Crêem as Testemunhas de Jeová Que Só Elas Serão Salvas?

 

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O desenvolvimento desta doutrina no ambiente da Torre de Vigia

Será que um Deus amoroso planejaria destinar 7 bilhões de pessoas a uma destruição violenta e eterna? Um Deus que esteja disposto a fazer isso não é certamente o Deus que Russell tinha em mente ao dar início ao movimento dos Estudantes da Bíblia no século 19. Aliás, uma das razões que haviam levado Russell a se desligar da Igreja Presbiteriana, foi justamente porque ele não podia acreditar na "justiça" de um Deus disposto a destruir a quase totalidade dos humanos na terra:

"Entendemos que, se a vinda de Cristo fosse para por fim à provação e trazer irrevogável ruína para noventa e nove entre cem homens, então ela dificilmente poderia ser considerada desejável, nem poderíamos orar com um espírito apropriado: "Vem, Senhor Jesus, vem depressa." - Suplemento à revista A Torre de Vigia de Sião e Arauto da Presença de Cristo, julho de 1879

Da mesma maneira, Russell mostrou que não aceitava a ideia da salvação apenas dos adventistas:

“Ficamos bastante contristados com o erro dos adventistas que esperavam Cristo na carne e ensinavam que o mundo e todos nele, exceto os adventistas, seriam queimados.” (Livro As Testemunhas de Jeová – Proclamadores do Reino de Deus, pág. 45)

Sob a liderança de Russell, a Torre de Vigia costumava ensinar que, independentemente de religião, a maioria das pessoas sobreviveria ao Armagedom. O entendimento de Russell da 'provação futura' era que as massas da humanidade sobreviveriam ao Armagedom e seriam educadas na terra por Cristo, durante o reinado de 1.000 anos, antes de passarem pelo julgamento. A ressurreição era para todos os que morreram. Todavia, os herdeiros dele na liderança da Torre de Vigia vão além da alegação de que “noventa e nove entre cem” serão destruídos. Como vimos, mundialmente há uma Testemunha para cada 1.000 pessoas na Terra. Segundo as estatísticas atuais da Torre de Vigia, o ensino não é que 99 de cada 100 serão arruinados irrevogavelmente, e sim que o Senhor vai destruir eternamente 99,9 de cada 100 pessoas!

Foi sob a liderança de Joseph Franklin Rutherford, o sucessor de Russell na presidência da Torre de Vigia a partir de 1917, que essa ideia de salvação exclusiva para as Testemunhas de Jeová ganhou cada vez mais força. Na Sentinela de 1923, págs. 310, 311 (em inglês), Rutherford afirmou taxativamente que os clérigos não serão salvos. Na Sentinela de 1930, págs. 275-281, ele classificou todas as pessoas que discordassem da Sociedade que ele liderava como opositores da verdade e sujeitos à destruição eterna. A Sentinela de 1939 alegou, na página 170, que aqueles que sofreram julgamentos divinos anteriores, tais como os de Sodoma e Gomorra não teriam uma ressurreição, assim como Adão e Eva e os escribas e fariseus. E foi principalmente a partir da década de 1930 que começaram a aparecer as constantes declarações sobre a destruição 'inescapável' de 'toda a humanidade, exceto as Testemunhas de Jeová', conforme exemplificadas num tópico anterior deste artigo.

Os líderes posteriores da Torre de Vigia pouco fizeram para amenizar esse dogmatismo. Ainda que às vezes falando de maneira indireta ou omitindo certas informações para não chamar a atenção do público, o ensino básico de que a salvação é hoje uma prerrogativa exclusiva daqueles que estão associados à organização Torre de Vigia, estando todos os demais da humanidade que não entrarem nessa organização sujeitos à destruição eterna, continuou sendo defendido consistentemente. E não só isso: qualquer Testemunha de Jeová que questionar esse ensino, ainda que no íntimo, é colocada numa luz desfavorável.

Observemos como se expressa a Sentinela de 15 de março de 1986, pág. 19:

“Alguns opositores afirmam que as Testemunhas de Jeová são falsos profetas. Esses opositores dizem que se fixaram datas, mas que nada aconteceu. Novamente perguntamos: Qual é o motivo de tais críticas? Estão incentivando a vigilância por parte do povo de Deus, ou estão, em vez disso, procurando justificar-se por recaírem numa inatividade sonolenta? (1 Tessalonicenses 5:4-9) Mais importante ainda: O que fará você ao ouvir tal crítica? Quando alguém questiona que estejamos vivendo “nos últimos dias” deste sistema, ou talvez tenha a ideia de que Deus é tão misericordioso, que certamente não causará a morte de tantos milhões de pessoas durante a “grande tribulação”, então tal pessoa já preparou seu coração para escutar tal crítica.”

Além das tradicionais generalizações contra os chamados “opositores” e suas motivações, o que chama a atenção aqui é a insidiosa tentativa de colocar na defensiva qualquer Testemunha que questione intimamente esse ensino da salvação exclusiva. Se uma Testemunha não conseguir ver qualquer semelhança entre a descrição bíblica dum Deus misericordioso e que “não deseja que alguém seja destruído” (2 Pedro 3:9) e a afirmação de que esse Deus exterminará em breve, não “tantos milhões” e sim, vários bilhões de humanos, essa Testemunha é descrita aqui como alguém que tem o ‘coração preparado para escutar crítica’. O fato é que o próprio fundador da Torre de Vigia jamais endossaria esta ideia da chacina eterna de quase toda a humanidade, ensinada pelos que dirigem a organização hoje em dia. [1] Pelo conceito atual da organização, Russell seria um ‘opositor da verdade’ ou, no mínimo teria um ‘coração preparado para escutar crítica de opositores’, conforme descrito no parágrafo acima. 

 

 

 

 

 

 

 

Outras cenas de publicações da Torre de Vigia, retratando a destruição do sistema político e religioso do mundo por Deus no “Armagedom”



[1] Já por muitas décadas, o ensino da organização é que os mortos no Armagedom não serão ressuscitados. A morte deles será irreversível. A revista A Sentinela de 15 de julho de 1951 (em inglês) disse na pág. 446: “O que isso significa para nós hoje é que aqueles que vivem agora neste tempo do julgamento e que deixam, por qualquer razão, de tomar posição a favor de Jeová, sendo dessa forma mortos por ele na batalha do Armagedom, não serão retidos em sua memória para a ressurreição. Que este grupo incluirá a maioria dos humanos vivendo agora na terra é mostrado por Jeremias 25:33: "Os que o SENHOR entregar à morte naquele dia se estenderão de uma a outra extremidade da terra; não serão pranteados, nem recolhidos, nem sepultados; serão como esterco..." Quase quarenta anos depois, A Sentinela de 15 de abril de 1990 disse nas págs. 19, 20: “Uma indicação definitiva se encontra em Judas, versículo 7, onde lemos que “Sodoma e Gomorra, e as cidades em volta delas  ... são postas diante de nós como exemplo de aviso por sofrerem a punição judicial do fogo eterno”. Sim, a destruição dos crassos pecadores nessas cidades foi eterna, como também o será a destruição dos iníquos no fim do atual sistema de coisas.” Claramente, o ensino da organização não sofreu qualquer mudança neste particular.