrina do Novo Testamento sobre a ressurreição do corpo eles acrescentaram a ideia de um estado intermediário em que a alma existe à parte do corpo, aguardando sua recuperação no fim.”

A antropologia “religiosa”, tanto quanto se refere ao pensamento ocidental, é grega e não bíblica na origem. Ela é também típica das religiões orientais em geral, como o Hinduísmo e o Budismo. Ela aparenta ser caracteristicamente “religiosa”, e por este e outros motivos tende a insinuar-se e corromper o conceito cristão do homem. Isto aconteceu, conforme vimos, nos períodos patrístico e medieval, e o catolicismo e o protestantismo modernos tendem a perpetuar esse antigo erro.”

“O conceito bíblico do homem é totalmente diferente do conceito ‘religioso’.”

“Os pontos em questão giram em torno dos conceitos de “corpo” e “alma”. A “antropologia religiosa” [em contraste com a bíblica] adota um dualismo extremo, afirmando que o corpo e a alma são duas substâncias diferentes e distintas. Ela afirma que a alma é de origem divina e imortal por natureza e que o corpo é a fonte corruptível de todo pecado e maldade. Ela recomenda o cultivo da alma na separação do corpo, e defende a supressão de todos os apetites físicos e impulsos naturais. Ela considera o corpo como o túmulo ou prisão da alma da qual ela anseia por se libertar. Finalmente, ela tende a supor que a alma, mesmo em sua existência ligada à terra, é totalmente independente do corpo e por isso goza de uma liberdade de escolha e ação desenfreada pelas leis que reinam no mundo físico.”

“Os hebreus não tinham ideia alguma da imortalidade da alma, no sentido grego... Para eles, era impossível até mesmo conceber a existência humana sem corpo.”

“A ideia da imortalidade da alma, no sentido grego pode ser sugerido em algumas passagens da literatura da sabedoria e é definitivamente encontrada em lugares nos Apócrifos. Esta linha de raciocínio foi desenvolvida posteriormente no Judaísmo Helenístico da Escola Alexandrina, no período intertestamental, dentro do qual o filósofo religioso Filo é o exemplo notável.”

(Body and Soul: A Study on the Christian View of Man [Corpo e Alma: Um Estudo Sobre o Conceito Cristão do Homem.] (Filadélfia, EUA: Westminster Press, 1956), págs. 29, 41, 59, 61, 62, 77, 163, 164, 177 e 178.).

Roger Lincoln Shinn (1917-2013), teólogo protestante dedicado a causas ecumênicas e professor no Union Theological Seminary, Nova Iorque, EUA. Ele escreveu:

“As crianças fazem perguntas difíceis sobre cemitérios. Talvez todos nós façamos, mas as crianças o fazem em voz alta. A avó ficou doente, daí morreu. Alguém diz ao filho que a avó foi para Deus. Mas um dia a criança pergunta sobre o cemitério. A avó está no cemitério ou com Deus?

Uma resposta é: o corpo da avó está no túmulo, mas sua alma está com Deus. Com sorte essa resposta encerra as questões.

Daí, um dia a criança ouve o Credo dos Apóstolos: “Creio na... ressurreição do corpo.” A pergunta dela geralmente traz a resposta: “Isso quer dizer realmente a alma.” De vez em quando alguém insiste em que significa realmente o corpo. Talvez ele se oponha à cremação, porque ele quer seu corpo pronto para ser ressuscitado por Deus nos Últimos Dias – embora não esteja claro por que Deus haveria de ter mais problemas com as cinzas do que com carne decomposta.

Logo depois um argumento sem sentido está a caminho. Observe como o Novo Testamento rejeita estas suposições fúteis:

1 - Os saduceus contendedores perguntam a Jesus sobre a viúva que volta a se casar. (Só para bancar os espertalhões, eles dão a ela sete maridos sucessivos.) Quem será o marido dela no céu? Jesus, que nunca evita uma pergunta sincera, dá uma reprimenda nesta. Você não pode responder a perguntas sobre o céu em termos terrenos, ele lhes diz. Vocês não entendem o poder de Deus. (Veja Marcos 12:18-27).

2 - Alguém pressiona Paulo com uma pergunta sobre os corpos dos que são ressuscitados dentre os mortos. O apóstolo, que sempre aprecia uma boa pergunta, explode: “Ó insensato!” (1 Cor. 15:36).

Algumas perguntas são simplesmente fúteis. Sempre que usamos palavras da experiência comum para descrever as obras de um Deus infinito, as palavras não se encaixam perfeitamente. Respostas literais para perguntas sobre a vida após a morte são, em sua maioria, tolices.

Quando nos damos conta disso, podemos ir um passo além. Um artista espalha tintas numa tela plana para sugerir não só dimensões de profundidade, mas experiências ocultas do espírito humano. Um músico usa cordas vibratórias de intestinos de animais para transmitir alegria, humor, ou tristeza. As palavras têm um poder simbólico semelhante. Elas podem nos dizer mais quando percebemos suas inadequações do que quando pensamos que elas nos dão a verdade literal.

Quando os primeiros cristãos disseram “ressurreição do corpo”, eles não estavam enganando a si mesmos. Eles não eram pessoas de raciocínio lento que não tinham pensado na questão que a criança levanta sobre o cemitério. Eles disseram claramente que “carne e sangue não podem herdar o reino de Deus.” A decomposição de cadáveres não era problema para eles. No entanto, eles encontraram motivos para se apegar a essa ideia de um corpo – um “corpo espiritual”, como o chamaram. (Você pode encontrar tudo isso discutido em 1 Coríntios, cap. 15.).

O Novo Testamento poderia ter usado uma linguagem diferente. Todas as pessoas instruídas ouviram a teoria de que na morte a alma ascende ao céu, enquanto o corpo vai para a sepultura. Mas essa linguagem não se ajusta com os cristãos judeus que escreveram o Novo Testamento.

Os judeus nunca acreditaram que uma pessoa é uma alma mais um corpo – uma combinação separável conectada temporariamente. Hoje praticamente todos os psicólogos concordam com os judeus neste assunto. Quando falamos sabiamente da medicina psicossomática ou delineamos a disposição de uma pessoa pela atividade de suas glândulas, estamos fazendo (com precisão mais ou menos científica) o que os escritores bíblicos fizeram intuitivamente. Na história cristã, Agostinho fez o mesmo quando ele disse, nas palavras que todo o nosso conhecimento moderno justifica: “Pois o corpo não é um ornamento ou uma ajuda procedente do exterior, e sim parte da própria natureza do homem”.

Algumas pessoas de “mentalidade espiritual” argumentaram contra essa crença cristã. Elas citaram o Fédon, de Platão: “De onde vêm as guerras, e contendas, e facções? De onde, além do corpo e dos desejos do corpo?... E o que é a purificação, senão a separação da alma do corpo?” Para os cristãos isto era uma fraude completa. Significava aversão doentia do corpo e cegueira para com os pecados do espírito.

Assim, a Igreja apegou-se à sua preocupação com uma pessoa completa, e não com uma alma mais um corpo separável. Ela pregou a salvação de pessoas reais por Deus, não de almas místicas que poderiam ser absorvidas em alguma alma divina. Ela ensinou a preocupação de Deus para com a história, percebendo que a maior parte da história está conectada com corpos humanos. Assim, sob o risco de ser mal interpretada, ela continuou falando de uma ressurreição do corpo – o que significa, não os componentes químicos do corpo, e sim a totalidade do ser humano.

Nada disso nos diz literal e exatamente o que vai acontecer. É claro que não. “Ó insensato!” Não temos como saber.  A fé cristã, conforme vimos, fala de uma nova criação tão milagrosa como a primeira criação. A única base para a crença nela é a confiança em Deus. Se isso não nos convencer, não será alguma sedutora antecipação das próximas atrações que o fará.”

(Life, Death and Destiny [Vida, Morte e Destino], The Westminster Press, Filadélfia, EUA, 1957, págs. 81-84).

Clark Harold Pinnock (1937-2010), teólogo batista canadense, apologista e escritor. Foi professor emérito de Teologia Sistemática no McMaster Divinity College (Ontário):

A Bíblia não ensina a imortalidade natural da alma; ela aponta para a ressurreição do corpo como a dádiva de Deus para os crentes. Só Deus tem imortalidade (1 Tim. 6:16), mas graciosamente concede a vida corporificada ao seu povo (1 Cor. 15:21, 50-54, 2 Tim. 1:10) Deus nos dá vida e Deus a tira. Não há nada na natureza da alma humana que requeira que ela viva para sempre. A Bíblia ensina o condicionalismo: Deus criou os humanos mortais com uma capacidade para a vida eterna, mas ela não é possessão inerente deles. A imortalidade é uma dádiva que Deus nos oferece no evangelho, não uma possessão inalienável. A alma não é uma substância imortal que deve ser colocada em algum lugar se ela rejeitar a Deus. Se uma pessoa por fim rejeita Deus, não há nada na antropologia bíblica que contradiga o que Jesus claramente ensinou – Deus destruirá os ímpios, corpo e alma, no inferno. Uma vez que isso seja entendido, uma pessoa é livre para ler o que a Bíblia diz sobre o inferno de forma natural e direta.

A doutrina grega da imortalidade afetou indevidamente a teologia neste ponto – um bom exemplo da helenização irregular da doutrina cristã. A ideia de que as almas são naturalmente imortais, porém, distorce a interpretação dos textos bíblicos sobre o inferno. Ela requer virtualmente que uma pessoa estenda a experiência de destruição ao tormento consciente infinito. Presumivelmente, o conceito tradicional da natureza do inferno foi originalmente edificado da seguinte maneira: As pessoas misturaram sua crença no julgamento divino após a morte (que é bíblica) com sua crença na imortalidade da alma (que não é bíblica) e concluíram (incorretamente) que a natureza do inferno deve ser tormento eterno consciente. A lógica só seria impecável se a segunda premissa não fosse falsa. Naturalmente, pode ser que Deus ainda dê a imortalidade aos ímpios e exija que a experimentem num eterno tormento ardente. Meu argumento não descarta isso, embora seja um problema explicar por que Ele faria isso.

Estes dois primeiros pontos (a exegese das Escrituras e a doutrina não bíblica da imortalidade de todas as almas) se pertencem e sugerem mutuamente que os ímpios não serão torturados para sempre. A Bíblia adverte contra a perda absoluta no inferno e tem a hipótese antropológica para apoiar essa possibilidade. A ortodoxia precisa endireitar sua antropologia.

(William Crockett e Stanley N. Gundry (editores), Four Views of Hell [Quatro Conceitos do Inferno], Zondervan, Grand Rapids, MI, EUA, 1996, págs. 148, 149.)

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Observações:

1 - Para uma explicação da razão de muitos eruditos fazerem referência aos gregos como a fonte da crença na “imortalidade da alma” e outros apontarem os egípcios como fonte, é bom lembrar que a história dos egípcios e sua crença na 'vida após a morte' só se tornaram amplamente conhecidas depois da Revolução Francesa (a escrita hieroglífica só foi decifrada pelo francês Jean-François Champollion por volta de 1822, o que descortinou o campo da Egiptologia). A crença egípcia na “imortalidade da alma” parece ser mais antiga. Aos leitores que tiverem interesse em mais detalhes sobre a história deste conceito, indicamos o artigo O Desenvolvimento do Conceito da “Imortalidade da Alma”.

2 - Os grifos em todos os pronunciamentos acima foram acrescentados.

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NOTAS:

1 Os leitores que conhecem as publicações das Testemunhas de Jeová estão cientes de que estas mesmas táticas são usadas regularmente pelos líderes desta organização religiosa para “descredenciar” seus questionadores. Quando não há como refutar a argumentação, sempre existe a opção de apelidá-los de “apóstatas” (ou de outros termos pejorativos), sugerindo ainda que eles não passam mesmo de uns “gatos pingados”. A revista A Sentinela de 1º de janeiro de 1998, por exemplo, disse na pág. 11:

Apóstatas têm afetado o equilíbrio espiritual de uns poucos que deram atenção à sua propaganda venenosa.”

Na mesma linha de raciocínio, o livro Testemunhas de Jeová – Proclamadores do Reino de Deus disse na pág. 633:

“Alguns não escolheram simplesmente seguir o seu próprio caminho; tornaram-se agressivos na sua oposição à organização com a qual outrora se associavam, e serviram-se da imprensa e da televisão para divulgar seus conceitos. Não obstante, o número dos dissidentes foi relativamente pequeno.

Essa tendência de apelar para números (em Lógica esta falácia é chamada de apelo à multidão [argumentum ad populum]) em paralelo com o esforço de ‘minimizar’ os contestadores caracteriza também alguns promotores da doutrina da “imortalidade da alma”. É como se a ‘opinião da maioria’ (ou “conceito vigente”, como diriam alguns) fosse sinônimo de verdade e o número reduzido de contestadores indicasse necessariamente que o conceito deles é falso.

Quanto à expressão “engravatados”, um pequeno trecho de outra mensagem que foi encaminhada a alguns colaboradores do Mentes Bereanas esclarece perfeitamente o sentido dela, dispensando longos circunlóquios e débeis tentativas de justificação:

“... o ambiente em que os kardecistas vivem realmente tem "cara" de ambiente espiritual, e não de uma empresa com engravatados frios e arrogantes. Nesse ponto, o kardecismo ganha DISPARADO de qualquer uma dessas igrejas, católica, calvinistas, pentecostais ou qualquer outra.”

(Os grifos foram acrescentados. As capitulares são do remetente.)

A expressão “engravatados”, conforme usada nestas mensagens, nada tem que ver com “indumentária”, ou com "linguagem coloquial". Isso é realmente um juízo de valor, baseado em preconceito manifesto e generalização desmedida. Pessoas e grupos de cristãos são tachados indiscriminadamente de maneira negativa, sendo a espiritualidade deles comparada desfavoravelmente com a dos aderentes de algum sistema de crenças prezado. Isso também equivale ao que os líderes da Torre de Vigia fazem, quando colocam a organização deles num “pedestal”, como muito superior (espiritualmente falando) a "qualquer outra" igreja na face da terra.

2 Levantar questão sobre se Lutero advogava o ‘sono da alma’ com base no fato de a maioria das igrejas protestantes de hoje (incluindo a Luterana) não ter tal ensinamento como sua “posição oficial” é um equívoco dos mais grosseiros. Isso é o mesmo que tentar desmentir o fascínio de Charles Russell pela pirâmide do Egito tomando como base os ensinos da Torre de Vigia na atualidade! Os conceitos referentes à Grande Pirâmide não só constituíam um elemento destacado na teologia de Russell (segundo ele, certas medidas internas dela confirmavam até mesmo sua “data fundamental” de 1914!) como também Russell manteve tais conceitos durante a maior parte da vida e até o dia de sua morte. Será que a ausência completa de qualquer vestígio de piramidologia na teologia atual das Testemunhas de Jeová pode ser apresentada como razão para duvidarmos que Charles Russell defendia essas ideias? Quantos, dentre os que conhecem a religião das Testemunhas de Jeová, insistiriam infantilmente nesse tipo de questionamento?

A propósito, não existe evidência de que em algum momento Lutero teve sequer a intenção de fundar uma “Igreja Luterana”. Pelo contrário, durante sua vida ele se manifestou contra qualquer tendência sectária; a simples ideia de associar seu nome com algum grupo separado de cristãos lhe era abominável (e o mesmo é verdade no caso de Charles Russell. O artigo Algumas Reflexões Sobre o Nome "Cristão” apresenta pronunciamentos de ambos sobre isso). Os desenvolvimentos que por fim resultaram na criação de sistemas religiosos poderosos e exclusivistas ocorreram muito depois da morte desses homens. Seria correto responsabilizá-los de alguma maneira por essa institucionalização – bem como pelas muitas mudanças doutrinais – que seus seguidores empreenderam depois da morte deles?

O que Lutero jamais falou foi alguma coisa sobre ‘sono do corpo’. O conceito mantido por ele era o do ‘sono da alma’. O máximo que alguns promotores da “imortalidade da alma” conseguem dizer hoje, para tentar neutralizar todas essas declarações de Lutero é que ele ‘não dogmatizou’ o assunto e abriu certas ‘exceções’. Isto é, obviamente, verdade. Aliás, até os mais ardorosos condicionalistas reconhecem que Lutero nem sempre foi consistente em suas declarações. Por-se a discutir o estilo de Lutero, porém, não ajuda em nada. Além de isso não anular as declarações, ainda serve para mostrar que a postura dele era bem melhor que a dos líderes católicos da época, que além de dogmatizarem a posição deles, ainda fomentaram (por decreto) a perseguição contra qualquer "herege detestável" que se atrevesse a contestar as "verdades" deles.

Que certos promotores da “imortalidade da alma” façam vista grossa à evidência contida nos escritos de Lutero (não importa quantas citações sejam apresentadas!), recusando-se a admitir que ele adotou o conceito do ‘sono da alma’ – e o manteve até o fim da vida – não é nenhuma surpresa. Pelo contrário, não se poderia esperar outra reação, tendo em vista a má-vontade que tais pessoas manifestam de aceitar as próprias evidências bíblicas contra as teorias delas. O que surpreende é apresentarem um argumento tão pueril como o acima para colocar em dúvida o posicionamento de Lutero!

3 Conforme já declarado na discussão sobre Lucas 23:43, o posicionamento do sinal de pontuação na frase de Jesus é opção do tradutor. Não existe qualquer base gramatical para se classificar a inserção da vírgula após a palavra “hoje” como ‘tradução errada’, ‘perversão’ e muito menos como ‘releitura aniquilacionista’. Para começar, quem chama isso de “releitura” está confundindo o conceito. Releitura é reinterpretação do sentido de um texto. Em casos assim, o exame erudito do original costuma ser eficaz para decidir questões sobre o que o autor quis dizer. Visto que no caso de Lucas 23:43, a declaração original admite ambas as possibilidades de tradução, sugerir que os que posicionam a vírgula depois da palavra sēmeron (hoje) 'alteraram o texto' é uma acusação sem qualquer nexo.

É verdade que o posicionamento após a palavra "hoje" nunca foi o prevalecente, mas é igualmente verdadeiro que ele sempre teve aderentes. Isaac Newton certamente não foi o único teólogo na história cristã a considerar esta tradução como a ‘correta’. O que levou este erudito a afirmar isso foi saber que nas situações em que o idioma grego é ambíguo, o que decide a questão é a informação suprida no restante das Escrituras. E tal informação não dá qualquer base para a ideia de que Jesus e o criminoso foram para o “Paraíso” naquele mesmo dia.

Qualquer sinal de pontuação que se insira – antes ou depois da palavra “hoje” – é, portanto, um acréscimo. Os que insistem no aspecto gramatical (recusando-se a reconhecer que essa discussão é teológica, não gramatical) despercebem que sua abordagem “gramatical” é que é passível de questionamento. É claro que os promotores do conceito da ‘sobrevivência da alma após a morte’ farão tudo para se esquivar do fato simples de que, gramaticalmente falando, ambas as traduções são admitidas, e farão também vista grossa às versões modernas nas quais o tradutor inseriu o sinal de pontuação depois da palavra “hoje”. Alguns, porém, não se limitam a isso: além de menosprezarem tais versões, ainda favorecem aquelas nas quais o tradutor tomou a liberdade de acrescentar palavras que não constam no texto original. Exemplos:

“Eu te asseguro: ainda hoje estarás comigo no paraíso” (VOZ)
“Eu te asseguro: hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (BMD)
“Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (THO)

Já que alguns se mostram tão dispostos a “criar caso” contra os “aniquilacionistas” (por conta do posicionamento duma vírgula), sendo rápidos em acusá-los de ‘perverter as Escrituras’, ‘violar as boas práticas de tradução’, etc., bem que se poderiam levantar questões sobre esses acréscimos arbitrários (grifados acima). Ademais, alguns imortalistas aparentemente despercebem que tal procedimento não resolve a questão; só faz contorná-la. O efeito desta medida é nulo. As mesmas frases acima poderiam ser redigidas do seguinte modo:

‘Eu te asseguro ainda hoje: estarás comigo no paraíso’
‘Eu te asseguro hoje mesmo: estarás comigo no paraíso’
‘Em verdade te digo hoje que estarás comigo no paraíso’

Poderia alguém alegar que isso é 'proibitivo' pela gramática grega, constituindo 'violação das boas práticas de tradução'? Com que base? Que norma da gramática grega foi violada aqui? Não é verdade que as palavras “ainda”, “mesmo” e “que” foram acrescentadas (assim como é o caso do sinal de pontuação)? Por que esses acréscimos foram feitos da maneira como constam nas três versões bíblicas citadas acima? Há outro objetivo por trás desse procedimento, a não ser refletir a posição teológica do tradutor? E será que os que tomaram essa liberdade com o texto têm também autoridade para determinar o posicionamento das palavras acrescentadas na frase?

Portanto, mesmo esses acréscimos arbitrários, que alguns imortalistas tanto favorecem (em apoio do conceito ao qual atribuem “base bíblica sólida”), não encerram de modo algum o debate teológico em torno desta declaração que Jesus fez ao ladrão na cruz.

4 Os cinco pontos citados aqui são, na realidade, tópicos, dentro dos quais o autor faz uma série de comentários explicativos, daí a razão das reticências após cada ponto (a matéria completa, onde ele discute os conceitos de “Vida” e “Morte” abrange umas 30 páginas do livro).

Estas declarações de Pettingell fazem lembrar imediatamente o constante apelo que certos promotores modernos da “imortalidade da alma” fazem a “sentidos restritos”, “aplicações especiais” ou à tal “questão de ponto de vista” de que tanto falam, para explicar o que “realmente significam” palavras e declarações relacionadas diretamente com a discussão sobre a natureza humana.  É óbvio que esse esforço de mudar o sentido da clara terminologia bíblica relacionada com a condição dos mortos não é, de modo algum, uma novidade dos nossos dias. É provável que esse tipo de “argumentação” já venha sendo usada há séculos pelos que tentam impor o conceito da "imortalidade da alma" à Bíblia. Comentando adicionalmente esse problema, Pettingell disse no ponto 2, acima:

“A Bíblia não foi escrita especialmente para filósofos, ou metafísicos, ou poetas, mas para os homens de todas as classes e condições de vida. Assim, encontramos algo nela que está particularmente adaptado a todas estas várias classes. Temos poesia, profecia, parábolas e provérbios; nos quais devemos esperar encontrar figuras de linguagem e uma utilização metafórica e imaginativa de palavras, como fazemos em outros escritos do mesmo tipo. Mas, de longe, a maior parte da Palavra de Deus está em prosa clara e sóbria. Ela foi escrita para a instrução do povo em geral, e deve ser entendida sem que filósofos e metafísicos precisem explicá-la, e deveria ser entendida muito melhor do que é agora, se não fossem as interpretações metafísicas, acadêmicas e tradicionais que os mestres medievais, e os comentaristas e criadores de credo da atualidade, seguindo a trilha deles, inventaram para colocar por cima do significado dela.

Mas este é um recurso antigo para “invalidar a Palavra de Deus”. Isto era muito comum entre os hebreus. Cristo denunciou isso em seus dias. Jeová fala disso; quando Ele pergunta a Jó: “Quem é esse que obscurece o meu conselho com palavras sem conhecimento?” Realmente, nós remontamos isso ao jardim no Éden, e vemos o grande Adversário de Deus e do homem, no próprio início, interpretando a ameaça de morte, que Deus havia declarado ser o castigo pelo pecado, como significando, “Certamente não morrereis; sereis como deuses, que são imortais.” E se nossos irmãos cristãos platônicos tivessem estado presentes nessa entrevista, eles teriam dito “Amém” para a declaração do Tentador, “isso é exatamente o que nós acreditamos. O homem é um ser imortal. Ele não pode morrer realmente. A morte, com a qual seu Criador ameaça não pode significar a morte real. Ela deve significar ‘um estado imutável e eterno de desgraça e miséria’, ou qualquer outra coisa, exceto a morte.”

(The Life Everlasting: What Is It? Whence Is It? Whose Is It? [A Vida Eterna: O Que É? De Onde É? De Quem É?], págs. 183, 184. Grifo acrescentado).

A maneira como certos defensores da “imortalidade da alma” apresentam o assunto hoje faz parecer que Jeová deveria ter sido “mais claro” quando falou em morte no caso da desobediência, ou que nossos primeiros pais “não entenderam” o que Ele quis dizer.  O “entendimento correto” seria aquele que veio a ser expresso muito posteriormente por “filósofos e metafísicos”: Essa “morte” não seria real. Adão deveria entendê-la como apenas aparente; “era só uma questão de ponto de vista”, já que apenas uma das ‘partes da pessoa tricotômica’ seria afetada. A “alma espiritual” dele permaneceria viva naturalmente, continuando ativa e consciente depois que a sentença divina se concretizasse.

Isto é, em essência, o que os imortalistas afirmam. Ao mesmo tempo em que atribuem aos questionadores dessas doutrinas ‘entendimento errôneo da Bíblia’, e os classificam como ‘simplistas’, pelo fato de eles não darem atenção a tais elucubrações filosóficas e se aterem ao sentido claro e inteligível dos termos bíblicos!